Cemitério São Paulo

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Ir para: navegação, pesquisa
Entrada principal na Rua Cardeal Arcoverde.

O Cemitério São Paulo, também denominado Necrópole São Paulo[1] , é um dos 22 cemitérios mantidos pelo Serviço Funerário do Município de São Paulo, no Brasil.[2] Localiza-se na Rua Cardeal Arcoverde[3] , entre os bairros de Pinheiros e Vila Madalena.

Foi inaugurado em 1926[4] , como reflexo da superlotação nos aristocráticos cemitérios da Consolação e do Araçá, tornando-se um novo local para abrigar os jazigos da elite paulistana.[5] Possui 104 mil metros quadrados de área[6] e registra mais de 140 mil sepultamentos desde sua fundação.[4]

Abriga um grande número de mausoléus e monumentos funerários projetados por escultores de renome, como Victor Brecheret, Galileo Emendabili e Luigi Brizzolara, destacando-se algumas obras de referência na arte tumular do país.[3] [6] [7]

História[editar | editar código-fonte]

Após a criação do Cemitério da Consolação em 1858, encerrou-se em São Paulo a prática de sepultar as pessoas nas criptas das igrejas, criticada por razões sanitárias desde 1820. A secularização do sepultamento também representou o fim do hábito de marcar a posição social dos defuntos por meio de sua localização no interior das igrejas, mais ou menos próxima do altar. O então denominado Cemitério Municipal passaria a atender a todos os estratos sociais, de escravos a fazendeiros. Surge nesse contexto o hábito recorrente entre a elite paulistana de homenagear os amigos e familiares falecidos com obras tumulares monumentais, à altura de sua importância social, como forma de perpetuar após a morte a distinta posição social adquirida em vida.[8]

Capela do Cemitério São Paulo.
Mausoléu da família Varam Keutenedjian, de autoria de Galileo Emendabili.

Entre o fim do século XIX e o começo do século XX, a prosperidade advinda do plantio do café e da incipiente industrialização ocasionou profundas mudanças no perfil sócio-econômico da cidade. A criação de novos cemitérios nesse período – como os do Araçá (1887), da Quarta Parada (1893) e do Chora Menino (1897) – permitiu a “estratificação social” da atividade funerária.[9] [10] Cercados por incipientes bairros nobres, os cemitérios da Consolação e do Araçá passaram por um processo de elitização, consolidado nas duas primeiras décadas do século XX. Converteram-se em “museus de arte” a céu aberto, passando a abrigar um grande número de jazigos luxuosos e monumentos funerários encomendados por barões do café, industriais, intelectuais, médicos, juristas e pessoas públicas a escultores de renome.[3] [8]

Com a superlotação do Cemitério da Consolação e a ocupação da área verde contígua ao Cemitério do Araçá, surgiu a necessidade de um novo local para sepultar a elite econômica e social da cidade. O Cemitério São Paulo surgiria, portanto, como um "prolongamento" dessas duas necrópoles.[5] Os planos para construí-lo datam de 1920, quando a prefeitura autorizou a aquisição do terreno de propriedade dos padres passionistas, no bairro de Pinheiros[6] . A construção do cemitério ficou a cargo do mestre-de-obras Caetano Antônio Bastianetto[6] e de operários espanhóis, italianos e portugueses, que se converteram nos primeiros moradores do nascente bairro de Vila Madalena.[11] O cemitério foi inaugurado em 1926, o último ano de gestão do prefeito Firmiano de Morais Pinto.

Nas décadas seguintes, aos jazigos das famílias tradicionais da cidade, somaram-se túmulos, mausoléus e monumentos encomendados por famílias de imigrantes bem-sucedidos, nomeadamente das comunidades italiana e sírio-libanesa, com o intuito de firmar uma posição social recém-adquirida, além de artistas, militares, atletas, pequenos e médios empresários que haviam prosperado após o estabelecimento da sociedade do trabalho livre.[5] [7] [8]

Muitos dos escultores comissionados para executar os jazigos eram imigrantes europeus, sobretudo italianos, ou artistas brasileiros de formação européia, bastante valorizados por seu conhecimento de técnicas e tendências artísticas então pouco divulgadas no país. Obras encomendadas a Victor Brecheret, Bruno Giorgi, Luigi Brizzolara, Galileo Emendabili e Nicola Rollo, entre outros, transformariam o Cemitério São Paulo em uma importante referência para a arte tumular brasileira. Uma comissão estabelecida durante a segunda administração do prefeito Jânio Quadros (1986-1988) identificou 180 peças de importância artística no local. Projetos para explorar o potencial turístico e didático deste e de outros cemitérios da cidade têm sido elaborados desde a década de 1980, mas com poucos resultados práticos.[8]

Victor Brecheret: Túmulo da família Scuracchio.

