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Chimarrão

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Chimarrão
Chimarrão em uma cuia com erva-mate e uma bomba
Nome(s)
alternativo(s)
Mate
CategoriaInfusão
RegiãoO território do povo Guarani (atual Paraguai, província de Misiones da Argentina, sudeste da Bolívia, Sul e Sudeste do Brasil e Uruguai)
Ingrediente(s)
principal(is)
Erva-mate
Água quente
Receitas: Chimarrão   Multimédia: Chimarrão

O chimarrão (do espanhol rioplatense "cimarrón") ou mate (do quíchua "mati") é uma das maneiras de tomar a infusão da erva-mate.[1] É uma bebida característica da cultura do Cone Sul legada da cultura indígena (caingangue, guarani, aimará e quíchua), produzido pela infusão da planta erva-mate (Ilex paraguariensis) moída, em água quente a aproximadamente 70 graus Celsius, em uma cuia com uma bomba.

Etimologia

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O termo "mate", oriundo do quíchua mati,[1] é mais utilizado nos países de língua castelhana. O termo "chimarrão" é o mais adotado no Brasil, sendo oriundo da palavra castelhana rioplatense cimarrón,[2] que significa "puro", "selvagem", "sem aditivos". Por isso, também pode designar qualquer bebida (como café ou chá) preparada sem açúcar; o gado domesticado que retornou ao estado de vida selvagem; ou cão sem dono e bravio, que se alimenta de animais que caça.[2]

Histórico

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Os primeiros povos de que se tem conhecimento de terem feito uso da erva-mate são os índios guaranis, que habitavam a região definida pelas bacias dos rios Paraná, Paraguai e Uruguai na época da chegada dos colonizadores espanhóis; e os índios caingangues,[3] que habitavam na região dos atuais estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná e Misiones.[4] Da metade do século XVI até 1632, a extração de erva-mate foi a atividade econômica mais importante da Província do Guayrá, território que abrangia praticamente o Paraná, e no qual foram fundadas três cidades espanholas e quinze reduções jesuíticas.[5]

O chimarrão chegou a ser proibido no sul do Brasil durante o século XVI, sendo considerado "erva do diabo" pelos padres jesuítas das reduções do Guairá, que, no entanto, a partir do século XVII, mudaram sua atitude para com a bebida e passaram a incentivar seu uso com o objetivo de afastar a população local do consumo de bebidas alcoólicas.[6]

Propriedades medicinais e nutritivas

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Vitaminas e cafeína

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Uma cuia e uma bomba

O chimarrão atua como estimulante por conter cafeína, é rico em antioxidantes como polifenóis e flavonoides, fornece vitaminas (A, B1, B2, B3, B5, B6, B9, C e E) e minerais (cálcio, magnésio, potássio, fósforo, manganês e zinco), auxilia na digestão, contribui para a hidratação e relaxamento, além de poder estimular o sistema imunológico. O consumo deve ser moderado devido à cafeína e à temperatura da água.[7] E embora o chimarrão tenha valor cultural e familiar, o seu consumo infantil deve ser evitado, especialmente até os dois anos, devido à cafeína.[8] Um estudo sugere que o chimarrão tenha efeitos protetores em relação à Doença de Parkinson, assim como o café, dado que as duas bebidas contêm cafeína. Entretanto, o chimarrão possui uma concentração menor de cafeína e mais antioxidantes, o que pode levar a efeitos mais benéficos na saúde, além da proteção à doença.[9]

O mate servido
Bomba argentina de prata do século XIX.
Bomba argentina de prata do século XIX.

Ainda hoje, é hábito fortemente arraigado na Argentina;[10] no Uruguai;[11] no Paraguai;[12] em partes da Bolívia e Chile; nos estados brasileiros do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, Mato Grosso do Sul,[13] Mato Grosso e Rondônia.[14][15]

Nas últimas décadas, o chimarrão tem se popularizado em algumas regiões da Região Sudeste como o sul de Minas Gerais,[16] o sul do Rio de Janeiro[17][18] e algumas regiões do interior de São Paulo,[18] regiões essas onde o consumo do chá-mate quente ou gelado é mais comum.[18]

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Os povos indígenas utilizavam recipientes semelhantes às cuias atuais para preparar a erva-mate, confeccionados com materiais como taquara (bambu), madeira, chifre de boi e porongo.[7]

Estátua de um homem servindo o chimarrão

A banda do Rio Grande do Sul, Engenheiros do Hawaii, compôs uma canção chamada "Ilex Paraguariensis",[19] em homenagem ao chimarrão. No mesmo estado brasileiro, a microcervejaria Dado Bier lançou uma cerveja de mate, a "Ilex".[20] Na Alemanha, na cidade de Berlim, também é produzida uma cerveja à base de mate produzida pela empresa Meta Mate. A chamada Mier já foi produzida em diversos países europeus graças à receita aberta,[21] que permite que qualquer pessoa produza sua própria versão em qualquer cervejaria, através da licença Creative Commons.

