Roberto Bolaño

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Roberto Bolaño
Estêncil de Roberto Bolaño em Barcelona, 2012.
Nome completo Roberto Bolaño Ávalos
Nascimento 28 de abril de 1953
Santiago, província de Santiago,  Chile
Morte 15 de julho de 2003 (50 anos)
Barcelona, Catalunha,  Espanha
Residência Chile (1953-1968; 1973-74)
México (1968-1973; 1974-77)
Espanha (1977-2003)
Nacionalidade Chile chileno
Cônjuge Carolina López
Filho(s) Lautaro
Alexandra
Ocupação escritor, poeta e ensaísta
Influências
Prêmios
Magnum opus 2666
Religião ateu

Roberto Bolaño Ávalos (Santiago do Chile, 28 de abril de 1953Barcelona, 15 de julho de 2003) foi um escritor chileno, ganhador do Prémio Rómulo Gallegos por seu romance Os Detetives Selvagens, que ele descreveu como uma carta de amor à sua geração[1]. Bolaño foi considerado por seus pares o mais importante autor latino-americano de sua geração[1].

O romance póstumo do autor, 2666, lançado originalmente em 2004, é considerado sua obra máxima, tendo sido altamente aclamado pela crítica especializada desde então[2].

Biografia[editar | editar código-fonte]

Roberto Bolaño nasceu no Chile, na capital Santiago. Segundo sua própria descrição. ele era magro, ansioso, leitor voraz de livros e pouco promissor. Era uma criança disléxica a quem os colegas de escola maltratavam e o faziam sentir um estranho[1].

Em 1968 se muda com sua família para a Cidade do México, larga os estudos, trabalha como jornalista e começa a se tornar militante de esquerda[2].

Um acontecimento marcante na vida de Bolaño, mencionada de diferentes maneiras ao longo da sua obra, ocorreu em 1973, quando ele voltou ao Chile para "ajudar a construir a revolução" apoiando o regime socialista de Salvador Allende. Após o golpe de Augusto Pinochet, Bolaño foi preso sob suspeita de ser um terrorista e passou oito dias na cadeia[3]. Ele foi solto por ex-colegas de classe que haviam virado carcereiros. A experiência foi descrita no conto "Carta de dança". Segundo a versão descrita no conto, ele não foi nem torturado nem morto, como ele esperava:

O episódio também é contado do ponto de vista dos colegas de Bolaño, na história "Detetives". Durante a maior parte de sua juventude Bolaño foi um andarilho, vivendo eventualmente no Chile, México, El Salvador, França e Espanha[3].

Nos anos 70, Bolaño se tornou trotskista e membro fundador do infrarrealismo, um pequeno movimento poético. Ele carinhosamente parodiou aspectos do movimento em "Detetives Selvagens". Após um período em El Salvador, passado na companhia do poeta Roque Dalton e das guerrilhas do Fronte de Libertação Nacional Farabundo Martí, ele retorna ao México, vivendo como um poeta boêmio e "enfant terrible" literário, "um provocador profissional temido por todas as editoras, ainda que fosse um ninguém, aparecendo em apresentações literárias e leituras", recorda seu editor, Jorge Herralde. Seu comportamento errático tinha muito a ver com seu posicionamento de esquerda e seu estilo de vida caótico[1].

Bolaño se mudou para a Europa em 1977 e finalmente vai para a Espanha, onde se casa e se estabelece na costa mediterrânea perto de Barcelona, trabalhando como lavador de pratos, monitor de acampamento e gari. Ele trabalhava de dia e escrevia à noite. No começo da década de 1980 ele morou em uma pequena cidade do litoral catalão, Blanes[3].

Ele continuou escrevendo poesia, antes de mudar para a ficção, durante a meia-idade. Em uma entrevista Bolaño disse que começou a escrever ficção porque se sentiu responsável pela estabilidade financeira dos seus filhos, que não poderia ter sido assegurada com seus ganhos de poeta[5]. Isso foi confirmado por Jorge Herralde, que explicou que Bolaño "abandonou sua existência beatnik" por que o nascimento do seu filho em 1990 o fez "decidir que ele era o responsável pelo futuro da sua família e que isso seria mais fácil se escrevesse ficção". Contudo, ele continuou se vendo como poeta, e a coleção de seu versos, espalhados por 20 anos, foi publicada em 2000 sob o título "The Romantic Dogs"[3].

