Inverno nuclear

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Teste nuclear no atol de Bikini, 1954

Por inverno nuclear entende-se o fenômeno ambiental que, segundo alguns modelos teóricos, seria provavelmente produzido se ocorresse na Terra uma guerra nuclear em larga escala. Estudos feitos na década de 1980 mostraram que uma grande guerra atômica poderia ter um impacto devastador sobre o clima do planeta, levando à morte milhões de pessoas. A teorização inicial de tal fenômeno foi trabalho do cientista soviético Vladimir Alexandrov.

Apesar de ser uma hipótese teórica, tem base em evidências concretas, informando-se nos dados obtidos de testes nucleares em escala limitada, em registros sobre catástrofes naturais - como a explosão dos vulcões Krakatoa, Tambora e Pinatubo - e no estudo de outros eventos dramáticos como incêndios florestais de grande escala na história recente da Terra, com impacto documentado sobre o clima global. A polêmica que se formou em torno da teoria atingiu seu auge nos anos 80, envolvendo cientistas, políticos e ativistas sociais, que levantaram argumentos tão discordantes quanto foi apaixonado o debate. A despeito da incerteza que cerca todos os modelos teóricos e da disparidade das conclusões que cientistas igualmente acreditados ofereceram a público, a teoria do inverno nuclear pareceu plausível o bastante para influir no processo de desarmamento nuclear de grandes potências como os Estados Unidos e União Soviética. Após esse clímax, com o fim da Guerra Fria, a idéia de um inverno nuclear passou para um segundo plano, mas está novamente sendo revivida em anos recentes por uma nova geração de pesquisadores, fazendo outra vez previsões preocupantes a partir de modelos computadorizados avançados.

Mecanismo[editar | editar código-fonte]

Tal teoria jamais se pôs à prova mas os estudos, incluindo modelos gerados por computador, concluíram que um bombardeio com armas nucleares esfriaria o clima mundial, podendo levá-lo a uma nova idade do gelo. Os cientistas afirmaram que em um bombardeio com tais armas se atacariam prioritariamente os alvos civis importantes, ou seja, as cidades. As cidades, cheias de materiais inflamáveis, junto com os campos e florestas no entorno, arderiam durante semanas ou meses, lançando uma vasta nuvem de cinzas que obscureceria o céu em uma ampla região circundante. Os "cogumelos" das explosões termonucleares elevariam escórias e aerossóis a altitudes estratosféricas, garantindo sua permanência em suspensão por um longo período e espalhando-as, com o tempo, por todo o globo. Pelo menos durante um ou dois anos a incidência dos raios solares seria menor. Ademais, estas explosões gerariam abundantes quantidades de óxidos de nitrogênio estratosféricos, que potencializariam ainda mais o albedo terrestre. Em segundo lugar se poderiam atacar centros de produção e sistemas de abastecimento de alimentos e energia, entre os quais poderiam se encontrar centrais nucleares, com a consequente extensão da radiação. Tudo reverteria em uma drástica redução das temperaturas superficiais em todo o planeta poucas semanas após o holocausto nuclear, mas os oceanos manteriam sua temperatura original devido à elevada capacidade térmica da água. Esta diferença térmica geraria ventos ciclônicos que flagelariam as cidades e portos litorâneos. Os temporais cessariam quando a temperatura da água se igualasse com a da terra.

Após este desastre emergiria um mundo gelado e estéril em que 90% das colheitas mundiais estariam arruinadas e a capacidade de geração de energia haveria diminuído em mais da metade. Sem meios para aquecer e alimentar as suas populações, as cidades se despovoariam. Para os que não morressem de imediato na guerra, o futuro seria sombrio. O caos estaria instalado, recursos vitais de regiões inteiras teriam sido perdidos ou comprometidos, haveria fome em grande escala e inumeráveis mortes por outros efeitos secundários.

