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Corpus Hermeticum

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O Corpus Hermeticum é uma coleção de 17 escritos gregos cuja autoria é tradicionalmente atribuída à lendária figura helenística Hermes Trismegisto, uma combinação sincrética do deus grego Hermes e do deus egípcio Tote.[1] Os tratados foram originalmente escritos por volta de c. 100-300 d.C.,[2] mas a coleção como é conhecida hoje foi compilada pela primeira vez por editores bizantinos medievais. Foi traduzida para o latim no século XV pelos humanistas italianos Marsilio Ficino (1433–1499) e Ludovico Lazzarelli (1447–1500).[3]

Embora a palavra latina corpus seja reservada ao conjunto completo de escritos existentes relacionados a um determinado autor ou assunto, o Corpus Hermeticum contém apenas uma pequena seleção dos textos herméticos existentes, conhecidos no todo como Hermetica. Seus tratados individuais foram citados por muitos autores a partir do segundo e terceiro séculos, mas a compilação como tal é atestada pela primeira vez apenas nos escritos do filósofo bizantino Miguel Psellos (c.1017–1078).[4]

Após sua tradução para o latim por Ficino e Lazzarelli, o Corpus Hermeticum influenciou grandemente a tradição esotérica ocidental. Foi especialmente considerada importante durante o Renascimento e a Reforma Protestante, períodos em que o hermetismo frequentemente funcionava como uma espécie de posição intermediária entre o cristianismo e o paganismo.[5] A antiguidade atribuída a Hermes garantiu que qualquer escrito que lhe fosse atribuído ocupasse um lugar importante na doutrina da prisca theologia de Ficino. ('teologia primordial'), que afirma que existe uma única teologia verdadeira que está presente em todas as religiões e que foi dada por Deus à humanidade num passado remoto e primevo.[6]

Hermes Trismegisto. in Viridarium chymicum, de D. Stolcius von Stolcenbeerg, 1624

O termo Corpus Hermeticum, ou Hermetica, aplica-se, sobretudo, para a tradução latina de quatorze tratados de Marsilio Ficino (1433-1499), dos quais as primeiras edições apareceram antes de 1500, e posteriormente em 1641.[7] Esta coleção, que inclui o Pœmandres e alguns textos de Hermes aconselhando seus discípulos Tat, Amom e de Asclepius. Os três últimos tratados em edições modernas foram traduzidos de forma independente, a partir de um outro manuscrito por um contemporâneo de Ficino, Lodovico Lazzarelli (1447-1500) e impresso pela primeira vez em 1507.[8] Extensas citações de materiais semelhantes são encontrados em autores clássicos, tais como Joannes Stobaeus.

Em 1462, Marsilio Ficino trabalhava na tradução latina das obras de Platão para seu patrono Cosimo de Medici (primeiro membro da família de Medici, governou Florence durante o renascimento italiano), mas quando um manuscrito do corpus hermeticum foi disponibilizado, ele interrompeu seu trabalho em Platão e iniciou a tradução das obras de Hermes, que na época eram consideradas mais antigas e mais autoritárias que Platão.[9]

Partes do Corpus Hermeticum apareceram no 4.º século na biblioteca gnóstica encontrada em Nag Hammadi. Outras obras em siríaco, árabe, armênio, copta e outros idiomas também pode ser denominados Corpus Hermeticum ou Tábua de Esmeralda, que ensina a doutrina "como acima, assim abaixo".

Todos estes textos são próprios de uma mais extensa literatura, parte sincrética, do paganismo intelectualizado de sua época, um movimento cultural que incluiu também neoplatonismo, filosofia greco-romana, mistérios de Elêusis, escola pitagórica e influenciado formas gnósticas das religiões abraâmicas. Existem diferenças significativas: a Hermetica não contêm alusões explícitas para a bíblia e está pouco preocupada com a mitologia grega ou minúcias da metafísica. No entanto, a maioria dessas escolas concorda em atribuir a criação do mundo para um demiurgo, em vez de o ser supremo, e em aceitar a reencarnação. Embora filósofos neoplatônicos, que citaram obras apócrifas de Orfeu, Zoroastro, Pitágoras e outras figuras, quase nunca citam Hermes Trismegistus, os tratados foram ainda bastante populares no século V, para serem contra-argumentados por Agostinho de Hipona, em Cidade de Deus.

O Corpus Hermeticum promoveu um impulso seminal no desenvolvimento da Renascença, no pensamento e na cultura, tendo um impacto profundo sobre a alquimia e a magia moderna, assim como teve influência sobre filósofos como Giordano Bruno e Pico della Mirandola, aluno de Ficino.