Bolaño tinha sentimentos conflitantes sobre seu país natal, que visitou apenas uma vez depois de seu exílio voluntário. Ele era notório no Chile por seus duros ataques a Isabel Allende e outros membros do establishment literário[3]. Segundo o romancista e dramaturgo chileno Ariel Dorfman:

Seis semanas após sua morte, novelistas latino-americanos, colegas de Bolaño, o aclamaram como a mais importante figura literária de sua geração, em uma conferência realizada em Sevilha[5]. Entre os seus melhores amigos estavam os romancistas Rodrigo Fresán e Enrique Vila-Matas. O tributo de Fresán incluía a declaração de que "Roberto emergiu como um escritor em uma época em que a América Latina não acreditava mais em utopias, em que o paraíso se tornou inferno, e essa sensação de monstruosidade, pesadelos despertos e constante fuga de algo horrível permeia 2666 e toda a sua obra"[3].

"Seus livros são políticos", observa também Fresán, "mas de uma maneira mais pessoal do que militante ou demagógica, que é mais próxima da mística dos beatniks do que das bombas". Na opinião de Fresán, "ele era um em um milhão, um escritor que trabalhou sem proteção, que foi para fora, sem freios, e, ao fazer isso, criou uma nova maneira de ser um grande escritor latino-americano"[5]. O jornalista Larry Rohter do New York Times escreveu: "Bolaño brincava sobre a palavra 'póstumo', dizendo que 'soava como o nome de um gladiador romano, que é invicto', e ele sem dúvida ia ficar espantado de ver como suas ações subiram agora que está morto[6].

Bolaño sobreviveu pela sua mulher espanhola e seus dois filhos, aos quais ele um dia chamou "minha única pátria". (Na sua última entrevista, publicada na edição mexicana da revista Playboy, Bolaño diz que ele se considerava latino-americano, acrescentando que "meu único país são meus filhos e talvez, ainda que em segundo lugar, alguns momentos, ruas, rostos e livros que estão em mim..."). Bolaño nomeou seu filho Lautaro, do líder Mapuche Lautaro, que resistiu à conquista espanhola do Chile, conforme descrito no épico do século XVI "La araucana". Sua outra filha se chama Alexandra[7].

Morte[editar | editar código-fonte]

Em seus últimos dias, Bolaño saía muito pouco de casa. Foi sugerido pela mídia inglesa que o escritor teria sido viciado em heroína, e que a causa da sua morte teria sido uma doença renal resultante da hepatite C, cujo vírus ele contraíra através de agulhas compartilhadas em seu período "libertino". Entretanto, essa afirmação foi enfaticamente contestada por sua mulher e por seu amigo próximo Enrique Vila-Matas[8]. Ele morreu aos 50 anos, em sua casa em Barcelona, devido à uma falência renal, enquanto aguardava um transplante de fígado[7].

Seu corpo foi cremado e suas cinzas jogadas no mar Mediterrâneo por sua esposa, Carolina López, e seus filhos, Lautaro e Alexandra, em 2003.

Obra[editar | editar código-fonte]

Apesar de, no fundo, considerar-se um poeta, da estirpe de seu amado Nicanor Parra, sua reputação reside nos seus romances, novelas e coleções de contos[8]. Bolaño adotou um estilo de vida de poeta boêmio por toda sua vida adulta, e só foi começar a produzir trabalhos substanciais em prosa nos anos 90. Quase que imediatamente ele foi estimado como uma figura relevante na literatura espanhola e latino-americana.

Em rápida sucessão, Bolaño publicou uma série de livros elogiados pela crítica, e dentre os mais importantes estão Os Detetives Selvagens, a novela Noturno do Chile e, postumamente, o romance 2666. Suas duas coletâneas de contos Chamadas Telefônicas e Putas Assassinas ganharam prêmios literários. Em 2009 foram descobertos romances inéditos no arquivo do autor[4].