A teoria do inverno nuclear postula que após um intercâmbio nuclear completo não só se veriam afetadas as nações beligerantes, senão que haveria consequências nefastas em escala global, quiçá durante séculos ou por mais tempo. O inverno nuclear é não só uma representação teórica dramática de um futuro possível após um confronto entre duas superpotências (ou coalizões), senão que significa, para todos os efeitos, o fim da civilização tal como a conhecemos hoje. A volta à "idade da pedra" em questão de meses. Alguns cientistas chegaram a dizer sem receios que tal evento seria o desencadeador de uma nova glaciação.

O debate público[editar | editar código-fonte]

A explosão em Nagasaki

Os efeitos dos artefatos nucleares começaram a chamar a atenção do público leigo e do mundo científico e político desde as primeiras detonações atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki em 1945. O que primeiro veio à discussão foram os efeitos diretos da explosão e do calor produzido. Somente na década de 1950 se estudaram outros efeitos, como a precipitação de partículas radioativas. Nos anos 1970 se percebeu que as detonações injetavam grandes quantidades de óxidos de nitrogênio na estratosfera, que destroem o ozônio (ozono), mas somente nos anos 80, na sequência do movimento pacifista, se empreenderam diversas outras pesquisas, reveladoras de possíveis efeitos globais sobre o clima, que deram margem a uma grande controvérsia pública envolvendo cientistas, políticos e pacifistas. Em 1975 um grupo de acadêmicos desenvolveu uma pesquisa que indicou que uma guerra nuclear em larga escala teria efeitos devastadores para a camada de ozônio. Em 1981 Jonathan Schell publicou uma série de artigos de grande repercussão no jornal The New Yorker, depois reunidos em livro, onde argumentou que uma guerra nuclear levaria à extinção da humanidade.[1]

Nesse cenário em 1982 a Academia de Ciências da Suécia encomendou um estudo a Paul Crutzen e seu colaborador John Birks sobre as implicações atmosféricas de uma guerra nuclear. Crutzen havia sido um pioneiro na determinação dos efeitos dos óxidos de nitrogênio sobre o ozônio, mas suas conclusões indicaram um impacto bastante limitado de detonações nucleares sobre a camada de ozônio. Contudo, em seu estudo Crutzen levou em conta modelos de bombas diferentes daqueles usados em Hiroshima e Nagasaki, possuindo menores cargas explosivas, e por isso o resultado direto pouco expressivo. Mesmo assim, continuando suas pesquisas, eles passaram a considerar não somente o efeitos dos óxidos de nitrogênio sobre o ozônio, mas também os da fumaça causada pelos incêndios massivos em cidades inteiras que seriam um resultado de uma guerra de grandes proporções, e que obscureceriam a irradiação solar, desencadeando um resfriamento global. A publicação desses estudos na revista Ambio chamou a atenção para esses efeitos antes desconsiderados, e no ano seguinte outros pesquisadores assumiram a questão, como Vladimir Alexandrov e Georgiy Stenchikov, e um grupo formado por Richard Turco, Owen Toon, Thomas Ackerman, James Pollack e Carl Sagan, conhecidos como Grupo TTAPS, levando-os às mesmas conclusões. O Grupo TTAPS trabalhou a partir de um cenário básico envolvendo uma detonação de cinco mil Megatons. Mas no mesmo documento eles apresentaram cenários alternativos, postulando que uma guerra de cem Megatons já seria suficiente para provocar um inverno nuclear com uma imensa mortalidade humana. Outro grupo, liderado por Paul Ehrlich, trabalhando sobre o estudo do grupo TTAPS, desenvolveu uma perspectiva ainda mais severa, mas Brian Martin criticou várias inconsistências em ambos os relatórios, que não obstante tiveram uma divulgação sensacionalista. Ele disse também que se manifestaram vários críticos contrários aos resultados propostos, dizendo que com boas razões esperavam análises mais imparciais e menos apaixonadas, e levassem em conta a incerteza que cerca qualquer teoria ou previsão, e possíveis efeitos compensatórios da natureza. Outros cientistas, como Starley Thompson e Stephen Schneider, especularam que apesar de prováveis, os efeitos negativos sobre o clima seriam menores do que os apontados, falando em um "outono nuclear" em vez de um "inverno nuclear".[1][2]

