Kilij Arslan I

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Kilij Arslan I
Sultão de Rum
Governo
Reinado 1092 - 1107
Vida
Morte 1092

Kilij Arslan I (em árabe: قلج أرسلان, Qilij Arslān; em turco: I. Kılıç Arslan) (morto em 1107) foi o soberano do Sultanato de Rum de 1092 até à sua morte, e o refundador do sultanato de seu pai Sulimão ibn Qutulmish após a morte do sultão seljúcida Malik Shah I.

O seu sultanato incluiu o período da Primeira Cruzada e, pela posição geográfica dos seus territórios, coube-lhe enfrentar todas as expedições cristãs desta cruzada assim que estas entraram em territórios muçulmanos[1] : derrotou a Cruzada Popular, foi vencido na Cruzada dos Nobres e voltou a vencer os ocidentais que surgiram nas três expedições da Cruzada de 1101[2] .

Restabelecimento do sultanato[editar | editar código-fonte]

Kilij Arslan era filho de Sulimão ibn Qutulmish, primo afastado e rival de Alp Arslan pelo trono do sultanato seljúcida. Ao serviço do Império Bizantino, Sulimão obteve o domínio da Bitínia, estabelecendo uma base permanente nos seus domínios em Niceia (atual İznik). Depois da morte de Sulimão em 1086, Kilij Arslan tornou-se refém do sultão Malik Shah I.

Malik Shah I morreu em 1092 e Kilij Arslan foi libertado do cativeiro. Marchou à frente de um exército de uma tribo de turcos oguzes e estabeleceu a sua capital em Niceia, depondo o governador nomeado pelo sultão seljúcida. A morte de Malik Shah também provocou o desmembramento do império seljúcida, com as tribos individuais dos danismendidas, buridas, saltuqidas, artuquidas (ou ortoqidas), o Império Corásmio, o estado de Esmirna de Chaka Bey e os domínios dos diferentes atabeis do Azerbaijão, Iraque e Mesopotâmia em diversos conflitos para estabelecerem os seus próprios estados independentes.

Neste contexto, o imperador bizantino Aleixo I Comneno aproveitava a situação para criar intrigas políticas de modo a reforçar o seu poder na região. Kilij Arslan tinha-se casado com a filha do emir Chaka Bey para tentar forjar uma aliança contra os bizantinos, uma vez que este possuía uma frota capaz de desafiar o forte poder naval de Constantinopla. Mas, em 1094, recebeu uma carta de Aleixo Comneno que o avisava de um plano do seu sogro para o eliminar. Kilij Arslan marchou com um exército para Esmirna, convidou o sogro para um banquete na sua tenda e o assassinou depois de o embriagar.

Cruzada Popular[editar | editar código-fonte]

Iluminura do massacre dos peregrinos da Cruzada Popular na Anatólia

Em 1095, o papa Urbano II proclamou a Primeira Cruzada no Concílio de Clermont, e vasto número de plebeus e cavaleiros de baixa estirpe da Europa ocidental partiram para a Terra Santa para libertar a cidade de Jerusalém do domínio muçulmano. Liderada pelo monge Pedro o Eremita e pelo cavaleiro Gualtério Sem-Haveres, a Cruzada Popular contava com cerca de 30 000 peregrinos ao chegar à Anatólia no Verão de 1096[3] [4] .

Ao chegar a Nicomédia (atual (İzmit) depois de saquear algumas localidades dos arredores, o exército ocidental separou-se em dois contingentes, um de francos e outro de germânicos e italianos. Os francos chegaram junto a Niceia e pilharam os seus subúrbios. Os turcos eram guerreiros experientes e conheciam o terreno, por isso durante cerca de um mês aguardaram e observaram até ao melhor momento para atacar. Em agosto de 1096, uma primeira patrulha de soldados de Kilij Arslan foi enviada, sem sucesso, para barrá-los.

A 18 de setembro, 6 000 germânicos conquistaram a fortaleza de Xerigordon. Em resposta, Kilij Arslan I enviou um exército de 15 000 homens liderado pelo general Elcanes, que cercou Xerigordon[5] a 21 de setembro. Uma vez que a fortaleza não dispunha de fontes de água, os turcos aguardaram que a sede se encarregasse de derrotar os inimigos, o que demorou cerca de uma semana. Forçados a beber o sangue dos seus burros e a sua própria urina[6] , os cruzados renderam-se a 29 de setembro. Alguns foram aprisionados, forçados a converterem-se ao Islão e enviados para Coração, onde foram escravizados, enquanto outros recusaram-se a renegar a sua fé e foram mortos[7] .

