Teologia liberal

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Teologia liberal (ou liberalismo teológico) representa a tentativa de abordar a religião de uma perspectiva crítica, aberta, honesta e racional sem negar ou menosprezar a importância da experiência religiosa e do compromisso religioso.[1]

Além de uma abordagem de reflexão religiosoa, o termo também se aplica a um movimento teológico no seio do protestantismo cuja produção se deu entre o final do século XVIII e o início do século XX. A teologia liberal interpretava as doutrinas cristãs levando em consideração o conhecimento moderno, a ciência e a ética Enfatizava a importância da razão e da experiência sobre a autoridade doutrinária. Os cristãos liberais viam sua teologia como uma alternativa ao racionalismo ateísta e às teologias tradicionais baseadas na autoridade externa (como a Bíblia ou tradição sagrada). [2]

História[editar | editar código-fonte]

A teologia liberal surgiu da reação ao racionalismo iluminista e da valorização da experiência e essência pelo romantismo dos séculos XVIII e XIX, principalmente entre igrejas protestantes europeias e seu correspondente no catolicismo, o modernismo teológico.

A influência da teologia liberal, fundamentada em uma visão positiva da humanidade, sucumbiu diante dos horrores da 1a Guerra Mundial. Drasticamente, o movimento da teologia liberal diminuiu com a ascensão do pentecostalismo na década de 1920, da neo-ortodoxia na década de 1930, do movimento ecumênico e missionário nos anos 1940, do evangelicalismo nos anos 1950, da teologia da libertação na década de 1960 e com a teologia pós-liberal dos anos 1990. [3]

Apesar de sua quase extinção, há ainda no início do século XXI alguns poucos teólogos liberais, como o bispo episcopaliano John Shelby Spong e o teólogo alemão Jörg Lauster. Aderentes dessa teologia congregam em denominações diversas ou se comungam em pequenas denominações como a Igreja Presbiteriana não Subescrevente da Irlanda, a Congregação Unitarista de Pernambuco, a Igreja Cristã Livre do Recife ou associações como a Rede Europeia Protestante Liberal.

Doutrinas[editar | editar código-fonte]

O início da teologia liberal está na reação ao racionalismo que o teólogo alemão Friedrich Schleiermacher (1768-1834) propunha com base na teologia natural. Diante dos questionamentos da historicidade das Escrituras pelos racionalistas, Schleiermacher argumentava que a verdadeira religião seria dependente do sentimento humano da comunhão com Deus. Deus só poderia ser experimentado por meio do sentimento, não da razão, pois a humanidade ao ser consciente de seu próprio pecado e de sua necessidade de redenção, que só pode ser realizada por Jesus Cristo, deveria reunciar-se a ele.[4][5]

Meio século depois de Schleiermecher, outro teólogo, Albrecht Ritschl (1822-1889), impulsionou a teologia liberal. Ritschl discordava da ênfase de Schleiermacher no sentimento, pois isso levaria a um sentimentalismo, um misticismo ou um subjetivismo. Antes, a crença religiosa deveria ser baseada objetivamente nos eventos históricos registrados no Novo Testamento, pois seria o testemunho da missão divina de Jesus. Todo o conhecimento disponível da história, da linguística e arqueologia deveria ser recrutado para o estudo da Bíblia. Porém, alinhado com a naturalismo metodológico, Ritschl não encontrou bases históricas para as doutrinas como o nascimento virginal de Jesus, da Trindade ou do sacrifício vicário, tampouco para a historicidade de milagres. Contudo, o centro de sua teologia seria morte de Jesus Cristo, a qual representaria um exemplo da possibilidade de redenção da humanidade. A vida cristã deveria ser devotada à atividade ética e ao desenvolvimento. Desse modo, as doutrinas cristãs funcionariam como julgamentos de valor, em vez de afirmações de fatos. A superação do pecado e a entrada no Reino de Deus se dava pela prática da caridade e da comunhão entre as pessoas, não pela fé em Cristo. [6]

Ernst Troeltsch (1865-1923) foi outro destacado defensor do liberalismo teológico. Segundo ele, o cristianismo seria uma religião entre tantas outras, e Deus se revelava em todas, sendo que o cristianismo fora o ápice da revelação. Dessa forma, tal como Schleiermacher, defendia a salvação de não cristãos, pois a obra salvítica de Jesus Cristo impactava toda a humanidade, não havendo conflito entre a ética cristã e a vida espiritual e ética de outras religiões.[7]

Um dos últimos teólogos liberais de relevo foi Albert Schweitzer (1875-1965). Este missionário, músico e laureado pelo prêmio Nobel foi um dos primeiros a diagnosticar a crise do movimento. Para Schweitzer, a imagem de Jesus forjada nos círculos da teologia liberal atendia as demandas das sociedades modernas. No entanto, Jesus Cristo seria de um profeta apocalíptico, com o cristianismo primitivo sendo caracterizado pela esperança de uma futura vinda do reino de Deus. Assim, Jesus Cristo não poderia ser reduzido ao sentimento, à história ou à ética. [8]

Para os teólogos liberais, a Igreja é o lugar da comunhão humana compartilhando a experiência (de sentimento segundo Schleiermacher; de realidade histórica para Ritschl; ou de ética para Troeltsch) divina. E a Igreja deve guiada pela Escrituras Sagradas como registros dessa experiência, sem interpretações dogmáticas.[9]

Uso distorcido do termo[editar | editar código-fonte]

Entre círculos fundamentalistas, reacionários e conservadores é comum referir-se a quem não subscreva às suas doutrinas como teólogos "modernistas" ou "liberais". No entanto, essa pejoração trata-se mais de uma falácia do espantalho, sem necessariamente o conteúdo teológico dos oponentes serem ligados ao movimento histórico de liberalismo teológico. [10]

Adicionalmente, não há ligação entre essa abordagem teológica ou o antigo movimento teológico liberal com a ideologia política chamada de liberalismo.

Ver também[editar | editar código-fonte]

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  1. Langford, Michael J. A liberal theology for the twenty-first century: a passion for reason. Routledge, 2017.
  2. Dorrien, Gary (2001). The Making of American Liberal Theology: Imagining Progressive Religion, 1805-1900. Volume 1. Westminster John Knox Press.
  3. Dorrien, Gary (2001). The Making of American Liberal Theology: Imagining Progressive Religion, 1805-1900. Volume 1. Westminster John Knox Press.
  4. Flamarique, Lourdes, Schleiermacher. La filosofía frente al enigma del hombre, Pamplona, EUNSA, 1999.
  5. Langford, Michael J. A liberal theology for the twenty-first century: a passion for reason. Routledge, 2017.
  6. "Ritschl, Albrecth." Cross, F. L., ed. The Oxford dictionary of the Christian church. New York: Oxford University Press, 2005.
  7. G. Cantillo, Introduzione a Troeltsch, (Colección "I Filosofi"), Laterza, Roma-Bari 2004.
  8. Schweitzer. Geschichte der Leben-Jesu-Forschung, 1906.
  9. Langford, Michael J. A liberal theology for the twenty-first century: a passion for reason. Routledge, 2017.
  10. Langford, Michael J. A liberal theology for the twenty-first century: a passion for reason. Routledge, 2017.