Personalidades sepultadas[editar | editar código-fonte]

Desde sua fundação, o Cemitério São Paulo contabiliza mais de 140 mil sepultamentos.[4] [6] Dentre as personalidades enterradas no local encontram-se os políticos Pedro de Toledo, Auro de Moura Andrade e Prestes Maia; os escritores Menotti Del Picchia, Paulo Duarte; os artistas Victor Brecheret, Aldo Bonadei e Nicola Rollo; o cineasta Walter Hugo Khouri; o cartunista Belmonte; o fazendeiro e político Damásio Pires Pimentel, a sua senhora, a aristocrata paulista Elvira Herminia Penteado Pimentel e o seu genro, o Magistrado e Jurisconsulto Flávio Augusto de Oliveira Queiroz, assim como a sua senhora, Julieta Penteado Pimentel de Queiroz (Da. Yaya); a filantropista Lucy de Queiroz; o arquiteto Amador Cintra do Prado - neto do Barão de Campinas, e a sua senhora, Myrthes Pimentel Cintra do Prado; o engenheiro e diretor da EMURB Greenhalg Parnaíba Paoliello - bisneto do Barão de Cabo Verde; o corredor de Fórmula 3, jornalista da TV Globo e responsável por trazer a Fórmula 1 para o Brasil Antonio Carlos Scavone, falecido no acidente de avião na cidade de Orly em 1973; os empresários José Ermírio de Moraes, Nicolau Scarpa, Salim Farah Maluf, Fuad Lutfalla, e engenheiro idealizador do Pró-álcool Lamartine Navarro Júnior - trineto do Barão de Cabo Verde, e Conselheiro da Associação Comercial de São Paulo Flavio de Queiroz Filho, e publicitário João Dória; o jurista Miguel Reale, o médium Carmine Mirabelli, entre outros. Abriga também o jazigo do general Miguel Costa, comandante da Coluna Prestes, túmulos de combatentes mortos na Revolução Constitucionalista de 1932 e dos estudantes Dráusio Marcondes de Sousa e Orlando de Oliveira Alvarenga, símbolos do movimento. Foi sepultado também o corpo do jovem jornalista Theo Dutra, morto em grave acidente de carro em 1973, conhecido com suas reportagens sobre a cidade de São Paulo.[carece de fontes?]

No começo da década de 1950, o sepultamento de Maria Izilda de Castro Ribeiro, a “Menina Izildinha”, no Cemitério São Paulo marcou o local como ponto de peregrinação. Os restos mortais da Menina Izildinha foram transferidos para Monte Alto, no interior paulista, em 1958.[12] O cemitério abriga também o Mausoléu dos Esportistas, onde estão enterrados Arthur Friedenreich, primeira grande estrela do futebol brasileiro[13] , e o goleiro Tuffy Neugen, entre outros.

Em junho de 2014 ocorre o sepultamento do célebre futebolista Oberdan Cattani, o último jogador a ter jogado pelo Palestra Italia (atual Palmeiras), time que defendeu como goleiro nas décadas de 40 e 50.

Em julho de 2014, ocorre o sepultamento do médico e comentarista esportivo, o Dr. Osmar de Oliveira.

Arte tumular[editar | editar código-fonte]

Alfredo Oliani: Último adeus (túmulo da família Cantarella).
Galileo Emendabili: Túmulo da família Forte ("túmulo do pão").

