Autoginefilia

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Autoginefilia[1] ( /ˌɔːtˌɡnəˈfɪliə/; do grego αὐτό- ("self"), γυνή ("mulher") e φιλία ("amor") — "amar a si mesmo como mulher") é um termo cunhado em 1989 por Ray Blanchard, para se referir a "tendência parafílica de um homem se sentir sexualmente excitado com o pensamento ou a imagem de si mesmo como uma mulher."[2] Também chamada de Tipologia do Transexualismo de Blanchard (em inglês Blanchard's transsexualism typology) ou Teoria Autoginefílica de Blanchard (em inglês Blanchard autogynephilia theory) é um tipologia psicológica dos transexuais MtF (do inglês Male to Female, que significa"de homem para mulher") criada por Blanchard entre a década de 80 e 90, com base no trabalho de seu colega, Kurt Freund. Blanchard dividiu as mulheres transexuais em dois diferentes grupos: Chamado “transexuais homossexuais” a quem Blanchard alega que buscam cirurgia de readequação sexual por sentirem atração romântica e sexual por homens (idealmente heterossexuais),e “transexuais autoginefílicos” que supostamente são sexualmente excitados pela ideia de possuir um corpo feminino. A tipologia sugere distinções entre transexuais MtF ,mas não especula as causas do transexualismo. A distinção é um tema recorrente na literatura acadêmica sobre o transexualismo.[3]

Os defensores da teoria incluem Anne Lawrence, J. Michael Bailey, James Cantor e outros que dizem que existem diferenças significativas entre os dois grupos propostos, incluindo a sexualidade, idade de transição, etnia, QI, fetichismo e qualidade do ajuste. Segundo a teoria, os transexuais homossexuais estão previstos para começar a transição mais cedo na vida,[4] geralmente antes de completar 30 anos, o que explica supostamente um melhor ajuste. Eles também são mais susceptíveis a terem origem mais pobres, não-brancos ou imigrantes,[5] têm QI mais baixo,[6] também por definição, exclusivamente serem atraídos por homens. Os transexuais autoginefílicos são mais propensos a serem atraídos por mulheres, exclusivamente ou não, ou serem assexuais.[4] Também se diz sob a teoria, exibirem excitação mais fetichista ou de outra mesmo parafilica.[7]

Críticos da teoria e da pesquisa incluem Charles Allen Moser, Julia Serano, Jaimie Veale, Larry Nuttbrock, John Bancroft e outros que dizem que a teoria é pouco representativa das mulheres trans, e reduz a identidade de gênero a uma questão de atração. Enquanto Nuttbrock foi crítico, ele e seus colegas conduziram pesquisas que apoiaram plenamente a teoria e replicaram os achados mais importantes do trabalho anterior de Blanchard.[8] [9]

Antecedentes[editar | editar código-fonte]

O início da história do estudo do transexualismo é escasso, entretanto, o conceito de uma categorização de pessoas transexuais pode ser observado por volta de 1923 no trabalho de Magnus Hirschfeld.[10]

Em 1966, Harry Benjamim escreveu que pesquisadores do seu tempo achavam que a atração por homem, enquanto o sentindo a si próprio como mulher, era um fator que distinguia o transexualismo do transvestismo.[11]

Em 1980 no DSM-III, um novo diagnóstico foi introduzido o “302.5 Transexualismo” na sessão “Outras Desordens Psicossexuais”. Esta foi uma tentativa de fornecer uma categoria de diagnóstico para desordens de identidade de gênero.[12] A categoria de diagnóstico, transexualismo, era para indivíduos com disforia de gênero que demonstraram interesse por no mínimo dois anos consecutivo em mudar seus status físicos e sociais.[13] Os subtipos eram assexual, homossexual (mesmo “sexo biológico”) heterossexual (outro “mesmo sexo biológico) e indeterminado.[12] Isto foi removido no DSM-IV, no qual desordem de identidade de gênero foi substituída por transexualismo. Taxonomias anteriores, ou sistemas de categorização, usaram os termos transexual clássico ou verdadeiro transexual, termos uma vez usado em diagnósticos diferenciais.[11]

O sexólogo Ray Blanchard cunhou o termo Autoginefilia em 1989 para descrever transexuais MtF que eram sexualmente excitados pela ideia de ser uma mulher. Ele declarou que apesar de carecer de um termo especifico para descrever o conceito, havia evidencia para o conceito entre clínicos do século 20. Haverlock Ellis usou os termos eonismo e inversão sexo-estética para descrever comportamentos e sentimentos transgêneros similares.[14][15]