No acampamento franco de Civitot, dois espiões turcos espalharam o rumor de que os germânicos tinham conseguido tomar não só Xerigordon como também Niceia, o que incentivou este contingente a apressar-se para chegar à cidade o mais depressa possível de modo a poder participar do saque. Só mais tarde os cruzados souberam a verdade de o que acontecera em Xerigordon. Na manhã de 21 de outubro, todo o exército de cerca de 20 000 cruzados marchou em direcção a Niceia, deixando mulheres, crianças, velhos e doentes no acampamento[3] .

O exército turco aguardava em emboscada a cerca de três milhas do acampamento cruzado, em um local onde a estrada entrava em um vale arborizado e estreito junto à aldeia de Dracon. O exército cruzado seria massacrado quase na totalidade[3] , mas as crianças e os que se renderam foram poupados. Os milhares de soldados que tentaram resistir foram facilmente derrotados. Para além de alguns sobreviventes dispersos, apenas cerca de 3 000 peregrinos se conseguiram refugiar num castelo abandonado.

Cruzada dos nobres[editar | editar código-fonte]

Depois de derrotar a Cruzada Popular, Kilij Arslan I invadiu o emirado de Danishmend Gazi no leste da Anatólia. Quando as mais numerosas forças da Cruzada dos Nobres cercaram Niceia em maio de 1097, o sultão de Rum apressou-se a acordar tréguas com Ghazi e sair da região de Melitene para ir socorrer a sua capital[8] .

A 16 de maio, uma força dos turcos sitiados saiu para atacar os cristãos e foi derrotada na escaramuça, perdendo 200 soldados. Ao receber o pedido de auxílio da sua guarnição de Niceia, Kilij Arslan apercebeu-se do poder bélico destes cruzados e tentou voltar. A sua vanguarda foi derrotada por Raimundo IV de Toulouse e Roberto II da Flandres a 20 de maio, e no dia seguinte o exército seljúcida de cerca de 10 000 homens[9] perdeu uma batalha que se arrastou até depois do cair da noite. As perdas foram graves de ambos os lados mas foi o sultão quem acabou por retirar, apesar das súplicas de Niceia.

Devido à facilidade com que derrotara a primeira onda de cruzados, Kilij Arslan menosprezou a ameaça que os nobres cruzados da Europa representaram. O preço que pagou por isso foi a rendição de Niceia ao Império Bizantino e a captura da sua esposa e filhos. Mas depois de os cruzados enviarem a sultana para Constantinopla, foi com surpresa que souberam que ela tinha sido libertada sem resgate devido às relações entre Kilij Arslan e Aleixo I Comneno - seria acompanhada de volta a Rum pelo seu irmão, o novo emir de Esmirna, que diante da ameaça ocidental abandonou os seus domínios na região costeira do mar Egeu se refugiava junto do cunhado.

Frente a esta poderosa invasão, o sultanato de Rum e os danismendidas aliaram-se. Para melhorar o abastecimento ao grande número de peregrinos, os cruzados separaram as suas forças durante a marcha pela Anatólia[10] . A emboscada muçulmana aos normandos da vanguarda cruzada ocorreu a 1 de julho: na batalha de Dorileia, a cavalaria ligeira de arqueiros de Kilij Arslan não conseguiu penetrar a linha de defesa da cavalaria pesada cruzada; eventualmente os francos da retaguarda chegaram para repelir os turcos e tomar o campo do sultão, onde encontraram uma grande quantidade de víveres, magníficas tendas ornamentadas, tesouros e animais, entre os quais um grande número de camelos.

Kilij Arslan acabou por retirar, tendo infligido (e sofrido) perdas pesadas. Obrigado a concentrar as suas atenções nos seus territórios do leste, não se arriscaria a enfrentar novamente este exército em batalha - preferiria usar as tácticas de guerrilha em pequenos ataques pontuais e de terra queimada, destruindo campos cultivados e poços de água no percurso dos cruzados.

Cruzada de 1101[editar | editar código-fonte]

Rotas das expedições da Cruzada de 1101 na Anatólia

Em 1100, o príncipe Boemundo de Taranto foi aprisionado por Danishmend Gazi, o emir de Sivas[11] . Entretanto um numerosa expedição de lombardos tinha chegado da Europa para atender ao pedido de reforços dos novos Estados cruzados na Palestina, e ao saberem do cativeiro do príncipe italiano, decidiram regatá-lo. Depois de conquistarem Ancara a 23 de junho, que cederam ao controlo bizantino, afastaram-se da costa do mar Negro, que lhes poderia oferecer alguma segurança estratégica, para se dirigirem aos territórios dos danismendidas a leste.

