Zheng He

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Estátua de Zheng He

Zheng He (chinês tradicional: 鄭和, chinês simplificado: 郑和, pinyin: Zhèng HéWade-Giles: Cheng Ho) (1371 - 1433) foi um explorador chinês do século XV. Realizou viagens por mar pelo sudoeste asiático e pelo Oceano Índico. Chegou à Índia, ao Mar Vermelho e a Moçambique.

Biografia[editar | editar código-fonte]

Zheng He foi originalmente chamado Ma He e nasceu em 1371.[1] De etnia hui, era o segundo filho de um família muçulmana, que também teve quatro filhas, de Kunyang (昆阳), atual Jinning (晋宁), ao sul de Kunming, perto do canto sudoeste do Lago Tian em Yunnan.[2] [3] [4]

Tanto seu avô e quanto seu bisavô tinham o título de Hajji, o que indica que fizeram a peregrinação a Meca. Seu bisavô foi nomeado Bayan e pode ter sido um membro de uma guarnição mongol em Yunnan.[2] Zheng He teria escutado os relatos de suas viagens a terras longínquas.

Girafa que teria sido trazida à China por uma das expedições de Zheng He em 1415

Em 1381, ano em que seu pai morreu e após a derrota da dinastia Yuan do Norte, um exército ming foi enviado para Yunnan para acabar com o rebelde mongol Basalawarmi. Ma He, então com apenas onze anos de idade, foi tomado cativo e castrado, convertendo-se assim num eunuco. Foi enviado para a Corte Imperial, onde era chamado de 'San Bao', que significava 'Três Joias'. Acabou se tornando um conselheiro de confiança do imperador Yongle (o terceiro imperador da dinastia Ming, tendo reinado entre 1403 e 1424), ajudando-o a depor o seu antecessor, o imperador Jianwen. Em troca do serviço meritório, o eunuco recebeu do imperador Yongle o nome de Zheng He.[2] [4] [5]

Estudou em Nanjing Taixue (Colégio Central Imperial). Suas missões exibiram impressionantes demonstrações de sua capacidade organizativa e poder tecnológico, mas não produziram grandes resultados em comércio já que Zheng He foi um almirante e um oficial, mas não um mercador.

Em 1425, o imperador Hongxi o nomeou para ser Defensor de Nanquim. Em 1428, o imperador Xuande designou-o para completar a construção do magnífico templo Da Baoen, um templo budista de nove andares em Nanquim, e em 1430 o nomeou para liderar a sétima e última expedição para o "Oceano Ocidental".[6]

Zheng He navegou a Malaca no século XV e trouxe consigo uma princesa chinesa, a Princesa Hang Li Po. Ela teria de desposar o rei de Malaca. A princesa foi com seus 1 500 serviçais, que se assentaram eventualmente em Bukit Cina, em Malaca. Os seus descendentes são conhecidos na atualidade como Baba (o título masculino) e Nyonya (o título feminino).

Em 1424, o imperador Yongle faleceu. Seu sucessor, Hongxi (governante de 1424 a 1425), decidiu reprimir a influência dos eunucos na corte. Zheng He realizou uma última viagem sob o governo do imperador Xuande (governante de 1426 a 1435), mas, depois disso, as frotas de tesouro chinesas terminaram. Ainda que sua tumba se encontre em Nanquim, na colina de Niushou (em 1985, a sepultura foi restaurada), é muito possível que tenha morrido em alto-mar e que seu cadáver tenha sido lançado ao mar. Também construiu os estaleiros de Nanquim, que ainda funcionam atualmente.

Zheng He morreu durante a última viagem da frota do tesouro, na viagem de regresso após a frota chegar a Ormuz em 1433.

Viagens[editar | editar código-fonte]

O Mapa Kangnido (1402) antecede as viagens de Zheng e sugere que tinha bastante informação geográfica do Velho Mundo.
Viagem Anos Regiões e Países Visitados[7] [8]
1ª Viagem 1405–1407 Champa, Java, Palembang, Malaca, Aru (id:Aru), Samudera, Lambri, Ceilão, Kollam, Cochin, Calecute
2ª Viagem 1407–1409 Champa, Java, Siam, Kochi, Ceilão
3ª Viagem 1409–1411 Champa, Java, Malaca, Sumatra, Ceilão, Quilon, Kochi, Calecute, Sião, Lambri, Kayal, Coimbatore, Puttanpur
4ª Viagem 1413–1415 Champa, Java, Palembang, Malacca, Sumatra, Ceilão, Cochin, Calicut, Kayal, Pahang, Kelantan, Aru, Lambri, Ormuz, Maldivas, Mogadíscio, Barawa, Melinde, Áden, Mascate, Dhofar
5ª Viagem 1416–1419 Champa, Pahang, Java, Malaca, Samudera, Lambri, Ceilão, Sharwayn, Kochi, Calecute, Ormuz, Maldivas, Mogadíscio, Barawa, Malindi, Áden
6ª Viagem 1421–1422 Ormuz, Este de África, outros países da Arábia
7ª Viagem 1430–1433 Champa, Java, Palembang, Malaca, Sumatra, Ceilão, Calecute, Fengtu [9] [10] ... (18 países no total)

Controvérsia de Menzies[editar | editar código-fonte]

No livro 1421: O ano em que a China descobriu o mundo, o autor Gavin Menzies defende que uma frota de 1.000 navios comandada por Zheng He explorou virtualmente todo o globo, descobrindo a África Ocidental, a América (incluindo o Brasil), a Groenlândia a Islândia, a Antártida e a Austrália.

