Cemitério São Paulo

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Entrada principal na Rua Cardeal Arcoverde.

O Cemitério São Paulo, também denominado Necrópole São Paulo[1] , é um dos 22 cemitérios mantidos pelo Serviço Funerário do Município de São Paulo, no Brasil.[2] Localiza-se na Rua Cardeal Arcoverde[3] , entre os bairros de Pinheiros e Vila Madalena.

Foi inaugurado em 1926[4] , como reflexo da superlotação nos aristocráticos cemitérios da Consolação e do Araçá, tornando-se um novo local para abrigar os jazigos da elite paulistana.[5] Possui 104 mil metros quadrados de área[6] e registra mais de 140 mil sepultamentos desde sua fundação.[4]

Abriga um grande número de mausoléus e monumentos funerários projetados por escultores de renome, como Victor Brecheret, Galileo Emendabili e Luigi Brizzolara, destacando-se algumas obras de referência na arte tumular do país.[3] [6] [7]

História[editar | editar código-fonte]

Após a criação do Cemitério da Consolação em 1858, encerrou-se em São Paulo a prática de sepultar as pessoas nas criptas das igrejas, criticada por razões sanitárias desde 1820. A secularização do sepultamento também representou o fim do hábito de marcar a posição social dos defuntos por meio de sua localização no interior das igrejas, mais ou menos próxima do altar. O então denominado Cemitério Municipal passaria a atender a todos os estratos sociais, de escravos a fazendeiros. Surge nesse contexto o hábito recorrente entre a elite paulistana de homenagear os amigos e familiares falecidos com obras tumulares monumentais, à altura de sua importância social, como forma de perpetuar após a morte a distinta posição social adquirida em vida.[8]

Capela do Cemitério São Paulo.
Mausoléu da família Varam Keutenedjian, de autoria de Galileo Emendabili.

Entre o fim do século XIX e o começo do século XX, a prosperidade advinda do plantio do café e da incipiente industrialização ocasionou profundas mudanças no perfil sócio-econômico da cidade. A criação de novos cemitérios nesse período – como os do Araçá (1887), da Quarta Parada (1893) e do Chora Menino (1897) – permitiu a “estratificação social” da atividade funerária.[9] [10] Cercados por incipientes bairros nobres, os cemitérios da Consolação e do Araçá passaram por um processo de elitização, consolidado nas duas primeiras décadas do século XX. Converteram-se em “museus de arte” a céu aberto, passando a abrigar um grande número de jazigos luxuosos e monumentos funerários encomendados por barões do café, industriais, intelectuais, médicos, juristas e pessoas públicas a escultores de renome.[3] [8]

Com a superlotação do Cemitério da Consolação e a ocupação da área verde contígua ao Cemitério do Araçá, surgiu a necessidade de um novo local para sepultar a elite econômica e social da cidade. O Cemitério São Paulo surgiria, portanto, como um "prolongamento" dessas duas necrópoles.[5] Os planos para construí-lo datam de 1920, quando a prefeitura autorizou a aquisição do terreno de propriedade dos padres passionistas, no bairro de Pinheiros[6] . A construção do cemitério ficou a cargo do mestre-de-obras Caetano Antônio Bastianetto[6] e de operários espanhóis, italianos e portugueses, que se converteram nos primeiros moradores do nascente bairro de Vila Madalena.[11] O cemitério foi inaugurado em 1926, o último ano de gestão do prefeito Firmiano de Morais Pinto.

Nas décadas seguintes, aos jazigos das famílias tradicionais da cidade, somaram-se túmulos, mausoléus e monumentos encomendados por famílias de imigrantes bem-sucedidos, nomeadamente das comunidades italiana e sírio-libanesa, com o intuito de firmar uma posição social recém-adquirida, além de artistas, militares, atletas, pequenos e médios empresários que haviam prosperado após o estabelecimento da sociedade do trabalho livre.[5] [7] [8]

Muitos dos escultores comissionados para executar os jazigos eram imigrantes europeus, sobretudo italianos, ou artistas brasileiros de formação européia, bastante valorizados por seu conhecimento de técnicas e tendências artísticas então pouco divulgadas no país. Obras encomendadas a Victor Brecheret, Bruno Giorgi, Luigi Brizzolara, Galileo Emendabili e Nicola Rollo, entre outros, transformariam o Cemitério São Paulo em uma importante referência para a arte tumular brasileira. Uma comissão estabelecida durante a segunda administração do prefeito Jânio Quadros (1986-1988) identificou 180 peças de importância artística no local. Projetos para explorar o potencial turístico e didático deste e de outros cemitérios da cidade têm sido elaborados desde a década de 1980, mas com poucos resultados práticos.[8]

Victor Brecheret: Túmulo da família Scuracchio.

