Imanência

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Imanência é um conceito filosófico e metafísico que designa o caráter daquilo que tem em si o próprio princípio e fim. É, portanto, antitético ao conceito de transcendência (caráter daquilo que tem um causa que lhe é exterior e superior).

O problema da imanência ou da transcendência de Deus dividiu os filósofos medievais - neoplatônicos, como Agostinho de Hipona, ou aristotélicos, como Alberto Magno e Tomás de Aquino.

Na encíclica Pascendi Dominici Gregis, o papa Pio X criticou o abuso da noção de imanência na filosofia de Baruch Espinoza e Emmanuel Kant. Retomando o conceito escolástico de imanência, entendida como a presença do resultado de uma ação na própria ação, Espinoza afirmou que "Deus é causa imanente e não transitiva de todas as coisas", isto é, Deus é causa de todas as coisas que estão nele e nada existe fora dele (Deus sive Natura). Tal teoria se contrapõe à ortodoxia cristã, que atribui a Deus uma existência separada das coisas (trascendência de Deus) das quais ele é o criador.

Etimologia[editar | editar código-fonte]

O termo "imanência" compõe-se dos termos latinos in e manere, que, juntos, têm o significado original de "existir ou permanecer no interior".

Imanência na filosofia[editar | editar código-fonte]

No panteísmo e no pampsiquismo, o termo "imanência" é entendido como uma força divina ou o ser divino que permeia todas as coisas. - ou seja, a divindade estaria inseparavelmente presente em todas as coisas. Nesse sentido, imanência se opõe a transcendência, entendida como a divindade sendo separada ou transcendente ao mundo. Segundo o atualismo de Giovanni Gentile, a imanência do sujeito é identificada com a transcendência sobre o mundo material. As filosofias de Giordano Bruno, Baruch Espinoza e, possivelmente, Hegel foram filosofias de imanência, assim como o estoicismo. Filosofias transcendentes são, por exemplo, tomismo ou a tradição aristotélica. Gilles Deleuze qualifica Espinoza como o "príncipe dos filósofos" por sua teoria de imanência, expressa na Ética e resumida na famosa locução "Deus sive Natura" ("Deus ou Natureza"): Deus é Natureza, Natureza é Deus. Tal teoria considera que não há transcendência, ou seja, um princípio ou uma causa externa do mundo; o processo da produção da vida está contido na própria vida.[1] Quando combinada com idealismo, a teoria da imanência qualifica-se como "o mundo" que não tem nenhuma causa externa além da mente.

No contexto da teoria de Kant, o conhecimento da imanência significa manter-se nos limites da experiência possível.

O filósofo contemporâneo Gilles Deleuze usou o termo "imanência" para se referir a sua "filosofia empirista", na qual foi obrigado a criar ação, o que resultou algo além do que a transcendência estabelecia. Seu texto final, intitulado Imanência: uma vida..., [2] fala de um plano de imanência. Giorgio Agamben escreve em A comunidade que vem (1993) : "Há, de fato, algo que o homem é e tem de ser, mas este algo não é uma essência, não é propriamente uma coisa: é o simples fato da sua própria existência como possibilidade ou potência.[3]

Imanência na religião[editar | editar código-fonte]

Ao prestar culto, um pesquisador pela imanência se pode achar Deus dentro de si procurando-o. Este conceito é usado frequentemente no hinduísmo para descrever o relacionamento de Brâman, ou Ser Cósmico, no mundo material. (como demonstrado em teísmo monístico). O hinduísmo define Brâman como ambos transcendente e imanente - variando a ênfase destas qualidades de acordo com cada ramo filosóficas dentro desta religião. A imanência é um dos 'cinco conceitos' para os drusos, e é representada pela cor branca. Muitos estudiosos, como Henry David Thoreau, que popularizaram o conceito de imanência, foram influenciados pelo ponto de vista hindu.

Imanência e Jesus no cristianismo[editar | editar código-fonte]

No cristianismo o Deus transcendente, (que transcende - ultrapassa - as eras do mundo), santo e onipotente, que não pode ser alcançado ou visto, pode ser atingido pela primariedade imanente no Homem-Deus Jesus o Cristo, que é o filho de Deus. Isto foi expresso na famosa carta de São Paulo aos filipenses, onde ele escreve:

"O qual, subsistindo em forma de Deus, não considerou o ser igual a Deus coisa a que não se devia abrir mão, mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, tornando-se semelhante aos homens; e, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até a morte, e morte na estaca." [4]

Tzimtzum na teoria cabalística[editar | editar código-fonte]

No misticismo judeu,Tzimtzum (צמצום Hebreu: "contração" ou "constrição") refere-se à teoria Cabalística que na criação Deus "contrai" sua essência infinita para permitir um "espaço conceitual" no qual um mundo finito e independente existiria. O conceito de Tzimtzum contém um paradoxo embutido, pois ele exige que Deus seja simultaneamente transcendente e imanente:

  • Por um lado, se o "Infinito" não o restringe, então nada poderia existir - tudo deveria estar submerso pela totalidade de Deus. Esta existência requer a transcendência de Deus, como acima.
  • Por outro lado, Deus continuamente mantém a sua existência, e isto de fato sem se abster do universo. "A força vital divina que criou todas as criaturas precisa estar constantemente presente dentro dele... esta força vital deve renunciar a qualquer ser criado mesmo que por um breve momento, caso contrario isto reverteria a um estado de inexistência, como antes da criação...".

Dzogchen[editar | editar código-fonte]

O budismo tântrico e o Dzogchen pressupõem uma base não dual, tanto para a experiência quanto para a realidade, que poderia ser considerada como uma filosofia da imanência cuja história no subcontinente indiano data do início da Era Cristã. Diz-se que uma paradoxal consciência não dual (rigpa em Tibetano; vidya em sânscrito)) é o 'estado de auto perfeição' de todos os seres. Estudiosos diferenciam estas tradições do monismo. O não dual não é imanente, nem transcendente, nem ambos. Uma exposição clássica é a Madhyamaka, a refutaçãodos extremos, proposta por Nagarjuna .

Expoentes dessa tradição não dual enfatizam a importância de uma experiência direta de não dualidade, tanto através da prática de meditação como da investigação filosófica. Em uma versão, o indivíduo mantém-se consciente - enquanto os pensamentos surgem e se dissolvem dentro do 'campo' da mente, sem que sejam aceitos nem rejeitados - e deixa a mente vagar livremente até que uma sutil sensação de imanência aparece. Vipassana ou insight é a integração da 'presença da consciência' com aquilo que surge na mente. A não dualidade ou rigpa é o reconhecimento que tanto a quietude, o estado de calma permanente, que é encontrado em samatha, como o movimento ou surgimento do fenômeno, encontrado em vipassana, não são separados. Desse modo, pode-se dizer que Dzogchen é um método para o reconhecimento da 'pura imanência' análogo àquele teorizado por Deleuze.

Referências

  1. NEGRI, Antonio, A Anomalia Selvagem - Poder e Potência em Spinoza. Rio de Janeiro: Editora 34, 1993.
  2. A imanência: uma vida... Por Gilles Deleuze. Educação & Realidade, v. 27 nº2, 2002. ISSN 0100-3143
  3. Agamben, Giorgio. A Comunidade que vem. Lisboa: Editorial Presença, 1993 p.38.
  4. Bíblia, Filipenses 2:6-8, (KJV)

Ver também[editar | editar código-fonte]

Ligações externas[editar | editar código-fonte]