Cooperação Sul-Sul

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Países da OSCE, em verde, e os demais países do mundo, considerados o "Sul Global", em cinza: uma das clássicas representações da divisão Norte-Sul global.

A cooperação Sul-Sul é o processo de articulação política e de intercâmbio econômico, científico, tecnológico, cultural e em outras áreas entre países em desenvolvimento (conhecidos até os anos 1990 como nações do Terceiro Mundo, e hoje chamados de Sul Global), para fins de promover o desenvolvimento. O termo "sul" se deve ao fato de grande parte desses países se localizarem no hemisfério sul, embora haja vários deles cujo território se localiza parcial ou integralmente no hemisfério norte. Basicamente, a cooperação Sul-Sul inclui países da África, Ásia e América Latina, além dos pequenos países do Caribe e da Oceania.

A cooperação Sul-Sul pode ou não, segundo diferentes critérios, incluir as trocas exercidas entre os chamados países emergentes, como BRICs e IBAS. Também pode se dar em nível global (como na ONU, no Movimento Não-Alinhado e no Grupo dos 77) ou regional (como no Mercosul e na CEDEAO).

História[editar | editar código-fonte]

A cooperação Sul-Sul tem início com o processo de descolonização, ainda no contexto da Guerra Fria, entre o fim da Segunda Guerra Mundial e os anos 1970. Era "Sul-Sul" toda relação entre os países que tinham acabado de ficar independentes, a maioria deles em estágio de extrema pobreza. Isso se dava em contraste com as relações das ex-colônias com as potências (Norte-Sul) e entre os próprios países industrializados (Norte-Norte), fossem eles socialistas ou capitalistas. As relações Sul-Sul eram, muitas vezes, sob influência de interesses das duas grandes potências da bipolaridade: os Estados Unidos e a União Soviética.

A cooperação Sul-Sul tem origens ideológicas no anti-imperialismo, que por sua vez recebeu muita influência de correntes marxistas. A ajuda mútua entre os países pobres era uma forma de fomentar o desenvolvimento sem prejudicar sua soberania.

Um primeiro marco das relações Sul-Sul foi a Conferência Afro-Asiática de Bandung, na Indonésia, em 1955. Lá, ficaram definidos os princípios da ideologia diplomática do não-alinhamento, que em seguida daria origem ao Movimento dos Países Não-Alinhados. Esse movimento reuniu a maior parte dos países do mundo e representou os interesses das nações subdesenvolvidas em fóruns multilaterais (como a ONU), ao mesmo tempo em que promovia a cooperação entre esses mesmos países, dando origem à cooperação Sul-Sul.

Alguns dos principais defensores da cooperação Sul-Sul foram líderes como Josip Broz Tito (Iugoslávia), Jawaharlal Nehru (Índia), Sukarno (Indonésia), Gamal Abdel Nasser (Egito), Muammar Ghaddafi (Líbia) e Saddam Hussein (Iraque) — muitos dos quais foram ditadores, e não presidentes eleitos democraticamente em seus países. Entre os intelectuais estudiosos do assunto, destacaram-se também Mustapha Masmoudi (Tunísia), Samir Amin (Egito), Tariq Aziz (Iraque) e Samuel Pinheiro Guimarães (Brasil).

Em 1978, a ONU criou a Unidade de Cooperação Sul-Sul para promover o comércio Sul-Sul e a colaboração dentro de suas agências. No entanto, a ideia de cooperação Sul-Sul só começou a influenciar o campo do desenvolvimento na prática no final dos anos 1990. A cooperação Sul-Sul tem conseguido diminuir a dependência dos programas de ajuda dos países desenvolvidos e na promoção de uma mudança no jogo de poder internacional.

O fim da Guerra Fria, entre 1989 e 1991, gerou um grande desafio para a cooperação Sul-Sul, que durante décadas se equilibrou sobre o jogo de forças entre as duas superpotências. Com o desaparecimento da União Soviética e do bloco socialista, os países em desenvolvimento perderam tanto o lastro da cooperação socialista quanto o interesse norte-americano em promover ajuda internacional para evitar que entrassem na esfera de influência soviética. Esse foi o caso de países da África, que deixaram de ser objeto de interesse geopolítico de EUA e URSS ao mesmo tempo. Nesse vácuo de poder e intercâmbio econômico, a China é uma potência que vem ocupando gradativamente maior espaço.

