Silagem

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Milho forrageiro picado e compactado no início do processo de ensilagem.
Silagem de milho forrageiro pronta para uso.
A ensilagem em fardos revestidos por filme plástico tende a sustituir a fermentação em silos.
O revestimento com plástico branco acumula menos calor e permite uma mais fácil inspecção visual para detecção de rompimentos (aqui, próximo de Basileia, Suiça).
Os fardos podem ser rectangulares, optimizando o armazenamento.
Silo semi-enterrado.

Silagem é um método de conservação de forragem para alimentação animal baseado na fermentação láctica da matéria vegetal durante a qual são produzidos ácido láctico e outros ácidos orgânicos, o que causa a diminuição do pH até valores inferiores a 5 e a criação de anaerobiose. A acidificação e a anaerobiose interrompem o processo de degradação da matéria orgânica, que assim fica conservada, retendo as qualidades nutritivas do material original melhor que o feno. A matéria orgânica utilizada é em geral proveniente da colheita de plantações comerciais, usualmente leguminosas ou gramíneas,[1] as quais são cortadas em pequenos fragmentos, os quais são armazenados em silos verticais ou trincheiras revestidas com plástico ou compactados em fardos herméticos revestidos por um filme de plástico hermético. O material resultante, designado também por silagem, é utilizado como alimento dos gados, em particular dos ruminantes, nas épocas de escassez de alimento natural.[2]

O armazenamento de forragens[editar | editar código-fonte]

As variações na produção de forragem ao longo de cada ciclo climático anual, em particular nas regiões com marcadas variações sazonais de temperatura do ar, disponibilidade de água no solo e insolação, tornam necessários os métodos de armazenamento e conservação das forragens produzidas nos meses de maior abundância para consumo nos tempos de escassez. Essa necessidade é central no funcionamento económico de sistemas de produção pecuária, em particular na manutenção de ruminantes dependentes de uma alimentação essencialmente vegetal, nas regiões de clima temperado e frio (com marcada escassez de produção vegetal durante o inverno) e nas regiões subtropicais com períodos de estiagem muito marcados, em que a produtividade estival (ou de época seca) é insuficiente. Existem duas vias principais de armazenamento e conservação de forragems:

  • A via seca – centrada nas técnicas da fenação, cujo resultado é o feno. A conservação é possível graças à dessecação, em geral unicamente sob a acção do Sol (secagem natural), mas podendo ser complementada com ar quente produzido por queimadores. O processo visa obter uma percentagem de humidade próxima dos 15% na forragem, o que assegura a sua estabilidade durante vários meses.
  • A via húmida – centrada nas técnicas da ensilagem, cujo resultado final é a silagem. A técnica é aplicada às gramíneas forrageiras ricas em açúcares, como o milho forrageiro e algumas misturas pratenses, e a subprodutos da indústria agro-alimentar, como a polpa de beterraba, os bagaços de cerveja e materiais similares. Contudo, é difícil ter êxito na ensilagem de algumas forragens, como a alfafa, pobres em açúcares e com alto teor em azoto solúvel, composição que leva à produção de maus cheiros.

Nas vias de conservação atrás apontadas, apenas a segunda envolve processos microbiológicos de interesse, pois o processo de fenação apenas apela para duas condições: utilizar uma forrageira com baixo conteúdo em água e secá-la com o mínimo de perdas nutritivas. O objectivo é simplesmente retirar humidade como forma de impedir a proliferação de bactérias e fungos que possam conduzir ao apodrecimento. A ensilagem é uma técnica de fermentação controlada, semelhante à utilizada na produção de múltiplos produtos da indústria agro-alimentar, que pode ser utilizada na estabilização por acção de bactérias e leveduras de múltiplos materiais, na sua maioria de origem vegetal. Assim, embora as técnicas da ensilagem possam ser aplicadas a produtos de origem animal, a sua riqueza proteica confere aos produtos obtidos características muitos distintas, razão pela qual o termo «silagem», pelo menos no contexto agronómico e da produção zootécnica, esteja em geral reservado aos produtos obtidos da fermentação de plantas, ou partes de plantas e seus subprodutos, que tenham quantidades suficientes de carboidratos para permitir a fermentação controlada e tendencialmente anaeróbia no interior de um compartimento fechado sem que sejam produzidos os produtos da degradação proteica típicos da putrefacção.

Nestas condições, entende-se por ensilagem as alterações físico-químicas e organolépticas de uma forrageira ou alimento fermentescível armazenado na ausência de ar. O principal objectivo do processo de ensilagem é obter uma produção suficiente de ácido láctico de origem microbiana que permita a estabilização do produto e evite apodrecimento, ou seja a continuação da sua degradação por bactérias e fungos.

Nestas condições, o produto produzido, a «silagem», pode ser considerar como uma forragem de alto valor nutricional, preservada com um mínimo de perda de nutrientes em relação ao material fresco que lhe deu origem. A fermentação ocorre dentro de um silo, de um fardo ou de outra qualquer estrutura de confinamento hermética e pode ser controlada com uso dos aditivos biológicos, nomeadamente os inoculantes de silagens, ou com a adição de açúcares ou sais.

