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Porecatu

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Porecatu
Município do Brasil
Vista parcial de Porecatu, com a represa de Capivara à esquerda
Vista parcial de Porecatu, com a represa de Capivara à esquerda
Vista parcial de Porecatu, com a represa de Capivara à esquerda
Bandeira de Porecatu
Hino
Gentílico porecatuense
Localização
Localização de Porecatu no Paraná
Localização de Porecatu no Paraná
Localização de Porecatu no Paraná
Porecatu está localizado em: Brasil
Porecatu
Localização de Porecatu no Brasil
Mapa
Mapa de Porecatu
Coordenadas 22° 45′ 21″ S, 51° 22′ 44″ O
País Brasil
Unidade federativa Paraná
Região metropolitana Londrina
Municípios limítrofes (N) Taciba e Narandiba, ambas no estado de São Paulo; (S) Florestópolis; (L) Alvorada do Sul; (O) Centenário do Sul
Distância até a capital 485[1] km
História
Fundação 8 de dezembro de 1941 (83 anos)
Administração
Prefeito(a) Fábio Luiz Andrade (PSD, 2021–2024)
Características geográficas
Área total [2] 291,665 km²
População total (Censo IBGE/2010[3]) 14 183 hab.
Densidade 48,6 hab./km²
Clima Subtropical úmido
Fuso horário Hora de Brasília (UTC−3)
Indicadores
IDH (PNUD/2000 [4]) 0,785 alto
PIB (IBGE/2008[5]) R$ 94 878,739 mil
PIB per capita (IBGE/2008[5]) R$ 6 608,07

Porecatu é um município brasileiro do estado do Paraná situado as margens do Rio Paranapanema. Sua economia é essencialmente baseada na agricultura tendo a cana-de-açúcar como destaque.

História

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No início do processo colonizatório brasileiro, o norte paranaense não atraía a atenção dos colonizadores portugueses, mais interessados na busca de metais preciosos e na extração de madeira nobre. Em fases posteriores, o trabalho com a erva-mate passou a ser importante atividade econômica para a então província do Paraná, mas tal atividade concentrou-se no sul e litoral, não contribuindo para a colonização das outras regiões.

Vista da igreja matriz

O norte paranaense só passou a atrair a atenção de colonizadores no final do século XIX, quando o chamado Norte Pioneiro, a nordeste do estado, passou a ser colonizado por agricultores vindos dos estados de São Paulo e Minas Gerais, interessados em criar fazendas de café. Até este momento, a menos de algumas diligências de jesuítas catequizadores e exploradores ocasionais, o norte do Paraná era apenas habitada por índios.

O restante da região norte, conhecido como Norte Central Paranaense, começou a ser colonizado a partir da década de 1920, quando foram fundadas as empresas de capital inglês Brasil Plantations Sindycate e Parana Plantations, com o objetivo de colonizar a região e explorá-la economicamente, a parte mais ao norte desta região, que engloba a área do município de Porecatu, é a de colonização mais tardia, tendo se iniciado no final da década de 1930.

A criação destas empresas proporcionou o surgimento de várias cidades da região Norte Central. Por exemplo, a principal cidade da região do norte do estado, Londrina, teve suas origens onde havia sido estabelecida a matriz de uma subsidiária da Parana Plantations Ltd, chamada de Companhia de Terras Norte do Paraná (atual Companhia Melhoramentos).

Até o início da colonização, grande parte, se não a totalidade, das terras da região norte paranaense eram devolutas. Este era o estado dos 500 mil alqueires passados ao controle da Parana Plantations Ltd. quando da sua criação. Aliando-se isto ao fato de que o governo tinha interesse em acelerar o desenvolvimento da região, criou-se uma política de doação de terras e vendas a preços mínimos.

Este foi o caso da região de Porecatu, cujas terras foram loteadas, no início da década de 1940, por decisão do interventor federal para o estado do Paraná Manuel Ribas, juntamente com terras que hoje pertencem aos municípios de Centenário do Sul, Miraselva, Florestópolis, Jaguapitã e Guaraci, totalizando 120 mil hectares.