Terminologia[editar | editar código-fonte]

A literatura clínica de Freud, Blanchard e outros que consistente dividiram transexuais MtF, ou seja, mulheres transexuais, em dois grupos distintos:

  • transexuais homossexuais, pessoas que são sexualmente atraídas por homens (idealmente heterossexuais) e supostamente tem o desejo de possuir um corpo feminino para atrair eles,
  • fetichistas transvésticos heterossexuais, na qual o transexual supostamente acha a ideia de ter um corpo feminino excitante porém deseja ter uma parceira mulher heterossexual.[3]

Kurt Freund primeiramente distinguiu entre os dois tipos propostos num artigo de pesquisa de 1982, teorizando que os “homossexuais” transexuais são qualitativamente diferentes dos alegados “homens heterossexuais” com disforia de gênero.[16] O sexologista Ray Blanchard cunhou o termo “Autoginefilia” para descrever esta última categoria de pessoas.[3] Em um artigo de 2005 sobre o conceito de Ray Blanchard foi se observado que Freund foi provavelmente o primeiro autor a distinguir entre a excitação erótica devido a se vestir como uma mulher (transvestismo) versus excitação erótica, devido à transformação física em uma forma mais tipicamente feminina (autoginefilia).[17]

As observações de Blanchard no Instituto Clarke começaram por categorizar os transexuais MtF em quatro grupos baseados em suas supostas orientações sexuais: homossexual, heterossexual, bissexual e assexual (exemplo: mulheres transexuais atraídas por homens, mulheres, ambos, ou nenhum, respectivamente.)[18] Blanchard então conduziu uma série de estudos em pessoas que nasceram originalmente homens, e que possuíam disforia de gênero, incluindo transexuais MtF, e concluiu que existem apenas dois distintos transexuais.[19][2][20] Blanchard disse que um tipo de gênero disforia/transexualismo se manifesta em indivíduos que são exclusivamente atraídos por homens, a quem ele se referiu como transexuais homossexuais, adotando a terminologia de Freund.[20] O outro tipo que ele definiu incluía transexuais que sentem atração sexuais por mulheres (ginefílicos), que sentem atrações por ambos homens e mulheres (bissexual), e que não sentem atração por nenhum dos dois (assexual); Blanchard se referiu a isso posteriormente como transexuais não-homossexuais.[21][22] Blanchard diz que os "não-homossexuais" transexuais (mas não o "homossexuais" transexuais) exibem autoginefilia,[20] que ele definiu como um interesse parafilico em ter a anatomia feminina.[2][23][24][25]

Autoginefilia e autoandrofilia[editar | editar código-fonte]

Os termos alternativos propostos para a noção de autoginefilia incluem automonosexualidade, eonismo e inversão sexo-estética.[26] O DSM-IV-TR inclui uma definição essencialmente equivalente e reconhece a autoginefilia como uma ocorrência comum na desordem de Travestismo fetichista,[27] mas não classifica autoginefilia como uma desordem por si só.[28] O Grupo de Trabalho sobre parafilias do DSM 5 incluiu a autoginefilia e a autoandrofilia como subtipos do transtorno transvestico, uma proposta que foi rejeitada pela World Professional Association for Transgender Health (WPATH), indicando a falta de evidência empírica para a teoria. [29][30][31]

A autoginefilia é mais conhecida por seu uso na taxonomia de Blanchard para explicar a presença da disforia de gênero em transsexuais MtF "não-homossexuais" (ginefílicos), em contraste com a disforia de gênero observadas em transexuais "homossexuais" (androfílicos). A autoginefilia também tem sido sugerida pertencer a padrões de amor romântico bem como de excitação sexual.[32]

Blanchard fornece exemplos de casos para ilustrar as fantasias sexuais autoginefilicas que as pessoas relataram:[17]

Philip era um homem de 38 anos de idade, encaminhado para a clínica do autor para avaliação... Philip começou a se masturbar na puberdade, que ocorreu aos 12 ou 13 anos. A mais antiga fantasia sexual que ele se lembrava era o de ter um corpo de mulher. Quando ele se masturbava, imaginava que era uma mulher nua deitada sozinha em sua cama. Sua imagem mental se concentrava nos seios, vagina, a suavidade de sua pele e assim por diante, todos os traços característicos da psique feminina. Esta permaneceu como sua fantasia sexual favorita ao longo de sua vida.


