Epilepsia

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Ir para: navegação, pesquisa
Epilepsia
Classificação e recursos externos
CID-10 G40-G41
CID-9 345
DiseasesDB 4366
MedlinePlus 000694
eMedicine neuro/415
Star of life caution.svg Aviso médico

Epilepsia (do verbo grego ἐπιλαμβάνειν: tomar, capturar, possuir)[1] é um grupo de transtornos neurológicos de longa duração caracterizados por ataques epilépticos.[2] Estes ataques são apisódios de duração e intensidade variável, desde os de curta duração e praticamente imperceptíveis até longos períodos de agitação vigorosa.[3] Em epilepsia, os ataques tendem a ser recorrentes e a não ter uma causa subjacente definida,[2] enquanto que os ataques que ocorrem devido a uma causa específica não são considerados representativos da epilepsia.[4]

Na maior parte dos casos de epilepsia desconhece-se a origem da doença, embora algumas pessoas desenvolvam epilepsia posteriormente a lesões cerebrais, AVC, tumores cerebrais, toxicodependência ou alcoolismo, entre outros. Os ataques epilépticos são o resultado de atividade excessiva e anormal das células nervosas do córtex cerebral.[4] O diagnóstico geralmente pressupõe excluir outras condições que possam provocar sintomas semelhantes (como a síncope) e perceber se existem quaisquer causas imediatas. A epilepsia é muitas vezes confirmada através de um eletroencefalograma (EEG).

A epilepsia não tem cura, embora os ataques possam ser controlados com medicação em cerca de 70% dos casos.[5] Em pessoas cujos ataques não respondem à medicação, pode-se considerar cirurgia, neuroestimulação ou alterações na dieta. Nem todos os casos de epilepsia se prolongam durante toda a vida e há um número significativo de pessoas que melhoram até ao ponto de já não ser necessária qualquer medicação.

Cerca de 1% da população mundial (65 milhões de pessoas) tem epilepsia.[6] Aproximadamente 80% dos casos ocorrem em países em vias de desenvolvimento.[3] A ocorrência de epilepsia torna-se mais comum à medida que a idade avança.[7] [8] Em países desenvolvidos, a ocorrência de novos casos é mais frequente em crianças e idosos,[9] enquanto que em países em vias de desenvolvimento é mais frequente em crianças mais velhas e jovens adultos.[10] Entre 5 e 10% de todas as pessoas terão um ataque sem causa definida até aos 80 anos de idade,[11] sendo a probabilidade de sofrer um segundo ataque entre 40 e 50%.[12] Em diversas partes do mundo, é restrita ou vedada a autorização de condução a pessoas com epilepsia,[13] embora muitas possam voltar a conduzir após determinado período sem ataques.

Características[editar | editar código-fonte]

Cerca de 50 milhões[14] de pessoas no mundo sofrem de epilepsia, e quase 90% delas ocorrem em países em desenvolvimento.[15] A epilepsia se torna mais comum com a idade.[16] [17] O início de novos casos ocorrem na maioria das vezes em crianças e idosos.[18] Como consequência de uma cirurgia cerebral, crises epilépticas podem ocorrer em pacientes em recuperação.

A epilepsia possui tratamento, mas não é curada com a medicação. Contudo, cerca de 30% das pessoas com epilepsia não têm o controle das crises mesmo com os melhores medicamentos disponíveis. Cirurgia pode ser considerada em casos em que medicação não seja eficiente ou os efeitos colaterais sejam muito incômodos.[19] [20] Não deve ser entendida como uma doença única.

Convulsão[editar | editar código-fonte]

Uma só convulsão não significa epilepsia, cerca de 10% da população tem pelo menos um episódio de convulsão durante a vida. É necessário pelo menos dois episódios de convulsão não provocada por outras causas, além de outros sintomas, antes de poder diagnosticar uma epilepsia.[21]

Classificação[editar | editar código-fonte]

Quando se identifica uma causa que provoque a epilepsia, esta é designada por "sintomática", quer dizer, a epilepsia é apenas o sintoma pelo qual a doença subjacente se manifestou; em 50% a 60% dos casos não se consegue detectar nenhuma causa - é a chamada epilepsia "idiopática". As crises também podem ser classificadas como focais (ou parciais), quando as crises epilépticas são originárias de uma área específica do cérebro, ou generalizadas, quando as crises epilépticas são originárias a partir dos dois lados do cérebro, em geral de forma sincronizada e simétrica.[22] [23] [24]

Sinais e sintomas[editar | editar código-fonte]

As características das convulsões variam dependendo da área do cérebro na qual o distúrbio começa e como se propaga. Sintomas temporários podem ocorrer, tais como[21] :

  • Esquecimento súbito;
  • Desmaios;
  • Distúrbios do movimento
  • Distúrbios de sensações (incluindo visão, audição e paladar)
  • Distúrbios de humor (como depressão e ansiedade)
  • Distúrbios de função cognitiva.