Um dos grandes adquiridores destas terras foi Ricardo Lunardelli, que por sua vez as dividiu e loteou. Registra-se que Ricardo Lunardelli chegou a região da atual Porecatu, acompanhado de seus filhos Urbano e João, em 8 de dezembro de 1941, data considerada como sendo a de fundação do município.

A fazenda onde se iniciou o povoado era conhecida como Fazenda Canaã. Em 1942 tentou-se dar o nome de Brasília ao povoado, mas na data do primeiro registro oficial do município, foi utilizado o nome Porecatu, escolhido por Ricardo Lunardelli. Porecatu significa na língua Tupi algo como "bonito salto d'água".

Registros oficiais

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O povoamento que viria a se tornar a atual cidade de Porecatu teve seu primeiro registro oficial como distrito do município de Sertanópolis, qualidade outorgada pelo decreto-lei estadual nº 199, de 30 de dezembro de 1943, assinado pelo então interventor federal Manuel Ribas, um dos políticos nomeados por Getúlio Vargas para administrar os estados brasileiros.

Posteriormente, a lei estadual nº 2, de 10 de outubro de 1947, elevou Porecatu à categoria de município, desmembrando-o de Sertanópolis - a instalação propriamente dita do município se deu a 5 de novembro do mesmo ano. Esta mesma lei também deixava sob administração de Porecatu o distrito de Alvorada do Sul.

Em 14 de novembro de 1951, a lei estadual nº 790, sancionada pelo governador Bento Munhoz da Rocha Neto, criou os municípios de Florestópolis e Alvorada do Sul, desmembrando-os da administração de Porecatu.

Outra data importante para o município é a de 14 de janeiro de 1948, quando a lei estadual nº 23 criou a comarca de Porecatu, oficialmente instalada a 27 de janeiro do mesmo ano. Os registros indicam Octávio Bezerra Valente como o primeiro juiz da cidade.

A mesma década de 1940 que assistiu ao nascimento oficial do município, também viu o desenrolar de um violento conflito entre posseiros e policiais chamado de a Guerra de Porecatu.

Geografia

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Localiza as margens do Rio Paranapanema, tendo seus 291,665 km² situados no estado do Paraná, na divisa com o estado de São Paulo. Nos anos 1970, sua área territorial foi parcialmente alagada durante a criação do lago da Usina Hidrelétrica de Capivara .

Transportes

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A cidade é servida por duas rodovias estaduais:

Há também o Aeroporto de Porecatu, de administração privada, com uma pista asfaltada de 2100m. Em 16 de agosto de 2000, este aeroporto foi usado por um bando, supostamente comandado por Marcelo Moacir Borelli, para pousar um avião da Vasp que haviam sequestrado. Nesta ação, o bando teria roubado cerca de R$5 milhões de malotes bancários que estavam sendo transportados por uma empresa especializada de Curitiba. [6] [7]

Demografia

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A tabela abaixo apresenta a população de Porecatu nos censos e contagens demográficos realizados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE - desde a criação do município.

Ano
1950
1960
1970
1980
1991
1996
2000
2007
2010
Fonte
Censo
Censo
Censo
Censo
Censo
Contagem
Censo
Contagem
Censo
Homens
13.996
11.402
11.714
10.874
8.486
-
7.860
-
-
Mulheres
11.255
9.191
10.563
10.590
8.616
-
8.021
-
-
Total
25.251
20.593
22.277
21.464
17.102
17.281
15.881
14.174
14.149

Na tabela seguinte, é apresentada a variação da população por períodos.

Período Variação
1950 - 1960 -18,45%
1960 - 1970 +8,18%
1970 - 1980 -3,65%
1980 - 1991 -20,32%
1991 - 2000 -7,14%
2000 - 2007 -10,74%

Fonte: IBGE - Resultado de censos, contagens e estimativas.