Ao longo dos anos 80 a pesquisa e a discussão se tornaram mais complexas, incorporando um maior detalhamento nos parâmetros teóricos, usando modelos computadorizados mais elaborados e precisos, e também recebendo críticas mais abalizadas. Como advertiu Martin,

"O inverno nuclear é uma área extremamente complexa da ciência, cercada de grandes incertezas, e isso permite uma amplitude de presunções e interpretações muito maior do que em outras áreas. O inverno nuclear é também uma área que tem consideráveis implicações políticas potenciais, e isso significa que a influência da política no desenvolvimento da ciência do inverno nuclear tende a se tornar muito mais aparente do que em campos de estudo mais esotéricos... Indivíduos e grupos têm usado declarações sobre o inverno nuclear para perseguir objetivos explicitamente políticos". [1]

Russell Seitz, um associado da Universidade de Harvard, disse que toda a polêmica sobre o assunto cai fora da ciência e se baseia em uma questão política, e que essa politização da ciência é suficiente para produzir o anúncio de meras conjeturas como se fossem fatos comprovados. Reforçou sua opinião com declarações de outros cientistas respeitados como Freeman Dyson, Victor Weisskopf e Richard Feynman, e teve boa receptividade em setores conservadores, mas foi veementemente atacada pelo grupo TTAPS.[1]

Este foi o panorama da polêmica até o fim dos anos 80, quando ela passou para um plano secundário depois de uma vasta repercussão pública. Também o fim da corrida armamentista e da Guerra Fria contribuíram para deslocar a atenção do público para outras questões. Desde esta época os arsenais nucleares foram reduzidos em um terço, mas continuam a ser enormes, estimados em mais de 26 mil ogivas, e tampouco se fizeram outras projeções computadorizadas nesse intervalo.[3] [2] Entretanto, com a entrada no "Clube Atômico", de países envolvidos em conflito perene com seus vizinhos, como Israel, Índia, Paquistão e Coreia do Norte, a teoria do inverno nuclear voltou a foco, e em 2006 Alan Robock e outros reiniciaram as pesquisas com recursos tecnológicos aperfeiçoados, usando o mais moderno modelo climático computadorizado disponível, que fora testado com sucesso na análise dos efeitos das erupções dos vulcões Laki e Katmai. A projeção trabalhou com uma perspectiva de dez anos, usando dois cenários de base, um com uma guerra que emitisse para a estratosfera 150 milhões de toneladas de fuligem, a partir de uma explosão total de 5 mil Megatons, e outra com cinquenta milhões de toneladas, com um terço da potência nuclear do outro cenário.[2]

Os resultados da previsão, para o caso mais extenso, foram o aumento em cem vezes a incidência de radiação solar de onda curta; a redução da temperatura média global na ordem de 7 a 8 °C durante vários anos, uma redução maior do que os 5 °C da última glaciação, persistindo em 4 °C menor que a média no fim da década, e com quedas localizadas sobre os continentes ainda mais impressionantes - 20 °C na América do Norte e 30 °C na Eurásia; em localidades específicas usadas como amostra, observou-se a ocorrência de temperaturas mínimas extremas - níveis abaixo de 0 °C em Iowa durante todo um ano, e ao longo de dois anos inteiros na Ucrânia. A precipitação pluviométrica caiu em 45% e o regime de monção no Hemisfério Norte foi bloqueado. No caso menos extenso, o resultado foi de metade dos valores indicados antes, mas o impacto foi igualmente planetário.[4]

Guerras localizadas[editar | editar código-fonte]

