Ricardo Costa (cineasta)

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Ricardo Costa
Ricardo Costa aos 63 anos
Nascimento 25 de janeiro de 1940 (78 anos)
Peniche
Nacionalidade português

Ricardo Costa (Peniche, 25 de Janeiro de 1940), cineasta e produtor cinematográfico português, é também autor de artigos e ensaios, na sua maioria sobre cinema, visão e linguagem.

Obra[editar | editar código-fonte]

A maior parte dos filmes que realiza têm sido na área do documentário, associado a um estilo ficcional (docuficção e etnoficção), usando as técnicas do cinema directo. A sua primeira longa-metragem intitula-se Avieiros, obra que se insere, como documentário, na linha do Novo Cinema português. Utiliza técnicas do cinema directo não apenas enquanto ferramenta na prática da etnografia de salvaguarda mas também como instrumento que lhe permite compor uma narrativa poética, sóbria e musical,[1] podendo interessar tanto a cinéfilos como a um público mais vasto.

Filmada no limiar do documentário e da ficção, Brumas é a sua ante-penúltima longa metragem (60º Festival de Veneza, 2003New Territories). Estreia em Nova Iorque no Cinema QUAD, em março de 2011. É o primeiro filme de uma trilogia sobre a errância. Derivas, o segundo, é "um retrato de Lisboa traçado pelas andanças de dois veneráveis irmãos desfasados que vagueiam pela cidade" e ao mesmo tempo retrato de uma geração (autobiografia, docuficção, comédia). Teve estreia em 2016.[2] O último filme desta trilogia, Arribas (Cliffs), é um retorno do protagonista aos locais de Brumas, sua terra natal, e uma viagem no tempo. Aí se confronta com situações surpreendentes e com personagens inquietantes.

Biografia[editar | editar código-fonte]

Estuda na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa até 1967, onde defende tese sobre os romances de Franz Kafka (Franz Kafka, Uma Escrita Invertida - 1969).[3] Lecciona no ensino secundário e torna-se editor de textos sociológicos e de obras de vanguarda, de literatura, de teatro e de cinema na MONDAR editores.

Com o 25 de Abril em 1974, ao mesmo tempo que colabora com o redactor Horst Hano da cadeia de televisão alemã ARD e com a norte-americana CBS na cobertura dos acontecimentos da época em Portugal, inicia-se como realizador e produtor. Faz parte da cooperativa Grupo Zero, com João César Monteiro, Jorge Silva Melo, Alberto Seixas Santos, Margarida Gil, Solveig Nordlund e Acácio de Almeida. Torna-se depois produtor independente com a Diafilme, onde produz muitos dos seus filmes e alguns de outros realizadores. Organiza projecções, em Paris, na Cinemateca Francesa e no Museu do Homem[4][5]

Mau Tempo, Marés e Mudança, a segunda longa-metragem de Ricardo Costa é, juntamente com Gente da Praia da Vieira (1976), de António Campos, e com Trás-os-Montes, de António Reis e de Margarida Cordeiro, uma das primeiras docuficções do cinema português. Obras do mesmo ano, têm como precursoras O Acto da Primavera (1962), de Manoel de Oliveira, e Ala-Arriba! (1948), de Leitão de Barros. Caracterizam-se ainda estas obras como sendo etnoficções.

De algum modo movidos pela ideia que explica a máxima do sociólogo e antropólogo francês Marcel Mauss (Há mais poesia num grão de realidade do que no cérebro dos poetas), alguns cineastas portugueses, em particular no pós 25 de Abril, percorrem o seu país de ponta a ponta, câmara nas mãos, praticando a sua etnografia de salvaguarda. Com apoios oficiais ou em co-produções com a RTP (Rádio Televisão Portuguesa), uns apostam no cinema militante fazendo filmes marcantes, não despojados de encanto, outros filmes em que a realidade se revela com essa espessura poética de que Mauss falava. Filmes feitos com baixos orçamentos, mas em total liberdade. O "cinema de intervenção", género em que quase toda essa produção se encaixa, reinaria por alguns anos e deixaria obras marcantes ou mesmo notáveis, muitas delas entretanto esquecidas.

Tenaz na sua independência, mais empenhado na expressão da verdade que na verosimilhança, Ricardo Costa, que se identifica mais com essa simples ideia do que com o propósito de mudar o mundo, cultiva um estilo em que o real se transfigura em expressão poética, em retrato, em ponto de interrogação sobre um tempo que escapa ao tempo, sem se cingir ao lugar em que, filmada, a tal realidade se manifesta. A mise-en-scène, a vertente ficcional, será na sua obra uma tentação permanente.

