Mulheres na Idade Média

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No sentido horário: Casamento no manuscrito Chroniques de France, Ilustração do De Mulieribus Claris, Capa da tradução de Adelardo de Bath para Os Elementos de Euclides e ilustração do compêndio de Cristina de Pizan.

As mulheres na Idade Média, além de exercerem o papel tradicional de esposas, mães e filhas, também se ocupavam de diversos outros papéis sociais. Muitas mulheres tinham uma profissão e até conduziam alguma forma de negócio sem a tutela de seus maridos, de forma autônoma. Por exemplo, os registros documentais de Paris do século XIII apresentam mulheres professoras, médicas, boticárias, tintureiras, copistas, miniaturistas, encadernadoras, arquitetas, mas também alguns papéis de liderança importantes, tais como abadessas e rainhas. Além disso, as mulheres tinham direito de voto nas comunas burguesas.[1]

Muitas forças sociais influenciaram o papel da mulher nesse período, mas a força que guiava toda a população medieval era a Igreja Católica Romana, com o seu predomínio cultural e religioso sob a mentalidade popular. A Igreja foi uma grande influência unificadora da cultura na Idade Média, com o ensino da cultura latina, preservação da arte e da escrita e uma administração que se estabelecia por um estatuto criado após a queda do Império romano em que havia uma maior predominância do direito canônico, aplicado pelos bispos. [2] Outra influência foi as culturas celto-germânicas ou 'bárbaras' da Europa Ocidental, onde a mulher era independente e tinha status social, nessas antigas sociedades bárbaras as mulheres tinham grande prestigio.

A partir do século XII a imagem de Maria se impõe na sociedade medieval, através do culto mariano que tem início no século XI no Ocidente.[3] Essa intensa valorização da imagem de Maria na Idade Média intensificou a presença e a promoção feminina na religião.[4]

Houve muitas mulheres entre os mártires. Desde muito cedo muitas foram eleitas como santidades, mas durante os primeiros séculos da Idade Média, o modelo masculino de santidade predominava na figura dos bispos, sendo os santos desse período, em sua maioria, esses homens de fé.[5]

Outros aspectos influenciaram muito a vida feminina, como a baixa expectativa de vida, especialmente na Alta Idade Média, [6] e a ascensão das guildas ou corporações de ofício, entre a Idade Média Central e a Baixa Idade Média, as quais tornaram-se predominantemente masculinas ao final do medievo.[7]

O casamento e o papel da mulher na família[editar | editar código-fonte]

Casamento Medieval.

No judaísmo, a mulher era quase totalmente subordinada ao marido. No paganismo romano, porém, o sistema era um pouco mais complexo: anterior ao modelo cristão, e precedeu o rito medieval, visto que a mulher romana tinha o status de uma menor, não podendo participar e cumprir determinados atos jurídicos sem a permissão do marido. Todavia, a civilização romana desenvolveu um conceito igualitário para essa união com a designação "Ubi Gaius tu Gaia" , "onde sou Gaius, tu és Gaia".[8]

Teoricamente o casamento na Idade Média, de forma geral, ocorria quando as mulheres ainda eram muito jovens em relação a seus maridos, o que forjava um domínio completo do esposo, conduzindo numa perda dos direitos legais que a mulher possuía quando solteira. Mas, ao se casar a mulher tornava-se responsável pela manutenção de seu lar, sendo essa sua principal atribuição e obrigação.[9] Santo Agostinho expressava em três palavras o propósito do casamento: prole, a fidelidade e o sacramento.[10] No entanto, a composição da família e o casamento variou de região para região, de local para local, sendo muito relativo, muitas camponesas solteiras ou casadas eram chefes ou anciãs de suas Aldeias, a situação da mulher frente ao homem era igualitária nas classes populares como os camponeses. Uma serva trabalhava tanto quanto um servo e uma mulher da taverna urbana ou a burguesa tinha tanta preocupação em fechar balanços positivos e vigiar tratos com agiotas ou com a guilda, quanto seu marido.

Para o medievalista Georges Duby, o dever mais importante do chefe da família era vigiar e possuir o controle sobre a vida das mulheres que viviam sob sua tutela, tendo total liberdade para tomar decisões sobre suas vidas. Assim, a condição feminina na Idade Média sempre foi transmitida como uma condição de 'submissão' em relação aos homens, pelo menos entre a aristocracia feudal.[11]

Contudo, Régine Pernoud apresenta uma opinião contrária, e entende que o chefe da casa possuía a autoridade para colocar em prática suas funções como marido e pai; todavia, não possuía sobre a mulher e os filhos um poder ilimitado. Segundo esse ponto de vista, a mulher cooperava tanto na organização da comunidade em que vivia quanto na educação de seus filhos, entretanto cabia ao marido o sustento da família. Mas, na ausência do marido a mulher tornava-se a chefe do lar, e caso a mulher falecesse sem herdeiros, seus bens pessoais regressariam para sua família de origem.[12]

