Geração à Rasca
| Protesto da "Geração à Rasca" | |
|---|---|
| Avenida da Liberdade, Lisboa | |
| Localização | Lisboa, Porto e outras cidades |
| Data | 12 de Março de 2011 |
Geração à Rasca é o nome dado a um conjunto de manifestações ocorridas em Portugal e outros países, no dia 12 de Março de 2011, as maiores manifestações não vinculadas a partidos políticos desde a Revolução dos Cravos1 .
Um evento do Facebook e um blogue, foram o ponto de partida2 para o movimento de protesto, autointitulado "apartidário, laico e pacífico", que reivindica melhorias nas condições de trabalho, como o fim da precariedade. O manifesto incitava à participação numa manifestação dos "desempregados, “quinhentoseuristas” e outros mal remunerados, escravos disfarçados, subcontratados, contratados a prazo, falsos trabalhadores independentes, trabalhadores intermitentes, estagiários, bolseiros, trabalhadores-estudantes, estudantes, mães, pais e filhos de Portugal."3 4
Índice |
Antecedentes[editar]
O nome é um jogo de palavras usado para descrever a geração que protestou durante os anos 90 do século XX, apelidada «Geração rasca» por Vicente Jorge Silva, em 1994. Aquando destas manifestações estudantis contra o aumento das propinas, era Ministro da Educação Couto dos Santos5 .
Canção dos Deolinda[editar]
A iniciativa inspirou-se na canção dos Deolinda de 2011, "Parva que sou", que fala sobre a precariedade laboral que afecta milhares de portugueses, em particular licenciados:
Que mundo tão parvo
Onde para ser escravo é preciso estudar
Os membros da banda não participaram nos protestos, embora se solidarizem com os manifestantes.6
Homens da Luta e o Festival da Canção[editar]
A vitória dos Homens da Luta com a canção "A Luta é Alegria" no Festival da Canção de 2011, uma canção humorística inspirada nas canções revolucionárias de Zeca Afonso veio trazer ainda mais aderentes às manifestações do dia 12 de Março.6 7
Protesto[editar]
O protesto encheu a Avenida da Liberdade em Lisboa. As estimativas para o número de pessoas presentes no protesto em Lisboa variaram entre as 200 000 e as 300 000 pessoas.8 9 Houve também manifestações no Porto (80 000 pessoas)10 , Funchal11 , Ponta Delgada12 , Viseu13 , num total de 11 cidades portuguesas. Houve também manifestações mais pequenas em Barcelona, Londres, Berlim, Haia, Madrid, Lubliana, Luxemburgo, Bruxelas, Maputo, Nova Iorque, Copenhaga e Estugarda em frente às embaixadas de Portugal.14 A Polícia de Segurança Pública estima a presença de 100 000 pessoas em Lisboa e 60 000 no Porto, enquanto a organização fala de 200 000 e 80 000, respectivamente.15
Reacções[editar]
Miguel Sousa Tavares comentou no Jornal da Noite da SIC de 7 de Março de 2011 que o movimento é demagógico, considerando que uma proposta de demitir todos os políticos vinha do mesmo movimento, o que veio a ser desmentido.16 O bispo do Porto, D. Manuel Clemente disse em declarações à Rádio Renascença não ter ficado surpreendido com a dimensão da manifestação, e que deve ser dada uma resposta por parte dos políticos.17 Paulo Portas, líder do CDS-PP, afirmou a 11 de Março de 2011 que "os partidos [políticos] devem resistir à tentação de colonizar" a manifestação e que os organizadores "não têm nenhuma obrigação de apresentar soluções".18 Quando do anúncio da recepção do Prémio Pritzker em 28 de Março de 2011, Eduardo Souto de Moura disse, em conferência de imprensa, que receber esse prémio era bom porque "[…]Não há emprego, está tudo a emigrar. Temos bons arquitectos e a chamada geração à rasca está mesmo à rasca. E não há para onde ir.[…]"19
Consequências[editar]
A 15 de Março de 2011, João Labrincha, um dos organizadores do Protesto, fez na RTP um balanço muito positivo da manifestação, apelidando-a de "dia histórico" onde cerca de 400 mil pessoas estiveram nas ruas, afirmando que "agora a luta tem que passar por todos" para que a energia desse dia não morra. Acusou ainda de "desfasamento face à realidade" o Primeiro-Ministro José Sócrates e Pedro Passos Coelho, líder do maior partido da oposição - PSD, por estes não terem feito comentários nem tido reacção após a gigante manifestação.20
