Jornalismo investigativo

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Jornalismo investigativo (ou de investigação) refere-se à prática de reportagem especializada em desvendar mistérios e fatos ocultos do conhecimento público, especialmente crimes e casos de corrupção, que podem eventualmente virar notícia.

O jargão jornalístico para notícias publicadas em primeira mão é "furo", que é muitas vezes fruto do trabalho do jornalismo investigativo.

História[editar | editar código-fonte]

O jornalismo investigativo surge nos Estados Unidos, pós-Segunda Guerra Mundial, a partir de 1955. Os jornalistas norte-americanos passaram a exercer postura crítica ao governo dos EUA, em consequência da participação na Guerra do Vietnã. As reportagens dessa época foram veiculadas principalmente pelas revistas Life e Look.[1]

Richard Nixon, apesar de tentar evitar que a Guerra do Vietnã tirasse sua popularidade, acabou envolvido em um dos maiores escândalos político que passou a ser conhecido como o Caso Watergate.

Em 18 de junho de 1972, o caso que envolvia o presidente dos EUA, Richard Nixon, marcou o jornalismo investigativo. O episódio ocorreu quando membros do Partido Republicano (Estados Unidos) tentaram instalar um sistema de espionagem na sede do Partido Democrata (Estados Unidos) e foram descobertos. Isso selou a derrota política de Nixon, o qual sofreu um processo de impeachment que não chegou ao final, pois ele renunciaria antes. A publicação da reportagem política foi veiculada pelo diário The Washington Post, de autoria de dois jornalistas até então pouco conhecidos, Carl Bernstein e Bob Woodward.[2]

No mesmo período o Brasil vivia o período da ditadura e a imprensa estava sob censura, inclusive instalada nas próprias redações. Apenas em 1974 o governo dá inicio a Abertura política. Contudo, somente dois anos depois, ocorre a suspensão da censura. A partir daí podemos conhecer o jornalismo investigativo. Através de uma matéria publicada pelo Estadão intitulada “Assim vivem os nossos superfuncionários”, tornando o que era até aquele momento invisível aos olhos de todos. A matéria denunciou a corrupção do setor público e mostrou os privilégios e regalias dos ministros e altos funcionários da corte instalada em Brasília e capitais federais.[3]

Características do jornalismo investigativo[editar | editar código-fonte]

A classificação do jornalismo investigativo como uma área especializada do jornalismo é motivo de controvérsias. Alguns jornalistas, especialmente os das antigas gerações, consideram que, por sua natureza, toda reportagem é investigativa, pois em essência envolve a apuração dos fatos, sua edição e posterior divulgação.

Entretanto, para muitos jornalistas e pesquisadores da área, trata-se de uma modalidade especializada de jornalismo, calcada em características específicas e que se diferencia da rotina habitual das redações pelos seguintes aspectos:

  • a investigação minuciosa dos fatos, pelo tempo que for necessário, até elucidar todos os meandros, possíveis ângulos, pontos de vista e personagens envolvidos em determinado assunto;
  • a disponibilidade de recursos específicos: tempo, dinheiro, paciência, talento e sorte;
  • a precisão das informações (o jornalismo investigativo é também conhecido como jornalismo de precisão), implicando a exatidão dos termos utilizados, e a ausência de distorções ou citações fora de contexto.

Áreas de atuação[editar | editar código-fonte]

O jornalismo investigativo, em geral, se concentra na investigação de crimes, como por exemplo a fraude numa licitação ou concorrência, o desvio de verbas públicas, o contrabando de pedras preciosas, crimes ambientais praticados pelas madeireiras, ou a prostituição de menores.

Roberto Cabrini, do SBT, um dos mais respeitados repórteres televisivos da atualidade, diz que "é necessário ousadia mas com responsabilidade para fazer as melhores reportagens". Ousadia e responsabilidade pautam o trabalho do jornalista.

Entretanto, alguns jornalistas se notabilizaram por adaptar a linguagem precisa, a investigação e o tratamento justo das informações, peculiaridades do jornalismo investigativo, para investigações em outras áreas que nada têm a ver com a esfera política ou com a policial.

