Coligay

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Coligay.png

A Coligay foi uma torcida organizada do Grêmio Footbal Porto-Alegrense integrada exclusivamente por homossexuais e criada no fim da década de 1970, mais especificamente em 1977. Foi fundada em Porto Alegre por um grupo de torcedores frequentadores da antiga boate LGBT "Coliseu", que se situava na Avenida João Pessoa, 1281. A torcida foi idealizada pelo gerente da boate, Volmar Santos e César D'Agord, hoje morando em Eugene, Oregon, USA.

Para fazer parte da torcida, exigia-se que os indivíduos fossem LGBTs - a maioria dos integrantes da torcida eram homens homossexuais - e torcedores gremistas.

A torcida existiu em plena época de ditadura civil-militar, quando havia muita repressão por parte do Estado. Há relatos inclusive de que a Delegacia de Costumes estava vigiando a torcida[1], ainda que não se tenha relatos de qualquer tipo de ação contra os torcedores. De qualquer maneira, a torcida contava com apoio de advogados para caso houvesse represália.

História[editar | editar código-fonte]

Em conversas informais, na boate Coliseu, muitos desses frequentadores afirmavam ir aos jogos do Grêmio, seu time de coração, apesar do ambiente hostil à presença de homossexuais. Volmar Santos, o idealizador, dizia-se "sempre torcedor doente do Grêmio"[2] e, a partir das observações sobre a torcida nas suas idas ao Estádio Olímpico Monumental, estádio do Grêmio, teve a ideia da Coligay: "A Coligay era uma ideia muito antiga, eu já pensava nisto há muito tempo. Eu sou gremista fanático desde que nasci e sempre tive vontade de organizar uma torcida. Achava que os torcedores do Grêmio eram muito parados, que não sabiam incentivar o time. Então, no início deste ano, quando eu senti o Grêmio realmente iria ser o campeão, decidi formar o grupo". A origem etimológica do nome da torcida faz referência à boate e à orientação sexual de seus adeptos.

Estava, portanto, criada a torcida organizada Coligay. Chino Gaúcho, de Charqueadas-RS, foi eleito o presidente da torcida e como vice, foi escolhido Volmar Santos, gerente da boate Coliseu. A estreia da torcida deu-se no estádio Olímpico, em 9 de abril de 1977, durante o Brasileirão, em uma partida entre Grêmio e Santa Cruz de Santa Cruz do Sul.

A torcida realizava ensaios todos os sábados à tarde e, preparando-se para qualquer tipo de agressão possível - uma vez que sentiam-se ameaçados no ambiente do estádio, extremamente machista e LGBTfóbico -, Volmar instruiu os integrantes a fazerem aulas da karatê para defesa pessoal.

A Coligay foi uma torcida fiel, que acompanhou o time do Grêmio por todo o interior do estado do Rio Grande do Sul. Os coliboys, como eram chamados, chegaram a alugar uma kombi para viagens ao interior. A atuação da torcida também era política, tendo em 1978 apoiado a reeleição do então presidente Hélio Dourado, além de participarem de campanha para a conclusão das obras do estádio Olímpico[3]. Também participaram de eventos beneficentes de diversas naturezas[4]

A torcida acabou virando um amuleto do time: após grande jejum de títulos, justamente em 1977 o Grêmio voltou a ser campeão. A fama de pé quente foi tanta que até mesmo o presidente do Cortinthians fez um convite para que os torcedores fossem à São Paulo para romper um jejum de títulos que já superava os vinte anos, arcando inclusive com os custos da viagem[5]. E deu certo, naquela ocasião o clube ganhou o jogo e foi campeão do campeonato paulista.

Na década de 80, Volmar precisou voltar para Passo Fundo, sua terra natal, por motivos pessoais. Com a ausência do criador, a torcida foi perdendo força, até sua extinção em 1983.

Torcedores da Coligay.jpg

Hino[editar | editar código-fonte]

"Nós somos da Coligay

com o Gremio eu sempre estarei.

Rebola pra frente, campeão novamente.

É Grêmio, força e tradição.

Sou tricolor pra valer, pra vibrar e vencer, para o que der e vier.

Nós, Coligay de pé-quente, estaremos presente onde o Grêmio estiver"

Repercussão[editar | editar código-fonte]

A presença de uma torcida assumidamente homossexual gerou reações de hostilidade entre os demais torcedores gremistas, dirigentes tricolores e torcedores adversários, ocasionando cenas constantes de agressões, na tentativa de intimidar e coibir as manifestações da Coligay, tanto em partidas no Olímpico, como nos demais estádios pelo país. Os próprios dirigentes do clube à época demonstravam um comportamento de complacência às reações homofóbicas, recusando-se a falar sobre o assunto, como por exemplo fez, o então presidente do Grêmio Hélio Dourado. A torcida, apesar de desejar o reconhecimento do clube, queria ser totalmente independente do clube. Afirmava que estavam ali para apoiar o time, não para ser dependentes dele[6].