A economia do município se baseia quase que exclusivamente na agricultura, principalmente na cultura da cana-de-açúcar. Como exemplo desta característica, duas das maiores empregadoras da cidade, a Usina Central Paraná (UCP) e a Cooperativa Agropecuária dos Cafeicultores de Porecatu (Cofercatu), têm suas atividades relacionadas diretamente com a agricultura. A prefeitura do município é a outra grande empregadora.

Problemas sociais

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Como maior empregadora da cidade a Usina Central Paraná (UCP), do grupo Atalla, tem participação fundamental na economia do município. Porém, nos últimos anos, os problemas financeiros do grupo [8] têm tido impacto direto na população da cidade. Durante a safra canavieira do ano de 2008, manifestações e greves foram realizadas após o não pagamento de salários [9] [10] [11]. Também durante o ano de 2008, fiscalizações do Ministério do Trabalho e Emprego identificaram diversos problemas nas relações trabalhistas da empresa[12].

Revolta do Quebra - milho ou Guerra de Porecatu

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Uma revolta social de grande importância para a história do município, a qual revela profundos problemas sociais, foi a Revolta do Quebra - Milho ou Guerra de Porecatu[13], ocorrida entre os anos de 1948 e 1951, a qual representa um dos mais emblemáticos episódios da luta pela terra não só no Paraná, mas no Brasil. Uma vez que o conflito envolveu posseiros, grandes fazendeiros, empresas colonizadoras e forças do Estado, revelando assim as profundas contradições no modelo fundiário brasileiro e a omissão do Estado diante da demanda por reforma agrária[14]. Nesse sentido, para que haja um melhor entendimento do episódio, deve-se abordar brevemente o contexto histórico, pois, durante a década de 1940, o Brasil passava por um processo de interiorização e expansão agrícola. De modo que a região norte do Paraná destacava-se pelo solo fértil e atraía milhares de migrantes em busca de terras devolutas para cultivo. No entanto, a ocupação fundiária era desorganizada, marcada pela grilagem e pela conivência estatal com grandes companhias colonizadoras. E dessa forma, reforçado pela vigente política de distribuição de terras, que, ao favorecer os latifundiários e negar o acesso democrático à terra, acabou se tornando a principal responsável pela marginalização dos trabalhadores rurais. Essa exclusão é agravada quando o poder público atua como protetor dos interesses dessa elite fundiária, em vez de mediar as disputas de forma justa[15]. Desse modo, têm-se que as principais causas da Revolta ou Guerra de Porecatu foram o conflito fundiário entre os posseiros que cultivavam terras devolutas, as quais foram posteriormente reivindicadas por empresas privadas, como a Companhia de Melhoramentos Norte do Paraná (CMNP), com apoio estatal; mas também, de certa forma, a ausência de reforma agrária e a inexistência de políticas públicas estruturadas para redistribuição de terras, naquele contexto em si, e, por fim, a organização camponesa a partir do surgimento de movimentos organizados por trabalhadores, como sindicatos rurais, liderados por figuras como Joaquim Ferreira de Melo. Dessa forma, pode-se afirmar que Porecatu tornou-se um símbolo da resistência camponesa armada contra a grilagem e a violência estatal. Nesse contexto, o conflito evoluiu para confrontos armados entre camponeses e forças policiais estaduais, além de jagunços contratados por fazendeiros. Contudo, a repressão se intensificou com o envio de tropas federais a fim de que o levante fosse contido e a ordem restabelecida na região. Assim, estima-se que mais de 16 trabalhadores foram mortos, embora os números exatos sejam incertos. Vale ressaltar que a imprensa, alinhada ao discurso anticomunista da época, tratava os posseiros como “agitadores”, reforçando a criminalização dos movimentos camponeses. Dessa forma, as consequências da Guerra de Porecatu foram profundas e deixaram marcas que reverberam na população até os dias de hoje. Uma vez que as principais heranças do conflito são a repressão violenta por meio de prisões, mortes e expulsão dos camponeses da região, mas também inspirou movimentos futuros, visto que serviu de referência para as Ligas Camponesas e o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST)[16], logo que a exposição da questão agrária pelo conflito evidenciou a necessidade de uma reforma agrária ampla e democrática no país. Porém, houve também a ausência de reparação aos posseiros, os quais não foram indenizados, e dessa forma os latifúndios continuaram a se expandir. Portanto, a Guerra de Porecatu deve ser compreendida como um marco na história da luta pela terra no Brasil. Uma vez que ela evidenciou o papel opressor do Estado, a força dos movimentos populares e a centralidade da questão agrária nas desigualdades brasileiras. Apesar da repressão, Porecatu permaneceu como um símbolo de resistência e justiça social, e também serviu de cerne inspirador, naquela época, e precursor de ideias que mais tarde contribuíram para a formação das bases constituintes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra.[17][18]

