Doença de Charcot-Marie-Tooth

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Doença de Charcot-Marie-Tooth
O pé de uma pessoa com a doença de Charcot-Marie-Tooth: a falta do músculo, o arco do pé alto e os dedos em garra são sinais da doença genética.
Classificação e recursos externos
CID-10 G60.0
CID-9 356.1
DiseasesDB 5815 2343
MedlinePlus 000727
eMedicine orthoped/43 pmr/29
MeSH D002607
Star of life caution.svg Aviso médico

A doença de Charcot-Marie-Tooth (CMT), também conhecida como atrofia peronial muscular (APM), é um conjunto de neuropatias de etiologia genética que afectam os nervos periféricos, podendo apresentar uma sintomatologia muito variada. Esquematicamente, a CMT atinge os nervos periféricos, que conectam a medula espinhal aos músculos, ocasionando uma perturbação na condução dos impulsos nervosos.

Embora relativamente rara, é um dos grupos mais comuns de neuropatias motoras e sensitivas hereditárias (NMSH); em sua forma hipertrófica, apresenta-se na infância (NMSHI). É uma doença desmielinizante, isto é, provoca danos na bainha de mielina dos neurônios dos nervos periféricos e a degeneração dos axônios, responsáveis pela condução dos impulsos elétricos. Assim, nos nervos afetados, a condução de sinais fica comprometida, o que causa prejuízos na sensação (diminuição da sensação dos membros, em especial das pernas e pés), movimento, cognição e outras funções dependendo dos nervos envolvidos. A doença caracteriza-se por debilidade e atrofia muscular progressiva da panturrilha (atrofia muscular fibular), podendo ocasionar incapacidade progressiva, com déficits sensitivomotores e problemas ortopédicos (pé cavo).[1] Tipicamene, causa problemas com a marcha, todavia não afeta a esperança de vida, não causa retardo mental e pode afetar homens ou mulheres, como um caráter recessivo ou associado ao cromossomo X, caso em que afeta somente à linhagem masculina, dado que, nos homens, praticamente todos os genes do cromossomo X se expressam, sejam eles dominantes ou recessivos.[2]

Em geral, a CMT evolui lentamente, mas também pode progredir em surtos.

A forma mais freqüente de neuropatia de CMT é a 1A (CMT1A), de herança autossômica dominante, decorrente de uma duplicação de uma região específica do cromossomo 17, denominada 17p11.2-p12.

Existem vários tipos, classificados de acordo com a parte do nervo que é atingida (mielina ou axônio) e o modo de transmissão (caráter recessivo ou dominante). Nos casos mais graves pode ocorrer a atrofia dos músculos, e as pessoas afectadas podem perder a capacidade de se movimentar. É comum, no entanto, que os doentes apresentem sintomas muito leves, podendo jamais se aperceber de que sofrem de CMT.

A doença de Charcot-Marie-Tooth não deve ser confundida com a esclerose lateral amiotrófica ou doença de Charcot, que é muito mais grave.

História[editar | editar código-fonte]

A doença foi descrita pela primeira vez em 1884 por Friedrich Schultze (1848-1934), mas as descrições clássicas foram publicados em 1886 por Jean-Martin Charcot e Pierre Marie, na França,[3] e Howard Henry Tooth,[4] em Londres, resumindo o tratamento por Johann Hoffmann,[5] em 1889. Em fevereiro de 1886, Charcot e seu aluno, Pierre Marie, descreveram cinco casos dessa atrofia muscular progressiva, que foi considerada como decorrente de uma mielopatia. Esta foi a última contribuição importante de Charcot para a neurologia ortodoxa. No mesmo ano, Howard H. Tooth defendeu sua tese de doutorado na Universidade de Cambridge, com o título "O tipo peronial de atrofia muscular progressiva". Ele enfatizou a atrofia inicial do músculo fibular e defendeu a idéia de que se tratava de uma neuropatia periférica. Casos semelhantes já haviam sido relatados por Hermann Eulenburg (1814-1902) em 1856, e por Hermann Eichhorst (1849-1921), Alexander William Hammond (1828-190) e Joseph Ardern Ormerod (1848-1925), mas o trabalho de Charcot e Marie introduziu o novo conceito, segundo o qual a doença tinha uma base neuropática, não sendo uma miopatia.[6]