É também comum que os episódios de convulsões resultem em ferimentos e dificuldades de socialização.[21]

Causas[editar | editar código-fonte]

Em 60% a causa é desconhecida, mas algumas doenças neurológicas como Síndrome de Rasmussen podem causar epilepsia (foto).

Existem várias causas para a epilepsia, pois muitos fatores podem lesar os neurônios (células nervosas) ou o modo como estes se comunicam entre si. Os mais frequentes são: traumatismos cranianos, provocando cicatrizes cerebrais; traumatismos de parto; certas drogas ou tóxicos; interrupção do fluxo sanguíneo cerebral causado por acidente vascular cerebral ou problemas cardiovasculares; doenças infecciosas ou tumores.

Podem ser encontradas lesões no cérebro através de exames de imagem, como a tomografia computadorizada, mas normalmente tais lesões não são encontradas. O eletroencefalograma pode ajudar, mas idealmente deve ser feito durante a crise.

Epilepsia secundária ou sintomática[editar | editar código-fonte]

Dentre as causas para epilepsias com causas conhecidas estão[25] :

  • Danos cerebrais de uma lesão pré-natal ou perinatal (asfixia ou trauma durante o parto, baixo peso ao nascer);
  • Defeitos congênitos ou doenças genéticas associadas a malformações cerebrais;
  • Ferimentos graves na cabeça;
  • Acidente vascular cerebral, privando o cérebro de oxigênio;
  • Infecções cerebrais, tais como meningite e encefalite e neurocisticercose;
  • Algumas síndromes genéticas;
  • Tumores cerebrais.

Embora possa ser provocada por uma doença infecciosa, a epilepsia, ao invés de algumas crenças habituais, não é contagiosa, ninguém a pode contrair em contato com um epiléptico. Na maioria dos casos a epilepsia deve-se a uma lesão cerebral causada por traumatismo provocado por acidente físico, num tumor, numa infecção, no parasita cisticerco, num parto com complicações, meningite, embora em menor frequência pode ser genético,[26] [27] significando que, em poucos casos, a epilepsia pode ser transmitida aos filhos. Outro fator que pode explicar a incidência da epilepsia entre parentes próximos é que algumas de suas possíveis causas, como a infecção e a meningite, são contagiosas, expondo parentes próximos a uma incidência maior. Do mesmo modo, a cisticercose, que é causada pela ingestão de cistos provenientes da Taenia solium (transmitida através da ingestão de ovos da tênia por alimentos contaminados com as fezes do porco), é adquirida através da ingestão de alimentos contaminados, que costumeiramente fazem parte da alimentação de parentes próximos. A despeito da crença popular de que a epilepsia é incurável, existem tratamentos medicamentosos e cirurgias capazes de controlar e até curar a epilepsia.

Epilepsia piridoxina-dependente[editar | editar código-fonte]

Epilepsia piridoxina -dependente é uma condição rara que envolve convulsões desde que podem começar ainda nos primeiros meses de vida ou, em alguns casos, antes do nascimento. A doença foi identificada nos anos 1950, tendo sido descrita por Hunt et al. em 1954. [28] A causa mais provável é uma mutação dp gene ALDH7A1 (antiquitina). As pessoas afetadas geralmente sofrem ataques que duram vários minutos (estado de mal epiléptico). Esses ataques envolvem rigidez muscular, convulsões e perda de consciência (crises tônico-clônicas). Outras características da epilepsia piridoxina-dependente incluem baixa temperatura corporal (hipotermia), baixo tônus ​​muscular (distonia) logo após o nascimento e irritabilidade antes de um episódio de convulsão. Em casos raros, as crianças com essa condição não têm convulsões até 1 a 3 anos de idade. Uma vez que é uma condição rara, o diagnóstico muitas vezes não é preciso, e anticonvulsivantes são normalmente administrados para controlar as convulsões, revelando-se ineficazes. O tratamento com grandes doses diárias de piridoxina (vitamina B6) é eficaz, porém, se diagnosticadas e não tratadas a tempo, as crianças podem vir a apresentar problemas neurológicos, tais como atraso do desenvolvimento, distúrbios de aprendizagem ou mesmo disfunção cerebral grave (encefalopatia). [29]

