Niède Guidon

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Niède Guidon
Nascimento 12 de março de 1933 (88 anos)
Jaú (Estado de São Paulo)
Residência  Brasil
Nacionalidade brasileira
Alma mater Universidade de São Paulo
Universidade Paris I
Prêmios Prince Claus Fund Award
Instituições Fundham
Parque Nacional Serra da Capivara, Piauí
Campo(s) Arqueologia

Niède Guidon (Jaú, 12 de março de 1933) é uma arqueóloga franco-brasileira conhecida mundialmente pela defesa de sua hipótese sobre o processo de povoamento das Américas e por sua luta pela preservação do Parque Nacional da Serra da Capivara.

Biografia[editar | editar código-fonte]

Nascida no interior do estado de São Paulo, filha de pai francês e mãe brasileira, Niède Guidon tem dupla nacionalidade. Graduada em História Natural pela Universidade de São Paulo (1959), especializou-se em Arqueologia Pré-histórica, com ênfase em arte rupestre,[1] na Universidade Paris 1 Panthéon-Sorbonne (1961-1962), e obteve o seu doutorado em Pré-história, pela mesma universidade (1975), com a tese intitulada Les peintures rupestres de Varzea Grande, Piauí, Brésil, sob a orientação de André Leroi-Gourhan.[2]

A primeira notícia sobre o que viria a ser o Parque Nacional da Serra da Capivara chegou a ela em 1963, numa exposição de pinturas rupestres de Minas Gerais, realizada no Museu do Ipiranga. Lá, ela recebeu a visita do prefeito de Petrolina, que lhe falou da existência de pinturas semelhantes, no Piauí,[1] na região de São Raimundo Nonato, no sítio arqueológico de Coronel José Dias - a cerca de 525 km de Teresina. Porém, já em 1964, pouco depois daquele encontro, Niède teve que sair do Brasil. Ela conta:

Eu era da Universidade de São Paulo. E tinha uma tia que tinha um amigo que era general. Um dia ele telefonou para ela e disse: 'A Niède tem que ir embora hoje porque ela vai ser presa'. Minha tia foi ao meu apartamento, me botou no avião, e eu fui embora. Não foi só comigo que aconteceu. Na época, pessoas que não tinham passado no concurso para professor da USP, que tinham ficado em segundo ou terceiro lugar, denunciaram os colegas que tinham sido aprovados para ficar com o lugar deles. Foi isso que aconteceu. [1]

Ela somente conseguiria visitar o Piauí em 1973, depois de ter estado cerca de oito anos fora do Brasil, lecionando na École des Hautes Études en Sciences Sociales, em Paris.[3][4] Em 1978, ela convenceu o governo francês a estabelecer uma missão arqueológica para estudar a pré-história no Piauí. Volta então ao Brasil (com passaporte francês), integrando a Missão Arqueológica Franco-Brasileira, uma iniciativa do Museu de História Natural de Paris para desenvolvimento de projetos de arqueologia. Até sua aposentadoria como docente, Niède Guidon seria a líder da missão, composta por pesquisadores nacionais e internacionais e assistentes de campo locais. Depois disso, a seu convite, Eric Boëda, pesquisador do CNRS e professor da Universidade de Paris, sucedeu-a na liderança.

Museu da Natureza, Serra da Capivara

Também em 1978, ela e outros pesquisadores solicitaram ao governo brasileiro a criação de uma área protegida na região da Serra da Capivara. O Parque Nacional da Serra da Capivara foi criado em 1979, abrangendo uma área protegida pela UNESCO.[5]

Escrevi para o governador do Piauí [Dirceu Arcoverde], pedindo a criação do parque. Quatro anos depois, [em 1979,] foi criado, por um decreto do Figueiredo. Eu conhecia os sítios de arte rupestre da Europa e da África e vi a importância dos sítios daqui - a diferença que existia em relação aos outros. Então, fui falar com o Itamaraty e com a UNESCO. Primeiro, com o Itamaraty, dizendo que precisava pedir à UNESCO para que [o parque] fosse [declarado] patrimônio mundial. O Itamaraty me deu um passaporte de embaixador para eu ir à UNESCO. Na primeira apresentação, o pedido foi aprovado e, em 1991, o parque foi declarado Patrimônio Cultural da Humanidade. [1]
Niède Guidon, em 1980.

