Corpo Expedicionário Português

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Os Generais Tamagnini de Abreu e Silva, Hacking e Gomes da Costa.
Soldados do CEP carregam um morteiro de trincheira de 75 mm.
Monumento aos soldados portugueses mortos durante a Grande Guerra, no Porto.

O Corpo Expedicionário Português (CEP) foi a principal força militar que Portugal, durante a 1ª Guerra Mundial, enviou para França, com a finalidade de, através da sua participação ativa no esforço de guerra contra a Alemanha que também ameaçava os seus territórios ultramarinos, conseguir apoios dos seus aliados e evitar a perda daqueles territórios.

De notar que Portugal também enviou para França uma outra força, mais reduzida e menos famosa: o Corpo de Artilharia Pesada Independente (CAPI). O CAPI destinou-se a responder a um pedido de ajuda francesa, ficando sob comando do Exército Francês, sendo aí conhecido por Corps de Artillerie Lourde Portugaise (CALP) e tendo operado artilharia super-pesada de caminho de ferro, com obuses de 320 mm, 240 mm e 190 mm. A partida de milhares de homens para a Flandres gerou, no entanto, descontentamentos nacionais, avolumados pelos enormes gastos a suportar pelo governo.

Primeira Guerra Mundial[editar | editar código-fonte]

Em Portugal, foi o General Norton de Matos, Ministro da Guerra entre 1915 e 1917, com a colaboração do General Tamagnini, o responsável pela organização do Corpo Expedicionário Português, no centro de instrução de Tancos (o chamado milagre de Tancos) que tão depressa e bem (de acordo com relatórios oficiais) se transformaram em soldados aptos e capazes para um conflito duro homens que, pouco tempo antes, tinham uma vida civil, pacata e tranquila.

Em 30 de Janeiro de 1917 zarparam do Tejo três vapores britânicos levando a bordo a 1.ª Brigada do CEP, comandada pelo general Gomes da Costa. Estes navios chegaram ao porto de Brest três dias depois, desembarcando as primeiras tropas portuguesas a chegar a França em 2 de Fevereiro. Em 8 de Fevereiro chegaram à Flandres francesa, região que acolheria o CEP e, em 23 de Fevereiro, partiu para França um segundo contingente do CEP. Em 4 de Abril de 1917 as primeiras tropas portuguesas ficaram entrincheiradas e, nesse mesmo dia, António Gonçalves Curado foi o primeiro soldado português morto em combate.

Ao chegarem à Frente Ocidental as tropas portuguesas adaptaram-se rapidamente à guerra de trincheiras, mostrando grande eficiência e espírito combativo. No entanto as condições foram piorando ao longo dos tempos, sobretudo devido à falta de reforços que impediam a substituição e descanso das tropas. Esta situação era agravada por outros factores tais como o Inverno frio e húmido, muito diferente do que o que os portugueses estavam habituados. As condições foram-se agravando a tal ponto que o Comando do 1º Exército Britânico decidiu a rendição das tropas portuguesas por tropas britânicas, com o objectivo de permitir o descanso daquelas. É justamente no dia previsto para a rendição do CEP que se dá a ofensiva alemã e a Batalha do Lys, apanhando as forças portuguesas numa posição completamente desfavorável.

Com a ofensiva "Georgette" dos alemães, montada por Ludendorff, os portugueses, não motivados e muito mal preparados, acabaram por sofrer uma derrota estrondosa na Batalha de La Lys (sector de Ypres), em 9 de Abril de 1918, logo após a derrota do Exército Britânico em Arras. Não se pode definir um tempo de duração da fase inicial da ofensiva do Lys sobre a 2.ª Divisão do CEP, contudo, tendo começado o bombardeamento preparatório às 4h15 da madrugada de 9 de Abril, a última resistência dos Portugueses só cessou próximo do meio-dia de 10, em Lacouture. Os Portugueses tiveram cerca de 7.000 baixas, sendo que o maior número foi de prisioneiros por terem sido cercados pelos flancos da Divisão, como se comprova pelo facto de os Alemães lhes surgirem pela retaguarda, próximo das 11 horas da manhã. Essa derrota já era esperada pelo comandante do CEP general Fernando Tamagnini de Abreu e Silva e pelo comandante da 2.ª Divisão Gomes da Costa e pelo Chefe do Estado-Maior do Corpo Sinel de Cordes, que por diversas vezes avisaram o governo de Portugal e o comando do 1º Exército Britânico, das dificuldades existentes.

O envio do CEP para França tinha sido motivo de desacordo interno entre os vários departamentos do Governo Britânico e o Governo Francês. Enquanto que o Governo Francês e o Ministério da Guerra Britânico (War Office) se mostravam bastante favoráveis à ajuda portuguesa (originalmente tinha sido o Governo Francês a pedir ajuda a Portugal logo no início da guerra), o Ministério do Exterior Britânico (Foreign Office) opunha-se, por razões políticas, à mesma ajuda.