Poucos dias após a manifestação da Geração à Rasca, Paula Gil afirmou que "o Protesto não era o final [...] queríamos que as pessoas percebessem que a democracia não termina no direito ao voto."21
Adolfo Mesquita Nunes, do CDS-PP, apresentou uma proposta de um pacote de 20 medidas urgentes para a "Geração à rasca", incluindo que as universidades informem os alunos da empregabilidade dos cursos que leccionam, uma maior flexibilidade do mercado de trabalho e a liberalização do mercado de arrendamento.22
O bispo do Porto, Manuel Clemente, em entrevista à Lusa, afirma que estes protestos "são antes de mais, para respeitar muito" e "levar a sério", afirmando que não se pode relativizar o que fizeram jovens "que vêem o seu futuro com uma grande interrogação".23
A 23 de Março de 2011, José Sócrates apresenta a sua demissão como primeiro-ministro de Portugal, após um chumbo no Parlamento a medidas de austeridade propostas no âmbito do Pacto de Estabilidade e Crescimento.24
Na sequência da marcação de eleições legislativas, o Bloco de Esquerda lançou uma campanha intitulada Retratos da Geração à Rasca25 .
A 15 de Abril de 2011, os organizadores inciais do protesto fundam o Movimento 12 de Março. A esse pequeno grupo de jovens juntaram-se outros activistas, com o desejo de criar um movimento com o objectivo de "Fazer de cada cidadão um político" (expressão originária de um pensamento de José Saramago26 ), prometendo ser "uma voz activa na promoção e defesa da democracia em todas as áreas da nossa vida".27
A 19 de Abril de 2011, o Movimento 12 de Março, os Precários Inflexíveis, o FERVE e os Intermitentes do Espectáculo e do Audio Visual lançaram uma Lei Contra a Precariedade.28
A partir de 15 de Maio de 2011, manifestações semelhantes ocorreram em Espanha, inspiradas nos protestos em Portugal. Os organizadores do movimento "Democracia Real Já" apontam a Geração à Rasca como uma referência, pois em Espanha falava-se "muito do que estava a acontecer em Portugal e deu-nos vergonha que aqui não tivéssemos feito nada. Em Portugal mostraram que não se deve ter medo, que se deve sair à rua".29
A 22 de Maio de 2011, primeiro dia de campanha eleitoral para as legislativas antecipadas, o Movimento 12 de Março lançou uma campanha paralela pela realização de uma Auditoria Cidadã à Dívida Pública30 , que se formalizou oficialmente na Convenção de Lisboa realizada a 17 de Dezembro de 2011,31 onde foi criada uma "Comissão de Auditoria", na qual muitas outras pessoas e colectivos se vieram a integrar, através de um movimento que adoptou o nome de Iniciativa para uma Auditoria Cidadã à Dívida Pública.
A 15 de Outubro de 2011, o Movimento 12 de Março fez parte da plataforma de movimentos sociais que organizaram a manifestação em Lisboa, naquele que ficou conhecido como o primeiro protesto convocado à escala global32 .
Tanto o Movimento 12 de Março, como outros que surgiram após o Protesto da Geração à Rasca, se mantém actuantes em vários domínios da política, activismo e cidadania. "As pessoas descobriram que têm voz, estão mais conscientes e atentas à política" e a "sociedade [está] mais viva e desperta". 33
Ver também[editar]
Referências
- ↑ Decenas de miles de portugueses se manifiestan contra la precariedad en la mayor concentración al margen de los partidos · ELPAÍS.com. Página visitada em 13 de março de 2011.
- ↑ http://publico.pt/1482270
- ↑ http://geracaoenrascada.wordpress.com/manifesto/
- ↑ Protesto Geração à Rasca alastra no Facebook
- ↑ http://www.rtp.pt/noticias/index.php?article=423992&tm=8&layout=122&visual=61
- ↑ a b Deolinda, o grupo que dá voz à "geração à rasca", presente "em consciência". SIC Online. Página visitada em 12 de março de 2011.