Etiologia genética[editar | editar código-fonte]

"A neuropatia de Charcot-Marie-Tooth apresenta heterogeneidade genética: mutações genéticas localizadas em diferentes cromossomos podem produzir quadros clínicos muito semelhantes. O mecanismo de herança pode ser autossômico dominante, recessivo ou ligado ao cromossomo X. O avanço dos estudos moleculares, nos últimos anos, tem colaborado na melhor caracterização e no diagnóstico de vários tipos e subtipos das neuropatias periféricas hereditárias de CMT e também da neuropatia hereditária sensível à compressão. Medidas da velocidade de condução nervosa motora, obtidas através da eletroneuromiografia, são utilizadas para classificar a CMT em dois grupos principais: tipo 1 (CMT1), na qual os pacientes têm velocidade de condução nervosa diminuída, e tipo 2 (CMT2), onde a velocidade é normal ou um pouco aumentada. A forma mais freqüente de neuropatia de CMT é a forma 1A (CMT1A), de herança autossômica dominante, que é causada por uma duplicação de uma região específica do cromossomo 17, denominada 17p11.2-p12."[7]

"A deleção (perda) dessa mesma região em 17p11.1-p12 é responsável pela neuropatia hereditária sensível à compressão (HNPP). Essa neuropatia tem como sintoma característico a ocorrência de lesão dos nervos como resposta a fatores externos como pressão, alongamento ou uso continuado, levando a episódios de dormência, formigamento e fraqueza muscular. O gene PMP22, localizado no intervalo duplicado na CMT1A e deletado na HNPP, é o responsável pelas manifestações clínicas das duas doenças. Já foram descritos casos dessas neuropatias com mutações de ponto em PMP22."[7]

Sintomas[editar | editar código-fonte]

Normalmente a CMT é descoberta nas duas primeiras décadas de vida, e praticamente não apresenta progressões nas décadas seguintes. Porém, suas características e efeitos podem variar muito, em cada caso. Há portadores que apenas apresentam pequenas alterações na movimentação das mãos, por exemplo. Assim, muitas vezes o indivíduo não se sabe portador da doença até a 5ª ou 6ª década da vida. Mas há também casos mais graves que podem gerar, por exemplo, sérias dificuldades de locomoção ou até mesmo paralisia.

Diagnóstico[editar | editar código-fonte]

O diagnóstico de CMT requer uma série de testes feitos em sequência. Em primeiro lugar é realizada uma entrevista com o doente, que tem como objectivo determinar o historial (sintomas e cronologia) da doença no indivíduo e o historial familiar, visando identificar, na sua família, outras pessoas que possam apresentar sintomas semelhantes. Segue-se um exame neurológico, em o médico irá determinar o estado dos músculos dos membros superiores e inferiores, os reflexos de tendões e a sensibilidade dos membros. O médico pode procurar ainda indícios de deformações no .

Caso os músculos do doente se apresentem flácidos e/ou atrofiados e o reflexo de tendões e sensibilidade sejam reduzidos, o doente fará um conjunto de testes de electrodiagnóstico. São então realizados estudos de condução de impulsos nervosos e uma electromiografia, que permite determinar a actividade bioeléctrica dos músculos.

Se, após a realização desses exames, o diagnóstico indicar que o doente tem uma elevada probabilidade de sofrer de CMT, será realizada uma biópsia de um nervo periférico, exame que confirma se o doente sofre ou não da doença. Em 2008 já existiam vários testes genéticos que permitem determinar se o doente possui ou não algumas das mutações conhecidas que são responsáveis pela CMT.

Dada a variabilidade clínica bastante ampla, sendo sutis as variações entre os diferentes tipos, o diagnóstico diferencial entre casos de Charcot-Marie-Tooth só é possível através de exames moleculares (exames de DNA).

No caso da neuropatia de Charcot-Marie-Tooth tipo 1A e da neuropatia hereditária sensível à compressão (HNPP), é possível confirmar o diagnóstico pela identificação, respectivamente, de duplicações e deleções em 17p11.1-12. Mutações de ponto do gene PMP22 podem também ser investigadas. Indivíduos afetados por CMT1A ou HNPP apresentam risco de 50% de transmitir a neuropatia a seus descendentes.