Foi também diretora-presidente da Fundação Museu do Homem Americano, sediada em São Raimundo Nonato.

Como arqueólogo chefe do parque, Guidon foi responsável pela preservação, desenvolvimento e gerenciamento dos projetos arqueológicos do Parque. Ela e seus colegas descobriram mais de 800 sítios pré-históricos, que contribuíram para esclarecer o processo de povoamento das Américas. Desses sítios, mais de 600 são contêm pinturas. Em Pedra Furada, ela e seus colegas escavaram um sítio arqueológico de arte rupestre para descobrir evidências de uma cultura paleoamericana que eles acreditam ser de c. 30.000 anos A.P., [6] datação muito mais antiga do que a preconizada por teorias anteriores acerca dos primeiros habitantes na área.[7] Niède registrou mais de 35.000 imagens arqueológicas e publicou inúmeros artigos e livros.

A Pedra Furada, no PN Serra da Capivara.

Suas descobertas vieram à tona pela primeira vez em 1986, com uma publicação na revista britânica Nature, na qual ela afirmou ter descoberto lareiras e artefatos humanos datados de c. 32,000 A.P.. Embora a datação tenha suscitado controvérsia, Guidon e seus colegas mostraram que a área foi ocupada por culturas de arte rupestre paleoamericanas e arcaicas - culturas que subsistiram com base na caça e coleta. Em 1988 ela iniciou uma parceria com o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA), para facilitar a continuação de suas escavações.

Pedra Furada[editar | editar código-fonte]

Niède Guidon, em 2011.

O mais famoso sítio pré-histórico estudado por Guidon é a Toca do Boqueirão da Pedra Furada,[8] no parque da Serra de Capivara, em São Raimundo Nonato. Pedra Furada é um abrigo rupestre com 17 metros de profundidade; suas paredes são pintadas com mais de 1.150 imagens pré-históricas. Ali, Guidon encontrou milhares de artefatos que poderiam sugerir trabalhos manuais humanos - incluindo uma estrutura semelhante a uma fogueira, formada por troncos e pedras - que ela acredita datarem de 48 700 anos A.P. Ela acredita que humanos chegaram ao Brasil há cerca de 100 000 anos, provavelmente de barco, provenientes da África. Os restos vegetais e animais recuperados dos níveis de c. 10 000 anos desse sítio e de níveis comparáveis de outro abrigo rochoso na Serra, o sitio de Perna, mostram que a área era mais úmida e mais florestada do que hoje. Todavia, o geoarqueólogo Michael R. Waters, da Universidade A&M do Texas, observou a ausência de evidências genéticas, nas populações modernas, para apoiar a reivindicação de Guidon.[9]

A hipótese mais aceita, atualmente, sobre a chegada de humanos à América é a da passagem pelo Estreito de Bering - embora haja outras menos populares. Por exemplo, a hipótese da passagem pelo Oceano Pacífico, que afirma que essas migrações, em direção às Américas, teriam vindo da Austrália, passando pelas ilhas - que eram então mais numerosas, em razão do nível do mar mais baixo. Niède Guidon adere à segunda hipótese, além sustentar a hipótese de que os primeiros povoadores vieram pelo Atlântico, provenientes da África, o que explicaria vestígios datados de até 58 000 anos. [10]