O ensino[editar | editar código-fonte]

A família medieval mostrava-se menos inclinada em instruir suas filhas, embora no século XIV sejam observadas, por exemplo, crianças de ambos os sexos em instituições de ensino em Florença. A chance da instrução feminina rendeu uma enérgica discussão e muitos moralistas da época foram avessos a essa ideia. Contudo, as damas da sociedade constituíam um situação exclusiva, já que suas responsabilidades sociais condiziam com um certo nível de educação e cultura. Por isso, sabiam ler e escrever, muitas de forma perfeita e algumas até dominavam o latim e o grego.[13]

As moças eram separadas dos rapazes e frequentavam estabelecimentos de ensino particular, que podiam ser em menor quantidade, mas os estudos ocorriam de forma muito ativa. A abadia de Argenteuil, onde foi educada Heloísa de Cluny, ensinava às moças as Sagradas Escrituras, as letras, a medicina e mesmo a cirurgia, sem contar o grego e o hebraico.[14] Entretanto, fora do meio privilegiado, a formação feminina era orientada antes de mais nada pelas compreensões do casamento, dos filhos, das responsabilidades e da vida privada. As mulheres deviam ser educadas para serem mães zelosas, educadoras da moral e da fé e exemplos para suas filhas, sendo a figura materna a verdadeira depositária dos valores privados.[15]

Cuidados pessoais[editar | editar código-fonte]

Imagem de 1493. Dama medieval com vestuário luxuoso e cabelo trançado.

A longa cabeleira feminina na Idade Média era vista como um atributo sexual, e por isso era necessário discrição. A presença dos longos cabelos era tida como um véu natural, necessário às mulheres para demonstrar-lhes sua inferioridade nativa, sua sujeição. Assim, o cuidado com seus longos cabelos deveria ser um hábito íntimo legado ao quarto. E, quando fossem sair as ruas deviam prendê-los numa trança, já que na época o cabelo solto tinha um poderoso efeito erótico. Só as mulheres que viviam da prostituição mantinham seus cabelos soltos. Mulheres que não eram mais meninas, principalmente as casadas, ao estarem em público deviam encerrar suas tranças numa touca.[16]

Os trajes[editar | editar código-fonte]

Usualmente, as mulheres medievais da elite usavam roupas que seguiam a linha do corpo, com um busto muito justo e amplas saias. O corpete ficava por dentro de uma camisa de tecido, e as mangas eram por vezes duplas, as primeiras - traje de cima- nos cotovelos, e as de baixo, de tecido mais simples, indo até aos pulsos. O pescoço era sempre bem destacado, enquanto as saias arrastavam pelo chão, presas por um cinto onde por vezes sobressaia uma fivela de joalheria.[17]

A diversidade dos trajes luxuosos não deixou de aumentar ao longo das gerações. A qualidade dos tecidos tornou-se mais refinada com o uso de uma seda mais rica. Os guarda-roupas foram ficando mais variados. A partir de uma análise dos inventários que nos restam das famílias da Idade Média, podemos concluir que as mulheres da aristocracia estavam cada vez mais habilitadas, no século XV, a marcar sua posição por meio da maneira como se vestiam.[18] Desse modo, a forma ostensiva como o vestuário feminino era exibido em público tornou-se a maneira de caracterizar a situação social da família a que pertenciam. O vestuário feminino foi um meio de valorização da imagem das mulheres medievais, e, simultaneamente, uma forma de liberação e de represália contra a sua subordinação pessoal.[19]

O quarto[editar | editar código-fonte]

Dama medieval deitada em sua cama.

O quarto foi o espaço indicado para aprisionar as damas medievais - as senhoras bem-nascidas. Além de sujeitá-las em seus aposentos, era necessário ocupá-las, pois o ócio era tido como um perigo a natureza feminina. Por isso, o tempo tinha que ser dividido entre oração e trabalhos manuais ligados à costura. No quarto, fiava-se e bordava-se na companhia das outras mulheres da casa, e das mãos femininas vinha a produção dos enfeites da casa e do quarto, além de peças do próprio vestuário.[20]

A sociedade doméstica era atravessada por uma separação nítida entre o masculino e o feminino e o encontro, no interior da morada, entre o senhor e a dama tinha uma única função: a fecundação. Porém, vários outros encontros se produziam nesse ambiente, com outros propósitos. Apesar de uma tentativa de delimitar os espaços pré-destinados às mulheres dentro de uma separação nítida entre masculino e feminino, e reafirmar que existia uma constante vigilância sobre elas, muitos encontros ilegítimos se consumavam ali. Essa situação gerava uma preocupação para o senhor, visto que a manutenção da honra era assunto masculino, público, mas que dependia essencialmente do comportamento das mulheres, isto é, do privado.[21]

A prostituição[editar | editar código-fonte]

Imagem medieval que ilustra a prostituição.