Comparação entre os mapas de Fra Mauro (1457) e Kangnido (1402)

Esta tese tem sido descartada com relativa frequência por alguns historiadores profissionais.[11] [12] [13] [14] A cartografia e os textos chineses da época referem unicamente expedições pelo Índico.

Em relação à hipótese Atlântica, existem apenas algumas teorias baseadas largamente em interpretações de um documento europeu da época, o Mapa de Fra Mauro.

Quanto à dimensão dos navios, citada em textos mais recentes, é considerada exagerada dadas as limitações da tecnologia dos juncos. Relatos de Marco Polo e de outros exploradores europeus da época relatam navios de 2.000 toneladas, o que está muito aquém das dimensões indicadas nestas teorias. A frota chinesa que explorou, em diversas expedições, o Índico até à costa africana seria constituída por não mais de 300 embarcações, das quais algumas poderiam atingir as 2.000 toneladas, sendo contudo na sua maioria constituída por embarcações muito menores e mais práticas. Convém ainda lembrar que um junco, mesmo de 2.000 toneladas, seria extremamente vulnerável ao mau tempo no mar, e que as rotas apontadas por estas teorias passam pelo Cabo da Boa Esperança, pelo Cabo Horn e pelos oceanos Árctico e Antárctico.

Outras teorias defendem ainda que algumas das expedições chinesas tenham deixado descendentes na América do Sul, entre povos indígenas que apresentam uma doença genética asiática.

Zheng He e o Islã no sudeste asiático[editar | editar código-fonte]

O líder religioso e erudito islâmico indonésio Hamka (1908-1981) escreveu em 1961: "O desenvolvimento do Islã na Indonésia e na Malásia está intimamente relacionado com um chinês muçulmano, o almirante Zheng He."[15] Em Malaca ele construiu celeiros, armazéns e uma paliçada e, muito provavelmente deixou para trás muitos dos seus grupos muçulmanos. Grande parte das informações sobre viagens de Zheng He foi compilada por Ma Huan, também muçulmano, que acompanhou Zheng He em várias das suas visitas de inspeção e serviu como seu cronista e intérprete. Em seu livro "A Perspectiva de Conjunto das Costas Oceânicas" (em chinês: 瀛涯勝覽), escrito em 1416, Ma Huan deu relatos muito pormenorizados de suas observações dos costumes e das vidas dos povos nos portos visitados. Zheng He tinha muitos muçulmanos eunucos como seus companheiros. Quando sua frota chegou pela primeira vez em Malaca, já havia chineses de fé muçulmana vivendo lá. Ma Huan fala sobre eles como tángrén (em chinês: 唐人), que eram muçulmanos. Em seus portos de escala, eles ativamente propagavam a fé islâmica, estabelecendo comunidades chinesas muçulmanas e construindo mesquitas.

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. Ooi Keat Gin Southeast Asia: A Historical Encyclopedia, from Angkor Wat to Timo ABC-CLIO Ltd (30 April 2004) ISBN 978-1-57607-770-2 p.324
  2. a b c Mills (1970), p. 5.
  3. Levathes (1994), p. 61.
  4. a b Encyclopedia of China: The Essential Reference to China, Its History and Culture, p. 621. (2000) Dorothy Perkins. Roundtable Press, New York. ISBN 0-8160-2693-9 (hc); ISBN 0-8160-4374-4 (pbk).
  5. Levathes (1994), pp. 61-63.
  6. Mills (1970), p. 6.
  7. Maritime Silk Road 五洲传播出版社. ISBN 7-5085-0932-3
  8. Modern interpretation of the place names recorded by Chinese chronicles can be found e.g. in Some Southeast Asian Polities Mentioned in the MSL by Geoffrey Wade
  9. Deng, Luo Mao. Voyages of the San Bao Eunuch in the Western Ocean 三宝太监西洋记. [S.l.: s.n.], 1587.
  10. {{O livro foi publicado em 1585 e contém a lista de países explorados pelo Navio do tesouro comandado por Zheng He.}}
  11. The 1421 myth exposed (em inglês). Página visitada em 2007-03-22.
  12. Zheng He in the Americas and Other Unlikely Tales of Exploration and Discovery (em inglês). Página visitada em 2007-03-22.
  13. 1421: The Year China Discovered the World by Gavin Menzies (em inglês). Página visitada em 2007-03-22.
  14. Finlay, Robert. (2004). "How Not to (Re)Write World History: Gavin Menzies and the Chinese Discovery of America" (em inglês). Journal of World History 15 (2).
  15. Chinese Muslims in Malaysia, History and Development por Rosey Wang Ma

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Dreyer, Edward L. (2006). Zheng He: China and the Oceans in the Early Ming, 1405–1433 (Library of World Biography Series). Longman. ISBN 0-321-08443-8.
  • Levathes, Louise (1997). When China Ruled the Seas: The Treasure Fleet of the Dragon Throne, 1405–1433. Oxford University Press, trade paperback. ISBN 0-19-511207-5.
  • Mills, J. V. G. (1970). Ying-yai Sheng-lan, The Overall Survey of the Ocean's Shores (1433), translated from the Chinese text edited by Feng Ch'eng Chun with introduction, notes and appendices by J. V. G. Mills. White Lotus Press. Reimpresso em 1970, 1997. ISBN 974-8496-78-3.
  • Ming-Yang, Dr Su. 2004 Seven Epic Voyages of Zheng He in Ming China (1405–1433)
  • Viviano, Frank (2005). "China's Great Armada." National Geographic, 208(1):28–53, July.
  • China Has an Ancient Mariner to Tell You About
  • Jornal, em chinês, sobre pesquisas acadêmicas das viagens de Zheng He
  • Cummins, Joseph (2006). History's Great Untold Stories. Murdoch Books. ISBN 1-74045-808-7.

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

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