Paideia

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Paideia (FO 1943: Paidéia), (em grego antigo: παιδεία paideia) refere-se ao sistema de educação e formação ética da cultura grega, que incluía temas como ginástica, gramática, retórica, música, matemática, geografia, história natural e filosofia, objetivando a formação de um cidadão perfeito e completo, capaz de liderar e ser liderado e desempenhar um papel positivo na sociedade. O conceito surgiu nos tempos homéricos e permaneceu em sua essência inalterado ao longo dos séculos, embora variando suas formas de aplicação e as disciplinas envolvidas, e continua a interessar muitos educadores e pensadores contemporâneos.

A paideia na Grécia[editar | editar código-fonte]

Significado[editar | editar código-fonte]

Récita de poesia por um jovem acompanhado de um músico. Durante muito tempo uma das formas de transmissão da cultura foi a récita poética. Relevo funerário, ca. 420 a.C. Gliptoteca de Munique.

O conceito formou-se difusamente no período Arcaico da Grécia Antiga, e cristalizou-se mais especificamente em Atenas no período Clássico. O desenvolvimento do conceito tem gerado considerável debate entre os historiadores, havendo muitas opiniões divergentes, e mesmo na Grécia ele era entendido de várias formas, que mudaram ao longo do tempo. No entanto, havia um padrão genérico nitidamente reconhecido. Inicialmente, a palavra paideia (de paidos - criança) significava simplesmente "criação de meninos", e seu escopo era limitado a uma instrução em ginástica e música - "música" no sentido das disciplinas presididas pelas Musas, que incluíam, entre outros, elementos de história, eloquência, dança, religião e música propriamente dita. Tinha entre seus objetivos mais centrais a transmissão dos costumes coletivos, e de fato era a expressão e reflexo desses mesmos costumes que passavam de geração em geração. De acordo com Kevin Robb, os gregos reconheciam que paideia era em suma a aceitação dos modelos dos ancestrais, na forma como um jovem à medida que cresce aceita e imita o modo de vida de seus pais e seus "ídolos" - em geral os melhores atletas e guerreiros -, um processo de transmissão de cultura que o autor pondera ser tão velho quanto a espécie humana. Uma vez que no período Arcaico a transmissão da cultura estava fundamentada essencialmente na oralidade, o resumo da civilização grega Arcaica compilado por Homero em suas obras poéticas teve um importante papel no sentido de organizar esse corpo de conhecimento e tradições coletivas, e a ampla autoridade que Homero ganhou entre os gregos garantiu sua perpetuação de uma forma relativamente estável por muito tempo. Não por acaso a educação envolvia a memorização e récita da poesia homérica, concebida também como instrumento didático e moralizante, e não apenas um deleite para os sentidos ou um simples entretenimento.[1]

Platão pensava que "a essência de toda a verdadeira educação ou paideia é a que dá ao homem o desejo e a ânsia de se tornar um cidadão perfeito e o ensina a mandar e a obedecer, tendo a justiça como fundamento".[2] Aristófanes disse mais ou menos o mesmo, declarando em As Nuvens que o objetivo da educação não era simplesmente adquirir o domínio sobre as matérias ministradas, mas produzir igualmente a excelência moral, enlaçando as potencialidades mentais e físicas em um caráter bem formado, de tal maneira que o homem pudesse ser um melhor cidadão.[3] Como interpretou modernamente Jaeger, os gregos deram o nome de paideia a "todas as formas e criações espirituais e ao tesouro completo da sua tradição, tal como nós o designamos por Bildung ou pela palavra latina, cultura." Daí que, para traduzir o termo paideia "não se possa evitar o emprego de expressões modernas como civilização, tradição, literatura, ou educação; nenhuma delas coincidindo, porém, com o que os gregos entendiam por paideia. Cada um daqueles termos se limita a exprimir um aspecto daquele conceito global. Para abranger o campo total do conceito grego, teríamos de empregá-los todos de uma só vez".[4] Segundo Marrou, na sua abrangência, o conceito de paideia não designa unicamente a técnica própria para, desde cedo, preparar a criança para a vida adulta. A ampliação do conceito fez com que ele passasse também a designar o resultado do processo educativo que se prolonga por toda vida, muito para além dos anos escolares. A paideia, vem por isso a significar "cultura entendida no sentido perfectivo que a palavra tem hoje entre nós: o estado de um espírito plenamente desenvolvido, tendo desabrochado todas as suas virtualidades, o do homem tornado verdadeiramente homem".[5]

Evolução do conceito[editar | editar código-fonte]

O sistema de educação, antes do século V a.C., que veio a ser conhecido como "Sistema Antigo", não era bem estruturado, o ensino podia ser ministrado conforme a aptidão e disponibilidade dos professores e alunos, e era muito dependente da iniciativa individual. Refere Platão que o ensino não tinha uma duração determinada, mas uma vez deixada a adolescência esperava-se que a pessoa passasse a completar sua educação por conta própria na vida em sociedade.[3]

Aparentemente os jovens recebiam a educação em dois espaços distintos: um para a ginástica e outro para a música, mas a princípio qualquer lugar podia ser aproveitado. Contudo, a formação em ginástica exigia equipamentos especiais, encontrados em geral nas palestras, que eram simples "escolas de luta", mantidas por privados e existentes em grande número, ao passo que os ginásios públicos eram poucos, mas mais estruturados, e em geral destinados à prática esportiva de adultos e ao preparo dos atletas que deveriam participar dos Jogos, entre outros usos, que incluíam o treinamento dos efebos que ingressavam na vida militar, ministrado por oficiais do governo. Este treinamento também fazia parte da paideia, uma vez o exercício militar era obrigatório e parte importante na vida da Grécia Antiga, embora pouco se saiba com segurança sobre ele.[6] Depois da fixação literária da poesia homérica, de início transmitida oralmente, a instrução na leitura e escrita também passou a fazer parte da educação da juventude, a qual passou em boa parte a depender da alfabetização. Contudo, esse desenvolvimento aconteceu lentamente, e até o século V a.C. a literacia permaneceu baixíssima mesmo entre a elite.[7]