A maior forma de marginalidade feminina na Idade Média era a prostituição, que em quase todos os casos começava por volta dos 17 anos, mas um terço delas se vendia antes dos 15 anos. A metade havia sido submetida mediante violência (27% eram vítimas de violações públicas) e cerca de uma quarta parte havia sido prostituída pelas suas famílias ou arrastada à prostituição pelo caráter repulsivo do ambiente familiar. Somente 15% das mulheres parecem ter vendido o corpo por iniciativa própria e sem qualquer coerção.[22]

O retorno do direito romano[editar | editar código-fonte]

A aplicação do direito romano, também conhecido como Corpus Juris Civilis ou códico de Justiniano I modificou a estrutura social medieval. A mulher foi uma das mais afetadas, pois a influência e o uso do Corpus Juris Civilis inspirado nos preceitos cristãos foram minando a liberdade feminina, o que conduziu a um declínio de sua ocupação social no período. O direito romano foi bastante estudado e utilizado pelos que detinham propriedade e poder. O ressurgimento do direito romano foi um regresso às origens romanas, em relação ao direito consuetudinário medieval, e, segundo Régine Pernoud, configurava-se em uma perda, em especial para as mulheres, pois o direito consuetudinário baseado no uso e costumes permitia à mulher conservar o que lhe pertencia antes do matrimônio e a educação dos filhos era exercida em parceria pelo pai e a mãe, por exemplo. O estatuto da mulher dentro da Igreja era similar ao da sociedade civil; no entanto, aos poucos também foi sendo modificado, principalmente no fim da Idade Média e início da Idade Moderna.[1]

A liberdade feminina vai se restringindo na medida em que o direito romano, na figura do pater familias, - chefe do lar - tem poder sobre a vida e a morte da mulher e dos filhos. As mulheres passam a ser propriedade dos pais e, depois de casadas, dos maridos. A maioridade aumenta para os 25 anos e sequencialmente aumenta o tempo de influência dos pais sobre os filhos. No período medieval, o pai administrava uma família, mas não detinha poder supremo sobre ninguém dela. A tarefa de proteção, educação dos filhos e administração dos bens era desempenhada de maneira conjunta por pai e mãe. Com as mudanças advindas do retorno do direito romano, a situação muda radicalmente. A mulher não passa de uma subordinada, sem ter mais direito de opinar sobre assuntos do lar e na criação dos filhos. Foi somente no fim do século XVI, por um decreto do Parlamento Francês de 1593, que a mulher foi claramente afastada de sua participação em funções públicas naquele país. Assim, a presença e atuação feminina foi se limitando ao lar e a educação dos filhos.[1]

Personagens de importância histórica[editar | editar código-fonte]

Hildegarda de Bingen
recebendo a inspiração divina.

Abadessas como Hildegarda de Bingen (1098 - 1179) e Herrad de Landsberg (1130 - 1195), ambas contemporâneas no século XII, desenvolveram-se nos campos teológicos e científicos com maestria. A segunda, Herrad de Landsberg, escreveu a enciclopédia mais conhecida do século XII com o título Hortus Deliciarum , "Jardim de Delícias", fornecendo a síntese mais segura sobre as técnicas das ciências estudadas no período.[23]

Cristina de Pisano (1364 - 1430), poetisa e filósofa, autora do livro A Cidade das Mulheres, recusou-se a aceitar a exclusão das mulheres nas universidades da França, no século XIV, reivindicando uma educação mais completa e acessível a todas as mulheres. Ela desenvolveu dois assuntos fundamentais para a sociedade contemporânea e para o pensamento feminista: a necessidade da educação feminina e a aspiração a uma sociedade pacífica.[24]

Rainhas como Leonor da Aquitânia (1122 - 1204) e Branca de Castela (1188 - 1252), avó e neta, exerceram amplas funções reais, dominando seus reinos devido a ausência dos respectivos maridos e reis, assumindo o reinado com poder ilimitado.[25] A imperatriz Adelaide da Itália desempenhou importante papel político junto ao marido Oto I e após viuvar assegurou o trono para seu filho Oto II. Teofânia Escleraina, a nora de Adelaide, deu continuidade a esta influência no cenário político apesar das dificuldades pelo fato de ser estrangeira e quando viuvou, foi ajudada pela sogra a assegurar o trono para seu filho Oto III. Ambas também incentivaram as artes na corte do império.[26]