Nocturno de Chile[editar | editar código-fonte]

Noturno do Chile (título no Brasil) ou Nocturno Chileno ou Noturno Chileno (título em Portugal)é uma narrativa construída por vagos, dispersos pensamentos moribundos de um padre jesuíta chileno e poeta fracassado, Sebastian Urrutia Lacroix. Em um ponto crucial da sua carreira, padre Urrutia é abordado por dois agentes da Opus Dei, que o informam ter ele sido escolhido para visitar a Europa e estudar a preservação de antigas igrejas - o trabalho perfeito para um clérigo com sensibilidade artística[4].

Na sua chegada, informam-lhe que a maior ameaça às catedrais européias são as fezes de pombo, e que seus equivalente do Velho Mundo acharam uma maneira inteligente de solucionar o problema. Eles se tornaram treinadores de falcões, e cidade após cidade ele observa os falcões sacerdotais eliminarem cruelmente bandos de aves inocentes. A impotência de Urrutia, que não consegue protestar contra o sangrento método de preservação arquitetônica sinaliza a seus empregadores que ele vai servir como testemunha passiva aos métodos brutais e predatórios do governo Pinochet. Esse é o começo da acusação de Bolaño ao "l'homme intellectuel" que se refugia na arte, usando a estética como uma manta e um escudo enquanto o mundo permanece em volta, imutável e nauseabundo, permanentemente cruel e injusto.

Amuleto[editar | editar código-fonte]

Amuleto é focado no poeta uruguaio Auxilio Lacouture, que também aparece em Detetives Selvagens como um personagem coadjuvante preso em um banheiro na Universidad Nacional Autónoma de México (UNAM), na Cidade do México, que permanece por duas semanas lá dentro enquanto o exército fecha a universidade. Nesta novela, ela encontra-se com um grupo de artistas e escritores latino-americanos, entre os quais Arturo Belano, alter-ego de Bolaño. Diferente de Detetives Selvagens, Amuleto é narrado na primeira-pessoa, pela voz de Auxilio, mas ainda dando lugar ao frenético desarranjo de personalidades com que Bolaño ficou famoso por criar.

Estrela Distante[editar | editar código-fonte]

Estrela Distante é uma novela bizarra surgida da política do regime Pinochet, com assassinatos, além de fotografia e até mesmo poesia escrita em fumaça no céu pelos aviões da força aérea. Essa obra de humor negro narra a história da política chilena de uma maneira mórbida e às vezes, cômica.

Os Detetives Selvagens[editar | editar código-fonte]

Os Detetives Selvagens foi comparada, por Jorge Edwards, a Rayuela, de Julio Cortázar, e a Paradiso, de José Lezama Lima.

Em uma resenha em El País, o crítico espanhol Ignacio Echevarría declarou ser este "o romance que Borges teria escrito". (Um ávido leitor, Bolaño sempre expressou seu amor pela obra de Borges e Cortázar, e concluiu um balanço da literatura argentina contemporânea dizendo que "deveriam ler mais Borges").

Segundo Ignacio Echeverria, ex-editor literário do El País, o maior jornal da Espanha:

A parte central de Os Detetives Selvagens situa-se numa série longa e fragmentada de registros sobre as viagens e aventuras de Arturo Belano-uma aliteração para seu alter-ego, que também aparece em outras histórias e novelas-e Ulisses Lima entre 1976 e 1996. Essas perambulações levam-no da Cidade do México a diversos lugares na Europa, em Israel e até na Libéria durante a guerra civil nos anos 90. Os diários são misturados à história da sua busca por Cesárea Tinajero, a fundadora do "real visceralismo", um movimento literário de vanguarda da década de 20.

García Madero, um aspirante a poeta de 17 anos, narra-nos primeiro a cena poética e social dos novos "realistas viscerais". Mais tarde, ele terminará o romance com o relato da sua fuga da cidade do México para o estado de Sonora. Bolaño definiu Os Detetives Selvagens como "uma carta de amor à minha geração".

2666[editar | editar código-fonte]

O romance 2666 foi publicado postumamente em 2004. Supõe-se que uma primeira versão tenha sido enviada ao seu editor antes de sua morte. 2666 foi a maior ocupação dos seus últimos cinco anos de vida, e mereceu grande aclamação, e despertou acaloradas discussões sobre as intenções finais do autor.