Devido ao espectro geográfico, grande parte dessa cooperação se dá no eixo agora conhecido como ASA (América do Sul-África), no Atlântico Sul. A cooperação ASA até agora realizou duas cúpulas: a primeira foi em Abuja, na Nigéria, em 2006, com 53 delegados da África e 12 da América do Sul; a segunda foi na Ilha Margarita, na Venezuela, em setembro de 2009, da qual participaram 49 chefes de Estado da África e 12 da América do Sul.

Cooperação econômica[editar | editar código-fonte]

Um dos principais objetivos da cooperação é fortalecer e melhorar as relações econômicas entre os países em desenvolvimento. Algumas das áreas em que as nações do Sul esperam melhorar são os investimentos conjuntos em energia e petróleo, o comércio diversificado e a criação de um banco comum. Entre outros acordos regionais de comércio fechados durante a cúpula de 2009 esteve um entre a Venezuela e a África do Sul no setor de petróleo e um memorando de entendimento com Serra Leoa para formar uma empresa de mineração conjunta. Enquanto isso, o Brasil desenvolveu um modelo cada vez mais bem-sucedido de ajuda exterior, com orçamento de mais de US$ 1 bilhão por ano (à frente de muitos doadores tradicionais), concentrado na troca de experiência técnica e em transferência de tecnologia. A forma brasileira de desenvolvimento Sul-Sul tem sido chamada de "modelo global em ascensão".

Os continentes africano e sul-americano têm, juntos, mais de um quarto dos recursos de energia do mundo. Isso inclui a reservas de petróleo e gás natural de Bolívia, Brasil, Equador, Venezuela, Argélia, Angola, Líbia, Nigéria, Chade, Gabão e Guiné Equatorial.

Articulação política[editar | editar código-fonte]

Outra área em que alguns dos líderes do Sul pretendem ver maior evolução é na arena política. Para eles, a cooperação deveria dar aos subdesenvolvidos maior poder político quando se trata de arena global. Por meio da articulação diplomática entre os governos dos países pobres, tem-se o objetivo de defender posições comuns, falando em uníssono e votando em bloco em fóruns multilaterais. Isso ficou evidente, por exemplo, nas negociações da rodada de Doha em que a Índia teve papel ativo e representou interesses de outros países do Sul frente às doutrinas liberais de comércio internacional de países do Norte.

Algumas lideranças também esperam que a cooperação ofereça maior liberdade na escolha de sistemas políticos. Por exemplo, o venezuelano Hugo Chávez diz esperar usar a cooperação Sul-Sul como um palco para ampliar o alcance de sua mensagem do socialismo do século XXI.

Segurança e defesa[editar | editar código-fonte]

As responsabilidades de paz e segurança também estão no topo da agenda para a cooperação. Durante a cúpula de 2009, o Coronel Ghaddafi propôs uma aliança de defesa entre os dois continentes, chamando uma aliança possível de "OTAN do Sul" (sendo que o N OTAN é referência ao Norte). Este tipo de aliança pretenderia atuar como uma alternativa para o Conselho de Segurança da ONU, em que não há nenhum dos membros permanentes dos dois continentes.

Desafios e críticas[editar | editar código-fonte]

Independentemente de um contínuo interesse de muitos países da África e da América do Sul, a cooperação Sul-Sul ainda enfrenta grandes desafios. Um exemplo é a falta de capital suficiente para fundar um "Banco do Sul" como alternativa para o FMI e o Banco Mundial.

A crítica mais evidente é que há apenas algumas vozes ainda ouvidas. Essas vozes são, muitas vezes, partidas dos países relativamente ricos e mais poderosos do Sul (como Brasil, a África do Sul, o Irã e a Venezuela).

Ver também[editar | editar código-fonte]

Organizações[editar | editar código-fonte]

Conceitos[editar | editar código-fonte]