Homossexualidade na Grécia Antiga

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Jovem e adolescente praticando sexo intercrural; fragmento de taça ática de figuras negras, 550-525 a.C. (Louvre).

O amor homossexual na Grécia Antiga teve de seus aspectos explorados por autores da Antiguidade Clássica, como Heródoto,[1] Platão,[2] Xenofonte,[3] e Ateneu.[4] A forma mais difundida e socialmente significativa de relação sexual íntima entre membros do mesmo sexo na Grécia do período era entre adultos e adolescentes, conhecida como pederastia; os casamentos heterossexuais, da mesma maneira, eram costumeiramente arranjados de acordo com as idades dos cônjuges, e envolviam homens na faixa dos trinta anos de idade casando com garotas no início da adolescência. Não se conhece com precisão sobre as relações homossexuais envolvendo mulheres na sociedade geral grega, porém existem exemplos que datam deste pelo menos a época da poetisa Safo.[5]

Os antigos gregos não concebiam a ideia de orientação sexual como um identificador social, ou como uma essência do indivíduo da maneira que as sociedades ocidentais vêm fazendo ao longo do último século. A sociedade grega não distinguia entre desejo e comportamento sexual com base no gênero de seus participantes, mas sim pela extensão com que tais desejos ou comportamentos se conformavam às normas sociais, que eram baseadas por sua vez no gênero, idade e status social.[5] Existe, no entanto, pouco material a respeito de como as mulheres viam a atividade sexual.

Existem dois principais pontos de vista a respeito da atividade sexual masculina na sociedade grega antiga. Alguns acadêmicos, como Kenneth Dover e David Halperin, alegam que esta sociedade era altamente polarizada em parceiros "ativos" e "passivos", o ''penetrador'' e o ''penetrado'', polarização esta que era associada com os papeis sociais dominante e submisso; o papel ativo (penetrante) estava associado com a masculinidade, status social mais elevado e a idade adulta, enquanto o papel passivo era associado com a feminilidade, status social mais baixo e a juventude.[5] De acordo com este ponto de vista, qualquer atividade sexual onde um homem penetrasse um inferior social seu era tida como normal; como "inferiores sociais" poderiam estar incluídos mulheres, jovens rapazes, estrangeiros, prostitutas ou escravos; e ser penetrado, especialmente por um inferior social, era considerado potencialmente vergonhoso.[5]

Outros estudiosos, no entanto, argumentam que as relações entre homens costumeiramente envolviam um adulto e um jovem: e somente o homem mais velho assumia o papel ativo (penetrante).[6][7] Mas há controvérsia pois historiadores descrevem estas relações como sendo "calorosas", "amáveis" e "afetuosas",[8][9] e sustentam que a tradição grega de relações entre indivíduos do mesmo sexo era centralizada e baseada no Eros Platônico (não-sexual) do "aprendizado, literatura, arte, política, história e aos conhecimentos militares dos gregos, em suma, ao milagre grego".[10]

A visão Eros grega e a Pederastia[editar | editar código-fonte]

Um jovem nu toca o aulo para um banqueteiro: taça ática de figuras vermelhas do Pintor de Euaion, c. 460-450 a.C.

A forma mais comum de relações homossexuais entre homens na Grécia Antiga era a "pederastia" ("amor de/por garotos"). Era uma relação entre um homem mais velho e um adolescente; em Atenas este indivíduo mais velho era chamado de erastes, e sua função era a de educar, proteger, amar e agir como um exemplo para seu amado - chamado de eromenos, cuja recompensa para seu amante estaria em sua beleza, juventude e potencial aprendizado.

Protocolos sociais complexos existiam para proteger os jovens da vergonha associada com o ato de ser penetrado sexualmente. O eromenos devia respeitar e honrar o erastes, porém não desejá-lo sexualmente. Embora ser cortejado por um homem mais velho fosse praticamente um rito de passagem para os rapazes, um jovem que fosse visto reciprocando o desejo sexual de seu erastes com a cópula anal, poderia sofrer um considerável estigma social.[5]

Os gregos antigos, no contexto das cidades-Estado pederásticas, foram os primeiros a descrever, estudar, sistematizar e estabelecer a pederastia como uma instituição sócio-educacional. Era um elemento importante da vida civil, militar, filosófica e artística.[11] Ainda existem debates entre os estudiosos sobre o quanto a pederastia era ou não tolerada e difundida entre as classes sociais, ou se estava limitada à aristocracia.

