Valor-notícia

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Valor-notícia, segundo Mauro Wolf (1987), é uma componente da noticiabilidade que constitui resposta à seguinte pergunta: quais os acontecimentos que são considerados suficientemente interessantes, significativos e relevantes para serem transformados em notícia? Os valores/notícia são qualidade dos acontecimentos, ou da sua construção jornalística, cuja presença, ou cuja ausência os recomenda para serem incluídos em um produto informativo. Trata-se, portanto de valores que funcionam na prática, de forma complementar.

Os valores/notícia são critérios de relevância espalhados ao longo de todo processo de produção e não estão presentes apenas na seleção das notícias, participam também nas operações posteriores, embora com um relevo diferente. Na seleção dos acontecimentos, os critérios de relevância funcionam de maneira conjunta levando em consideração as diferentes combinações que se estabelecem entre diferentes valores/notícia que recomendam a seleção de um fato.

Os valores/notícia se tornam regras práticas que abrangem um corpus de conhecimentos profissionais que, implicitamente e, muitas vezes, explicitamente explicam e guiam os processos operativos nas redações. Constituem, portanto, referências claras e disponíveis, a conhecimentos partilhados sobre a natureza e os objetos das notícias, referências essas que podem ser utilizadas para facilitar a complexa e rápida elaboração dos noticiários. A principal exigência é rotinizar tal tarefa, de forma a torná-la exequível. Os valores/notícia servem, exatamente, para esse fim.

Quanto ao caráter dinâmico dos valores/notícia: mudam no tempo e, embora relevem uma forte homogeneidade no interior da cultura profissional - para lá de divisões ideológicas, de geração, de meio de expressão, etc. -, não permanecem sempre os mesmos. Em geral, pode dizer-se que cada novo setor, tema, argumento ou assunto que represente uma ampliação da esfera informativa, se torna regularmente noticiado , na medida em que se verifica um reajustamento e uma redefinição dos valores/notícia.

Os valores/notícia derivam de pressuposto implícitos ou de considerações relativas: a) às características substantivas das notícias; ao seu conteúdo; b) à disponibilidade do material e aos critérios relativos ao produto informativo; c) ao público ; d) à concorrência; A primeira categoria de consideração diz respeito ao acontecimento a ser transformado em notícia; a segunda, diz respeito ao conjunto dos processos de produção e realização; a terceira, diz respeito à imagem que os jornalistas têm a cerca dos destinatários e a última diz respeito às relações entre os mass media existentes no mercado informativo.

Em 1965, Johan Galtung e Mari Holmboe Ruge enumeraram esses valores. A sua análise mantém-se atual embora existam outras tipologias.

Tipologia dos valores-notícia de Galtung e Ruge (1965)[editar | editar código-fonte]

De acordo com o impacto[editar | editar código-fonte]

  • Amplitude: quanto maior o número de pessoas envolvidas maior a probabilidade de o acontecimento ser noticiado. Mas há que contar com o fator da proximidade ou o princípio do morto-quilômetro. O critério de proximidade é utilizado para escolha de produção e publicação de notícias, a partir da premissa que assuntos próximos ao leitor geram maior interesse do que fatos acontecidos à quilômetros de distância: para a realidade de Portugal, 300 mortos em Mogadíscio valem menos do que 10 mortos nos arredores de Lisboa.
  • Frequência: quanto menor for a duração da ocorrência maior a probabilidade terá de ser relatada em notícia. Por exemplo um terremoto terá mais relevância noticiosa do que as medidas tomadas após o mesmo. Acontecimentos de longa duração, como por exemplo a viagem de satélites pelo espaço, têm fraca cobertura. Os acontecimentos rotineiros podem ser noticiados se tiverem interesse para muita gente como os jogos de futebol do fim-de-semana e as reuniões parlamentares, por exemplo. Já o fato rotineiro de os combôios chegarem sempre a horas não tem valor-notícia.
  • Negatividade: as más notícias vendem mais do que boas notícias. Além disso, são mais fáceis de noticiar do que boas notícias. Entre as más notícias há uma certa hierarquia na preferência do leitor, telespectador, ouvinte ou internauta. O noticiário envolvendo morte tem grande impacto junto à audiência. As mortes por assassinato são as que mais comovem e, consequentemente, atraem o público. Depois vêm as notícias de mortes por atentados, guerras e conflitos diversos, acidentes aéreos, automobilísticos ou por qualquer meio de transporte e as tragédias naturais. A morte de celebridades, trágica ou não, também têm grande poder de atração da audiência por parte dos meios de comunicação.
  • Caráter inesperado: Um evento totalmente inesperado terá mais impacto do que um evento agendado e previsto. Como o jornalista Charles Anderson Dana escreveu: "Se um cão mordeu um homem, isso não é notícia. Mas se um homem morder um cão, isso é notícia!!!"
  • Clareza: eventos cujas implicações sejam claras vendem mais jornais do que aquelas que estão abertas a mais do que uma interpretação, ou cujo entendimento exija conhecimentos acerca dos antecedentes ou contexto desse mesmo evento.

