Morte de Tancredo Neves

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Morte de Tancredo Neves
Morte de Tancredo Neves
Velório de Tancredo Neves, ocorrido no Senado Federal.
Localização Instituto do Coração, São Paulo
Data 21 de abril de 1985 (38 anos)

22:23 (UTC−3)

Resultado José Sarney se torna presidente efetivo.

A morte de Tancredo Neves, então presidente eleito do Brasil, ocorreu em 21 de abril de 1985. Inicialmente, a versão oficial informava que a causa da morte foi uma diverticulite, mas apurações posteriores indicaram que se tratava de um leiomioma benigno,[1] mas infectado, a verdadeira causa do óbito teria sido escondida para não divulgar a existência de um tumor, devido ao impacto que a palavra "câncer" poderia provocar à época.[2]

A doença do carismático político prestes a assumir a presidência causou grande comoção e apreensão na população, sendo até divulgada uma foto do presidente eleito ao lado dos médicos para acalmar o país,[3] sua morte teve cerca de duas milhões de pessoas acompanhando o cortejo,[4] ao longo dos anos, foi se descobrindo que houve diversos erros médicos como diagnósticos errados e cirurgias malsucedidas.[5][6]

A versão oficial, que consta no laudo médico, é que a morte foi por uma infecção generalizada,[2][7] porém, em 2005, médicos admitiram que o laudo estava incorreto e que a verdadeira causa seria síndrome da resposta inflamatória sistêmica, o que causa controvérsia até os dias atuais.[8][9][6]

Com a morte do presidente eleito, o vice-presidente, até então presidente interino, José Sarney, assumiu a presidência de forma definitiva.[10][4]

Contexto[editar | editar código-fonte]

Após 21 anos de regime militar, a expectativa era grande de ter o primeiro presidente civil em décadas, eleito indiretamente pelo congresso, Tancredo de Almeida Neves e seu vice, José Sarney tomariam posse em 15 de março de 1985, Tancredo havia se submetido a uma agenda de campanha bastante extenuante, articulando apoios do Congresso Nacional e dos governadores, viajando ao exterior na qualidade de presidente da República. Tancredo vinha sofrendo de fortes dores abdominais durante os dias que antecederam a posse. Aconselhado por médicos a procurar tratamento, teria dito:[7]

Tancredo temia que os militares da chamada "linha-dura" se recusassem a passar o poder ao vice-presidente. Decidiu só anunciar a doença no dia da posse, 15 de março, quando já estivessem em Brasília os chefes de Estado esperados para a cerimônia, com o que ficaria mais difícil uma ruptura política. A sua grande preocupação com a garantia da posse era respaldada pela frase que ouvira de Getúlio Vargas a esse respeito:[7]

Adoeceu com fortes e repetidas dores abdominais durante uma cerimônia religiosa no Santuário Dom Bosco, em Brasília, na véspera da posse em 14 de março de 1985. Foi, às pressas, internado no Hospital de Base do Distrito Federal.[11] Tancredo disse a seu primo Francisco Dornelles, indicado à época para assumir o Ministério da Fazenda, que não se submeteria à operação caso não tivesse a garantia de que Figueiredo empossaria Sarney. Dornelles garantiu ao primo que Sarney seria empossado. As articulações para a posse de Sarney, de acordo com informações compiladas pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), já estavam, naquele momento, sob a condução do então presidente da Câmara Ulysses Guimarães (PMDB-SP) e do ex-ministro-chefe da Casa Civil Leitão de Abreu.[12]

Causa da morte[editar | editar código-fonte]

Devido às complicações cirúrgicas ocorridas — para o que concorreram as péssimas condições ambientais do Hospital de Base do Distrito Federal, o qual estava com a Unidade de Tratamento Intensivo demolida, em obras —, o estado de saúde se agravou, tendo de ser transferido em 26 de março para o Hospital das Clínicas de São Paulo. Um dia antes da transferência, foram divulgadas fotos de Tancredo no hospital, que deram a impressão de que ele estava melhorando, mas horas depois veio a notícia de que Tancredo estava com uma grave hemorragia. Em São Paulo, já muito debilitado e sofrendo, Tancredo teria dito:[13][14]