Desencadeamento de crises[editar | editar código-fonte]

Alguns dos fatores que podem desencadear crises epilépticas:

Fatores de vulnerabilidade dependem das áreas do cérebro mais afetadas pela epilepsia. Algumas pessoas têm ataques quando veem televisão, jogam jogos no computador ou frequentam boates.

Tratamento[editar | editar código-fonte]

Star of life caution.svg
Advertência: A Wikipédia não é consultório médico nem farmácia.
Se necessita de ajuda, consulte um profissional de saúde.
As informações aqui contidas não têm caráter de aconselhamento.
Anticonvulsivantes, ou estabilizantes de humor, também são usados no tratamento de transtorno bipolar de humor.

Há mais de 100 anos, com o desenvolvimento de medicamentos à base de brometos, as crises podem ser controladas na sua grande maioria (70%) com medicação de baixo custo. Somente de 10% a 40% dos pacientes recebem tratamento medicamentoso e a oferta de tratamento cirúrgico é rara, mesmo em grandes hospitais.[14]

No Brasil, muitos ainda acreditam em possessão demoníaca ou por espíritos como a explicação para epilepsia e buscam os tratamentos afins que incluem um violento exorcismo ou simpatias, ignorando as recomendações médicas. Esta ignorância tem contribuído na perpetuação da estigmatização e discriminação negativa dos indivíduos com epilepsia da sociedade.[14]

Tratamento farmacológico[editar | editar código-fonte]

Antigamente acreditava-se que a associação de vários remédios ajudaria a obter melhores resultados, mas ficou provado que esse tipo de conduta é inadequado porque favorece o acúmulo dos efeitos colaterais. É um consenso entre os médicos que apenas um remédio é a melhor estratégia inicial. Caso o primeiro medicamento, mais barato e prático, não funcione, pode-se tentar outro com menos efeitos colaterais, mais caros ou menos práticos, ou dois medicamentos podem ser usados simultaneamente para potencializar os efeitos.

O diagnóstico de epilepsia deve ser estabelecido antes do início do tratamento. A decisão de se iniciar o tratamento deve considerar o paciente como um todo: a severidade do quadro clínico e seu prognóstico. Deve-se ter bem claro seu propósito, a expectativa do paciente e, de preferência, incluir a família no tratamento.

A medicação costuma ser mantida durante muitos anos, por vezes até o final da vida. A escolha da medicação anticonvulsivante a ser utilizada é feita com base no tipo de crise, idade, interações medicamentosas e efeitos colaterais apresentados pelo paciente. A consequência imediata da escolha adequada da medicação, associada à eficácia contra as crises, melhora a adaptabilidade social do paciente epiléptico, que poderá atender melhor e mais facilmente às exigências de seu meio, dentro de uma vida de qualidade.

Os principais medicamentos utilizados são os anticonvulsivantes:

No caso de epilepsia idiopática ou para generalizada sintomática a primeira escolha é o Valproato ou o Divalproato, e a segunda opção é a Lamivudina. No caso de epilepsia focal sintomática é mais eficaz começar com Carbamazepina e oxcarbazepina.[30]

Outros tratamentos[editar | editar código-fonte]

Machado de Assis sendo acudido na rua durante uma crise de epilepsia.

A maneira como o indivíduo interage com o ambiente social (família, trabalho, amigos) é bastante afetada pelo fato de ele ser um portador de epilepsia. O tratamento deve, portanto, não apenas visar o controle de suas crises, mas a melhora da qualidade de vida do paciente, garantindo uma melhor integração social.

Para aqueles que não respondem ao tratamento medicamentoso, há possibilidade de tratamento cirúrgico, porém há poucos profissionais qualificados mesmo em hospitais particulares. Mesmo entre médicos é comum não saber providenciar o tratamento adequado em caso de crises e nem fazer o encaminhamento adequado.