Um estudo recente publicado por Robock e Owen Toon, e divulgado em várias revistas especializadas que editam no sistema de peer review, informou que mesmo conflitos limitados teriam um efeito devastador sobre o clima da Terra. Simulando através de computadores um confronto entre a Índia e o Paquistão, com a detonação de cem ogivas nucleares com a mesma potência daquela que destruiu Hiroshima, concluiu-se que seriam lançadas sete milhões de toneladas de fuligem na estratosfera. No modelo prático usado foram adotados parâmetros conservadores, supondo uma emissão de cinco milhões de toneladas de fuligem. Na projeção resultante, em duas semanas todo o planeta estaria coberto por uma nuvem escura, esfriando a temperatura global em cerca de 1,2 °C ao longo de vários anos. A redução nos índices pluviométricos seria de em geral 10%, com uma redução de até 40% em regiões sujeitas ao regime da monção, e a camada de ozônio (ozono) seria gravemente prejudicada, com aumento significativo na incidência de radiação ultravioleta sobre a superfície. Um outro estudo, realizado por Michael Mills, da Universidade do Colorado, com programas computadorizados diferentes, obteve resultados similares.[3]

Erupção do Pinatubo em 1991

Os pesquisadores alertam que apesar de os valores de alteração na temperatura e chuva parecerem pouco relevantes, na prática têm um efeito em larga escala, dado o delicado equilíbrio em que se mantém o ecossistema terrestre. A redução da luz solar, combinada à diminuição nas chuvas e aumento dos raios ultravioleta, implicariam efeitos negativos profundos para toda agricultura do planeta, reduzindo drasticamente a produção de alimentos. Prevê-se que cerca de mil milhões de pessoas morreriam diretamente por consequência da fome, sem contar outras mortes em massa decorrentes de consequências secundárias. Para os críticos dessa teoria, que consideram essas previsões pessimistas e exageradas, eles apontaram o fato de que uma simples erupção vulcânica de grandes proporções, como a do vulcão Tambora na Indonésia em 1815, causou o obscurecimento parcial do sol e a redução em 0,5% na temperatura média global por um ano. Na América do Norte as consequências desse desastre natural, muito menos impactante que uma guerra nuclear mesmo localizada, foram a quebra de safras por geadas em todos os meses do ano seguinte, grande aumento no preço dos grãos e do gado, e migrações em massa. Na Europa o ano de 1816 se tornou conhecido como "o ano sem verão", com epidemias de fome e o colapso do mercado financeiro. Há poucos anos o vulcão Pinatubo ofereceu a possibilidade de um exame detalhado sobre uma grande explosão, desta que foi considerada a maior do século XX. Da mesma forma se observou um impacto global sobre o clima, com uma redução de 0,25 °C na temperatura média da superfície terrestre, diminuição de chuvas, ressecamento do solo e a difusão de partículas em suspensão por toda a atmosfera superior, afetando a camada de ozônio (ozono).[3]

Outras causas possíveis para invernos globais[editar | editar código-fonte]

Fenômenos atmosféricos similares podem ser causados por erupções vulcânicas massivas como as dos supervulcões, mas então devem ser mais corretamente designados como invernos vulcânicos. Em caso de colisão de um asteroide de tamanho razoável com a Terra também podem acontecer fenômenos da mesma espécie.

Referências[editar | editar código-fonte]

  1. a b c d Martin, Brian. Nuclear winter: science and politics. IN Science and Public Policy. Vol. 15, No. 5, October 1988, pp. 321-334. Disponível no website da University of Wollongong, Australia
  2. a b c Robock, Alan; Oman, Luke & Stenchikov, Georgiy. Nuclear Winter Revisited with a Modern Climate Model and Current Nuclear Arsenals: still catastrophic consequences. IN Journal of Geophysical Research - Atmospheres. Department of Environmental Sciences, Rutgers University. November 2006. pp. 1-5
  3. a b c Robock, Alan & Toon, Owen. Guerra Nuclear Local: Catástrofe Global. IN Scientific American Brasil. Ano 8, nº 83, Fev. 2010. pp. 46-53
  4. Robock; Oman & Stenchikov, pp. 7-8

Bibliografia adicional[editar | editar código-fonte]

  • Sagan, Carl et al. The Nuclear Winter: The World after Nuclear War. Sidgwick & Jackson; 1985

Ver também[editar | editar código-fonte]