Ana de Sousa

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Nascida em 1581, Njinga Mbande foi rainha do Ndongo e do Matamba, hoje atual Angola.

Filha de Ngola Mbande Kiluanji rei do Ndongo que morre em 1617, e é sucedido por seu filho Ngola Mbande, que em 1622 influenciado pelos portugueses, envia sua irmã Njinga Mbande para negociar com Dom João Correia De Souza, vice rei de Portugal como embaixadora à Luanda em busca de paz, revelando se uma ótima negociadora e diplomata.

Dois anos depois, o atual rei e irmão de Njinga, Ngola Mbande morre. Njinga então assume o Ndongo e Matamba. Torna-se então uma figura marcante contra o colonialismo português em terras africanas no séc XVII, e defende seu país até sua morte em 1663 com 82 anos de idade.

Os últimos

nomes atribuídos surgem da sua conversão ao catolicismo, em 1623, em Luanda. Eis a lista dos diferentes nomes que lhe são atribuídos: Njinga a Mbande, Nzinga Mbande, Jinga,Singa, Zhinga, Ginga, Njingha, Ana Nzinga, Ngola Nzinga, Nzinga de Matamba, Zinga, Zingua, Mbande Ana Nzinga, Ann Nzinga, Dona Ana de Sousa.


Ngola Nzinga Mbande
Retrato do século XIX da rainha Ginga
Nome completo Nzinga Mbande Cakombe
Nascimento 1583
Morte 17 de dezembro de 1663
Reino da Matamba
Ocupação Ngola (Rainha)
Principais interesses Política; Liberdade; Paz; Povo Mbundo

Contexto e biografia[editar | editar código-fonte]

História em quadrinhos sobre Nzinga Mbandi Rainha de Ndongo, produzida por Pat Masioni para a UNESCO


Lançadas no séc XV pelos europeus, as explorações marítimas tinham o intuito de conquistar novos territórios, e uma dessas expedições levam os portugueses para a África, mais especificamente para uma região conhecida atualmente como Angola.

Após um longo período de circum-navegação, em 1560 o português Paulo Dias de Novais aportou próximo às margens do rio Kwanza em Ndongo, acompanhado de jesuítas, comerciantes e dignitários portugueses. Após sua chegada , são conduzidos a Ndongo para  se encontrar com o rei Ngola Kiluanje Kia Ndambi, avô de Ngola Mbande, que autoriza os portugueses a ficarem na região. Durante sua estadia, os portugueses testemunham uma sociedade organizada e hierarquizada com bastante conhecimento de metalurgia agricultura, comércio e criação de gado, criando então uma relação das riquezas da região.

Cinco anos depois o rei do Ndongo permite que Paulo Dias de Novais volte a Portugal com a condição de voltar a região com um exército para combater os reinos vizinhos. Entretanto, em 1575, Paulo Dias de Novais volta ao Ndongo seguido por caravelas com soldados com o intuito de tomar a região a força em nome de Portugal. Pegos de surpresa os habitantes do Ndongo resistem da forma que podem sobre a força portuguesa, mas são obrigados a se rendem devido ao poderio bélico dos portugueses.

Nesse mesmo local, fundam a cidade portuária de São Paulo da Assunção de Loanda, desembarcando grande quantidade de mercadores, camponeses, missionários que acabam herdando terras conquistadas na região.

Não encontrando minas de ouro e prata os portugueses decidem escravizar a população da região para alimentar a mão de obra da colônia brasileira.

É nesse período conflituoso em que surge Njinga Mbande, que cresce observando a resistência e oposição de seu pai às imposições dos portugueses.

Mesmo não aceitando a situação que seu povo estava sendo submetido, Njinga aprende a ler e escrever com missionários e comerciantes portugueses. Em 1617, seu pai morre, e assume o reinado Ngola Mbande, seu irmão, que temendo possíveis complôs à sua volta manda matar o único filho de sua irmã com poucos anos de idade.