Quando cheguei aqui e andava por aí, ainda havia índios que viviam escondidos onde hoje é a área do parque, nos anos 1970. Muitos índios tinham sido assassinados pelos brancos na região. Eu vi esses índios e observei que as características deles eram africanas. Não tinham nada de asiático. O homem daqui veio da África. Na Bahia, hoje, também já tem sítios com vestígios de características africanas. Também na América do Sul foram descobertos sítios, e está comprovado que os primeiros homens que chegaram aqui vieram da África. No México, faz uns dois anos, descobriram um esqueleto de uma jovem de 17 anos; fizeram exame de DNA e descobriram que ela tem DNA africano e asiático. Os africanos chegaram aqui, pelo Nordeste, e os asiáticos, por Bering.[1]

Os achados arqueológicos de Guidon[11] levam a crer que o povoamento do continente americano tenha-se dado muito antes do que se supõe. Enquanto a hipótese mais aceita, acerca do povoamento das Américas, postula que os primeiros humanos chegaram no continente há 15,000 anos, alguns dos sítios arqueológicos estudados por Niède contêm artefatos que datam de até 58 000 anos AP. O problema dessa hipótese é que Guidon e sua equipe consideram artefatos (produtos do trabalho humano) aquilo que outros acreditam ser geofatos (produtos da ação de forças naturais).

Os arqueólogos se dividem quanto à questão: alguns aceitam as evidências arqueológicas sem contestá-las; outros pensam que elas não são sólidas o suficiente para derrubar as antigas hipóteses. Em 2006, divulgaram-se os resultados das pesquisas de Eric Boeda, da Universidade de Paris, e Emílio Fogaça, da Universidade Católica de Goiás, segundo os quais os objetos achados por Niède, em 1978, no Boqueirão da Pedra Furada, foram realmente feitas por seres humanos e são datados de 33 000 a 58 000 anos, contrariando hipóteses anteriores.[12]

Embora sua hipótese tenha lacunas, o acúmulo de evidências arqueológicas tende a fortalecer cada vez mais suas hipóteses. Seu trabalho resultou na descobertas de mais de 1 300 sítios arqueológicos e de centenas de fósseis, na região da caatinga.[13]

Niède: chegou a hora de parar[editar | editar código-fonte]

Por quase cinco décadas, Niède Guidon protagonizou as pesquisas arqueológicas na área de São Raimundo Nonato e lutou pela conservação do Parque,[14] até que, em 2020, aos 87 anos, com sequelas da chikungunya - o que lhe causou problemas nas articulações, obrigando-a a usar uma bengala para andar, e impossibilitou suas longas caminhadas pelo parque [1] - ela decidiu que estava na hora de parar.[15]

Em dezembro do mesmo ano, o Governo Federal autorizou a concessão do Parque Nacional da Serra da Capivara - patrimônio cultural da humanidade atualmente vinculado ao Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) [16] - para exploração pelo setor privado.[17][18]

Prêmios e honrarias[editar | editar código-fonte]

Nacionais[editar | editar código-fonte]

  • Em 2017, recebeu o Prêmio Itaú Cultural 30 Anos na categoria Inspirar, por sua trajetória na arte e cultura brasileira.[19]
  • Em 2013, ganhou o prêmio da Fundação Conrado Wessel na categoria cultura, por seu trabalho na Fundação Museu do Homem Americano;[20]
  • Em 2010, a 8 de março, ganhou o prêmio Tejucupapo da Revista Nordeste Vinte Um.
  • Em 2005, foi agraciada com a GrãCruz da Ordem do Mérito Científico, do Ministério de Ciência e Tecnologia.
  • Em 2005, a 2 de março, ganhou o prêmio Faz Diferença, do jornal O Globo.
  • Em 2004, recebeu o Prêmio Cientista de Ano, da SBPC.
  • Em 1997, foi uma das finalistas do prêmio Mulher do Ano, da revista Claudia (editora Abril).