Filhos ilustres

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A cidade possuiu um clube no Campeonato Paranaense de Futebol, a Sociedade Esportiva Porecatu.

Referências

  1. «Distâncias entre a cidade de Curitiba e todas as cidades do interior paranaense». EmSampa. Consultado em 22 de setembro de 2017 
  2. IBGE (10 de outubro de 2002). «Área territorial oficial». Resolução da Presidência do IBGE de n° 5 (R.PR-5/02). Consultado em 5 de dezembro de 2010 
  3. «Censo Populacional 2010». Censo Populacional 2010. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). 29 de novembro de 2010. Consultado em 11 de dezembro de 2010 
  4. «Ranking decrescente do IDH-M dos municípios do Brasil». Atlas do Desenvolvimento Humano. Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). 2000. Consultado em 11 de outubro de 2008 
  5. a b «Produto Interno Bruto dos Municípios 2004-2008». Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Consultado em 11 de dezembro de 2010 
  6. - Seqüestro relâmpago
  7. - Vigilante do aeroporto de Porecatu (PR) foi rendido e ameaçado pelos sequestradores
  8. - Artigo sobre os problemas financeiros da Usina Central Paraná nos últimos anos
  9. - Vídeo da RPC TV sobre as greves na UCP em 2008
  10. - Artigo sobre as greves na UCP em 2008
  11. - Artigo sobre as greves na UCP em 2008
  12. - Artigo sobre problemas nas relações trabalhistas do grupo Atalla
  13. História do Paraná: Século XIX e XX. [S.l.]: Eduem. 30 de setembro de 2021 
  14. Priori, Angelo (2016). «HISTÓRIA DO PARANÁ: novos caminhos e novas abordagens». doi:10.24824/978854441011.0. Consultado em 14 de novembro de 2025 
  15. Oliveira, Ariovaldo Umbelino (27 de junho de 2010). «A questão da aquisição de terras por estrangeiros no Brasil - um retorno aos dossiês». Agrária (São Paulo. Online) (12): 3–113. ISSN 1808-1150. doi:10.11606/issn.1808-1150.v0i12p3-113. Consultado em 31 de outubro de 2025 
  16. Siqueira, José do Carmo Alves. «Direito como efetividade e luta pela terra no Brasil». Consultado em 31 de outubro de 2025 
  17. Stedile, Miguel; Engelmann, Solange; Pacheco, Iris; Lima, Mayrá S.; Gonçalves, Felipe Canova (2017). «MIGUEL STEDILE, SOLANGE ENGELMANN, IRIS PACHECO - Comunicação e organicidade do MST». Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília. ISBN 978-85-93078-24-8. Consultado em 14 de novembro de 2025 
  18. Girardi, Eduardo Paulon; Fernandes, Bernardo Mançano (8 de junho de 2008). «A luta pela terra e a política de assentamentos rurais no Brasil: a reforma agrária conservadora». Agrária (São Paulo. Online) (8): 73–98. ISSN 1808-1150. doi:10.11606/issn.1808-1150.v0i8p73-98. Consultado em 31 de outubro de 2025 

Ligações externas

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