- ↑ Homens da Luta aumentam adesões à 'Geração à Rasca' - Sol. Página visitada em 12 de março de 2011.
- ↑ Protesto/crise: "Geração à rasca" enche a avenida da Liberdade até ao Rossio - dn - DN. Página visitada em 12 de março de 2011.
- ↑ Geração à rasca leva 300 mil manifestantes à Avenida da Liberdade- Economia - Jornal de negócios online. Página visitada em 12 de março de 2011.
- ↑ "Geração à Rasca" no Rossio de Lisboa - Portugal - DN. Página visitada em 12 de março de 2011.
- ↑ Geração à rasca: protesto chegou ao Funchal > Sociedade > TVI24. Página visitada em 12 de março de 2011.
- ↑ IOL Diário - Geração à rasca: protesto forte em Ponta Delgada. Página visitada em 12 de março de 2011.
- ↑ IOL Diário - Geração à Rasca: Viseu protestou no Rossio. Página visitada em 12 de março de 2011.
- ↑ IOL Diário - «Geração à rasca»: luta também em Barcelona. Página visitada em 2011 de março de 13.
- ↑ Protesto Geração à Rasca juntou entre 160 e 280 mil pessoas só em Lisboa e Porto - Sociedade - PUBLICO.PT. Página visitada em 13 de março de 2011.
- ↑ Grupo anti-político 'cola-se' à Geração à Rasca - Sol. Página visitada em 12 de março de 2011.
- ↑ Bispo do Porto diz que é preciso atender à “Geração à Rasca”, Rádio Renascença, 13 de Março de 2011. Página acedida em 15 de Março de 2011.
- ↑ Portas defende legitimidade da «Geração à Rasca» TVI 24, 11 de Março de 2011. Página acedida em 15 de Março de 2011.
- ↑ Souto de Moura: “Nunca pensei receber o prémio Pritzker” - Cultura - PUBLICO.PT. Página visitada em 2011 de março de 30.
- ↑ http://geracaoenrascada.wordpress.com/2011/03/15/o-balanco-do-protesto-feito-por-joao-labrincha-na-rtpn/
- ↑ http://www.esquerda.net/artigo/%E2%80%9Cmanifesta%C3%A7%C3%A3o-da-gera%C3%A7%C3%A3o-%C3%A0-rasca-foi-um-in%C3%ADcio%E2%80%9D
- ↑ CDS quer alunos informados de taxa de empregabilidade, TVI 24, 15 de Março de 2011. Página acedida em 15 de Março de 2011.
- ↑ É preciso “levar a sério” os protestos sociais, diz bispo do Porto - Sociedade - PUBLICO. PT. Página visitada em 2011 de março de 23.
- ↑ Ao minuto: Sócrates pediu demissão e diz que vai a eleições - Política - PUBLICO. PT. Página visitada em 2011 de março de 25.
- ↑ http://jpn.icicom.up.pt/2011/06/03/bloco_de_esquerda_e_as_rubricas_tematicas.html
- ↑ http://caderno.josesaramago.org/117585.html
- ↑ http://www.jn.pt/PaginaInicial/Nacional/Interior.aspx?content_id=1831152
- ↑ http://www.precariosinflexiveis.org/2011/04/lei-contra-precariedade-foi-lancada.html
- ↑ "Geração à rasca" é referência para Espanha - JN. Página visitada em 2011 maio 22.
- ↑ http://www0.rtp.pt/noticias/index.php?article=444383&tm=9&layout=122&visual=61
- ↑ http://www.ionline.pt/outros/convencao-lisboa-formaliza-hoje-auditoria-cidada-divida-publica
- ↑ "Protesters in Lisbon surround parliament", Reuters, 15 October 2011.
- ↑ Um ano depois, a geração à rasca deu lugar ao Portugal à rasca - i online. Página visitada em 2012 de junho de 29.
Ligações externas[editar]
- Página oficial
- Fórum das Gerações
- PORTAL DA DEMOCRACIA - fórum de discussão política aberta
- Vídeos e fotos