Revoada dos galinhas-verdes

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Revoada dos galinhas-verdes foi o nome pelo qual ficou conhecido o confronto armado ocorrido na Praça da Sé, em São Paulo, em 7 de outubro de 1934. O episódio é também referido como Batalha da Praça da Sé.

Antecedentes[editar | editar código-fonte]

A Ação Integralista Brasileira (AIB) havia marcado a marcha como uma celebração pelo segundo aniversário do Manifesto Integralista. [1] Levou 5 mil a 10 mil seguidores, conforme cálculos de fontes diversas, à Praça da Sé e arredores. Seus oponentes, que interpretaram a iniciativa como uma demonstração de força inspirada na Marcha sobre Roma - manifestação fascista de 1922, que impulsionou Mussolini ao poder - mobilizaram-se para impedi-la.[2]Mario Pedrosa, militante trotskista, explicaria, anos depois, a percepção da esquerda sobre a celebração integralista:
"Toda a esquerda se uniu contra a manifestação integralista que seria realizada naquele dia. O objetivo dos integralistas era atacar a organização da classe operária, a sede da Federação Sindical de São Paulo e os sindicatos que tinham sede no edifício Santa Helena, na frente do qual haviam planejado o desfile. Nós lutamos contra os fascistas e impedimos a realização da manifestação".[1]

O confronto ocorreu quando anarquistas, comunistas, sindicalistas e trotsquistas, organizados na Frente Única Antifascista, posicionaram-se contra a realização de uma marcha organizada pela (AIB), organização que congregava correntes nacionalistas e fascistas, dirigida por Plínio Salgado. Durante o episódio 30 pessoas ficaram gravemente feridas e morreram pelo menos seis pessoas - três guardas civis, dois operários integralistas e um militante da juventude comunista, Décio Pinto de Oliveira, estudante da Faculdade de Direito de São Paulo. Décio foi alvejado na cabeça quando discursava e passou a ser o símbolo do movimento antifascista brasileiro daqueles anos. Também ferido foi no confronto o jornalista Mário Pedrosa, enquanto ajudava um outro militante comunista também atingido.

A denominação "Revoada dos galinhas-verdes" se deve ao desfecho do incidente, com a debandada dos integralistas, que, enquanto corriam, deixavam pelo chão suas camisas verdes, principal elemento de identificação dos militantes da AIB. Uma testemunha da época assim descreveu a cena: "Despiam as camisas mesmo correndo. Naquela capital do inferno em que se transformara a Praça da Sé, desabusada e corajosamente, rindo, um antifascista, Vitalino, carroceiro, dono de um ferro-velho, divertia-se, ajudando-os a despi-las. Tempos depois, vangloriava-se de possuir, como recordação, em sua casa, mais de uma dúzia delas, guardadas como troféus de um momento histórico". Diante desta fuga desorganizada, o humorista comunista Barão de Itararé ironizou : "Um integralista não corre, voa". [3]

Testemunhos[editar | editar código-fonte]

Lélia Abramo, atriz e militante comunista que participou de momentos importantes da vida política do Brasil como a fundação do PT e as lutas das Diretas Já!, relata a sua versão do acontecimento em suas memórias:

Miguel Reale professor doutor em direito, jurista e escritor brasileiro, autor da Teoria Tridimensional do Direito, um dos responsáveis pela elaboração do Código Civil Brasileiro de 2002, que na sua juventude participou da Ação Integralista Brasileira escreveu, em um artigo, no ano de 2004, outra versão sobre o acontecimento.

Goffredo da Silva Telles Júnior, professor de Direito do Largo São Francisco, um dos autores da Carta aos Brasileiros (1977), contra o regime militar, e que em sua juventude participou da Ação Integralista Brasileira, dá outra versão sobre o acontecido, numa entrevista concedida em 1990 a Eugênio Bucci, na Revista Teoria e Debate:

A versão dos antifascistas[editar | editar código-fonte]

Os antifascistas, sabendo do comício integralista, marcaram uma contramanifestação para o mesmo dia e local. Grupos antifascistas se distribuíram nas imediações da Praça da Sé. Os principais pontos eram a Praça Doutor João Mendes, o pátio do convento do Carmo, no início da Avenida Rangel Pestana, o largo de São Bento e a Praça Ramos de Azevedo. Os camisas-verdes deviam ser mais de "três ou quatro mil", e era grande o contingente de integralistas que desembarcavam de trens vindos de cidades do interior paulista, como Bauru, Jaú, Sorocaba, Campinas e Santos . [7]

A Praça da Sé contava com 400 homens dos bombeiros e da cavalaria da polícia. Havia também a guarda civil armada. Logo as ruas que davam acesso à Praça da Sé estavam policiadas. Os integralistas iniciaram sua manifestação com uma passeata de mulheres e crianças uniformizadas, portando bandeiras com o sigma. Dirigem-se às escadas da Catedral da Sé, onde já se encontravam outros integralistas. São recebidas com gritos e vaias pelos antifascistas, que já estavam a postos na praça.(…) Alguns integralistas buscaram reagir, e há um princípio de tumulto, com uma troca de tapas e safanões. Seguem-se tiros, sem que ninguém soubesse de onde vinham. Uma rajada de tiros é disparada, acertando em cheio três guardas civis. [7]