Prognóstico[editar | editar código-fonte]

A maioria das pessoas com epilepsia aparenta levar uma vida normal. Ainda que a epilepsia atualmente não tenha cura definitiva, em algumas pessoas ela eventualmente desaparece. A maioria dos ataques epilépticos não causa lesão cerebral. Não é incomum que pessoas com epilepsia, especialmente crianças, desenvolvam problemas emocionais e de comportamento. Para muitas pessoas com epilepsia o risco de ataques epilépticos restringe sua independência. A maioria das mulheres com epilepsia pode ficar grávida, mas deve discutir com o médico sobre sua doença e medicamentos tomados. Mulheres com epilepsia tem uma chance maior de 90% de ter um bebê saudável.

Crise epiléptica[editar | editar código-fonte]

É a manifestação clínica causada por uma descarga transitória, excessiva e anormal de células nervosas. Pode ser comparada a uma tempestade elétrica, ocorrendo num grupo de neurônios. As descargas podem variar de local, extensão e severidade, o que leva a uma ampla diversidade de formas clínicas. Os sinais e sintomas de uma crise epiléptica (distúrbios da consciência, dos movimentos ou da sensibilidade) refletem, portanto, a ativação da parte do cérebro afetada por esta atividade excessiva. Pode ser afetada apenas uma parte do cérebro (crise parcial ou focal) ou toda extensão dos dois hemisférios cerebrais (crise generalizada).

Crises generalizadas[editar | editar código-fonte]

Não se deve colocar a mão ou algum objeto na boca, ao invés disso deve se procurar afrouxar suas roupas e evitar que a pessoa se golpeie ou se machuque. Pode-se colocar algo macio embaixo da cabeça e contê-la gentilmente até que a crise finalize.

Durante as crises generalizadas os possíveis sintomas são[31] :

  • Enrijecimento do corpo (fase tônica);
  • Grunhidos (fase tônica);
  • Virar olhos e cabeça (fase clônica);
  • Movimentação dos braços e pernas (fase clônica);
  • Salivação espumosa (fase clônica).

Durante o episódio, a língua pode ser mordida ou severamente lesada, ou o corpo ferido como resultado de uma queda ou outro acidente. Às vezes pode ocorrer liberação de urina e/ou fezes. O corpo relaxa após poucos segundos ou minutos e em seguida o doente dorme por um período invariável de tempo. O paciente pode se esquecer da crise, principalmente quando ela ocorre durante o sono.

Crises parciais[editar | editar código-fonte]

Em crises parciais podem ocorrer[32] :

  • Tremores na face, membros ou espalhados pelo corpo;
  • Distúrbios sensoriais como alucinação visual, auditiva, tátil ou palato-olfativa;
  • Mudança de humor, perda de memória e pensamento;
  • Mal estar, palpitação, salivação, suor, ou rubor na face;
  • Enformigamento da boca, e das mãos.

Os sintomas sentidos dependem da área do cérebro afetada.

Epidemiologia[editar | editar código-fonte]

Ano de vida ajustado para a epilepsia por 100.000 habitantes em 2002.
  sem informações
  menos de 50
  50-72.5
  72.5-95
  95-117.5
  117.5-140
  140-162.5
  162.5-185
  185-207.5
  207.5-230
  230-252.5
  252.5-275
  mais de 275

A epilepsia é um dos distúrbios neurológicos graves mais comuns do mundo.[33] Cerca de 3% das pessoas serão diagnosticadas com epilepsia em algum momento de suas vidas.[34] Sua prevalência é de 1% da população do mundo, ou seja 60 milhões de pessoas, e a cada ano somam-se aproximadamente três milhões de novos casos. Cerca de 50% dos casos começam na infância ou adolescência.[14]

As condições genéticas, congênitas e de desenvolvimento são na sua maioria associados a ela entre os pacientes mais jovens; tumores são mais prováveis ​​mais de 40 anos; traumatismo craniano e infecções do sistema nervoso central, pode ocorrer em qualquer idade. A prevalência da epilepsia ativa é aproximadamente na faixa de 50-10 por 1000 pessoas. Até 5% das pessoas experimentam não convulsões febris em algum momento da vida; prevalência da epilepsia de vida é relativamente alta porque a maioria dos pacientes, quer parar de ter convulsões ou (menos comumente) morrem dela. Taxa de epilepsia de incidência aproximada anual é de 40-70 por 100.000 nos países industrializados e 100-190 por 100.000 habitantes em países com poucos recursos; socioeconomicamente as pessoas privadas estão em maior risco. Nos países industrializados, a taxa de incidência em crianças diminuiu, mas aumentou entre os idosos durante as três décadas anteriores a 2003, por razões não totalmente compreendidas.[35]