Durante todo o período em que ficou internado Tancredo sofreu sete cirurgias, mas não resistiu e faleceu em 21 de abril, aos 75 anos, sem assumir a presidência da República. A morte foi anunciada à população pelo então porta-voz oficial da presidência Antônio Britto:[15]

A versão oficial informava que fora vítima de uma diverticulite, mas apurações posteriores indicaram que se tratava de um leiomioma benigno, mas infectado. Os médicos esconderam até o fim a existência de um tumor, devido ao impacto que a palavra "câncer" poderia provocar à época. Uma grande parte da população acreditava que Tancredo morreu de infecção generalizada, mas em 2005 os médicos de São Paulo negaram isso.[16]

Em 2010, o pesquisador Luís Mir lançou um livro com depoimentos dos médicos e documentos obtidos no Hospital de Base de Brasília e no Instituto do Coração, em São Paulo, onde Tancredo morreu.[6] No livro, o autor concluiu que Tancredo Neves foi vítima de vários erros médicos e que ele poderia ter tomado posse. Segundo as pesquisas de Luís Mir, na noite de 14 de março um jatinho estava preparado para levar Tancredo a São Paulo, mas os responsáveis em Brasília vetaram a viagem. Ainda segundo o pesquisador, quando foram registradas as fotos de Tancredo no dia 25, que seriam para dar tranquilidade ao país, já havia um forte sangramento, devido a um erro técnico na sutura da primeira cirurgia. Segundo apurou também, uma técnica equivocada atingiu um vaso, causando hemorragia interna no intestino.[5]

Em 2012, os filhos de Tancredo Neves entraram com o pedido de Habeas Data na Justiça Federal de Brasília para que o Conselho Federal de Medicina e o Conselho Regional do Distrito Federal entreguem todas as sindicâncias, inquéritos ético-disciplinares, documentos e depoimentos dos médicos referentes ao atendimento prestado ao presidente.[9] A família Neves é representada pelo historiador e pesquisador Luís Mir, escritor do livro O paciente, o caso Tancredo Neves, e pelos advogados Juliana Porcaro Bisol, Bruno Prenholato, Cláudia Duarte. Segundo eles, a documentação requerida permitirá uma investigação histórica do que efetivamente aconteceu, inclusive com a identificação dos médicos responsáveis pelo atendimento do presidente.[17] Três anos depois, a documentação ainda não havia sido liberada e Luís Mir disse que iriam pedir a reabertura do processo ao Conselho Federal de Medicina e aos conselhos regionais de Brasília e de São Paulo.[18]

Enterro e sepultura[editar | editar código-fonte]

O epitáfio que o presidente eleito previra certa vez numa roda de amigos, em conversa no Senado, não chegou a ser gravado na lápide, no cemitério, ao lado da Igreja de São Francisco de Assis, em São João del-Rei:

Seu enterro, em São João del-Rei, foi transmitido em rede nacional de televisão, tendo discursado, à beira do túmulo 85 (que lembra tanto o ano em que foi eleito presidente, quanto o de seu falecimento) o deputado federal Ulysses Silveira Guimarães, na época presidente da Câmara dos Deputados. No cemitério da Igreja de São Francisco há uma placa comemorativa da visita do presidente francês François Mitterrand que conhecera Tancredo, quando este viajara à Europa. Em março de 2008 a sepultura de Tancredo foi violada e a peça de mármore da parte superior do túmulo foi quebrada.[19]

Consequências[editar | editar código-fonte]

Sucessão e posse presidencial[editar | editar código-fonte]

Sarney fazendo juramento, durante sua posse.