Cerca de dez minutos depois, o grosso das formações integralistas entra na praça ao som de seu hino oficial, dando "anauês" (saudação integralista), e começando a lotar as escadarias da Catedral. Inicia-se então a contramanifestação, com breve discurso: "Companheiros antifascistas, viemos a praça para não permitir que o fascismo tome conte da rua e dos nossos destinos… " Logo começa um intenso tiroteio vindo de todos os lados. Fascistas e antifascistas trocam tiros. Muitos integralistas se retiram da praça. Um último grupo continua a lutar contra os antifascistas, mas logo se retira. Muitos integralistas deixam a praça, correndo em todas as direções. Nos dias seguintes, são recolhidas as camisas verdes abandonadas. Durante a troca de tiros, dezenas de pessoas, de ambos os lados, foram mortas ou feridas. [7]

Um dos líderes do movimento foi o histórico militante anarquista Edgard Leuenroth, que protestava em meio ao tiroteio. Nas palavras de Eduardo Maffei, "nesse momento estavam de mãos dadas, trabalhadores, intelectuais e estudantes, stalinistas, anarquistas e trotskistas".[8]

Outro participante da manifestação foi o militante libertário Jaime Cubero, que assim descreve sua visão do enfrentamento:[9]

Quando os fascistas chegaram, todos de camisas-verdes (na Itália eram os camisas-negras), começaram a se concentrar, esperando 500 mil pessoas que não chegaram a tantas, colocando na frente da marcha mulheres e crianças, por pensarem que ninguém dispararia contra mulheres e crianças. Os anarquistas esperaram que as mulheres e crianças passassem e depois … tendo um dos companheiros - Simão Rodovich - percebido que havia metralhadoras prontas a disparar sobre os operários, ele toma conta de uma delas e começa então um tiroteio enorme. Morreram seis pessoas, muitas delas ficaram feridas, algumas morrendo depois, devido aos ferimentos, mas o que é de salientar é que houve uma debandada enorme, a passeata dos fascistas abortou. Isto para demonstrar que o movimento anarquista não morreu, a manifestação de 1934 demonstra que ele estava bem vivo".

Cubero também descreve sua visão da composição da manifestação.
Havia uma revista do Partido Comunista da época, Divulgação Marxista, que era suspeita quando dava dados. O Partido Comunista não chegava na altura a ter 1.000 filiados no partido, contudo chegaram quase a dizer que tinham sido eles a enfrentar os integralistas. Irônico não é? Em contrapartida, a Federação Operária de São Paulo (organização eminentemente anarcossindicalista) tinha mais de 80 sindicatos que não pertenciam ao Estado.

Sobre o enfrentamento armado, Augusto Buonicore conta que
Um grupo de choque integralista, com apoio da polícia, sustentou cerca de quatro horas de pesado tiroteio. Entre os militantes que resistiam de armas nas mãos as jovens Lélia Abramo trotskista e a militante comunista Luisa Marcelino Branco.[3] Entretanto a própria Lélia, em suas memórias, afirma não ter portado armas naquele ato . [4]

Referências

  1. a b "A Revoada dos Galinhas Verdes: 72 anos de uma façanha heróica". Mídia Independente, 7 de outubro de 2006.
  2. Sangue na praça da Sé. Há 75 anos, batalha entre antifascistas e integralistas em SP deixou seis mortos e mais de 30 feridos graves. Por Mário Magalhães. Folha de S. Paulo, 1º de novembro de 2009.
  3. a b BUONICORE, Augusto C. "73 anos da Batalha antifascista da Praça da Sé". Mídia Independente, 27 de outubro de 2007
  4. a b ABRAMO, Lélia. Vida e Arte - Memórias de Lélia Abramo. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 1997, p. 54
  5. REALE, Miguel. O integralismo revisitado, 28 de agosto de 2004.
  6. BUCCI, Eugênio. Entrevista do prof. Goffredo Telles Junior
  7. a b c A Batalha Anti-Fascista na Praça da Sé Mídia Independente. Compilação de vários relatos de militantes antifascistas
  8. MAFFEI, Eduardo. "A Batalha da Praça da Sé". Rio de Janeiro: Villa Rica, 1984,. ISBN 8531906148
  9. FERREIRA, José Maria Carvalho. Jaime Cubero e o Movimento Anarquista no Brasil. Entrevista.. Revista Utopia # 8

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

A Revoada dos Galinhas Verdes - Uma História da Luta Contra o Facismo no Brasil. Coleção Baderna. São Paulo: Veneta, 2014. ISBN 9788563137296
"Fúlvio Abramo: 60 anos de luta pelo socialismo". Entrevista concedida a Eugênio Bucci. Revista Teoria e Debate. Ano I, número 1, 1º de dezembro 1987.
"7 de outubro de 1934 - 50 anos". Cadernos CEIMAP
"O Homem Livre: um jornal a serviço da liberdade (1933-1934)". Cadernos Arquivo Edgard Leuenroth (UNICAMP), v. 12, nº 22/23, 2005, p. 63-74
“A Frente Única Antifascista (1933-1934)”. In: FERREIRA, Jorge; REIS FILHO, Daniel Aarão. (Org.). A formação das tradições (1889-1945). Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 2007, v. 1, p. 429-451.
História do Movimento Anarquista no Brasil.

Ver também[editar | editar código-fonte]



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