Internacionais[editar | editar código-fonte]

  • Em 2014, recebeu o título de Cavaleiro da Legião de Honra, concedido pelo Governo de França.
  • Em dezembro de 2010, recebeu, em Joanesburgo, a medalha comemorativa pelo aniversário dos 60 anos da UNESCO. Essa comenda é atribuída a pessoas que se destacaram por sua contribuição na área da pesquisa, divulgação e preservação do Patrimônio Cultural da Humanidade.
  • Em dezembro de 2010, recebeu a medalha de ouro da Herity Italia (Organizzazione per la Gestione di Qualità del Patrimonio Culturale – Commissione Nazionale Italiana), em nome da Fundham, instituição voltada à preservação do Parque Nacional da Serra da Capivara.
  • Em 2005, recebeu o Prêmio Verde das Américas.[21]
  • Em 2005, recebeu o Prêmio Príncipe Klaus, do Governo da Holanda.

Referências

  1. a b c d e f Niéde Guidon, meio século de luta na Serra da Capivara. Por Cristina Serra. projetocolabora.com.br, 13 de junho de 2020.
  2. Curriculo de Niede Guidon, na Plataforma Lattes.
  3. «O primeiro brasileiro». super.abril. superinteressante. Consultado em 10 de março de 2018 
  4. «Com maior concentração de sítios com pinturas rupestres do mundo, Parque da Serra da Capivara está perto do fim, diz arqueóloga». Ópera Mundi. Consultado em 29 de fevereiro de 2016 
  5. UNESCO World Heritage Center. «Serra da Capivara National Park». whc.unesco.org 
  6. Guidon, Niède; Delibrias, G. (1986). «Carbon-14 dates point to man in the Americas 32 000 years ago» 321 ed. Nature: 769-771. doi:10.1038/321769a0 
  7. Bellos, Alex. Archaelogists feud over oldest Americans US doubts over prehistoric relics in Brazil reopen colonial wounds. The Guardian, 11 de fevereiro de 2000.
  8. Toca do Boqueirao da PedraFurada: uma chave para passado do Brasil. Por André Nogueira. aventurasnahistoria.uol.com.br, 3 de abril de 2019.
  9. Simon Romero (27 de março de 2014). «Discoveries Challenge Beliefs on Humans' Arrival in the Americas». New York Times 
  10. «Missão franco-brasileira completa 40 anos no estado do Piauí». 180 graus. Consultado em 10 de março de 2018 
  11. «Descobertas de brasileira mudaram a história da ocupação das Américas». G1. Globo. Fevereiro de 2013. Consultado em 3 de fevereiro de 2013 
  12. «Niède Guidon, a arqueóloga símbolo da luta por um parque». Catraca livre. Consultado em 10 de março de 2018 
  13. «Niède Guidon, uma arqueóloga ecossistêmica». Página 22. 5 de janeiro de 2015. Consultado em 29 de fevereiro de 2016 
  14. Pioneiras da Ciência no Brasil - 3ª Edição. www.gov.br
  15. Entrevista: Niède Guidon. Por Gabriela Martin e Anne-Marie Pessis. Clio Arqueológica 2020, v35N1, p.1-13. Entrevista realizada em 22 de janeiro de 2020.
  16. Parque Nacional Serra da Capivara sofre com falta de recursos. jornaldaciencia.org.br, 13 de agosto de 2014
  17. Serra da Capivara: concessão do parque é autorizada pelo Governo Federal. 7 de dezembro de 2020
  18. "Trará novas possibilidades", diz Niéde Guidon sobre concessão da Serra da Capivara. portaldodia.com, 7 de dezembro de 2020.
  19. «Niède Guidon – Prêmio Itaú Cultural 30 Anos (2017)». Itaú Cultural. 27 de junho de 2017 
  20. «Fundação Conrado Wessel premia Niède Guidon e parasitologistas». Folha de S. Paulo. UOL. 12 de dezembro de 2013. Consultado em 29 de fevereiro de 2016 
  21. América Verde se reúne em BH. folhadomeio.com.br, 21 de outubro de 2005.

Ligações externas[editar | editar código-fonte]