Na Região Centro-Oeste do Brasil há um refrigerante à base de erva-mate chamado Mate Chimarrão.[22]

O chimarrão se espalhou pela América do Sul com a colonização espanhola da América e chegou ao Oriente Médio com imigrantes sírios e libaneses que retornaram aos seus países após a Primeira Guerra Mundial. A Síria é o maior importador mundial de erva-mate, superando o Uruguai em 2022.[23]

Durante a 43.ª edição do Acampamento Farroupilha, em Porto Alegre, foi comercializado sorvete artesanal com sabor de chimarrão, feito com erva-mate.[24]

Monumentos

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O município brasileiro de Venâncio Aires, no Rio Grande do Sul, reconhecida como a Capital Nacional do Chimarrão, está construindo um monumento em formato de cuia com 20 metros de altura total. A estrutura terá três andares internos, com exposições sobre a erva-mate e no topo da bomba de chimarrão haverá um mirante.[25]

Dia do chimarrão

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Comemorado no Rio Grande do Sul, o Dia do Churrasco e do Chimarrão foi instituído em 2003 para homenagear o tradicionalismo gaúcho na Região Sul do Brasil,[26] especialmente o primeiro Centro de Tradições Gaúchas (CTG), o 35 CTG, fundado em 24 de abril de 1948, em Porto Alegre. A data conta com eventos como a Festa Nacional do Chimarrão em Venâncio Aires e o festival Expochurrasco em Porto Alegre.[27]

Galeria de imagens

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Ver também

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Referências

  1. a b FERREIRA, A. B. H. Novo dicionário da língua portuguesa. 2ª edição. Rio de Janeiro. Nova Fronteira. 1986. p. 1 102.
  2. a b FERREIRA, A. B. H. Novo dicionário da língua portuguesa. 2ª edição. Rio de Janeiro. Nova Fronteira. 1986. p. 396.
  3. Portal Kaingang. Disponível em http://www.portalkaingang.org/index_cultura_5_2.htm. Acesso em 11 de novembro de 2014.
  4. Portal Kaingang. Disponível em http://www.portalkaingang.org/index_historia_1.htm. Acesso em 11 de novembro de 2014.
  5. «Sindimate - old». www.fiepr.org.br 
  6. Schmidt, Maria Auxiliadora in: Histórias do Cotidiano Paranaense 2º Ed. - Letraviva Editora, pag 48
  7. a b Ribeiro, Adriano (24 de abril de 2025). «Conheça os benefícios do chimarrão». Terra. Consultado em 4 de setembro de 2025 
  8. «Criança pode tomar chimarrão? Especialistas explicam». G1. 13 de abril de 2025. Consultado em 4 de setembro de 2025 
  9. Medeiros, Márcio Schneider; Schumacher-Schuh, Artur Francisco; Altmann, Vivian; Rieder, Carlos Roberto de Mello (2021). «A Case–Control Study of the Effects of Chimarrão (Ilex paraguariensis) and Coffee on Parkinson's Disease». Frontiers in Neurology. ISSN 1664-2295. PMC 7988202Acessível livremente. PMID 33776884. doi:10.3389/fneur.2021.619535. Consultado em 19 de outubro de 2023 
  10. «Cidade Baixa Hostel - Porto Alegre - A Sua Casa Fora de Casa!». CB Hostel 
  11. «Tudo sobre o meu chimarrão - DOCTV AL III - TV Brasil - Notícias». ebc.com.br 
  12. Pais (@_anapais), Ana (30 de novembro de 2017). «¿Qué país es el verdadero rey del mate: Argentina, Paraguay o Uruguay?». BBC News Mundo (em espanhol) 
  13. «Ervateira Safra - Home». www.ervamatesafra.com.br 
  14. Vídeo: "É Bem MT traz as tradicionais rodas de chimarrão e tereré", G1 Mato Grosso.
  15. Todo dia é dia de um bom chimarrão - folhadooeste.com.br
  16. Ribeiro, Lúcia (18 de agosto de 2016). «Café perde espaço para chimarrão e cai no gosto de moradores de Poços». G1 Sul de Minas. Consultado em 23 de julho de 2018. Cópia arquivada em 23 de julho de 2018 
  17. Freitas, Teresa (16 de julho de 2016). «Rio Sul Revista conheceu mais sobre o Rio Grande do Sul». GShow Sul do Rio e Costa Verde. Consultado em 23 de julho de 2018. Cópia arquivada em 23 de julho de 2018 
  18. a b c Maccari Júnior, Agenor (2005). Análise do Pré-Processamento da Erva-Mate Para Chimarrão. Campinas: Universidade Estadual de Campinas / Faculdade de Engenharia Agrícola 
  19. «Ilex Paraguaienses - Engenheiros do Hawaii - LETRAS.MUS.BR». www.letras.mus.br 
  20. «Site da cerveja Ilex» 
  21. «Receita da cerveja alemã de Mate, a Mier, disponível abertamente para quem quiser produzir.» 
  22. Além das belezas naturais e arquitetura histórica, Corumbá tem "sabor" peculiar - correiodoestado
  23. van Deursen, Felipe (23 de fevereiro de 2025). «De Berlim à Síria: como o chimarrão se tornou uma bebida global». Galileu. Consultado em 4 de setembro de 2025 – via Globo.com 
  24. «Sorvete de chimarrão? Conheça a sobremesa que é sucesso no Acampamento Farroupilha». GZH. 2 de setembro de 2025. Consultado em 4 de setembro de 2025 
  25. «Cuia gigante e mirante no alto da bomba: como será o monumento que quer mudar o turismo de cidade do RS». Zero Hora. 8 de julho de 2025. Consultado em 4 de setembro de 2025 
  26. «24 de abril - Dia Estadual do Churrasco e do Chimarrão». Secretaria da Agricultura, Pecuária, Produção Sustentável e Irrigação. 24 de abril de 2014. Consultado em 4 de setembro de 2025 
  27. «Dia do Churrasco e do Chimarrão: saiba como surgiu a data». Zero Hora. 24 de abril de 2024. Consultado em 4 de setembro de 2025 

Bibliografia

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  • BARROS, Sérgio Gabriel Silva de et al. Mate (chimarrão) é consumido em alta temperatura por população sob risco para o carcinoma epidermoide de esôfago. Arq. Gastroenterol., São Paulo, v. 37, n. 1, Jan. 2000.

Ligações externas

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O Wikilivros tem um livro chamado Mate