Jornalismo investigativo

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Jornalismo investigativo (ou de investigação) refere-se à prática de reportagem especializada em desvendar mistérios e fatos ocultos do conhecimento público, especialmente crimes e casos de corrupção, que podem eventualmente virar notícia. Em muitos casos, os jornalistas investigativos são questionados sobre os métodos utilizados na prática profissional. Um exemplo é o uso de câmera oculta, embora na Europa e no Brasil seja uma prática assegurada por lei.[1]

O Código de Ética dos Jornalistas assegura o direito ao profissional de divulgar qualquer informação que seja de interesse público.[2] No entanto, há conflito quando se restringe a divulgação da imagem (rosto) de qualquer pessoa envolvida na investigação, tendo sido utilizado contra os jornalistas em processos judicias, no Brasil tendo sido de entendimento do Superior Tribunal de Justiça em um caso específico, de que a liberdade de imprensa não é um direito absoluto.[3]

Um dos marcos do jornalismo Investigativo é o Caso Watergate, quando dois repórteres do jornal The Washington Post foram incansáveis em uma investigação que retirou do poder o ex-presidente dos Estados Unidos, Richard Nixon.[4]

O jargão jornalístico para notícias publicadas em primeira mão é "furo", que é muitas vezes fruto do trabalho do jornalismo investigativo.[5]

História[editar | editar código-fonte]

O jornalismo investigativo surge nos Estados Unidos, pós-Segunda Guerra Mundial, a partir de 1955. Os jornalistas norte-americanos passaram a exercer postura crítica ao governo dos EUA, em consequência da participação na Guerra do Vietnã. As reportagens dessa época foram veiculadas principalmente pelas revistas Life e Look.[6]

Richard Nixon, apesar de tentar evitar que a Guerra do Vietnã tirasse sua popularidade, acabou envolvido em um dos maiores escândalos político que passou a ser conhecido como o Caso Watergate.

Em 18 de junho de 1972, o caso que envolvia o presidente dos EUA, Richard Nixon, marcou o jornalismo investigativo. O episódio ocorreu quando membros do Partido Republicano (Estados Unidos) tentaram instalar um sistema de espionagem na sede do Partido Democrata (Estados Unidos) e foram descobertos. Isso selou a derrota política de Nixon, o qual sofreu um processo de impeachment que não chegou ao final, pois ele renunciaria antes. A publicação da reportagem política foi veiculada pelo diário The Washington Post, de autoria de dois jornalistas até então pouco conhecidos, Carl Bernstein e Bob Woodward.[6]

Os administradores do prêmio Pulitzer, em 1964, consolidaram o jornalismo investigativo ao premiarem o jornal Philadephia Bulletin por uma reportagem investigativa que denunciava casos de corrupção policial na cidade. E em 1989, o mesmo prêmio foi dado ao Atlanta Journal of Constitution, por sua série de reportagem "The color of money", de Bill Dedman, que denunciava a discriminação racial nas instituições de crédito em Atlanta. [6]

No mesmo período o Brasil vivia o período da ditadura e a imprensa estava sob censura, inclusive instalada nas próprias redações. Apenas em 1974 o governo dá inicio a Abertura política. Contudo, somente dois anos depois, ocorre a suspensão da censura. A partir daí podemos conhecer o jornalismo investigativo. Através de uma matéria publicada pelo Estadão intitulada “Assim vivem os nossos superfuncionários”, tornando o que era até aquele momento invisível aos olhos de todos. A matéria denunciou a corrupção do setor público e mostrou os privilégios e regalias dos ministros e altos funcionários da corte instalada em Brasília e capitais federais.[6]

Em 1979, a revista Veja publicou a reportagem investigativa "Descendo aos Porões", do repórter Antônio Carlos Fon, que tratava de um tema que até então era proibido no Brasil, a tortura.[6]

Características do jornalismo investigativo[editar | editar código-fonte]

A classificação do jornalismo investigativo como uma área especializada do jornalismo é motivo de controvérsias. Alguns jornalistas, especialmente os das antigas gerações, consideram que, por sua natureza, toda reportagem é investigativa, pois em essência envolve a apuração dos fatos, sua edição e posterior divulgação.