Entre as últimas décadas do século XIX e meados do século XX, as encomendas geradas no âmbito da arte cemiterial constituíram-se em um dos maiores mercados consumidores de esculturas no país. No Cemitério São Paulo, há 180 obras consideradas de valor artístico, executadas em sua maioria por artistas italianos e brasileiros formados na Europa.[8] Posterior em muitas décadas ao Cemitério da Consolação, onde se concentra um numerosa estatuária de inspiração acadêmica e de iconografia majoritariamente cristã, no Cemitério São Paulo predominam os estilos belle époque, art nouveau e modernista[5] , e variantes de caráter eclético. Muitas obras tumulares chamam atenção pelas características ousadas para a circunstância e a época, tomando o nu, a sensualidade e os símbolos pagãos como temas.[8]

De Alfredo Oliani, destaca-se o conjunto escultórico Último adeus, considerada uma das obras mais instigantes da arte cemiterial na cidade de São Paulo. A obra foi encomendada por Maria Cantarella, por ocasião da morte do marido, Antônio. Representa um homem no vigor da idade inclinando-se sobre a esposa morta, em um apaixonado beijo de despedida. Oliani buscou atender ao pedido da viúva, de uma escultura que celebrasse abertamente o seu amor pelo marido - reconhecendo-o como vivo em sua memória e a ela mesma morta, sem a sua companhia.[7] [14]

Outra obra emblemática do cemitério é o Túmulo da família Forte de Galileo Emendabili, apelidado de Túmulo do pão. É um conjunto em bronze, representando uma mesa com um pão à qual se sentam o viúvo e o filho, tendo ao lado um banco vazio.[3] Também de Emendabili são a porta da capela da família Antonio Cândido de Camargo e a Capela São Francisco de Assis, encomendada pelas famílias Ferrabino, Carraro e Salvi, entre outras obras.[15]

Victor Brecheret, sepultado no mesmo cemitério, é autor dos dois anjos de bronze em posição de reza, tendo ao centro uma cruz, no túmulo da família Scurracchio.[3] Há ainda os túmulos dos combatentes da Revolução de 1932, executados por Eugenio Prati, e outras obras de Nicola Rollo, Lorenzo Petrucci, Luigi Brizzolara, Antelo Del Debbio, Júlio Starace, Armando Zago, Ottone Zorlini, etc.[5]

Ver também[editar | editar código-fonte]

O Commons possui uma categoria contendo imagens e outros ficheiros sobre Cemitério São Paulo

Referências

  1. DECRETO N° 30.443, DE 20/09/89 (RTF). Instituto de Pesquisas e Estudos Florestais. Página visitada em 15 de novembro de 2009.
  2. Estrutura. Serviço Funerário - Prefeitura de São Paulo. Página visitada em 15 de novembro de 2009.
  3. a b c d e Bravo! Guia de Cultura, 2005, pp. 16-17.
  4. a b c Cemitério São Paulo. Veja São Paulo. Página visitada em 15 de novembro de 2009.
  5. a b c d e Cemitério São Paulo. Arq!Bacana. Página visitada em 15 de novembro de 2009.
  6. a b c d e Conhecendo o cemitério. Guia da Vila. Página visitada em 15 de novembro de 2009.
  7. a b c Glugosky, Miguel. O que a morte não leva. Jornal da USP. Página visitada em 15 de novembro de 2009.
  8. a b c d e f Osman, Samira A. & Ribeiro, Olívia C.F.. Arte, história, turismo e lazer nos cemitérios da cidade de São Paulo. Universidade São Judas Tadeu. Página visitada em 22 de novembro de 2009.
  9. Arte Tumular. Serviço Funerário - Prefeitura de São Paulo. Página visitada em 22 de novembro de 2009.
  10. Camargo, 2008, pp. 74-75.
  11. Benedito, Mouzar. Postes Ilustres. Revista do Brasil. Página visitada em 22 de novembro de 2009.
  12. Marques, Fabrício. Corpos venerados. Revista Época. Página visitada em 22 de novembro de 2009.
  13. As histórias e os tesouros dos cemitérios de São Paulo. Prefeitura da Cidade de São Paulo. Página visitada em 22 de novembro de 2009.
  14. Martins, José de Souza. O ‘Ultimo Adeus’, de Alfredo Oliani. (DOC). O Estado de São Paulo - Reproduzido por CemiterioSP. Página visitada em 22 de novembro de 2009.
  15. Emendabili, Galileo (PDF). Enciclopédia Itaú Cultural de Artes Visuais. Página visitada em 22 de novembro de 2009.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Camargo, Luís Soares de. As origens do Cemitério da Consolação. Em Cartaz - Guia da Secretaria Municipal de Cultural. São Paulo, nº. 17, pp. 74–75, setembro de 2008.
  • Vários autores. Bravo! Guia de Cultura: São Paulo. São Paulo: Abril, 2005. 16-17 p.