Existia grande tensão na época devido à possibilidade de uma interrupção na abertura democrática em andamento. Caso Sarney não assumisse, deveria ser empossado em seu lugar o então presidente da Câmara dos Deputados, Ulysses Guimarães do PMDB, pouco aceito pelos militares. O grande risco era que ocorresse um retrocesso, já que na época os setores militares mais conservadores, a chamada linha-dura, tentavam desestabilizar a redemocratização e manter o regime militar.[12][11]

Na madrugada de 14 para 15 de março de 1985, em uma reunião em que estavam presentes Ulysses Guimarães, Fernando Henrique Cardoso, Sarney e o ministro do Exército Leônidas Pires Gonçalves, venceu a interpretação da Constituição de 1967, que o vice presidente deveria assumir e na manhã de 15 de março, às 10 horas, o Congresso Nacional deu posse a Sarney.[20][11]

José Sarney assumiu a Presidência em 15 de março de 1985, jurando a Constituição de 1967, no Congresso Nacional, aguardando o restabelecimento de Tancredo. Leu o discurso de posse que Tancredo havia escrito e que pregava conciliação nacional e a instalação de uma assembleia nacional constituinte.

Na cerimônia de transmissão do cargo, no Palácio do Planalto, o presidente João Figueiredo, por sugestão de Leitão de Abreu, então chefe da Casa Civil, não compareceu, não passando a faixa presidencial a José Sarney, porque Sarney entraria no exercício do cargo como substituto e não como sucessor, sendo Gervázio Batista, então fotógrafo oficial do Palácio do Planalto, o responsável pela entrega da faixa ao novo presidente.[22][23][24]

Em 28 de junho de 1985, Sarney cumpriu a promessa de campanha de Tancredo Neves e encaminhou ao Congresso Nacional a Mensagem 330, propondo a convocação da Constituinte, que resultou na Emenda Constitucional 26, de 27 de novembro de 1985. Eleitos em novembro de 1986 e empossados em 1.º de fevereiro de 1987, os constituintes iniciaram a elaboração da nova Constituição brasileira de 1988.[25]

Despedida de Tancredo Neves, Brasília, 22 de abril.

Houve grande comoção nacional, especialmente porque Tancredo Neves era o primeiro civil eleito presidente da república desde 1960, quando Jânio Quadros foi eleito presidente, e era o primeiro político de oposição ao regime militar a ser eleito presidente da república desde o Golpe Militar de 1964. Assumiu a Presidência da República o vice José Sarney, encerrando o período de 6 governos conduzidos por militares. O Brasil, que acompanhara tenso e comovido a agonia do político mineiro, promoveu um dos maiores funerais da história nacional. Calculou-se na época que, entre São Paulo, Brasília, Belo Horizonte e São João del-Rei, mais de dois milhões de pessoas viram passar o esquife. Coração de Estudante, uma canção do cantor mineiro Milton Nascimento, marcou o episódio na memória nacional.[26]

Em 21 de abril de 1986, exatamente um ano após a morte de Tancredo, foi sancionada a lei 7465/1986. A lei determina que Tancredo Neves deve estar na galeria dos Presidentes do Brasil, para todos os efeitos legais. Assim, apesar de Tancredo não ter tomado posse, a lei garantiu a ele o título de Presidente da República.[27]

Na cultura popular[editar | editar código-fonte]

Series e minisséries[editar | editar código-fonte]