No Brasil a prevalência é de cerca de 1,2%, o que representa atualmente quase 2 milhões de pessoas.[36]

Campanha internacional da OMS[editar | editar código-fonte]

A Campanha Global contra Epilepsia - "Fora das Sombras" - é uma iniciativa conjunta da Liga Internacional contra Epilepsia (ILAE), do Comitê Internacional para Epilepsia (IBE) e da Organização Mundial de Saúde. Cada uma das organizações envolvidas tentou, no passado, promover alguma modificação, mas nenhuma de fato foi bem sucedida. O lema oficial da campanha é: "Melhorar a aceitação, diagnóstico, tratamento, serviços e prevenção de epilepsia em todo o mundo", pois calcula-se que 70-80% das pessoas com epilepsia podem ou poderiam levar vidas normais se tratadas corretamente.

Os objetivos da campanha são:

  • Aumentar a consciência pública e profissional de epilepsia como doença do cérebro universal e tratável
  • Elevar a epilepsia a um novo nível de aceitação no domínio público
  • Promover educação pública e profissional sobre epilepsia
  • Identificar as necessidades das pessoas com epilepsia nos âmbitos regional e nacional
  • Encorajar governos e departamentos de saúde a contemplar as necessidades das pessoas com epilepsia, incluindo consciência, educação, diagnóstico, tratamento, cuidados, serviços e prevenção.

A campanha inclui componentes internacionais, regionais e nacionais, os quais estão inter-relacionados.

Imputabilidade[editar | editar código-fonte]

Caso seja comprovado que uma pessoa cometeu um ato ilegal por causa da epilepsia ela é considerada inimputável, ou seja, ela não pode ser culpada do ato que cometeu. Por exemplo, se durante uma convulsão ela ferir pessoas próximas ou se bater o carro antes do diagnóstico ou seguindo o tratamento correto.[37]

Epilepsia ou "disritmia cerebral paroxística"?[editar | editar código-fonte]

Disritmia cerebral é uma expressão amplamente usada para rotular diversos distúrbios neuropsiquiátricos em pacientes que apresentam diferentes condições - inclusive e principalmente epilepsia. Embora, em sua maioria, os disrítmicos sejam indivíduos normais, o diagnóstico de disritmia cerebral é comumente "confirmado" pelo eletroencefalograma e geralmente o "tratamento" consiste na administração de drogas anti-epilépticas, como o fenobarbital, por muitos anos.[38]

Gibbs e Lennox estabeleceram a correlação entre alterações eletroencefalográficas e as manifestações clínicas das epilepsias e, em 1937, escreveram: "As doenças trocam de nome com o aumento, não da idade (como as crianças chinesas), mas, do conhecimento médico. A maior parte dos distúrbios começam sua existência com o nome daquele que primeiro os reconheceu ou são rotulados temporariamente com algum termo puramente descritivo. Quando a etiologia ou patologia é descoberta, a nomenclatura muda (...) Nós agora sabemos que a epilepsia é devida ao desenvolvimento de ritmos anormais no córtex cerebral; é uma disritmia cerebral paroxística." [39] Foi então que, no intuito de atenuar os preconceitos contra os epiléticos, propuseram a substituição da palavra epilepsia pela expressão disritmia cerebral paroxística. [40] Tal proposta foi amplamente aceita pelos médicos e pelas famílias de pacientes, pois, afinal, "é menos trágico ter um filho disrítmico que acometido com esta praga da epilepsia".[41] [42]

Todavia, em razão da sua inespecificidade, já que envolve entidades clínicas com etiologia, prognóstico e terapêuticas distintas, a expressão disritmia cerebral foi desaprovada pela Academia Brasileira de Neurologia, pela Sociedade Brasileira de Eletroencefalograma e Neurofisiologia Clínica e pela Liga Brasileira de Epilepsia. [38]