A Academia de Platão em Atenas. Mosaico em Pompeia, ca. séc. I

Mas, se até então o objetivo fundamental da educação era a formação aristocrática do homem individual como kalos agathos ("Belo e Bom"), a partir do século V a.C., exige-se algo mais da educação. O Sistema Antigo, baseada na ginástica e na música, deixava de ser suficiente. Mas um ideal de maior amplitude somente se cristalizaria após o surgimento do Sofismo. O Sofismo trouxe muitos filósofos estrangeiros para Atenas, exercendo profundo impacto no sistema educativo grego, minimizando os aspectos ginásticos e enfatizando os intelectuais e literários. Ao mesmo tempo, eles objetivaram atuar não tanto no preparo dos infantes, mas instituíram como que um "segundo grau" na educação, criando cursos de aperfeiçoamento que antes não eram facilmente acessíveis nem eram sistematizados. Eles divulgaram suas ideias agressivamente com uma intensa propaganda, centrada nos locais de maior visibilidade, como a ágora e os ginásios públicos, e contribuíram para a profissionalização dos professores. Apesar disso, seus esforços não foram coordenados. Os mestres agiam independentemente, itineravam por várias cidades e locais ministrando aulas privadas em assuntos que elegiam ao seu critério individual, e não instituindo verdadeiras escolas no sentido moderno, instituições estáveis com currículo fixo. Sua influência, por outro lado, se fez sentir nas instituições tradicionais de Atenas, como o Liceu e a Academia, que a partir do século IV a.C. se tornaram centros importantes de ensino avançado.[8] Platão daria uma contribuição fundamental ao transformar o sistema anárquico dos sofistas em uma escola permanente de nível superior na sua Academia Platônica, colocando a transmissão da paideia na dependência da instrução literária, jurídica e filosófica.[9]

Apesar dessas transformações, a paideia em si, no sentido de uma educação completa e tradicional de fundo cívico e moral, pouco mudou em relação à sua inicial concepção Arcaica, mais mudaram as formas como a educação era dada e as especialidades que passaram a ser incluídas na ideia de "educação completa", que se multiplicaram á medida que a civilização grega evoluía e se diversificava e a literacia ficava acessível a uma população muito maior.[10]

A paideia no cristianismo[editar | editar código-fonte]

Depois do surgimento do cristianismo, o conceito de paideia foi adotado pelos Padres da Igreja, mas com o diferencial de colocarem a teologia como a base da educação. Como disse Davey Naugle, "neste contexto, o aprendizado era uma forma de disciplina cristã, uma parte do discipulado, e mesmo uma forma de culto". Mas além da teologia e da tradição judaico-cristã, foram assimiladas outras áreas do conhecimento, e mesmo a tradição clássica pagã foi largamente aproveitada, atualizando a paideia grega à luz da nova fé, tendo agora Jesus como o mais perfeito pedagogo e a Bíblia como o compêndio educativo essencial.[11] [12]

Ao longo da Idade Média o conceito de uma educação total para a formação de uma pessoa completa, moral e útil à sociedade permaneceu vivo, e se multiplicaram os tratados que buscavam abranger a totalidade do conhecimento sobre o homem, a natureza e Deus. Este desejo de universalidade foi a base da educação medieval de alto nível, consagrada na fórmula do trivium e do quadrivium, e deu as bases para a consolidação do sistema universitário.[11]

Atualidade[editar | editar código-fonte]

O conceito grego ainda gera grande interesse entre os historiadores, filósofos e educadores, foi o tema do XX Congresso Mundial de Filosofia organizado pela International Federation of Philosophical Societies em Boston em 1998, e muitos o têm proposto como uma fórmula válida para a sociedade contemporânea, considerando que ela tem se caracterizado pela fragmentação e superficialidade da educação e pela perda de referenciais morais sólidos.[13] [14] [15]

Referências

  1. Robb, Kevin. Literacy and Paideia in Ancient Greece. Oxford University Press, 1994, pp. 33; 165-180
  2. Jaeger, Werner. Paidéia, a Formação do Homem Grego. Martins Fontes, 1995, p. 147
  3. a b Lynch, John Patrick. Aristotle's School; a Study of a Greek Educational Institution. University of California Press, 1972, pp. 33-34
  4. Jaeger, p. 1
  5. Marrou, H.I. História da Educação na Antiguidade. São Paulo: EPU, 1966, p. 158
  6. Lynch, pp. 35-36
  7. Robb, pp. 183-185
  8. Lynch, pp. 39-41
  9. Robb, p. 232-238
  10. Robb, p. 190-193
  11. a b Naugle, Davey. The Greek Concept of Paideia. Dallas Baptist University, s/d.
  12. Jaeger, Werner. Early Christianity and Greek Paideia. Harvard University Press, 1961, pp. 92-101
  13. Tymianieczka, Anna-Teresa. "The Theme: Philosophy/Phenomenology of Life inspiring Education for Our Times". In Tymianieczka, Anna-Teresa (ed). Paideia. Springer, 2000. pp. 2-3
  14. Kato, Morimichi. Greek Paideia and its Contemporary Significance. Tohoku University, s/d.
  15. Livingstone, Richard Winn. Greek ideals and modern life. Biblo & Tannen Publishers, 1969. p. 1

Ligações externas[editar | editar código-fonte]