Para deter o avanço dos portugueses Ngola Mbande se alia aos Mbangalas interrompendo a curto prazo a escravização da região pelos portugueses e envia Njinga a Luanda para negociar a paz com Dom João Correia de Souza, vice-rei de portugal.

Chegando em Luanda, Njinga se depara com o centro de registros colonial, uma região completamente diferente da que antes se encontrava ali, com uma grande concentração de pessoas brancas, negras e mestiças e  várias edificações. Próximo a costa havia sido construído um grande hangar para o transporte de habitantes escravizados. Luanda em pouco tempo se tornou o maior centro de exportação de pessoas escravizadas de toda a África.

Em Luanda, Njinga se encontra com Dom João Correia de Souza e exige o recuo das tropas portuguesas em troca da libertação dos prisioneiros portugueses de guerra.

Njinga consegue o recuo das tropas portuguesas. E em troca, cede a abertura comercial com os portugueses. A pedido do Dom João Correia de Souza, Njinga prolonga seu tempo em Luanda. Após alguns meses aceita ser batizada com o nome Dona Ana de Sousa, esperando assim, beneficiar as relações diplomáticas entre o Ndongo e Portugal. Mas a tranquilidade durou pouco entre Njinga e o Vice-rei de Portugal, que foi substituído por um governador que não mantém os acordos realizados anteriormente.

Em 1624 seu irmão Ngola Mbande, perseguido pelos portugueses e pelos Mbangalas foge para uma ilha no rio Cuanza de onde não se tem mais noticias. A Partir daí, Njinga assume o trono do Ndongo aos 43 anos de idade.

Diante do trono, Njinga se impõe aos demais chefes locais e conquista o reino de matamba. Durante 40 anos Njinga se opõe aos projetos portugueses, criando estratégias e mantendo constante diplomacia as operações militares.

Com mais de 70 anos de idade e uma fama de resistência muito forte na região Njinga torna-se o maior símbolo da luta contra a coroa portuguesa. Em 24 de novembro de 1657 é validado pelo rei Dom Pedro VI, o último tratado da coroa portuguesa onde renunciam suas pretensões sobre a região do Ndongo.

Influência[editar | editar código-fonte]

  • Uma inspiração feminina

Njinga inspirou grandes mulheres que eram figuras de resistência do Movimento Popular de Libertação da Angola (MPLA) durante a luta pela independência da Angola. Estando entre elas principalmente Deolinda Rodrigues, Irene, Engrácia, Vastok, Inga, Mambo Café, Rodeth Gile Rita Tomá                                                                                                           Njinga é um modelo de liderança e força que permanece em todas as gerações . Na atualidade, mulheres angolanas conseguiram uma independência social considerável. Estão em cargos públicos, na vida econômica do país na polícia, no exército e no governo.

  • Uma incessante fonte de inspiração

Desde a negociação do tratado da paz de Luanda em 1622 com o Governador João Correia de Souza, Njinga tornou-se uma permanente fonte de inspiração.

Deixava os missionários, brasileiros, europeus e africanos impressionados e fascinados com sua inteligência, carisma e sagacidade, em especial os artistas de todos os países.

Além de ser inspiração de diversos ritos religiosos e sagrados afrodescendentes espalhados pelo mundo todo.

  • Njinga no mundo da arte

O padre italiano Cvazzi, dedicou um livro a Njinga em 1687, descrevendo o encontro da rainha dupla com o governador de Portugal Correia de Sousa, na negociação do tratado de paz em Luanda.

O governador não recebeu Njinga com cordialidade, não lhe oferecendo sequer para que se sentasse. A rainha desapontada com a atitude pediu a uma de suas acompanhantes que se ajoelhasse ao chão para fazer dela uma assento, podendo assim negociar de igual pra igual com o governador.

O padre inspirado na cena, realizou uma célebre gravura deste acontecimento.

O francês Achille Devéria ao ler sobre Njinga se entusiasmou pelas descrições e características da rainha do Mtamba e Ndongo e desenhou seu retrato em 1830.