Personalidades sepultadas[editar | editar código-fonte]

Desde sua fundação, o Cemitério São Paulo contabiliza mais de 140 mil sepultamentos.[4] [6] Dentre as personalidades enterradas no local encontram-se os políticos Pedro de Toledo, Auro de Moura Andrade e Prestes Maia; os escritores Menotti Del Picchia, Paulo Duarte; os artistas Victor Brecheret, Aldo Bonadei e Nicola Rollo; o cineasta Walter Hugo Khouri; o cartunista Belmonte; o fazendeiro e político Damásio Pires Pimentel, a sua senhora, a aristocrata paulista Elvira Herminia Penteado Pimentel e o seu genro, o Magistrado e Jurisconsulto Flávio Augusto de Oliveira Queiroz, assim como a sua senhora, Julieta Penteado Pimentel de Queiroz (Da. Yaya); a filantropista Lucy de Queiroz; o arquiteto Amador Cintra do Prado - neto do Barão de Campinas, e a sua senhora, Myrthes Pimentel Cintra do Prado; o engenheiro e diretor da EMURB Greenhalg Parnaíba Paoliello - bisneto do Barão de Cabo Verde; o corredor de Fórmula 3, jornalista da TV Globo e responsável por trazer a Fórmula 1 para o Brasil Antonio Carlos Scavone, falecido no acidente de avião na cidade de Orly em 1973; os empresários José Ermírio de Moraes, Nicolau Scarpa, Salim Farah Maluf, Fuad Lutfalla, e engenheiro idealizador do Pró-álcool Lamartine Navarro Júnior - trineto do Barão de Cabo Verde, e Conselheiro da Associação Comercial de São Paulo Flavio de Queiroz Filho, e publicitário João Dória; o jurista Miguel Reale, o médium Carmine Mirabelli, entre outros. Abriga também o jazigo do general Miguel Costa, comandante da Coluna Prestes, túmulos de combatentes mortos na Revolução Constitucionalista de 1932 e dos estudantes Dráusio Marcondes de Sousa e Orlando de Oliveira Alvarenga, símbolos do movimento. Foi sepultado também o corpo do jovem jornalista Theo Dutra, morto em grave acidente de carro em 1973, conhecido com suas reportagens sobre a cidade de São Paulo.[carece de fontes?]

No começo da década de 1950, o sepultamento de Maria Izilda de Castro Ribeiro, a “Menina Izildinha”, no Cemitério São Paulo marcou o local como ponto de peregrinação. Os restos mortais da Menina Izildinha foram transferidos para Monte Alto, no interior paulista, em 1958.[12] O cemitério abriga também o Mausoléu dos Esportistas, onde estão enterrados Arthur Friedenreich, primeira grande estrela do futebol brasileiro[13] , e o goleiro Tuffy Neugen, entre outros.

Em junho de 2014 ocorre o sepultamento do célebre futebolista Oberdan Cattani, o último jogador a ter jogado pelo Palestra Italia (atual Palmeiras), time que defendeu como goleiro nas décadas de 40 e 50.

Em julho de 2014, ocorre o sepultamento do médico e comentarista esportivo, o Dr. Osmar de Oliveira.

O ex delegado do DOPS Sérgio Paranhos Fleury, falecido em 1979, encontra-se sepultado neste cemitério.

Arte tumular[editar | editar código-fonte]

Alfredo Oliani: Último adeus (túmulo da família Cantarella).
Galileo Emendabili: Túmulo da família Forte ("túmulo do pão").