O aspecto moral da pederastia foi investigado com atenção pelos próprios gregos antigos, e enquanto algumas de suas características foram consideradas vis, outras foram consideradas como o melhor que a vida pode oferecer. Na visão de Platão, a pederastia carnal é descrita como "contrária à natureza", e o autor chega mesmo a sugerir que se uma lei proibindo tal comportamento fosse proposta, seria popular entre as cidades-Estado gregas - e que "provavelmente tal lei seria aprovada como correta."[12]

O assunto ainda é debatido entre historiadores, quando muitos ainda afirmam que a teoria de Walter Pater (de que não havia distinções na mentalidade dos antigos gregos de amor platônico e amor carnal) era um equívoco. Até mesmo durante o movimento hippie, inúmeros estudantes também homossexuais se basearam na interpretação de Walter Pater. O criador da palavra homossexual não acreditava nessa interpretação.[13]

Ao criar a palavra homossexual Karl-Maria Kertbeny considerou dois tipos: Os homossexuais piguitas (homo sexuais/carnais) e os monossexuais de amor platônico (homo masturbadores ou praticantes de outros jogos eróticos).[13] O amor platônico, comum na Grécia antiga, foi referenciado para cunhar a própria palavra homossexual, o termo mais comum hoje em dia. No entanto ao diferenciar o mundo homo masculino entre piguitas e platônicos, Kertbeny enquanto autor do termo homossexual, em 1869, já diferenciou o homossexual (piguita) e o homoerótico (eros do ideal platônico) como sendo instâncias diferentes de comportamento.

Também nessa mesma linha considerando o eros do ideal platônico como um eros não-sexual - ao contrário da teoria de David Halperin e Walter Pater, há reflexões de que a relação entre o erastes (mais velho, acima de 25 anos) e o eromenos (mais jovem), via de regra acontecia somente com a aprovação dos respectivos pais.[9] O mais velho servia de amigo e educador, bem como, quando essa relação íntima se aprofundava, passava a ser uma amizade com amor (eros), a relação era exclusivamente sem conteúdo piguita [13] que, de resto, não compreendia penetração anal e sim no máximo o coito interfemural (fricção do pênis entre as coxas, junto da genitália).[9]

Conforme colocado por Pietro esse lado cultural homo-ativo dominador dos gregos para com os escravos[14], foi também condenado pelos discípulos de Platão, tanto que havia leis, para coibir isso no sentido dos "mais velhos”, respeitarem os jovens e os escravos. Uma lei previa pena de morte para os que praticavam o coito anal e ela foi decretada por Esquines, discípulo de Platão.

Uma das leis[12] atenienses, a Aeschines “Kata Timarchou”, 21 - decretava: Se qualquer Ateniense tiver um “Etairese” (companheiro passivo de mesmo sexo) a ele não será permitido: I) tornar-se um dos nove arcontes; II) nem desempenhar o ofício de sacerdote; III) nem agir como advogado para o estado; IV) nem manter qualquer tipo sequer de ofício, no lar ou fora do lar, quer seja desempenhado por sorte ou por eleição; V) não deve ser enviado como mensageiro; VI) não tomará parte em debate, nem estará presente em atos públicos sagrados; e VII) nem poderá entrar nos limites de um lugar que tenha sido purificado para a reunião de pessoas. Se qualquer homem for acusado de atividades sexuais ilegais contrárias a essas proibições, ele deverá ser morto.

Nesse sentido em relação ao tocante a homossexualidade masculina, Platão era mais condescendente ao homoerotismo do que diversos gregos e apenas defendia que a pederastia é um ato contra a natureza. O amor (eros) entre dois homens é normal (kata-physin), mas deve excluir os atos contra a natureza do próprio homem (para-physin); isso nos ideais do amor platônico.[6][9][12][14]

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

O Commons possui uma categoria contendo imagens e outros ficheiros sobre Homossexualidade na Grécia Antiga
  1. Heródoto, Histórias 1.135 (em inglês)
  2. Platão, Fedro 227a (em inglês)
  3. Xenofonte, Memorabilia 2.6.28, Simpósio 8 (em inglês)
  4. Ateneu, Deipnosophistae 13:601-606 (em inglês)
  5. a b c d e Oxford Classical Dictionary, verbete homosexuality, David M. Halperin, pp.720–723.
  6. a b T.K. Hubbard, crítica de D.M. Halperin, How to Do the History of Homosexuality, em Bryn Mawr Classical Review 2003.09.22
  7. D.H. Mader, "The Greek Mirror: The Uranians and their Use of Greece." em Same-Sex Desire and Love in Greco-Roman Antiquity e em the Classical Tradition of the West, ed. B. C. Verstraete and V. Provencal, Harrington Park Press, 2005, pp.411-412
  8. DeVries, Keith em M. Duberman, ed., Queer Representations: Reading Lives, Reading Cultures (Nova York 1997)
  9. a b c d Lacerda Neto, Arthur Virmond (2007). «Homossexualidade em Platão». Tradução para o português (original de 1952). Companhia Espasa-Calpe, de Buenos Aires. 
  10. W.A. Percy, III, "Reconsiderations about Greek Homosexualities," in Same-Sex Desire and Love in Greco-Roman Antiquity and in the Classical Tradition of the West, ed. B. C. Verstraete and V. Provencal, Harrington Park Press, 2005, pp.47-48
  11. Golden M. "Slavery and homosexuality in Athens". em Phoenix 1984 XXXVIII : 308-324
  12. a b c Platão, Lei, [2] (em inglês)
  13. a b c Takacs, Judit (2004). Past and Present of Radical Sexual Politics. (Amsterdam: UvA – Mosse Foundation). pp. 26–40. 
  14. a b Pietro, Maria Helena (2016). Breves apontamentos sobre o homossexualismo Grego: de Platão à época Helenística. (Universidade de Coimbra: Coimbra University Press).