Tal representação imaginária se tornará a ilustração oficial de Njinga por toda Europa.

O autor francês Jean-Louis Castilhon, publicou o primeiro romance histórico sobre a África em 1769. A obra Zingha, Reine d’Angola [Zingha, Rainha de Angola].

A obra propunha uma crítica anti-colonialista, descrevendo a rainha como uma personagem rica e paradoxal.

  • Njinga nas artes atuais

Mais recentemente, inspirou diversos autores e artista. Eis alguns exemplos: Em 1960, Agostinho Neto escreve o poema O Içar da Bandeira em homenagem aos heróis do povo angolano, referindo-se a Njinga.

Em 1975, Manuel Pedro Pacavira publica o romance Njinga a Mbande.

Ilustração representando a negociação entre Njinga a Mbande e vice-rei de extraída da obra Njinga, Reine d’Angola.

A Relação de Antonio Cavazzi de Montecuccolo.

Njinga inspirou além disso um filme epónimo realizado em 2007 pelo realizador brasileiro Octávio Bezerra.

No Brasil, o romance de Alberto Mussa O Trono da Rainha Ginga foi usado como homenagem feita à rainha no Carnaval de 2010 no Rio de Janeiro.

  • Representações religiosas pela África

Inspiração de diversas religiões afrodescendentes.

Njinga representa no Haiti em uma religião variante do vudu, uma personagem chamada Bantu- Ewe- Fon.

Na religião afro-brasileira, Candomblé, Njinga é representada pela personagem Matamba, que é invocada num ritual de mulheres como senhora dos trovões,amiga dos heróis e dirigente da guerra. Para aqueles que procuram força para resolver seus problemas.

Entre as tradições brasileiras, Njinga está presente também na Congada, um rito religioso que faz homenagem aos santos negros. Ritual que mistura a religiosidade africana e a cultura europeia.

  • Njinga presente na identidade angolana

Njinga foi uma das principais contribuintes para moldar a identidade angolana, devido a sua capacidade de governar e federar povos, criar alianças, agir e submeter aos seus planos com calma e sagacidade.

Hoje é considerada uma referência cultural para diferentes grupos angolanos,  sendo na história uma figura essencial para compreender a construção da identidade nacional da Angola.

É vista como embaixadora, negociadora, estratega e compatriota perante todos.

Os líderes nacionalistas reavivam a recordação de Njinga durante a Guerra da libertação da Angola (1961-1974), fazendo dela um ícone da independência.

Ao conseguirem a independência do país em 1975, foi-lhe dedicada uma estátua em Luanda, simbolizando a liberdade e a resistência . Ocupando até hoje um lugar importante no imaginário popular Ango.  

  • Um símbolo pan-africano

Ultrapassando as fronteiras da Angola, o espírito de liberdade e resistência, simboliza e representa a figura de Njinga.

Encarnando hoje na história da África, uma rainha resistiu a inúmeras ambições colonizadoras da Europa.

Após sua morte, muitos países espalhados pela África inspirados em Njinga e em sua memória resistiram e lutaram pela independência, até obtê-la no século XX.  

  • Sociedades afrodescendentes inspiradas em Njinga

A história como rainha esplendorosa, se estende até à América. Njinga está presente nas diversas comunidades afrodescendentes, tanto dentro, quanto fora da África. Tudo graças a sua história, lendas e espírito de resistência, que se estenderam através do Atlântico com os navios negreiros.

Njinga faz parte de toda memória afro-atlântica.

Com efeito, vários grupos brasileiros de capoeira têm o seu nome inspirados e homenageando Njinga. A capoeira é uma expressão cultural afro brasileira, simbolizando a resistência dos escravos, que misturavam sua cultura popular, música e arte marcial.  