Em muitas regiões produtoras de carne e leite, a silagem é frequentemente o principal alimento de inverno ou de estiagem de ruminantes, o seu fornecimento compensando a baixa produção de pasto nestas épocas. Muito embora não seja o tipo de alimentação mais adequada, é frequente o seu uso para a manutenção de equinos e suínos em períodos de carência de melhores fontes de alimentação.

Técnica[editar | editar código-fonte]

A técnica de ensilagem a utilizar depende de múltiplos factores, entre os quais as características da matéria vegetal a utilizar, a disponibilidade de equipamentos de corte e de armazenamento (silos), as quantidades a produzir e o destino do produto. Contudo, um dos factores determinantes é o teor em matéria seca da matéria vegetal a ensilar, o qual para além de determinar as técnicas a utilizar, influencia fortemente a qualidade alimentar do produto final e o período e condições de armazenamento.

Com valores muito elevados de matéria seca, normalmente obtidos por pré-secagem da matéria vegetal utilizando sopradores alimentados com ar aquecido pela queima de um gás combustível ou de um hidrocarboneto líquido, é possível produzir silagens muito secas (conhecidas pelo anglicismo haylage, um derivado de hay, "feno" e lage, de silage, "silagem"). Este tipo de silagem apresenta cerca de 50% de matéria seca e baixo teor em ácido láctico pelo que a sua conservação implica silos-torre para limitar o contacto com o ar. Naquele silos é a espessura do conjunto que garante a anaerobiose (privação de ar) e a manutenção da secura, já que este tipo de silagem é higroscópica, absorvendo rapidamente humidade a partir do ar ambiente. A técnica, desenvolvida nos Estados Unidos, requer um importante investimento (silo, mecanismo de ensilagem, soprador para secagem) pelo que é pouco comum na Europa e em outras regiões agrícolas. Um efeito similar pode ser obtido embalando o material seco em fardos redondos fortemente compactados e hermeticamente envolvidos por um filme plástico resistente (a anaerobiose consegue-se mediante a compactação e o envolvimento com uma membrana plástica impermeável ao ar).

Com valores de matéria seca abaixo dos 40% surgem as técnicas mais comuns de produção de silagem. A técnica mais utilizada é a do silo em corredor (ou trincheira), no qual a forragem é introduzida picada em partículas, cujo comprimento médio varia entre os 2 e os 5 centímetros, as quais são armazenadas sobre um fundo impermeável, em camadas sucessivas sobre uma zona entre dois muros de betão. Cada camada é sucessivamente compactada usando um tractor que roda sobre o material colocado na trincheira. A compactação permite expulsar grande parte do ar intersticial, situação que é mantida recobrindo a trincheira com uma capa de polietileno mantida em posição por recobrimento com terra, pneus usados, pedras e outros materiais que possam manter a compactação e evitar a perda da anaerobiose gerada pelo consumo do oxigénio remanescente no ar intersticial durante a fase inicial de fermentação. Uma variante desta técnica se é utilizada quando se não têm paredes ou fundo para delimitar o silo (comum na silagem de polpa de beterraba), sendo simplesmente escava uma cova alongada, revestida a polietileno, na qual se depositam as camadas de silo que depois são compactadas e recobertas como atrás descrito.

Embora a percentagem de matéria seca varie amplamente na silagem, é possível estabelecer os valores óptimos para chegar a uma forragem de melhor qualidade. Esse óptimo depende das características intrínsecas do material vegetal, particularmente do seu teor em açúcares, proteína e fibras não digeríveis.

No caso do milho forrageiro, uma das fontes mais comuns de silagem, o teor óptimo está entre os 30 e os 35% de matéria seca. Estes valores podem ser obtidos pela maturação natural da planta inteira até ao início do amarelecimento das folhas. Nesta etapa do ciclo vegetativo dos milhos, o conteúdo em açúcares solúveis, o equilíbrio entre o grão e o talo, a facilidade de compactação e o desenvolvimento anaeróbico são mais favoráveis.

Quanto às gramíneas forrageiras e às misturas de ervas leguminosas, embora sejam desejáveis valores de matéria seca similares aos do milho forrageiro, esse objectivo poucas vezes é atingido pois o conteúdo de matéria seca da erva, mesmo quando já em marcado emurchecimento raramente ultrapassa os 12 a 15% em termos ponderais. Contudo, mediante secagem no campo (pré-fenação), pode-se aumentar este conteúdo até aos 20 a 25%. Contudo, esta operação pode comportar riscos, pois requer um mínimo de três dias ensolarados seguidos (o que nem sempre se logra nas condições meteorológicas típicas do período primaveril, altura em que a disponibilidade de erva e o seu teor em açúcares é maior. Em caso de impossibilidade de pré-secagem, é possível a ensilagem directa de gramíneas, mas um conteúdo em matéria seca significativamente inferior a 20% dará lugar à perda dos sucos depois da construção do silo. A ensilagem de gramíneas forrageiras na primavera, apesar de produzir forragens mais ricas que o feno, é também mais difícil de levar à prática. A riqueza em proteínas e em açúcares solúveis diminui rapidamente com o fim da primavera. Atrasar a colheita devido a condições meteorológicas desfavoráveis conduz a uma significativa diminuição da qualidade da forragem.