Nesta perspectiva, segue a tradição da antropologia visual, iniciada no cinema português por Leitão de Barros (incluindo a docuficção e a etnoficção), tradição essa praticada por Manoel de Oliveira e por António Campos : Oliveira com Douro, Faina Fluvial, 1931, depois com o Acto da Primavera (1963), e Campos com a Almadraba Atuneira (1961). Seguem a mesma tradição António Reis, João César Monteiro, na ficção, e ainda Pedro Costa, este num registo urbano (ver: Novo Cinema).

Manuel Pardal (direita) com um amigo fazendo frente ao capataz
Verde por fora.jpg

Filmografia[editar | editar código-fonte]

Longas-metragens[editar | editar código-fonte]

Trilogia LONGES:

Outros géneros[editar | editar código-fonte]

Curtas e médias-metragens[editar | editar código-fonte]

Série Mar Limiar para a RTP[editar | editar código-fonte]

1974
1975
  • Tresmalho (27')
  • O Trol (25')
  • O Arrasto (29')
  • Oceanografia Biológica (28')
  • Ti Zaragata e a Bateira (27') - 1ª parte de Avieiros
  • Pesca da Sardinha (29')
  • Conchinha do Mar (26')
  • Às Vezes Custa (26')
  • A Sacada (26')
1976
  • Os Irmãos Severo e os Cem Polvos (29')
  • À Flor do Mar (29')
  • A Colher (29')
  • O Velho e o Novo (28')
  • A Falta e a Fartura (26')
  • Quem só muda de Camisa (28') - 2ª parte de Avieiros
  • A Máquina do Dinheiro (28')
  • Viver do Mar (28')
  • Uma Perdiz na Gaiola (26')
  • O Rei dos Peixes (27')
  • Nas Voltas do Rio (30') - 3ª parte de Avieiros
  • O Submarino de Vidro (28')
1977

Outras curtas-metragens[editar | editar código-fonte]

1976
1977
1978
  • Música do Quotidiano (25')
1979
  • A Feira (8')
  • A Lampreia (10’)
  • O Pisão (9’)
  • A Coca (10’)
  • O Outro Jogo (10’)
  • Dezedores (8’)
1980
  • Barcos de Peniche (13’)
  • O Queijo da Serra (8’)
  • Histórias de Baçal (10’)
  • Esta Aldeia, Rio de Onor (10’)
  • O Jogo da Malha em Benespera (10’)
  • Vimes de Gonçalo (11’)
1981
  • O Parque Nacional de Montesinho (37’)
1982
  • Lisboa e o Mar (Lisbon and the International Court for the Law of the Sea - para a UNESCO) - (38')
2015

Artigos[editar | editar código-fonte]

Os artigos sobre cinema, visão e linguagem são os seguintes :

Ensaios[editar | editar código-fonte]

Reunidos sob a designação A Linha do Olhar (cinema e transfiguração, percepção e imagem)

  • 1997 - Os olhos e o cinema
  • 2000 - Olhos no ecrã
  • 2002 - Os olhos da ideia

Textos pedagógicos[editar | editar código-fonte]

  • 2010 - Linguagem do cinema

Referências

  1. Ricardo Costa e o fluir das imagens – artigo de José de Matos-Cruz
  2. Página de Derivas
  3. Biografia de Ricardo Costa na Faculdade de Letras de Lisboa
  4. Ciclo de filmes portugueses em Paris
  5. Cinemateca Francesa homenageia dupla Reis-Cordeiro – artigo de no Ipsilon, jornal Público, 30 de Setembro de 2002
  6. Abril no Minho no IMDB
  7. Les œillets d'avril, entretien, revue Latitudes (Cahiers Lusophones) nº6, septembre 1999, Paris
  8. O festival de Verão que faz a história do cinema desconhecido – artigo de Jorge Mourinha, jornal Público, 9 julho 2016
  9. E do mar nasceu : a revolução – notícia, Press Reader, 9 julho, 2016
  10. O Curtas no limbo, entre o céu e o inferno, o amor e o desejo – artigo de Jorge Mourinha, jornal Público, 12 julho 2016
  11. E viemos nascidos do mar – artigo de Alexandra João Martins, jornal Público, 14 julho 2016
  12. Curtas Vila do Conde. Documentário sobre as Caxinas estreia 39 anos depois – notícia, jornal Observador, 17 julho, 2016
  13. Curtas Vila do Conde despede-se este domingo – notícia, Porto 24, 17 julho 2016

Ver também[editar | editar código-fonte]

Ligações externas[editar | editar código-fonte]