De acordo com Blanchard, "Um autoginéfilo não necessariamente fica sexualmente excitado toda vez que se auto-retrata como uma mulher ou se dedica ao comportamento feminino, do mesmo modo que um homem heterossexual não tem automaticamente uma ereção sempre que vê uma mulher atraente. Assim, o conceito de autoginefilia - como o de heterossexualidade, a homossexualidade ou a pedofilia - se refere a um potencial para a excitação sexual".[23]

Blanchard classificou quatro subtipos de fantasias sexuais autoginefílicas, mas observou que "Todos os quatro tipos de autoginefilia tendem a ocorrer em combinação com outros tipos, em vez de por si só."[23][33]

  • Autoginefilia transv´sstica: excitação à fantasia de usar roupas tipicamente femininas
  • Autoginefilia comportamental: excitação à fantasia de fazer algo considerado como feminino
  • Autoginefilia psicol[ogica: excitação à fantasia de realizar funções corporais específicas das pessoas consideradas como femininas
  • Autoginefilia anatômica: excitação à fantasia de ter um corpo de mulher normativo, ou partes de um corpo de mulher

Também existem pessoas atribuídas como sendo do sexo masculino no nascimento que afirmam se sentirem sexualmente excitadas pela imagem ou ideia de ter algumas, mas não toda a anatomia feminina normativa, tais como seios, mas mantendo o seu pênis e testículos; Blanchard se refere a este fenômeno como autoginefilia parcial[34][35]

Para testar a possibilidade de que as mulheres natas também podem experimentar autoginefilia, Moser (2009) criou uma Escala de autoginefilia para mulheres com base em itens usados para categorizar transexuais MtF (homem para mulher) como autoginéfilos em outros estudos. Um questionário que incluía a Escala foi distribuído a uma amostra de 51 mulheres empregadas em um hospital urbano; 29 questionários preenchidos foram devolvidos para análise. Pela definição comum de ter excitação erótica para o pensamento ou a imagem de si mesmo como uma mulher, 93% dos entrevistados seriam classificados como autoginéfilos. Usando uma definição mais rigorosa de excitação "frequente" para vários itens, 28% seriam classificados como autoginéfilos. [36] No entanto, em uma resposta ao papel, Lawrence (2009) criticou a metodologia e as conclusões de Moser, e afirmou que a verdadeira autoginefilia ocorre muito raramente, ou nunca, em mulheres natas.[37]

DSM-5[editar | editar código-fonte]

No DSM-5, publicado em 2013, Com autoginefilia (se excita sexualmente por pensamentos ou imagens de si mesmo como mulher) é especificado em 302.3 Transtorno transvéstico (excitação sexual intensa à fantasias de crossdressing, impulsos ou comportamentos); a outra especificação Com fetichismo (se excita sexualmente por tecidos, materiais peças do vestuário).[27][38]

Autoandrofilia e autoandrofobia[editar | editar código-fonte]

O termo análogo autoandrofilia refere-se a uma pessoa atribuída ao sexo feminino ao nascer que se sente sexualmente excitada pelo pensamento ou imagem de ser um homem.[39] Foi classificada como um tipo de fetichismo transvestico em uma proposta de revisão do DSM-5,[40] mas não incluída na versão final. Há poucos trabalhos sobre autoandrofilia,[41] e em uma entrevista para a revista Vice , Blanchard afirmou: "Propus simplesmente para não ser acusado de sexismo, porque há todas essas mulheres que querem dizer as mulheres podem violentar, mulheres podem ser pedófilas também, as mulheres podem ser exibicionistas também. É uma expressão perversa do feminismo, e assim, pensei, deixe-me corrigir isso. Eu não acho que o fenômeno existe."[42]

Autoandrofobia (do grego αὐτό- ("si mesmo"), ἀνήρ ("homem") e φόβος ("medo") — "medo de si mesmo como homem") é um termo relacionado, mas diferente para autoginefilia que foi cunhado por Moser (2010). Alguns transsexuais Homem-para-mulher que não podem fazer uso do estrogênio (por exemplo, devido a Trombose venosa profunda) descobriram que usar apenas antiandrógenos foram suficientes para conter suas disforia de gênero. Isso sugere que transsexuais homem-para-mulher asão motivados a fazer a transição não apenas por um interesse em possuir características femininas, mas também pelo desejo de bloquear características masculinas. De acordo com Moser, "o desejo de bloquear outros interesses sexuais não é característica de indivíduos com uma parafilia."[43]

Referências

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  5. Bailey 2003, p. 183-184.
  6. Bailey 2003, p. 179.
  7. Bailey 2003, p. 172.
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Bibliografia[editar | editar código-fonte]