Referências

  1. Magiorkinis E, Kalliopi S, Diamantis A. (Janeiro de 2010). "Hallmarks in the history of epilepsy: epilepsy in antiquity". Epilepsy & behavior : E&B 17 (1): 103–108 pp.. DOI:10.1016/j.yebeh.2009.10.023. PMID 19963440.
  2. a b Chang, BS; Lowenstein DH. (2003). "Epilepsy". N. Engl. J. Med. 349 (13): 1257–66 pp.. DOI:10.1056/NEJMra022308. PMID 14507951.
  3. a b Organização Mundial de Saúde (Outubro de 2012). Epilepsy. Página visitada em 24 de janeiro de 2013.
  4. a b Fisher R, van Emde Boas W, Blume W, Elger C, Genton P, Lee P, Engel J. (2005). "Epileptic seizures and epilepsy: definitions proposed by the International League Against Epilepsy (ILAE) and the International Bureau for Epilepsy (IBE)". Epilepsia 46 (4): 470–2 pp.. DOI:10.1111/j.0013-9580.2005.66104.x. PMID 15816939.
  5. Eadie, MJ. (Dezembro de 2012). "Shortcomings in the current treatment of epilepsy.". Expert Review of Neurotherapeutics 12 (12): 1419–27 pp.. DOI:10.1586/ern.12.129. PMID 23237349.
  6. Thurman, DJ; Beghi, E; Begley, CE; Berg, AT; Buchhalter, JR; Ding, D; Hesdorffer, DC; Hauser, WA; Kazis, L; Kobau, R; Kroner, B; Labiner, D; Liow, K; Logroscino, G; Medina, MT; Newton, CR; Parko, K; Paschal, A; Preux, PM; Sander, JW; Selassie, A; Theodore, W; Tomson, T; Wiebe, S; ILAE Commission on, Epidemiology. (Setembro de 2011). "Standards for epidemiologic studies and surveillance of epilepsy.". Epilepsia 52 Suppl 7: 2–26 pp.. DOI:10.1111/j.1528-1167.2011.03121.x. PMID 21899536.
  7. Brodie, MJ; Elder, AT, Kwan, P. (Novembro de 2009). "Epilepsy in later life". Lancet neurology 8 (11): 1019–30 pp.. DOI:10.1016/S1474-4422(09)70240-6. PMID 19800848.
  8. Holmes, Thomas R.; Browne, Gregory L.. Handbook of epilepsy. 4ª ed. Filadélfia: Lippincott Williams & Wilkins, 2008. ISBN 978-0-7817-7397-3
  9. Wyllie's treatment of epilepsy : principles and practice.. 5ª ed. Filadélfia: Wolters Kluwer/Lippincott Williams & Wilkins, 2010. ISBN 978-1-58255-937-7
  10. Newton, CR. (29 de setembro de 2012). "Epilepsy in poor regions of the world.". Lancet 380 (9848): 1193–201 pp.. DOI:10.1016/S0140-6736(12)61381-6. PMID 23021288.
  11. Wilden, JA; Cohen-Gadol, AA. (15 de agosto de 2012). "Evaluation of first nonfebrile seizures.". American family physician 86 (4): 334–40 pp.. PMID 22963022.
  12. Berg, AT. (2008). "Risk of recurrence after a first unprovoked seizure". Epilepsia 49 Suppl 1: 13–8 pp.. DOI:10.1111/j.1528-1167.2008.01444.x. PMID 18184149.
  13. Devlin, AL; Odell, M; L Charlton, J; Koppel, S. (Dezembro de 2012). "Epilepsy and driving: current status of research.". Epilepsy research 102 (3): 135–52 pp.. DOI:10.1016/j.eplepsyres.2012.08.003. PMID 22981339.
  14. a b c d MIN, Li Li and SANDER, J.W.A.S.. Projeto demonstrativo em epilepsia no Brasil. Arq. Neuro-Psiquiatr. [online]. 2003, vol.61, n.1 [cited 2013-01-06], pp. 153-156 . Available from: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0004-282X2003000100033&lng=en&nrm=iso>. ISSN 0004-282X. http://dx.doi.org/10.1590/S0004-282X2003000100033.
  15. Epilepsy. World Health Organization (January 2009). Página visitada em January 5, 2012.
  16. Brodie, MJ; Elder, AT, Kwan, P. (2009 Nov). "Epilepsy in later life". Lancet neurology 8 (11): 1019–30 pp.. DOI:10.1016/S1474-4422(09)70240-6. PMID 19800848.