Em grande parte, contam sobre a conversa com noûs, espécie de divindade absoluta (consciência superior). O corpus discute: o divino, o cosmos, a mente, a natureza, a alquimia, a astrologia e, conceitos relacionados. No contexto do hermetismo, noûs é uma das bases para a salvação espiritual (soteriológica) e ensino (paideia) do hermetismo, onde o adepto é conduzido a um processo de reconexão com a natureza divina do humano, por meio da piedade (eusébeia) e do despertar do noûs (consciência superior), para conseguir acessar a verdadeira realidade, oculta aos sentidos comuns humanos.[10]

Estrutura

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A estrutura do corpus é a seguinte:[11]

Nr. Titolo (italiano) Titolo (latino)
I. Discurso de Poimandres a Hermes Trismegisto Poimandres Pimander
II. Sermão universal (tratado perdido). Sermão de Hermes a Asclépio Sermone universale di Ermete ad Asclepio Mercurii ad Aesculapium sermo universalis
III. Discurso sagrado de Hermes Discorso sacro di Ermete Mercurii sermo sacer
IV. A cátera ou a Unidade. Discurso de Hermes a Tat, a Crátera de Mercúrio ou a Mônada Discorso di Ermete a Tat il cratere o la monade Mercurii ad Tatium crater sive monas
V. que Deus é invisível e, ao mesmo tempo, muito evidente. Discorso di Ermete al figlio Tat. Dio è invisibile e perfettamente visibile al tempo stesso Mercurii Ad tatium Filium suum. Quod deus Latens simul ac patens est.
VI. Que bom está apenas em Deus e em nenhum outro Il bene esiste solo in Dio e in nessun altro luogo Quod in solo deo bonum est alibi vero nequaquam
VII. Que a ignorância de Deus é o maior mal entre os homens. Il male più grande fra gli uomini è l'ignoranza su Dio Quod summum malum hominibus ignorare deum
VIII. Nenhuma dessas coisas são destruição, mas mudanças: Homens enganados chamam destruição Nessuno degli esseri perisce, ma sbaglia chi definisce i mutamenti come distruzione e morte Nihil eorum Quae sunt interitus sed mutationes: Decepti Homines interitum nominant
IX. Sobre pensar e sentir [Que somente em Deus e em ninguém mais existe o Belo e o Bom]. Intorno alla conoscenza intellettiva e alla sensazione
X. A chave de Mercúrio Trismegisto para Tácio Discorso di Ermete Trismegisto: la chiave Mercurii Trismegisti clavis ad Tatium
XI. O pensamento para Hermes L'intelletto a Ermete Mens ad mercurium
XII. Sobre o pensamento comum Discorso di Ermete Trismegisto a Tat sull'intelletto comune Mercurii ad Tatium de communi
XIII. Sobre a regeração e o voto do silêncio Discorso segreto di Ermete Trismegisto al figlio Tat, sulla rigenerazione e sulla regola del silenzio Mercurii ad tatium Filium suum de generatione & impositione silentii
XIV. De Hermes Trimegisto a Asclepio. Lettera di Ermete ad Asclepio con l'augurio di essere saggio Mercurii ad Aesculapium
XV. Lettera di Ermete ad Asclepio
XVI. De Asclépio ao Rei Amon: definições. Definizioni di Asclepio sul re Ammone Ab Asclepio ad Amonem regem: definitiones.
XVII. Fragmento de um discurso de Asclépio ao rei: o incorpóreo Frammento di un discorso di Asclepio al re
XVIII. Sobre como a alma é impedida pelas afeições do corpo Encomio dei re
Apêndice do Codex VI de Nag Hammadi. A Ogdóade e a Enéade.
Corpus Hermeticum: primeira edição em Latim, por Marsilio Ficino (1471), edição pertencente à Bibliotheca Philosophica Hermetica, Amsterdã.

Novos textos

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Recentes traduções de textos encontrados na biblioteca de Nag Hammadi (Códice VI) contêm ao menos três escritos inéditos pertencentes ao Corpus Hermeticum:

Ver também

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Referências

  1. Uma análise das evidências literárias e arqueológicas sobre a origem de Hermes Trismegisto no Hermes grego e no Thoth egípcio pode ser encontrada em Bull 2018, pp. 33–96.
  2. Copenhaver 1992, p. xliv; Bull 2018, p. 32. Datas anteriores foram sugeridas, principalmente por historiadores modernos.Flinders_Petrie (500–200 BCE) e Bruno H. Stricker (c. 300 BCE),mas essas sugestões foram rejeitadas pela maioria dos outros estudiosos. (ver Bull 2018, p. 6, nota 23)
  3. Copenhaver 1992, pp. xl-xliii.
  4. Copenhaver 1992, p. xlii.
  5. Ebeling 2007, p. viii.
  6. Ebeling 2007, pp. 61–64.
  7. Noted by George Sarton, review of Walter Scott's Hermetica, Isis 8.2 (May 1926:343-346) p. 345
  8. Anon, Hermetica – a new translation, Pembridge Design Studio Press, 1982
  9. Copenhaver, Brian P., ed. (1995). Hermetica: the Greek Corpus Hermeticum and the Latin Asclepius in a new English translation, with notes and introduction [Hermetica: o Corpus Hermeticum grego e o Asclépio latino em uma nova tradução para o inglês, com notas e introdução]. Cambridge: Cambridge University Press. ISBN 9780521425438. Consultado em 23 de junho de 2025
  10. Vieira, Thiago Barbosa (29 de agosto de 2022). «Compreendendo a realidade noética no hermetismo antigo: uma proposta de interpretação reflexiva sobre o noûs no Corpus Hermeticum». Universidade Federal de Uberlândia. Pós-graduação em Filosofia. doi:10.14393/ufu.di.2022.397. Consultado em 23 de junho de 2025
  11. Renau Nebot, Xavier (1999). Textos herméticos. [S.l.]: Madrid: Editorial Gredos. pp. 66–67, 571–572. ISBN 84-249-2246-8

Bibliografia

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Ligações externas

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