Maria de Portugal, Duquesa de Viseu

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Maria
Infanta de Portugal
Duquesa de Viseu
D. Maria Duquesa de Viseu, Pintada por António Mouro entre 1550 e 1555.
Casa Avis
Nascimento 18 de junho de 1521
  Lisboa, Portugal
Morte 10 de outubro de 1577 (56 anos)
  Lisboa, Portugal
Enterro Igreja de Nossa Senhora da Luz, Lisboa
Pai Manuel I de Portugal
Mãe Leonor da Áustria
Religião Catolicismo

Maria, Infanta de Portugal (Lisboa, 18 de junho de 1521 - Lisboa, 10 de outubro de 1577), 6.ª Duquesa de Viseu, filha de D. Manuel I e da sua terceira esposa, Leonor da Áustria.

Personalidade[editar | editar código-fonte]

João de Barros descreveu-a como culta, digna e séria, diz-se que a sua personalidade era semelhante à da mãe, patrona e amante das artes, chegou a ser a mulher mais rica de Portugal.

Propostas de casamento[editar | editar código-fonte]

Após Carlos I ter aprisionado Francisco I em 1525, ele obrigou-o a satisfazer todas as suas vontades antes de libertá-lo, sendo uma delas a de se casar com a sua irmã D. Leonor, a fim de fortalecer as ligações entre a Espanha e a França, e ao mesmo tempo tentar limitar o poder da coroa francesa. Mas D. Leonor só aceitaria com a condição de que a sua filha D. Maria fosse prometida em casamento a Francisco de Valois, delfim da França, quando completasse 12 anos. Carlos I concordou, mas o casamento nunca se realizou, acabando o delfim por morrer quando ela tinha 15 anos de idade.

Sobre ela escreveu o autor Pierre de Brantôme: «Je l'ai veue à Lisbonne en l'age de quarante cinq ans, une três belle et agréable fille, de bonne grace et belle apparence douce et agréable».[1]

Além de bonita e simpática, a infanta era muito rica, detentora de enormes rendas, inúmeros negócios e muitos tesouros. Não lhe faltavam portanto pretendentes, tendo ao longo da vida recebido oito propostas de casamento. Foi, talvez, por ser muito rica que D. João III e os seus diplomatas nunca deixaram que ela se casasse ou que saísse de Portugal, pois estimava-se que, sendo o seu dote tão grande, isso resultaria num prejuízo de cerca de um milhão de cruzados, um valor incomportável para o tesouro real.

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A infanta nunca se casou, contudo o Conde de Sabugosa, no seu livro Donas de Tempos Idos (1912) cita Pierre de Brantôme, que num trecho da sua obra La vie des dames galantes, faz menção dela a propósito de uma paixão (difícil de saber se consumada) que D. Maria teria tido por Francisco de Guise, Grão Prior de Lorena, que estivera algum tempo em Lisboa:


Realeza Portuguesa
Casa de Avis
Descendência
Ordem Avis.svg

«Apenas temos uma indiscrição de Brantôme, que nos dá um ligeiro rebate.

Viu-a ele repetidas vezes em Lisboa. E nas ocasiões em que esteve em seu palácio apercebeu-se, com aquele faro apurado que a experiência das coisas do coração feminino lhe dava, do sentir da Infanta pelo Grão Prior de Lorena, Francisco de Guise, irmão do célebre Duque de Guise e do Cardeal de Lorena, aquele mesmo que no Piemonte beijou na boca a Infanta D. Beatriz, com grande indignação dessa Princesa. Este passou algum tempo em Lisboa, na sua ida para a Escócia. Recebeu-o a Infanta muitas vezes e deu-lhe numerosos presentes, entre outros uma formosa cadeia de ouro, rubis e pérolas, que valia perto de cinco mil escudos e que o Grão-Prior várias vezes empenhou em Londres quando se encontrava em apuros, mas que logo tirou do prego

"car il l'aymoit pour amour de la dame de laquelle il etoit encaprissé, et fort pris. Et croy qu'elle ne l'aymoit point moins, et que voluntiers elle'eust rompu son noeud virginal pour luy; cela s'apelle par mariage, car c'estoit une três sage et vertueuse princesse". E mais adiante: "La dite princesse l'aymoit fort, et m'en parla en três bonne part, et le regreta fort m'interrogeant de sa mort et comme esprise ainsi qu'il est aisé en telles choses, à un homme un peuclair voyant le cognoistre."

Foi talvez o seu único romance! A voz do coração não a podia ela ter ouvido imperiosa, quando sua mãe a destinou ao Delfim de França, ambos ainda de poucos anos, na intenção de a ter perto de si. Nem tão pouco sentiu qualquer rebate sentimental pelo Arquiduque Maximiniano, filho de Fernando de Hungria. Ainda menos por Filipe, o filho de Carlos I, que acabava de enviuvar e que depois casou com Maria Tudor, a sanguinária inglesa. Nem tão pouco por esse mesmo Filipe II, já Rei de Espanha, quando, outra vez viúvo, lhe foi proposto para marido, ao que ela respondeu: Nem que fosse com o rei de todo o mundo

A partir de então e até ao final da vida, recusou todas as propostas de casamento, dedicando-se completamente à religião.