Filme[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. «Tancredo teve um tumor benigno; operado de novo, estado é grave». almanaque.folha.uol.com.br. Consultado em 21 de março de 2023 
  2. a b «A morte de Tancredo Neves em 21 de abril de 1985 - Notícias». Estadão. Consultado em 21 de março de 2023 
  3. Malva, Pamela (6 de maio de 2020). «Presidente morto-vivo: os bastidores da foto mais polêmica de Tancredo Neves». Aventuras na História. Consultado em 21 de março de 2023 
  4. a b «Madrugada mais longa da República faz 30 anos». Senado Federal. Consultado em 21 de março de 2023 
  5. a b «Presidente Tancredo poderia ter tomado posse e foi vítima de erros médicos, diz livro». Política. Consultado em 21 de março de 2023 
  6. a b c d «Atentado ou erro médico? Filme examina misteriosa morte de Tancredo Neves | É tudo história». VEJA. Consultado em 21 de março de 2023 
  7. a b c Nogueira, André (10 de maio de 2020). «Democracia abalada: Saúde de Tancredo Neves expôs fragilidade política do Brasil». Aventuras na História. Consultado em 21 de março de 2023 
  8. «Folha de S.Paulo - História: Aécio critica nova versão sobre morte de Tancredo - 19/04/2005». www1.folha.uol.com.br. Consultado em 23 de março de 2023 
  9. a b Minas, Estado de (9 de fevereiro de 2012). «Família quer documentos médicos sobre a morte de Tancredo Neves». Estado de Minas. Consultado em 21 de março de 2023 
  10. Globo, Acervo-Jornal O. «José Sarney assume presidência em 1985, após a morte do eleito Tancredo Neves». Acervo. Consultado em 21 de março de 2023 
  11. a b c Minas, Estado de (15 de março de 2015). «Há 30 anos, Sarney tomava posse como primeiro presidente civil após 21 anos de ditadura». Estado de Minas. Consultado em 5 de abril de 2023 
  12. a b «Tancredo só aceitou operação após garantia da posse de Sarney». memoria.ebc.com.br. Consultado em 21 de março de 2023 
  13. Minas, Estado de (19 de abril de 2015). «'Não havia risco de morte', diz pesquisador sobre diagnostico de doença de Tancredo Neves'». Estado de Minas. Consultado em 21 de março de 2023 
  14. «Aécio: 'Eu vi meu avô sair da vida e entrar para a história'». VEJA. Consultado em 21 de março de 2023 
  15. «Antônio Britto». memoriaglobo. Consultado em 21 de março de 2023 
  16. «Folha Online - Brasil - Documentário sobre Tancredo Neves será lançado amanhã - 20/04/2005». www1.folha.uol.com.br. Consultado em 21 de março de 2023 
  17. Minas, Estado de (9 de fevereiro de 2012). «Família quer documentos médicos sobre a morte de Tancredo Neves». Estado de Minas. Consultado em 21 de março de 2023 
  18. Minas, Estado de (19 de abril de 2015). «Nova investigação sobre morte de Tancredo Neves pode estar a caminho após 30 anos». Estado de Minas. Consultado em 21 de março de 2023 
  19. «G1 > Política - NOTÍCIAS - Túmulo de Tancredo Neves é destruído parcialmente em MG». g1.globo.com. Consultado em 22 de março de 2023 
  20. COUTO, Ronaldo Costa, História Indiscreta da ditadura e da abertura, Editora Record, 1998
  21. a b «Discurso de Tancredo Neves preparado para a posse na Presidência da República». O Globo. Consultado em 16 de março de 2017 
  22. «João Figueiredo». Acervo Estadão. Consultado em 4 de março de 2014 
  23. «Tancredo vence no Colégio Eleitoral, mas morre antes da posse». O Globo. Consultado em 4 de março de 2014 
  24. «A história revisitada». Jornal do Comércio. 7 de fevereiro de 2011. Consultado em 20 de abril de 2015. "Ele (Sarney) assumiu a presidência, sozinho. Todos os ministros de João Figueiredo estavam exonerados. Por sugestão do Dr. Leitão de Abreu, o general Figueiredo não passou a faixa para Sarney. O próprio dr. Leitão contou-me essa história. Consultado sobre a cerimônia ele sugeriu ao presidente Figueiredo que não passasse a faixa porque Sarney entraria no exercício do cargo como substituto e não como sucessor. Tancredo Neves estava vivo. Eventualmente sem condições de assumir a presidência da República, mas vivo. Foi uma decisão consciente e correta. Tancredo só morreria em abril. Então, fica claro que o general João Figueiredo não se negou a entregar a faixa por birra - como disseram - e sim, por determinação constitucional. A faixa presidencial é o símbolo do poder, mas não completa a investidura". 
  25. «Marco entre a ditadura e a democracia, Constituição de 1988 completa 25 anos». Jornal do Brasil. Consultado em 4 de março de 2014 
  26. REDAÇÃO, DA (4 de março de 2010). «Milton Nascimento toca "Coração de Estudante" para homenagear Tancredo Neves | O TEMPO». www.otempo.com.br. Consultado em 22 de março de 2023 
  27. «LEI Nº 7.465, DE 21 DE ABRIL DE 1986» 
  28. «Episódio de 22/04/1985». globoplay.globo.com. Consultado em 22 de março de 2023 
  29. Céu Aberto (1986) - IMDb (em inglês), consultado em 23 de março de 2023 
  30. AdoroCinema, Tancredo - A Travessia, consultado em 23 de março de 2023