A estadia do CEP em França foi sempre muito atribulada, não tendo havido a substituição de efectivos, devido aos navios britânicos necessários para isso, terem sido requisitados para o transporte das tropas americanas para a Europa e porque alguns dos oficiais que conseguiam vir a Portugal, já não voltavam para o seu posto em França.

Apesar da Batalha de La Lys ter sido, em termos tácticos imediatos, uma derrota para o CEP, a mesma acabou por dar origem a uma vitória estratégica para as forças aliadas. A resistência das forças portuguesas foi muito desigual mas globalmente ténue, o que se justifica pelo estado de fatiga e desmotivação do CEP causado pelo tempo excessivo passado nas linhas da frente. A ordem inglesa de "morrer na linha B" não foi cumprida.

De qualquer forma o ímpeto do ataque germânico foi-se perdendo e a sua progressão foi atrasada impedindo que o Exército Alemão alcançasse os seus objectivos estratégicos.

Após La Lys, o governo de Sidónio Pais afirmou tentar enviar mais 10 a 15 mil homens, mas esse envio nem nunca foi efectivamente concretizado nem o Governo inglês disponibilizou navios para efectuar o transporte por os ter empenhados no transporte dos exércitos americanos para a Europa. As forças portuguesas perderam importância perante os novos reforços, que se revelariam decisivos para o desfecho da Primeira Guerra Mundial.

Apesar dos reforços não terem sido enviados, no final da guerra, com os restos do CEP ainda se conseguiu organizar alguns Batalhões que tomaram parte nas últimas operações que levaram à vitória final aliada.

José Maria Hermano Baptista (1895-2002)[1] 107 anos foi o último sobrevivente português[2] Combatente da Grande Guerra[3] , 1º Cabo promovido a 2º Sargento Miliciano em 22 de Março de 1918, foi ferido na Batalha de La Lys, depois de algum tempo hospitalizado em Wesel foi prisioneiro de guerra no campo de concentração de Friedrichsfeld.

Hermano Baptista foi tio e padrinho do Professor, José Hermano Saraiva.

A experiência do Corpo Expedicionário Português no campo de batalha foi registada na publicação João Ninguém, soldado da Grande Guerra, com ilustrações e texto do capitão Menezes Ferreira.

Organização[editar | editar código-fonte]

Distintivo do Corpo Expedicionário Português

O Corpo Expedicionário Português foi inicialmente organizado como uma Divisão Reforçada seguindo o modelo organizativo português e englobando 3 Brigadas, cada uma com 2 Regimentos de Infantaria a 3 Batalhões.

No entanto, dado que o CEP iria ser integrado no 1º Exército Britânico cujas divisões eram menores que as portuguesas, entendeu-se que se poderia facilmente fazer subir o escalão do CEP, transformando-o em Corpo de Exército a 2 Divisões de modelo britânico, permitindo uma maior autonomia e um maior protagonismo da participação portuguesa. Para tal, além de outros pequenos acertos, foram acrescentados 6 novos Batalhões de Infantaria que se juntaram aos 18 já existentes. Com os 24 Batalhões foram organizadas 6 Brigadas (normalmente 3 em cada divisão), extinguindo-se o escalão intermédio de Regimento.

O CEP ficou, pois, com a seguinte organização:

  • Quartel-General do Corpo;
  • Quartel-General da 1ª Divisão;
  • Quartel-General da 2ª Divisão;
  • Infantaria:
  • 1ª, 2ª, 3ª, 4ª, 5ª e 6ª Brigadas (cada uma englobando um Quartel-General, 4 Batalhões de Infantaria e uma Bataria de Morteiros Ligeiros de 75 mm);
A 1ª Brigada (da 1ª Divisão), era constituída pelo Batalhão Inf. n.º 21 (Covilhã), Batalhão Inf. n.º 22 (Portalegre), Batalhão Inf. n.º 28 (Figueira da Foz) e Batalhão Inf. n.º 34 (Mangualde).
A 2ª Brigada (da 1ª Divisão), era constituída pelo Batalhão Inf. n.º 7 (Leiria), Batalhão Inf. n.º 23 (Coimbra), Batalhão Inf. n.º 24 (Aveiro) e Batalhão Inf. n.º 35 (Coimbra).
A 3ª Brigada (da 1ª Divisão), era constituída pelo Batalhão Inf. n.º 9 (Lamego), Batalhão Inf. n.º 12 (Guarda), Batalhão Inf. n.º 14 (Viseu) e Batalhão Inf. n.º 15 (Tomar).
A 4ª Brigada (da 2ª Divisão), era constituída pelo Batalhão Inf. n.º 3 (Viana do Castela), Batalhão Inf. n.º 8 (Braga), Batalhão Inf. n.º 20 (Guimarães) e Batalhão Inf. n.º 29 (Braga).
A 5ª Brigada (da 2ª Divisão), era constituída pelo Batalhão Inf. n.º 4 (Faro), Batalhão Inf. n.º 10 (Bragança), Batalhão Inf. n.º 13 (Vila Real) e Batalhão Inf. n.º 17 (Beja).
A 6ª Brigada (da 2ª Divisão), era constituída pelo Batalhão Inf. n.º 1 (Lisboa), Batalhão Inf. n.º 2 (Lisboa), Batalhão Inf. n.º 5 (Lisboa) e Batalhão Inf. n.º 11 (Évora).
  • 1º, 2º, 3º, 4 º, 5º e 6º Grupos de Batarias de Artilharia (cada um englobando 3 Batarias de 8 Peças de 75 mm e uma Bataria de 4 Obuses de 114 mm);
  • 1ª, 2ª, 3ª, 4ª, 5ª e 6ª Batarias de Morteiros Médios de 152 mm;
  • 1ª e 2ª Batarias de Morteiros Pesados de 236 mm;
  • Companhia de Telegrafistas de Corpo;
  • 1ª e 2ª Companhias Divisionárias de Telegrafistas;
  • Secção de Telegrafia sem Fios (englobando 2 subsecções divisionárias);
  • 1ª e 2ª Companhias de Sapadores de Corpo;
  • 1ª, 2ª, 3ª, 4ª, 5ª e 6ª Companhias Divisionárias de Sapadores Mineiros;
  • Secção de Pombais Militares;
  • Batalhão de Mineiros;
  • 1º e 2º Grupos de Companhias de Pioneiros;
  • 1º, 2º, 3º, 4º, 5º e 6º Grupos de Metralhadoras (cada um englobando 2 Batarias de Metralhadoras Pesadas de 7,7 mm);
  • 1ª, 2ª, 3ª, 4ª e 5ª Ambulâncias;
  • 1ª e 2ª Colunas Automóveis de Transporte de Feridos;
  • 1ª, 2ª, 3ª, 4ª, 5ª e 6ª Secções Hipomóveis de Transporte de Feridos;
  • Outros:
  • Grupo de Esquadrões de Cavalaria, transformado em Grupo de Companhias de Ciclistas;
  • 1ª e 2ª Secções Divisionárias de Observadores;
  • 1ª e 2ª Secções Móveis Veterinárias;
  • 1º e 2º Trens Divisionários;
  • 1º e 2º Grupos Automóveis;
  • 1ª e 2ª Companhias de Serviços Auxiliares.
  • Base de Retaguarda:
  • Quartel-General da Base;
  • 1º, 2º e 3º Depósitos de Infantaria;
  • Depósito de Cavalaria;
  • Depósito de Remonta;
  • Depósito Misto;
  • Depósito(s) Disciplinar(es);
  • Tribunal de Guerra da Base;
  • C.M.C.A.;
  • Hospital Cirúrgico;
  • Hospital de Medicina e Depósito de Convalescentes;
  • Estação de Evacuação;
  • Depósito de Material de Engenharia;
  • Depósito de Material de Guerra;
  • Depósito de Material Sanitário;
  • Depósito de Material Veterinário;
  • Depósito de Material de Subsistências;
  • Depósito de Material de Fardamento e Aquartelamento;
  • Depósito de Material de Bagagens;
  • Oficina de Montagem de Munições de 75 mm.

Além destas forças o CEP incluía ainda as seguintes unidades que foram colocadas sob comando directo do 1º Exército Britânico:

  • Corpo de Artilharia Pesada, englobando 2 Grupos, cada um com uma Bataria de Obuses de 233 mm, uma Bataria de Obuses de 202 mm e uma Bataria de Obuses de 152 mm;
  • Batalhão de Sapadores de Caminhos de Ferro;
  • Companhia de Projectores de Campanha.

Foi também criado um Corpo de Aviação que não chegou a ser activado, sendo os seus pilotos integrados em unidades de aviação britânicas e francesas.

Referências bibliográficas[editar | editar código-fonte]

«A Participação de Portugal na Grande Guerra», Luís Alves de Fraga, in História Contemporânea de Portugal (Dir. João Medina), Primeira República, tomo II, Lisboa, Amigos do Livro, Editores, 1985, pp. 34-53.

MARQUES, Isabel Pestana, "Memórias do General Fernando Tamagnini (1915-1919)'Os Meus Três Comandos'", prefácio Nuno Severiano Teixeira, edição - SACRE/Fundação Mariana Seixas,editor - António José Coelho, Viseu, 2004

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências[editar | editar código-fonte]

Ligações externas[editar | editar código-fonte]