Obras[editar | editar código-fonte]

Patrocinou e financiou em 1568 a construção de uma igreja dedicada a receber o relicário de Engrácia de Saragoça, construção essa que seria reformulada quase na totalidade após um grande temporal, a partir de 1682. A igreja é conhecida como Igreja de Santa Engrácia, tendo hoje o estatuto de Panteão Nacional. A partir de 1575, patrocina igualmente conversão de uma ermida existente, desde 1496, entre as freguesias da Luz e Carnide, em Lisboa, dando origem, desde 1594 (data da conclusão das obras) à Igreja de Nossa Senhora da Luz, em Carnide, Lisboa.[2]

Morreu, sem casar e sem filhos, no dia 10 de Outubro de 1577, em Lisboa. Está enterrada na Igreja de Nossa Senhora da Luz em Carnide, Lisboa.

Foi impressa uma nota de 50$00 Chapa 9 de Portugal com a sua imagem.

Precedido por
D. Manuel I
Armas infante dom henrique.png
Duque de Viseu

14951577
Sucedido por
o título foi incorporado na Coroa e extinto

Notas

  1. Citação completa: «J'ai veu l'infante de Portugal, fille de la feue reyne Eleonor, en mesme résolution, et est morte fille et vierge en l'age de soixante ans ou plus. Ce n'est pas faute de grandeur, car elle estoit grande en tout, ny par faute de biens, car elle en avoit force, et mesme en France, où M. le général Gourgues a bien fait ses affaires; ny pour faute de dons de nature, car je l'ay veüe à Lisbonne, en l'age de quarante-cinq ans, une très-belle et agréable fille, de bonne grace, de belle apparence, douce, agréable, et qui méritoit bien un mary pareil à elle en tout, courtoise, et mesme à nous autres Français. Je le peux dire, pour avoir eu cet honneur d'avoir parlé à elle souvent et privement. Feu M. le grand prieur de Lorraine, lorsqu'il mena ses galères du levant en ponant pour aller en Écosse, du temps du petit roy François, passant et séjournant à Lisbonne quelques jours, la visita et vid tous les jours: elle le receut fort courtoisement et se pleust fort en sa compagnie, et luy fit tout plein de beaux présents. Entre autres, elle luy bailla une chaisne pour pendre sa croix, toute de diamants et rubis, et perles grosses proprement et richement élabourées; et pouvoit valoir de quatre à cinq mille escus, et luy faisoit trois tours; car je croy qu'elle pouvoit bien valoir cela: aussi l'engageoit-il toujours pour trois mille escus, ainsi qu'il fit une fois à Londres, lorsque nous tournions d'Écosse; mais aussitost en France il l'envoya desengager, car il l'aimoit pour l'amour de la dame de laquelle il estoit encapricié et fort pris: et croy qu'elle ne l'aimoit pas moins, et que volontiers elle eust rompu son nœud virginal pour luy; cela s'appelle par mariage, car c'estoit une très-sage et vertueuse princesse: et si diray-je bien plus, que, sans les troubles qui commencèrent en France, messieurs ses frères l'attiroient et l'y tenoient. Il vouloit luy-mesme retourner avec ses galères et reprendre mesme route, et revoir cette princesse, et luy parler de nopces: et croy qu'il n'en fust point esté esconduit, car il estoit d'aussi bonne maison qu'elle, et extrait de grands roys comme elle, et surtout l'un des beaux, des agréables, des honnestes et des meilleurs de la chrestienté; messieurs ses frères, principalement les deux aisnez, car ils estoient les oracles de tous et conduisoient la barque: je vis un jour qu'il leur en parloit, leur racontant son voyage et les plaisirs qu'il avoit receus là, et les faveurs: ils vouloient fort qu'il refist le voyage et y retournast encore, et luy conseilloient de donner là, car le Pape en eust aussitost donné la dispense de la croix: et, sans ces maudits troubles, il y alloit et en fust sorty, à mon advis, à son honneur et contentement. La dite princesse l'aimoit fort, et m'en parla en très-bonne part, et le regretta beaucoup, m'interrogeant de sa mort, et comme esprise, ainsi qu'il est aisé, en telle chose, à un homme un peu clairvoyant le connoistre.»
  2. ALMEIDA, José António Ferreira de (coord.). Tesouros Artísticos de Portugal. Lisboa: Selecções do Reader's Digest, 1.ª ed., 1976, s. v. Igreja de Nossa Senhora da Luz, p. 358.