Recém-criada, a Coligay foi noticiada na revista Placar. O jornalista da revista descreveu a torcida da seguinte maneira:

“Numa coisa a Coligay é inatacável: Um tanto quanto afastado das outras torcidas organizadas do clube — a Força Azul e a oficial Eurico Lara —, aquele grupinho de torcedores se despertou algum sentimento de quem observava à distância foi de surpresa: superava em animação as outras duas, batendo seus tambores e berrando o tempo todo em um jogo que o time levava fácil”.[7]

“A cozinha foi reforçada, sob o comando do famoso percussionista Neri Caveira, chegando a abafar os tímidos repiques da Força Azul, eles passaram a levar faixas identificativas, a bailar — rebolando e levantando graciosamente o pezinho — e, quando uma bola raspava a trave defendida pelo goleiro do Grêmio, juntavam as palmas das mãos e soltavam agudos gritos de emoção”.[7]

Sobre as agressões dos próprios gremistas, o vice-presidente Volmar Santos teria afirmado para a referida revista:

“O que eles não entendem é que antes de tudo somos gremistas, que vibramos de paixão pelo nosso clube. Toda essa turma que está aí já vinha ao estádio há muito tempo, e a única diferença é que agora estamos reunidos, torcendo numa boa, na nossa, entende?” Entre comentários de desaprovações e indiferença, Jorge, o então presidente da Força Azul, teria dito: “É tudo Grêmio!”.[7]

Sobre a recepção de outras torcidas, há relato que os próprios torcedores do Inter pediram para entrar na torcida gremista, mas que foram barrados justamente por serem colorados. A iniciativa também inspirou torcedores de outros clubes a criarem suas próprias torcidas LGBTs. Em 1979 é criada "Fla-gay", do Flamengo e a Fo-gay, do Botafogo.

Faixa da Coligay na Torcida do Caracas.jpg

Memória da Coligay[editar | editar código-fonte]

Diversas vezes os clubes rivais utilizam a Coligay para associar o Grêmio e sua torcida à homossexualidade de maneira pejorativa. Em 2009, em um jogo contra o Caracas, válido pelas quartas de final da Copa Libertadores, foi vista uma faixa da Coligay. Provavelmente se tratava de uma provocação dos torcedores rivais, já que a faixa não estava no setor destinado à torcida visitante no Estádio Olimpico de Caracas[8].

O clube institucionalmente não faz muitas referências à histórica torcida, tendo apenas um pequeno setor do estádio dedicado à memória dela.

Referências

  1. FONSECA, D. Para o que der e vier. PLACAR, nº 370, 27 mai. 1977, p. 50.
  2. author., Gerchmann, Léo,. Coligay : tricolor e de todas as cores. [S.l.: s.n.] ISBN 9788588412903. OCLC 908392307 
  3. COLIGAY. Zero Hora. Porto Alegre, 30 set. 1978. Caderno Esportes, Coluna Bola Dividida, p. 38.
  4. COLIGAY BENEFICENTE. Zero Hora. Porto Alegre, 16 ago. 1977. Caderno Esportes, Coluna Bola Dividida, p. 34.
  5. COLIGAY presente. Zero Hora. Porto Alegre, 13 out. 1977. Caderno Esportes, Coluna Bola Dividida, p. 39.
  6. COLIGAY presente. Zero Hora. Porto Alegre, 13 out. 1977. Caderno Esportes, Coluna Bola Dividida, p. 39.
  7. a b c Revista PLACAR, nº 869, 26/jan/1987 Página 80 - Reprodução online: Placar Magazine - Google Livros
  8. Marcos, Mário (29 de maio de 2009). «Quem terá levado a faixa?». Consultado em 10 de outubro de 2018 

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

  • BARBOSA, Camila. "São bichas, mas são nossas": análise do surgimento e consolidação da Coligay como uma torcida organizada autoafirmada homossexual (1977-1980). 2018. TCC (Graduação) - Curso de História, UFRGS, Porto Alegre, 2018. Disponível em: <http://hdl.handle.net/10183/182378>. Acesso em: 18 out. 2018.
  • BANDEIRA, Gustavo Andrada. Do Olímpico à Arena: elitização, racismo e heterossexismo no currículo de masculinidade dos torcedores de estádio. 2017. 342 f. Tese (Doutorado em Educação) - Faculdade de Educação, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2017.
  • GERCHMANN, Léo. Coligay: Tricolor e de todas as cores. Porto Alegre: Libretos, 2014.
  • Pinto, Maurício Rodrigues (25 de maio de 2018). «Coligay: o desbunde guei que ganhou os estádios brasileiros». Ludopédio. Consultado em 3 de junho de 2018 
  • PIRES, Breiller. Em plena ditadura, a torcida Coligay mostrava a cara contra o preconceito. Disponível em: https://brasil.elpais.com/brasil/2017/04/07/deportes/1491595554_546896.html. Acesso em: 12 nov. 2017.