No final do período medieval Isabel I de Castela e o marido Fernando II de Aragão, conhecidos como os Reis Católicos, concluiram a Reconquista da Espanha, financiaram a viagem de Cristovão Colombo, iniciaram a inquisição espanhola que expulsou, converteu ou reprimiu os judeus e islâmicos que viviam no Reino de Aragão.[27]

Representações medievais de atividades femininas[editar | editar código-fonte]

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. a b c PERNOUD, Régine; DO CARMO SANTOS, Maria. O mito da Idade Média. Europa-América, 1989.
  2. FRANCO Jr.,Hilário. A Idade Média: Nascimento do Ocidente. 2ed. São Paulo: Brasiliense, 2001, p. 89.
  3. Le Goff (2011), p.119
  4. Le Goff (2011), p.129
  5. Le Goff (2011), p.130
  6. FRANCO Jr.,Hilário. A Idade Média: Nascimento do Ocidente. 2ed. São Paulo: Brasiliense, 2001, p. 34.
  7. Perrot (1990), p.317
  8. Le Goff (2011), p.124
  9. WADE LABARGE, Margaret. La mujer en la Edad Media. Madrid: Nerea, 1988, p. 48.
  10. Perrot (1990),p.
  11. Duby (2009), p. 88
  12. PERNOUD, Régine; GONÇALVES, António Manuel. Luz sobre a idade média. Europa América, 1992, p. 18.
  13. Duby (2009), p.287
  14. PERNOUD, Régine; GONÇALVES, António Manuel. Luz sobre a idade média. Europa América, 1992, p.96.
  15. Duby (2009), p. 288
  16. Duby (2009), pp. 545-546
  17. PERNOUD, Régine; GONÇALVES, António Manuel. Luz sobre a idade média. Europa-América, 1992, p. 184.
  18. DUBY (2009), p.302
  19. Duby (2009), p.303
  20. Duby (2009), p.89
  21. Duby (2009), p.91
  22. ROSSIAUD, Jacques; SANCHO, Cláudia Schilling. A prostituição na Idade Média. Paz e Terra, 1991, p. 41.
  23. ALMEIDA, Cybele Crosseti de.Do mosteiro à universidade: considerações sobre uma história social da medicina na Idade Média. AEDOS, v. 2, n. 2, 2009. "http://seer.ufrgs.br/index.php/aedos/article/view/9830/5643_"
  24. MICHEL, Andrée. O feminismo: uma abordagem histórica. Zahar, 1982, p. 34.
  25. DA COSTA, Ricardo. Os sonhos e a História: Lo somni (1399) de Bernat Metge. "http://www.ricardocosta.com/artigo/os-sonhos-e-historia-lo-somni-1399-de-bernat-metge_"
  26. Yalom (2004), pp.19-23
  27. Yalom (2004), p.205
  28. Yalom (2004), p.75

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Da Crus Coelho, Maria Helena. História das mulheres no Ocidente. [S.l.]: Afrontamento, 1991.
  • Jacques. In: KLAPISCH - LUBER, Christiane. História das mulheres no ocidente: a Idade Média. Porto: Afrontamento, 1993. Seção Olhares de clérigos. vol. 2.
  • Duby, Georges; MACHADO, Maria Lucia. História da vida privada, v. 2-Edição de bolso: Da Europa Feudal a Renascença. São Paulo: Editora Companhia das Letras. ISBN 8535914099.
  • Hufton, Olwen. In: DAVIS, Natalie Zenon; FARGE, Aríete (sob a direção). História das mulheres no ocidente. Porto: Afrontamento, 1993. Seção Mulheres, trabalho e família. vol. 3.
  • Le Goff, Jacques. Uma longa idade média. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2011. ISBN 8520008275.
  • Macedo, José Rivair. A mulher na Idade Média. Rio de Janeiro: Contexto, 2002.
  • Oliveira, Américo Lopes. Dicionário de mulheres célebres. Porto: Lello & Irmãos, 1981.
  • Optiz, Claudia. In: KLAPISCH - ZUBER, Christiane. Histórias das mulheres no ocidente: a idade média. Porto: Afrontamento, 1993. Seção O quotidiano da mulher no final da idade média (1225 - 1500). vol. 2.
  • Perrot, Michelle; DUBY, Georges. História das mulheres no Ocidente. Porto: Afrontamento, 1990. vol. 2.
  • Yalom, Marilyn. The Birth of the Chess Queen (em ). 1ª. ed. Inglaterra: HarperCollins, 2004. ISBN 978-0060090647.
  • Wemple, Suzanne Foney. In: KLAPISCH - ZUBER, Christiane. História das mulheres no ocidente: a Idade Média.. Porto: Afrontamento, 1993. Seção As mulheres do século V ao século X. vol. 2.