A USP possui um avançado laboratório no Centro de Estudos do Genoma Humano do Instituto de Biociências (CEGH-IB), onde, através de um exame laboratorial, torna-se possível identificar qual tipo de Charcot-Marie-Tooth o doente possui. O CEGH-IB realiza testes para a pesquisa de duplicações, deleções e mutações de ponto do gene PMP22.[8]

Diagnóstico pré-implantacional[editar | editar código-fonte]

Atualmente existe a possibilidade de se realizar um exame chamado PGD (Pre-Implantation Genetic Diagnosis), que pode ser traduzido como DPI (Diagnóstico Pré-Implantacional), o qual pode ser utilizado no processo de FIV - Fertilização in vitro, com o objetivo de diagnosticar nos embriões a existência de alguma doença genética ou cromossômica antes da implantação no útero da mãe. 130 doenças podem ser prevenidas com essa técnica, inclusive alguns casos de Charcot-Marie-Tooth [9]

A Charcot-Marie-Tooth Association [10] oferece diversos serviços e esclarecimentos de especialistas sobre a doença.

Tratamento[editar | editar código-fonte]

Normalmente, o tratamento se resume a sessões de fisioterapia.

Efeitos da fisioterapia sobre a CMT[editar | editar código-fonte]

O texto que se segue é um conjunto de excertos da monografia intitulada Efeitos da Fisioterapia Associada ao Kickboxing na Doença de Charcot-Marie-Tooth: Estudo de Caso,[7] .

"As neuropatias de Charcot-Marie-Tooth são conhecidas também como neuropatias motoras e sensoriais hereditárias. Formam um grupo heterogêneo de doenças genéticas que afetam nervos periféricos motores e sensoriais, com diferentes padrões de herança, evoluções clínicas e características eletroneuromiográficas. É dos grupos mais comuns de neuropatias genéticas, afetando crianças e adultos com uma freqüência relativamente alta (um caso para 2.500 pessoas). Essas doenças caracterizam-se por provocar uma degeneração lenta e progressiva dos nervos periféricos, levando à atrofia e à fraqueza dos músculos distais dos membros. Muitas vezes, causam deformidades das mãos e dos pés, alterações da sensibilidade e dos reflexos dos tendões. Em 97% dos indivíduos portadores da forma herdada, a primeira manifestação da doença acontece até os 27 anos de idade. Apenas uma pequena porcentagem desses pacientes chega a procurar a ajuda de médicos, pois geralmente os sintomas são leves e os pacientes se acostumam às limitações."[7]

Referências

  1. Doenças dos nervos periféricos
  2. Manual Merck. Seção 1 - Fundamentos. Capítulo 2 - Genética.
  3. CHARCOT, J. M. e MARIE, P.: Sur une forme particulière d'atrophie musculaire progressive, souvent familiale débutant par les pieds et les jambes et atteignant plus tard les mains. Revue médicale, Paris, 1886; 6: 97-138.
  4. TOOTH, H. H.: The peroneal type of progressive muscular atrophy. Dissertation, London. H. K. Lewis, 1886.
  5. HOFFMANN, J.: Über progressive neurotische Muskelatrophie. Archiv für Psychiatrie und Nervenkrankheiten, 1889, 20: 660. Weitere beiträge zur Lehre von der hereditären progressiven spinalen Muskelatrophie im Kindesalter nebst Bemerkungen übder den fortschreitenden Muskelschwund im Allgemeinen. Deutsche Zeitschrift für Nervenheilkunde, 1897, 10: 292-320.
  6. Whonamedit? A dictionary of medical eponyms. Charcot-Marie-Tooth disease
  7. a b c d NUNES, André. Efeitos da Fisioterapia Associada ao Kickboxing na Doença de Charcot-Marie-Tooth: Estudo de Caso. Unisul, 2006.
  8. Centro de Estudos do Genoma Humano. Instituto de Biociências. Universidade de São Paulo. Neuropatias periféricas.
  9. Soluções para Doenças Genéticas - PGD CGH/ DPI (Diagnóstico Pré - implantacional) PGD-24.
  10. Site da Charcot-Marie-Tooth Association

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • ADAMS, Raymond D. et al., Principles of Neurology, 6th ed., p. 1343.