Entretanto, para muitos jornalistas e pesquisadores da área, trata-se de uma modalidade especializada de jornalismo, calcada em características específicas e que se diferencia da rotina habitual das redações pelos seguintes aspectos:

  • a investigação minuciosa dos fatos, pelo tempo que for necessário, até elucidar todos os meandros, possíveis ângulos, pontos de vista e personagens envolvidos em determinado assunto;
  • a disponibilidade de recursos específicos: tempo, dinheiro, paciência, talento e sorte;
  • a precisão das informações (o jornalismo investigativo é também conhecido como jornalismo de precisão), implicando a exatidão dos termos utilizados, e a ausência de distorções ou citações fora de contexto.

Áreas de atuação[editar | editar código-fonte]

O jornalismo investigativo, em geral, se concentra na investigação de crimes, como por exemplo a fraude numa licitação ou concorrência, o desvio de verbas públicas, o contrabando de pedras preciosas, crimes ambientais praticados pelas madeireiras, ou a prostituição de menores.

Roberto Cabrini, do SBT, um dos mais respeitados repórteres televisivos da atualidade, diz que "é necessário ousadia mas com responsabilidade para fazer as melhores reportagens". Ousadia e responsabilidade pautam o trabalho do jornalista.

Entretanto, alguns jornalistas se notabilizaram por adaptar a linguagem precisa, a investigação e o tratamento justo das informações, peculiaridades do jornalismo investigativo, para investigações em outras áreas que nada têm a ver com a esfera política ou com a policial.

O repórter Marcelo Canellas, da TV Globo, por exemplo, esmiúça as brechas da sociedade e da cultura brasileira. O próprio Canellas afirma que:

"Os fatos, os acontecimentos, os fenômenos, não aparecem diante de nós como algo íntegro e totalizado. O processo do conhecimento pressupõe a coleta desses fragmentos da vida e sua conexão com antecedentes e conseqüências para que o fato seja apreendido na sua totalidade".[7]

Formatos de reportagem investigativa[editar | editar código-fonte]

Os teóricos Bill Kovac e Tom Rosentiel detectaram, em suas pesquisas, diferentes formatos da reportagem investigativa e apontam três tipos distintos:

  • Original - É aquela que envolve os próprios repórteres na descoberta e documentação de atividades até então desconhecidas do público. Segundo a teórica Cleofe Monteiro de Sequeira (2005), "esse tipo de reportagem quase sempre acaba em investigações públicas oficiais sobre o tema denunciado".[8] No caso, os repórteres investigativos podem usar táticas similares ao trabalho investigativo policial, como consultar documentos públicos, usar informantes e, dependendo das circunstâncias, até fazer trabalho secreto.
  • Interpretativa - Tem como principal diferencial ante a reportagem investigativa original o fato de que, enquanto a original revela informação inédita, a interpretativa surge como resultado de uma reflexão cuidadosa e analítica, fornecendo ao público um melhor entendimento do que se passa e normalmente envolve assuntos mais complexos ou um conjunto de fatos e revela uma nova forma de olhar para um acontecimento.
  • Sobre investigação - Trata-se de um desdobramento recente do conceito. Esse tipo de reportagem origina-se da descoberta do vazamento de informação de uma investigação oficial em andamento ou em processo de preparação por outras fontes, geralmente agências governamentais.