O repórter Marcelo Canellas, da TV Globo, por exemplo, esmiúça as brechas da sociedade e da cultura brasileira. O próprio Canellas afirma que:

"Os fatos, os acontecimentos, os fenômenos, não aparecem diante de nós como algo íntegro e totalizado. O processo do conhecimento pressupõe a coleta desses fragmentos da vida e sua conexão com antecedentes e conseqüências para que o fato seja apreendido na sua totalidade".[4]

Formatos de reportagem investigativa[editar | editar código-fonte]

Os teóricos Bill Kovac e Tom Rosentiel detectaram, em suas pesquisas, diferentes formatos da reportagem investigativa e apontam três tipos distintos:

  • A reportagem investigativa original é aquela que envolve os próprios repórteres na descoberta e documentação de atividades até então desconhecidas do público. Segundo a teórica Cleofe Monteiro de Sequeira (2005), "esse tipo de reportagem quase sempre acaba em investigações públicas oficiais sobre o tema denunciado"[5]. No caso, os repórteres investigativos podem usar táticas similares ao trabalho investigativo policial, como consultar documentos públicos, usar informantes e, dependendo das circunstâncias, até fazer trabalho secreto.
  • A reportagem investigativa interpretativa tem como principal diferencial ante a reportagem investigativa original o fato de que, enquanto a original revela informação inédita, a interpretativa surge como resultado de uma reflexão cuidadosa e analítica, fornecendo ao público um melhor entendimento do que se passa e normalmente envolve assuntos mais complexos ou um conjunto de fatos e revela uma nova forma de olhar para um acontecimento.
  • A reportagem investigativa sobre investigação trata-se de um desdobramento recente do conceito. Esse tipo de reportagem origina-se da descoberta do vazamento de informação de uma investigação oficial em andamento ou em processo de preparação por outras fontes, geralmente agências governamentais.

Estratégias e Fontes de Apuração[editar | editar código-fonte]

Estratégias de Apuração[editar | editar código-fonte]

O processo de apuração da notícia é o que diferencia o jornalismo investigativo dos outros gêneros jornalísticos. Durante a apuração, o jornalista investigativo utiliza-se de algumas estratégias para obter informações.[6]

A infiltração é uma estratégia comumente utilizada por repórteres investigativos. Durante a infiltração, o repórter omite sua identidade, e se insere no centro dos acontecimentos a fim de apurar os fatos de maneira direta. Uma variação desta técnica é converter em fonte de informação uma pessoa que tenha acesso a locais e documentos importantes para a investigação jornalística. Nessas situações, geralmente, o nome da fonte é preservado. Na legislação brasileira não há impedimento legal para este tipo de prática, uma pessoa tem o direito de gravar a própria conversa, mesmo que os demais interlocutores não estejam cientes da gravação.[7]

O uso de grampos e câmeras ocultas é outra estratégia utilizada durante a apuração jornalística investigativa. Com o objetivo de obter informações confidenciais, o jornalista grava conversas telefônicas e/ou utiliza-se de câmeras escondidas, sem o consentimento dos envolvidos. Essa prática causa controvérsia entre profissionais do jornalismo e é considerada antiética por muitos deles. Contudo, é comum que conversas gravadas por terceiros sejam vazadas pela imprensa.[8]

Fontes de Informação[editar | editar código-fonte]

As fontes de informação são essenciais no processo de apuração jornalística. As fontes são responsáveis por fornecer informações que o grande público não tem acesso.[9]

O pesquisador Nilson Lage divide as fontes de informação em pessoais, institucionais e documentais; e as classifica da seguinte maneira[10]:

  • oficiais: falam em nome do Estado, de instituições, de empresas, organizações etc;
  • oficiosas: mantêm ligação com indivíduos ou instituições, mas que não estão habilitados a falar em nome deles;
  • independentes: sem relação de interesse ou de poder com organizações, empresas, Estado etc;
  • primárias: fornecem ao jornalista as principais informações de uma matéria (fatos, versões e números);
  • secundárias: fornecem informações adicionais utilizadas na composição de premissas e contextos;
  • testemunhos: vivenciou ou presenciou acontecimento de interesse jornalístico;
  • experts: concede versões, informações especializadas e interpretações de eventos.

Enquanto a pesquisadora Montserrat Quesada, especialista em jornalismo investigativo, classifica as fontes de informação em[11]:

  • escritas: qualquer documento impresso que contenha informação útil ao repórter (livros, correspondências, folhetos etc);
  • orais: pessoa que passa informações para os jornalistas.

Ética no jornalismo investigativo[editar | editar código-fonte]

Com foco em transmitir a "verdade jornalística", o profissional jornalista em sua apuração usa estratégias e técnicas próprias ou determinadas pelo veículo comunicacional. Alguns teóricos dizem, portanto, que toda apuração é investigativa. Nesta "metodologia de trabalho", a teórica espanhola Montserrat Quesada diz que "só no momento em que o repórter passa a usar técnicas que não fazem parte da rotina do trabalho jornalístico de atualidade, a reportagem se transforma em reportagem investigativa[12]".

Tais estratégias específicas podem ser "nada ortodoxas, às vezes[13]", segundo a teórica Cleofe Monteiro de Sequeira. Desde a infiltração do profissional anonimamente no centro do acontecimento, negociação de relatos com as fontes (procedência de uma informação[14]), grampos telefônicos e câmeras ocultas, por exemplo.