Entre as últimas décadas do século XIX e meados do século XX, as encomendas geradas no âmbito da arte cemiterial constituíram-se em um dos maiores mercados consumidores de esculturas no país. No Cemitério São Paulo, há 180 obras consideradas de valor artístico, executadas em sua maioria por artistas italianos e brasileiros formados na Europa.[8] Posterior em muitas décadas ao Cemitério da Consolação, onde se concentra um numerosa estatuária de inspiração acadêmica e de iconografia majoritariamente cristã, no Cemitério São Paulo predominam os estilos belle époque, art nouveau e modernista[5] , e variantes de caráter eclético. Muitas obras tumulares chamam atenção pelas características ousadas para a circunstância e a época, tomando o nu, a sensualidade e os símbolos pagãos como temas.[8]

De Alfredo Oliani, destaca-se o conjunto escultórico Último adeus, considerada uma das obras mais instigantes da arte cemiterial na cidade de São Paulo. A obra foi encomendada por Maria Cantarella, por ocasião da morte do marido, Antônio. Representa um homem no vigor da idade inclinando-se sobre a esposa morta, em um apaixonado beijo de despedida. Oliani buscou atender ao pedido da viúva, de uma escultura que celebrasse abertamente o seu amor pelo marido - reconhecendo-o como vivo em sua memória e a ela mesma morta, sem a sua companhia.[7] [14]

Outra obra emblemática do cemitério é o Túmulo da família Forte de Galileo Emendabili, apelidado de Túmulo do pão. É um conjunto em bronze, representando uma mesa com um pão à qual se sentam o viúvo e o filho, tendo ao lado um banco vazio.[3] Também de Emendabili são a porta da capela da família Antonio Cândido de Camargo e a Capela São Francisco de Assis, encomendada pelas famílias Ferrabino, Carraro e Salvi, entre outras obras.[15]

Victor Brecheret, sepultado no mesmo cemitério, é autor dos dois anjos de bronze em posição de reza, tendo ao centro uma cruz, no túmulo da família Scurracchio.[3] Há ainda os túmulos dos combatentes da Revolução de 1932, executados por Eugenio Prati, e outras obras de Nicola Rollo, Lorenzo Petrucci, Luigi Brizzolara, Antelo Del Debbio, Júlio Starace, Armando Zago, Ottone Zorlini, etc.[5]

Ver também[editar | editar código-fonte]

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Referências

  1. DECRETO N° 30.443, DE 20/09/89 (RTF) Instituto de Pesquisas e Estudos Florestais. Visitado em 15 de novembro de 2009.
  2. Estrutura Serviço Funerário - Prefeitura de São Paulo. Visitado em 15 de novembro de 2009.
  3. a b c d e Bravo! Guia de Cultura, 2005, pp. 16-17.
  4. a b c Cemitério São Paulo Veja São Paulo. Visitado em 15 de novembro de 2009.
  5. a b c d e Cemitério São Paulo Arq!Bacana. Visitado em 15 de novembro de 2009.
  6. a b c d e Conhecendo o cemitério Guia da Vila. Visitado em 15 de novembro de 2009.
  7. a b c Glugosky, Miguel. O que a morte não leva Jornal da USP. Visitado em 15 de novembro de 2009.
  8. a b c d e f Osman, Samira A. & Ribeiro, Olívia C.F.. Arte, história, turismo e lazer nos cemitérios da cidade de São Paulo Universidade São Judas Tadeu. Visitado em 22 de novembro de 2009.
  9. Arte Tumular Serviço Funerário - Prefeitura de São Paulo. Visitado em 22 de novembro de 2009.
  10. Camargo, 2008, pp. 74-75.
  11. Benedito, Mouzar. Postes Ilustres Revista do Brasil. Visitado em 22 de novembro de 2009.
  12. Marques, Fabrício. Corpos venerados Revista Época. Visitado em 22 de novembro de 2009.
  13. As histórias e os tesouros dos cemitérios de São Paulo Prefeitura da Cidade de São Paulo. Visitado em 22 de novembro de 2009.
  14. Martins, José de Souza. O ‘Ultimo Adeus’, de Alfredo Oliani. (DOC) O Estado de São Paulo - Reproduzido por CemiterioSP. Visitado em 22 de novembro de 2009.
  15. Emendabili, Galileo (PDF) Enciclopédia Itaú Cultural de Artes Visuais. Visitado em 22 de novembro de 2009.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Camargo, Luís Soares de. As origens do Cemitério da Consolação. Em Cartaz - Guia da Secretaria Municipal de Cultural. São Paulo, nº. 17, pp. 74–75, setembro de 2008.
  • Vários autores. Bravo! Guia de Cultura: São Paulo. São Paulo: Abril, 2005. 16-17 pp.