  17. Holmes, Thomas R. Browne, Gregory L.. Handbook of epilepsy. 4th ed. Philadelphia: Lippincott Williams & Wilkins, 2008. ISBN 9780781773973
  18. Wyllie's treatment of epilepsy : principles and practice.. 5th ed. Philadelphia: Wolters Kluwer/Lippincott Williams & Wilkins, 2010. ISBN 9781582559377
  19. Cascino GD. (1994). "Epilepsy: contemporary perspectives on evaluation and treatment". Mayo Clinic Proc 69: 1199–1211 pp..
  20. Engel J Jr. (1996). "Surgery for seizures". NEJM 334 (10): 647–652 pp.. DOI:10.1056/NEJM199603073341008. PMID 8592530.
  21. a b c http://www.who.int/mediacentre/factsheets/fs999/es/index.html
  22. [1]
  23. Lu Y, Wang X. (2009). "Genes associated with idiopathic epilepsies: a current overview.". Neurol. Res. 31: 135-143 pp.. DOI:10.1179/174313209X393942. PMID 19298753.
  24. Ottman R, Risch N, Hauser WA, Pedley TA, Lee JH, Barker-Cummings C, et al. (1995). "Localization of a gene for partial epilepsy to chromosome 10q". Nat. Genet. 10 (1): 56-60 pp.. DOI:doi:10.1038/ng0595-56. PMID 7647791.
  25. [2]
  26. "Cirurgia de epilepsia cada vez mais cedo", 2007-09-19. Página visitada em 2007-09-19.
  27. "GeneCards: list of "disease genes" match the pattern "Epilepsy"". Página visitada em 2007-11-11.
  28. Pyridoxine-dependent epilepsy
  29. Pyridoxine-dependent epilepsy. Genetics Home Reference. 17 de junho de 2013.
  30. BETTING, Luiz Eduardo et al. Tratamento de epilepsia: consenso dos especialistas brasileiros. Arq. Neuro-Psiquiatr. [online]. 2003, vol.61, n.4 [cited 2013-01-06], pp. 1045-1070 . Available from: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0004-282X2003000600032&lng=en&nrm=iso>. ISSN 0004-282X. http://dx.doi.org/10.1590/S0004-282X2003000600032.
  31. [3]
  32. [4]
  33. Hirtz D, Thurman DJ, Gwinn-Hardy K, Mohamed M, Chaudhuri AR, Zalutsky R. (2007-01-30). "How common are the 'common' neurologic disorders?". Neurology 68 (5): 326–37 pp.. DOI:10.1212/01.wnl.0000252807.38124.a3. PMID 17261678.
  34. Hauser, WA, Kurland, LT. (1975). "The epidemiology of epilepsy in Rochester, Minnesota, 1935 through 1967". Epilepsia 16 (1): 1–66 pp.. DOI:10.1111/j.1528-1157.1975.tb04721.x. PMID 804401.
  35. Sander JW. (2003). "The epidemiology of epilepsy revisited". Curr Opin Neurol 16 (2): 165–70 pp.. DOI:10.1097/00019052-200304000-00008. PMID 12644744.
  36. RAUL MARINO JR; ARTHUR CUKIERT; EUNICE PINHO. ASPECTOS EPIDEMIOLÓGICOS DA EPILEPSIA EM SÃO PAULO. http://www.scielo.br/pdf/anp/v44n3/04.pdf
  37. [5]
  38. a b Disritmia cerebral em um hospital universitário. Por Paulo César Trevisol-Bittencourt, George Hamilton Pereira, Li Li Min e Li Shih Min. Jornal Brasileiro de Psiquiatria, 42 (10): 541-545, 1993
  39. |GIBBS F.A., GIBBS E.L., LENNOX W.G. "Epilepsy: a paroxysmal cerebral dysrythmia". Brain, 60: 377-388, 1937.
  40. Epilepsia, Personalidade e Agressividade - Existe, de fato, alguma relação entre essas três condições humanas?, por Ballone G.J.. Psiqweb
  41. Epilepsia em um hospital psiquiátrico, por P. C. Trevisol-Bittencourt; N. Becker; C.M. Pozzi; J. W. A. S. Sander. Arquivos de Neuro-Psiquiatria] vol.48 n°3, São Paulo, setembro de 1990
  42. Decálogo para transformar seu paciente com epilepsia em um doente mental, por Paulo César Trevisol Bittencourt. Neurologia. UFSC

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

O Commons possui uma categoria contendo imagens e outros ficheiros sobre Epilepsia