De acordo com a empatia com a audiência[editar | editar código-fonte]

  • Personalização: as ocorrências que possam ser retratadas como ações de indivíduos atraem um maior interesse humano pela história relatada pelo jornalista.
  • Significado: este critério está relacionado com a proximidade geográfica e cultural que a ocorrência possa ou não ter para o leitor. Notícias sobre acontecimentos, pessoas e interesses mais próximos do leitor terão um maior significado para ele.
  • Referência a países de elite: notícias relacionadas com países mais poderosos têm maior destaque do que notícias relativas a países de menor expressão política e económica.
  • Referência a pessoas que integram a elite: histórias acerca de pessoas ricas, poderosas, influentes e famosas recebem uma maior cobertura noticiosa.

De acordo com o pragmatismo da cobertura mediática[editar | editar código-fonte]

  • Consonância: segundo este critério os jornalistas têm esquemas mentais em que prevêem que determinado acontecimento pode vir a ocorrer. Esta previsão tem a ver com a experiência e rotina do jornalista que escolhe o que é noticiável em consonância com aquilo que tinha antevisto. Assim se uma ocorrência corresponder às expectativas do jornalista terá maiores probabilidades de ser publicada.
  • Continuidade: uma vez publicada, a notícia ganha uma certa inércia. Como a história já foi tornada pública existe uma maior clareza acerca da mesma. Isto cria um acompanhamento da notícia até que outras notícias mais importantes em agenda obriguem a deixar cair o assunto.
  • Composição: o arranjo das notícias por rubricas, seções ou cadernos deve ser equilibrado. Se um acontecimento internacional for importante terá de competir com o valor de outros acontecimentos internacionais para ocupar um determinado espaço na seção dedicada a este tipo de notícias. Assim a importância de uma história não depende apenas do seu valor-notícia mas também do seu valor face a outras histórias.

Seleção noticiosa[editar | editar código-fonte]

Em Jornalismo, a seleção-noticiosa é a escolha de acontecimentos que serão ou não noticiados. Sua primeira etapa é chamada seleção primária, onde os valores-notícia são os principais critérios para que ocorra uma filtragem dos fatos.

Entretanto, não é suficiente apenas escolher quais acontecimentos serão publicados como notícia e quais serão descartados. Entre os selecionados, é necessário fazer uma distinção dos fatos mais importantes - de acordo com os valores-notícia - e que merecem tomar mais espaço nas manchetes e páginas de jornais impressos, além de chamadas de telejornais.

Não se deve confundir seleção noticiosa com valor-notícia. [1] Valores-notícia dizem respeito às características do fato propriamente dito, enquanto a seleção é um processo não só de seleção, mas de hierarquização das informações - processo que ocorre no interior das redações.

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências[editar | editar código-fonte]

  1. Silva, Gislene. . "Para Pensar Critérios de Noticiabilidade". DOI:2004. Visitado em 07/07/2016.