  Identidade[editar | editar código-fonte]

Muitos nomes são atribuídos a Njinga por razões ortográficas ligadas a língua kimbundu, mas também porque a rainha assinava com diferentes nomes. Os últimos

nomes atribuídos surgem da sua conversão ao catolicismo, em 1623, em Luanda. Eis a lista dos diferentes nomes que lhe são atribuídos: Njinga a Mbande, Nzinga Mbande, Jinga,Singa, Zhinga, Ginga, Njingha, Ana Nzinga, Ngola Nzinga, Nzinga de Matamba, Zinga, Zingua, Mbande Ana Nzinga, Ann Nzinga, Dona Ana de Sousa.

No  português, o verbo gingar refere-se ao movimento corporal. Em sentido figurado, o verbo descreve a leveza perante os obstáculos, remetendo as negociações, referindo-se à rainha Njinga.

Filme em seu Tributo: "Njinga -Rainha de Angola"[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: Njinga, Rainha de Angola
Poster do filme Njinga, Rainha de Angola.

A Rainha Njinga, do século XVII, revela a história da guerreira africana e Rainha do Congo/Angola que travou uma guerra de 40 anos contra a escravatura. Com bravura, perseverança e determinação, a Rainha Njinga lutou uma longa batalha para recuperar o trono e depois liderar o seu povo numa batalha intensa contra o exército português pela liberdade nacional do seu reino - Ngola e Matamba.UNESCO. 2014., Mulheres na história de África- Njinga a Mbande Rainha do Ndongo e do Matamba - Paris : UNESCO Publications.

Estátua de Nzinga em Luanda
Commons
O Commons possui imagens e outras mídias sobre Ana de Sousa

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • AGUALUSA, JOSÉ EDUARDO. A rainha Ginga: E de como os africanos inventaram o mundo. Lisboa: Quetzal, 2014. 288 p. ISBN: 9789897221606.
  • CAVAZZI DE MONTECUCCOLO, Pe. João António (1622-1692). Descrição histórica dos três reinos do Congo, Matamba e Angola (2 vols.). Lisboa: Junta de Investigações do Ultramar, 1965. .
  • DIAS, Gastão Sousa. Heroismo e lealdade: quadros e figuras da Restauração em Angola. Lisboa: Agência Geral das Colónias, 1943. 95 p.
  • GONÇALVES, Domingos. Notícia Memorável da vida e acçoens da Rainha Ginga Amena, natural do Reyno de Angola. Lisboa: Oficina de Domingos Gonçalves, 1749.
  • MELLO, António Brandão de. Breve história da rainha Zinga Mbandi, D. Ana de Sousa. in: Boletim da Sociedade de Geografia de Lisboa, série 63, nº 3 e 4 (1945), p. 134-146.
  • MILLER, Joseph C., Njinga of Matamba in a New Perspective, in: Journal of African History, 16/2, 1975, pp. 201–16.
  • PARREIRA, Adriano. Economia e sociedade em Angola na época da rainha Jinga: século XVII. Lisboa: Editorial Estampa, 1997. 247 p. ISBN 930-921-473
  • WEBER, Priscila Maria. “Aquela belicosa raynha com valor costumaz”: as ambiguidades de Ginga na obra “História Geral das Guerras Angolanas” de Oliveira de Cadornega e seus usos na historiografia brasileira. Dissertação de Mestrado, PUCRS – Porto Alegre, 2013.http://tede2.pucrs.br/tede2/bitstream/tede/2483/1/454218.pdf
  • UNESCO. 2014., Mulheres na história de África- Njinga a Mbande Rainha do Ndongo e do Matamba - Paris : UNESCO Publications.
  • Doutor Alberto Oliveira Pinto. 2014., Representações culturais da Rainha Njinga Mbandi (c.1582-1663) no discurso colonial e no discurso nacionalista angolano-Rio de Janeiro, UERJ / CH-FLUL.
  • Doutoranda- USP -Mariana Bracks Fonseca. 2014,. Nzinga Mbandi conquista Matamba: legitimidades e poder feminino na África Central. Século XVII. São Paulo;
  • Doutoranda- UFF- Mariana Affonso Pena. 2015. O reinado de Njinga: debate historiográfico- Revista África e africanidades. Rio de Janeiro.