Estratégias e Fontes de Apuração[editar | editar código-fonte]

Estratégias de Apuração[editar | editar código-fonte]

O processo de apuração da notícia é o que diferencia o jornalismo investigativo dos outros gêneros jornalísticos. Durante a apuração, o jornalista investigativo utiliza-se de algumas estratégias para obter informações.[6]

A infiltração é uma estratégia comumente utilizada por repórteres investigativos. Durante a infiltração, o repórter omite sua identidade, e se insere no centro dos acontecimentos a fim de apurar os fatos de maneira direta. Uma variação desta técnica é converter em fonte de informação uma pessoa que tenha acesso a locais e documentos importantes para a investigação jornalística. Nessas situações, geralmente, o nome da fonte é preservado. Na legislação brasileira não há impedimento legal para este tipo de prática, uma pessoa tem o direito de gravar a própria conversa, mesmo que os demais interlocutores não estejam cientes da gravação.[6]

O uso de grampos e câmeras ocultas é outra estratégia utilizada durante a apuração jornalística investigativa. Com o objetivo de obter informações confidenciais, o jornalista grava conversas telefônicas e/ou utiliza-se de câmeras escondidas, sem o consentimento dos envolvidos. Essa prática causa controvérsia entre profissionais do jornalismo e é considerada antiética por muitos deles. Contudo, é comum que conversas gravadas por terceiros sejam vazadas pela imprensa.[6]

Fontes de Informação[editar | editar código-fonte]

As fontes de informação são essenciais no processo de apuração jornalística. As fontes são responsáveis por fornecer informações para as quais o grande público não tem acesso.[6]

A pesquisadora Montserrat Quesada, especialista em jornalismo investigativo, classifica as fontes de informação em[6]:

  • escritas: qualquer documento impresso que contenha informação útil ao repórter (livros, correspondências, folhetos etc);
  • orais: pessoa que passa informações para os jornalistas.

Enquanto que o pesquisador Nilson Lage divide as fontes de informação em pessoais, institucionais e documentais; e as classifica da seguinte maneira[6]:

  • oficiais: falam em nome do Estado, de instituições, de empresas, organizações etc;
  • oficiosas: mantêm ligação com indivíduos ou instituições, mas que não estão habilitados a falar em nome deles;
  • independentes: sem relação de interesse ou de poder com organizações, empresas, Estado etc;
  • primárias: fornecem ao jornalista as principais informações de uma matéria (fatos, versões e números);
  • secundárias: fornecem informações adicionais utilizadas na composição de premissas e contextos;
  • testemunhos: vivenciou ou presenciou acontecimento de interesse jornalístico;
  • experts: concede versões, informações especializadas e interpretações de eventos.

Ética no jornalismo investigativo[editar | editar código-fonte]

Com foco em transmitir a "verdade jornalística", o profissional jornalista em sua apuração usa estratégias e técnicas próprias ou determinadas pelo veículo comunicacional. Alguns teóricos dizem, portanto, que toda apuração é investigativa. Nesta "metodologia de trabalho", a teórica espanhola Montserrat Quesada diz que "só no momento em que o repórter passa a usar técnicas que não fazem parte da rotina do trabalho jornalístico de atualidade, a reportagem se transforma em reportagem investigativa[9]".

Tais estratégias específicas podem ser "nada ortodoxas, às vezes[10]", segundo a teórica Cleofe Monteiro de Sequeira. Desde a infiltração do profissional anonimamente no centro do acontecimento, negociação de relatos com as fontes (procedência de uma informação[11]), grampos telefônicos e câmeras ocultas, por exemplo.

O O Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros da Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ) fixa normas às quais os profissionais jornalistas devem se submeter. O direito à informação e o interesse público podem defender algumas técnicas usadas na profissão. Contudo, o artigo sexto do Código, que trata do dever do jornalista, no inciso oitavo orienta o respeito "ao direito à intimidade, à privacidade, à honra e à imagem do cidadão". Já o décimo primeiro artigo, no inciso terceiro, aponta "que o jornalista não pode divulgar informações obtidas de maneira inadequada, por exemplo, com o uso de identidades falsas, câmeras escondidas ou microfones ocultos, salvo em casos de incontestável interesse público e quando esgotadas todas as outras possibilidades de apuração".[12]

Associações de jornalismo investigativo[editar | editar código-fonte]

  • Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI)- Fundada em 2002, a associação congrega jornalistas brasileiros especializados em reportagens investigativas, e tem o objetivo de trocar experiências, informações e dicas sobre reportagens. A ABRAJI se autodeclara independente, apartidária, não sindical e não acadêmica, e mantém um sistema virtual de trocas de informações e divulgação de notícias de caráter investigativo.
  • IRE - Repórteres e Editores Investigativos - É a maior associação de jornalismo investigativo do mundo, com 4 mil membros em 27 países. Baseado na Faculdade de Jornalismo da Universidade do Missouri, o IRE promove conferências, oficinas de treinamento, oferece prêmios, e disponibiliza recursos sobre liberdade de informação, reportagens assistidas por computador (RAC), metodologia investigativa e outros.[13]
  • Centro Filipino de Jornalismo Investigativo - Fundado em 1989 por jornalistas filipinos.[13]
  • Centro para Reportagem Investigativa (CIR) - Fundada em 1977 em São Francisco, e sediada na Califórnia, é uma organização de reportagem dedicada à cobertura independente e aprofundada de questões sociais.[13]
  • Centro de Periodistas de Investigación - Sediado na Cidade do México, o grupo possui associados por toda a América Latina. Oferece oficinas sobre reportagens investigativas e RAC (reportagem assistida por computador) e disponibiliza recursos em espanhol como bancos de dados, coletânea de matérias e ligações na Internet.[13]

Premiações[editar | editar código-fonte]

Filmes[editar | editar código-fonte]

O jornalismo investigativo é retratado no filme Spotlight, de 2015, dirigido por Tom McCarthy e escrito por McCarthy e Josh Singer.[14][15] Também é retratado em A Vida de David Gale, de 2003, Capote, de 2005 e Intrigas de Estado, de 2009.[16]

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. «Tribunal europeu considera justificado uso de câmeras escondidas por jornalistas» Armando de Araújo Cardoso ed. EBC. Consultado em 24 de outubro de 2017 
  2. «Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros». O Povo. Consultado em 24 de outubro de 2017 
  3. Daniel Maia. «Perp walk: desrespeito ao direito fundamental à imagem ou exercício regular do direito de informar». Jusbrasil. Consultado em 24 de outubro de 2017 
  4. Helio Gurovitz. «O Watergate e a essência do jornalismo profissional». Época. Globo.com. Consultado em 24 de outubro de 2017 
  5. Eduardo Rosa (9 de dezembro de 2011). «Seria o fim do furo jornalístico?». UFRGS. Consultado em 24 de outubro de 2017 
  6. a b c d e f g h i j k Sequeira, Cleofe Monteiro de (2005). Jornalismo investigativo: o fato por trás da notícia. São Paulo: Summus Editorial. 197 páginas 
  7. Fortes, Leandro (2005). Jornalismo Investigativo. São Paulo: Contexto. 16 páginas 
  8. Sequeira, Cleofe Monteiro de (2005). Jornalismo investigativo: o fato por trás da notícia. São Paulo: Summus Editorial. 29 páginas 
  9. Quesada, Montserrat (1983). La investigación periodística - El caso espanai. São Paulo: Abril Cultural 
  10. Sequeira, Cleofe Monteiro de (2005). Jornalismo investigativo: o fato por trás da notícia. São Paulo: Summus Editorial. 63 páginas 
  11. «Fonte». Dicionário Caldas Aulete. Consultado em 11 de julho de 2016 
  12. «Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros – (1985/2007)». 17 de novembro de 2015. Consultado em 3 de julho de 2016 
  13. a b c d e «Confira outras associações de jornalismo investigativo pelo mundo». ABRAJI. Consultado em 22 de outubro de 2016 
  14. «O Caso Spotlight (2015)». SAPOMag. Consultado em 24 de outubro de 2017 
  15. Diogo Schelp (9 de fevereiro de 2017). «Spotlight: o jornalismo investigativo não acabou». VEJA. Abril. Consultado em 24 de outubro de 2017 
  16. Luciana da Cunha (28 de março de 2016). «TOP 5 – 5 filmes recentes de jornalismo investigativo». literaturapolicial.com. Consultado em 24 de outubro de 2017 

Ligações externas[editar | editar código-fonte]