Em todos os casos, a produção de forragem de qualidade está condicionada pelo conteúdo mínimo de açúcares solúveis, que são transformados em ácido láctico e propiónico pelas bactérias lácticas presentes de forma natural na forragem. São estes ácidos orgânicos que actuam como conservantes, garantido o não apodrecimento da silagem. Contudo, a produção de ácidos não depende apenas do teor inicial de açúcares, sendo influenciada pela qualidade da compactação, pela rapidez da formação do silo e pelo desenvolvimento da acidificação anaeróbia.

Outro factor que determina a qualidade é o tamanho dos fragmentos das forragens que se guardam. Esse factor é determinante quando as forragens conservados desta maneira se destinam à alimentação de ruminantes. Forragens demasiado curtas, em que predominem pedaços com uma média de comprimento inferior a um centímetro, sobretudo no que respeita ao milho, não permitem uma boa ruminação aos animais cujo principal alimento seja a silagem, podendo conduzir a uma alteração metabólica denominada acidose, muitas vezes fatal.

Aditivos autorizados[editar | editar código-fonte]

As técnica de ensilagem e as normas regulamentares da maior parte dos países permitem a adição de conservantes destinados a aumentar a rapidez da acidificação, a estabilidade e a vida útil da silagem. Estes aditivos autorizados são de três tipos:

Riscos ambientais e sanitários[editar | editar código-fonte]

A silagem de forragem é um método de conservação biológico frequentemente comparado com a fabricação de chucrute, mas apesar disso as medidas de higiene não são as mesmas. Existem vários riscos que devem ser minorados:

  • Risco de botulismo — relacionado com a possível presença de cadáveres de pequenos animais, nomeadamente roedores, nos fardos de forragem ou no silo.
  • Risco de intoxicação por toxinas fúngicas ou bacterianas — é um risco para os animais que consomem os produtos de uma ensilagem mal feita, nomeadamente quando estejam presentes aflatoxinas.
  • Risco de listeria — comum em silagem mal acidificada que permite o crescimento de bactérias do género Listeria, o qual pode ter grande impacte, sobretudo nas explorações leiteiras que produzam queijos de leite cru. Também existe o risco de meningite para o gado vacum jovem alimentado com silagem de milho e submetido a stress, nomeadamente por condições de cria deficientes, mudança repentina da dieta, entre outros factores.
  • Risco de produção de etanol — composto tóxico para os ruminantes, em geral resultante de uma fermentação alcoólica resultante do incorrecto isolamento do silo ou da lâmina de plástico, permitindo a entrada de ar por incapacidade de manter a selagem hermética.
  • Risco de presença excessiva de bactérias butíricas — causado pela incorporação de terra na forragem durante a colheita. Estas bactérias são em geral inócuas para os animais e para os seres humanos, mas são prejudiciais para a produção do queijo, sendo responsáveis pela presença de maus sabores nos queijos suaves e do inchaço e rebentamento dos queijos de pasta prensada e cozida, tais como o Emmental. Estas bactérias podem multiplicar-se e formar esporos resistentes nas silagens contaminadas. O mesmo problema ocorre nas colheitas de feno com resíduos de terra que se mantenham humedecidas.
  • Risco de contaminação — o líquido produzido pela silagem de vegetais demasiado húmidos é ácido, corrosivo, rico em odores desagradáveis e com elevado potencial de causar eutrofização quando atinja rios ou lagos.
  • Risco de saturnismo — os lixiviados de silagem, muito ácidos e corrosivos, podem facilitar a migração e aumentar a biodisponibilidade dos contaminantes metálicos, incluindo o chumbo, acumulados no solo e nos materiais constituintes do silo e dos recipientes utilizados na manipulação da silagem.

Notas

  1. George, J. Ronald. Extension Publications: Forage and Grain Crops. Dubuque,Iowa: Kendall/Hunt, 1994. 152 p.
  2. Wood, Brian J. B.. Microbiology of fermented foods Volume 1&2. [S.l.]: Springer. 73 p. ISBN 978-0-7514-0216-2

Ver também[editar | editar código-fonte]

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Referências[editar | editar código-fonte]

  • L. Bretigniere & J. Godfernaux,ensilaje de forraje verde, París, La Maison Rustique, 1940.
  • Making and Feeding Silage, John Murdoch, B.Sc, Ph.D. Published by Dairy Farmer (Books) Limited, Lloyd's Chambers, Ipswich, U.K. 1961)
  • Feeding baleage to horses - the ultimate guide - Horsetalk.co.nz
  • "The Owner-Built Homestead" by Barbara and Ken Kern, New York: Scribner, 1977 (ISBN 0684149222).
  • Briemle, G., M. Elsässer, T. Jilg, W. Müller & H. Nussbaum (1996): Nachhaltige Grünlandbewirtschaftung in Baden-Württemberg. in: Nachhaltige Land- und Forstwirtschaft; Springer Verlag, Berlin, Heidelberg, New York (1996): S. 125–256 (ISBN 3-540-61090-1)

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

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