Em mais de 1.100 páginas, "2666" está dividido em cinco "partes", das quais, quatro e meia já estavam terminadas antes da morte de Bolaño. Focada em uma insolvida e ainda recorrente série de homicídios na Ciudad Juárez (Santa Teresa no romance), o apocalíptico 2666 mostra o horror do século XX através de um vasto número de personagens, centrados na reclusa figura do escritor alemão Benno von Archimboldi - de quem quatro críticos literários buscam pistas.

Em março de 2009, o jornal inglês The Guardian trouxe a informação de que uma parte adicional do romance, a parte 6, foi achada por pesquisadores junto ao espólio literário de Roberto Bolaño[9].

A Pista de Gelo[editar | editar código-fonte]

Passada na cidade litorânea de Z, na Costa Brava, norte de Barcelona, A Pista de Gelo é um livro contado por três narradores homens, sobre uma bela campeã de patinação artística, Nuria Martí. Quando ela é subitamente cortada da equipe olímpica, um dedicado servidor público constrói secretamente uma pista de patinação nos escombros de uma mansão local, usando para isso fundos públicos.

Antuérpia[editar | editar código-fonte]

Considerado por seu executor literária Ignacio Echevarría como o 'big bang' do universo literário de Bolaño, Antuérpia é um poema-prosa escrito em 1980, quando Bolaño tinha 27 anos. O livro permaneceu inédito até 2002, quando foi publicado em espanhol sob o nome de "Amberes", um ano antes da morte do escritor. Antuérpia contém uma narrativa solta, estruturada menos como um arco dramático que em torno de imagens, personagens que reaparecem e anedotas-muitas das quais se tornaram recorrentes nas obras de Bolaño: crimes e lugares ermos, loucos e poetas, sexo e amor, policiais corruptos e vilões.[10] Sobre o livro, Bolaño disse: "É o único dos meus romances que não me deixa envergonhado".

O espírito da ficção científica[editar | editar código-fonte]

Quando a viúva de Bolaño organizou seu arquivo de mais 14 mil páginas manuscritas, encontrou O espírito da ficção científica, datado de 1984. Ambientado na Cidade do México, foi publicado em 2016[9].

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

Ficção[editar | editar código-fonte]

Poesia[editar | editar código-fonte]

  • Los perros románticos: Poemas 1980-1998 (2000)
  • Tres (2000)
  • La universidad desconocida (2007)

Não-ficção[editar | editar código-fonte]

  • El gaucho insufrible (2003)
  • Entre paréntesis (2004)

Referências

  1. a b c d Francisco Goldman (ed.). «The Great Bolaño». The New York Review of Books. Consultado em 21 de março de 2017 
  2. a b Alison Flood (ed.). «Posthumous win for Roberto Bolaño in National Book Critics Circle award». The Guardian. Consultado em 21 de março de 2017 
  3. a b c d e f g LARRY ROHTER (ed.). «A Chilean Writer's Fictions Might Include His Own Colorful Past». The New York Times. Consultado em 21 de março de 2017 
  4. a b c Carmen Boullosa (ed.). «Roberto Bolaño by Carmen Boullosa». Bomb. Consultado em 21 de março de 2017 
  5. a b c Miguel Huezo Mixco (ed.). «Roberto Bolaño en El Salvador. Supremo jardín de la guerra florida». Fronterad Revista Digital. Consultado em 21 de março de 2017 
  6. Larry Rohter (ed.). «A Writer Whose Posthumous Novel Crowns an Illustrious Career». The New York Times. Consultado em 21 de março de 2017 
  7. a b Brasil-247 (ed.). «O mundo deve um fígado a Roberto Bolaño». Brasil-247. Consultado em 21 de março de 2017 
  8. a b Hermano Cerdo (ed.). «Consultorio Literario: "Was Bolaño a Junkie?"». Hermano Cerdo. Consultado em 21 de março de 2017 
  9. a b Giles Tremlett (ed.). «Two new Bolaño novels found among papers left after death». The Guardian. Consultado em 21 de março de 2017 
  10. [1]

Ligações externas[editar | editar código-fonte]