O O Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros da Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ) fixa normas às quais os profissionais jornalistas devem se submeter. O direito à informação e o interesse público podem defender algumas técnicas usadas na profissão. Contudo, o artigo sexto do Código, que trata do dever do jornalista, no inciso oitavo orienta o respeito "ao direito à intimidade, à privacidade, à honra e à imagem do cidadão". Já o décimo primeiro artigo, no inciso terceiro, aponta "que o jornalista não pode divulgar informações obtidas de maneira inadequada, por exemplo, com o uso de identidades falsas, câmeras escondidas ou microfones ocultos, salvo em casos de incontestável interesse público e quando esgotadas todas as outras possibilidades de apuração"[15].

Associações de jornalismo investigativo[editar | editar código-fonte]

  • Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI)- Fundada em 2002, a associação congrega jornalistas brasileiros especializados em reportagens investigativas, e tem o objetivo de trocar experiências, informações e dicas sobre reportagens. A ABRAJI se autodeclara independente, apartidária, não sindical e não acadêmica, e mantém um sistema virtual de trocas de informações e divulgação de notícias de caráter investigativo.
  • IRE - Repórteres e Editores Investigativos - É a maior associação de jornalismo investigativo do mundo, com 4 mil membros em 27 países. Baseado na Faculdade de Jornalismo da Universidade do Missouri, o IRE promove conferências, oficinas de treinamento, oferece prêmios, e disponibiliza recursos sobre liberdade de informação, reportagens assistidas por computador (RAC), metodologia investigativa e outros.[16]
  • Centro Filipino de Jornalismo Investigativo - Fundado em 1989 por jornalistas filipinos.[16]
  • Centro para Reportagem Investigativa (CIR) - Fundada em 1977 em São Francisco, e sediada na Califórnia, é uma organização de reportagem dedicada à cobertura independente e aprofundada de questões sociais.[16]
  • Centro de Periodistas de Investigación - Sediado na Cidade do México, o grupo possui associados por toda a América Latina. Oferece oficinas sobre reportagens investigativas e RAC (reportagem assistida por computador) e disponibiliza recursos em espanhol como bancos de dados, coletânea de matérias e ligações na Internet.[16]

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências[editar | editar código-fonte]

  1. Sequeira, Cleofe Monteiro de (2005). Jornalismo investigativo: o fato por trás da notícia (São Paulo: Summus Editorial). p. 11. 
  2. Sequeira, Cleofe Monteiro de (2005). Jornalismo investigativo: o fato por trás da notícia (São Paulo: Summus Editorial). pp. 11 e 12. 
  3. Sequeira, Cleofe Monteiro de (2005). Jornalismo investigativo: o fato por trás da notícia (São Paulo: Summus Editorial). p. 12. 
  4. Fortes, Leandro (2005). Jornalismo Investigativo (São Paulo: Contexto). p. 16. 
  5. Sequeira, Cleofe Monteiro de (2005). Jornalismo investigativo: o fato por trás da notícia (São Paulo: Summus Editorial). p. 29. 
  6. Sequeira, Cleofe Monteiro de (2005). Jornalismo Investigativo: o fato por trás da notícia (São Paulo: Summus Editorial). p. 74. 
  7. Sequeira, Cleofe Monteiro de (2005). Jornalismo Investigativo: o fato por trás da notícia (São Paulo: Summus Editorial). pp. 75–77. 
  8. Sequeira, Cleofe Monteiro de (2005). Jornalismo Investigativo: o fato por trás da notícia (São Paulo: Summus Editorial). pp. 77–79. 
  9. Sequeira, Cleofe Monteiro de (2005). Jornalismo Investigativo: o fato por trás da notícia (São Paulo: Summus Editorial). p. 80. 
  10. Sequeira, Cleofe Monteiro de (2005). Jornalismo Investigativo: o fato por trás da notícia (São Paulo: Summus Editorial). pp. 88–89. 
  11. Sequeira, Cleofe Monteiro de (2005). Jornalismo Investigativo: o fato por trás da notícia (São Paulo: Summus Editorial). pp. 90–91. 
  12. Quesada, Montserrat (1983). La investigación periodística - El caso espanai (São Paulo: Abril Cultural). 
  13. Sequeira, Cleofe Monteiro de (2005). Jornalismo investigativo: o fato por trás da notícia (São Paulo: Summus Editorial). p. 63. 
  14. «Fonte». Dicionário Caldas Aulete. Consultado em 11 de julho de 2016. 
  15. «Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros – (1985/2007)». 2015-11-17. Consultado em 2016-07-03. 
  16. a b c d e «Confira outras associações de jornalismo investigativo pelo mundo». ABRAJI. Consultado em 22 de outubro de 2016. 

Ligações externas[editar | editar código-fonte]