Durante várias semanas as forças turcas acossaram os cruzados, dificultando o seu reabastecimento de água e alimentos. Finalmente, no início de agosto de 1101, seljúcidas ao comando de Kilij Arslan I, danismendidas e Ridwan de Alepo montaram uma emboscada perto de Mersivan[12] . Ao fim de três dias de combate, o campo cruzado foi tomado e a maioria dos lombardos foi morta ou escravizada[11] . Seguir-se-iam mais duas vagas cruzadas na região.

O contingente de Guilherme II de Nevers tentou tomar Konya, a nova capital do Sultanato de Rum após a perda de Niceia, mas fracassou frente à forte guarnição seljúcida. Entretanto, Kilij Arslan I e Danishmend Gazi, alertados sobre esta nova expedição e tentando eliminar novas incursões cruzadas, passaram provavelmente por Cesareia Mazaca para emboscar e aniquilar os cruzados numa batalha curta em Heracleia Cibistra[12] .

Simultaneamente, um exército de bávaros e aquitânios que tinha pilhado Filomélio, forçava a guarnição de Konya a abandonar a região, mas não antes de levar consigo todos os mantimentos da cidade e dos subúrbios[12] . Também com falta de água e acossados pelos turcos, os cruzados seriam emboscados pelas forças muçulmanas em Heraclea, junto ao rio. Estas foram vitórias importantes para os turcos, uma vez que provavam que os exércitos cruzados não eram invencíveis, como parecera durante a Cruzada dos Nobres[12] .

Últimos anos[editar | editar código-fonte]

Passado o perigo das grandes expedições ocidentais, em 1104 Kilij Arslan retomou o conflito com os danismendidas, enfraquecidos após a morte de Ghazi - exigiu metade do resgate que estes obtiveram por Boemundo de Taranto, o que resultou na aliança destas duas forças contra Rum e o Império Bizantino. Em 1106 Kılıj Arslan conquistou Silvan aos ortóquidas e Melitene aos danismendidas[13] , e também Harã e Amida.

No ano seguinte, recebendo um apelo dos habitantes de Mossul opostos ao atabei Jawali al-Saqawu (ao serviço do sultão seljúcida Muhammet Tapar), tomou a cidade e nomeou o seu filho Melikshah, com onze anos de idade, seu lugar-tenente[14] . No entanto, acabaria por ser derrotado pelas forças aliadas de seljúcidas, ortóquidas e Alepo. Em retirada, acabaria por morrer em junho de 1107, afogado no rio Khabur[14] ou na sua capital[15] . Em Mossul, Melikshah seria aprisionado e levado para o cativeiro em Isfahan[16] .

Ilustração da cidade antiga de Mossul

Descendência[editar | editar código-fonte]

Kılıj Arslan I teve cinco filhos[14] :

  • O primogénito (nome desconhecido) morreu em combate contra o emir danismendida Gazi Gümüshtigin antes de 1107.
  • Melikshah, sucedeu ao seu pai, mas só governaria a partir da sua libertação em 1109/10, e até 1116.
  • Mesud I, depôs e assassinou Melikshah em 1116, governando até 1155.
  • Arab, rebelou-se contra o seu irmão Mesud I em 1126.
  • Tuğrul Arslan, cuja mãe governou Melitene após a morte de Kılıj Arslan.

Ver também[editar | editar código-fonte]

Kilij Arslan I
(1092-1107)
Precedido por: WLA lacma Anatolia Konya Silver Dirham Coin 1242-1243.jpg
Sultões de Rum
Sucedido por:
Suleiman ibn Qutalmish 2.º Malik Shah


Notas[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. Masudul Hasan, Abdul Waheed. Outline History of the Islamic World (em ). [S.l.: s.n.]. 159 pp.
  2. Norman Housley. Contesting the Crusades (em ). [S.l.: s.n.]. 42 pp.
  3. a b c John Julius Norwich. Byzantium: The Decline and Fall (em ). [S.l.]: Penguin Books. 33-35 pp. ISBN 978-0-14-011449-2.
  4. Ana Comnena. A Alexíada: edição e tradução para o inglês de E.R.A. Sewter. Harmandsworth: Penguin, 1969. ISBN 978-0-14-044958-7.
  5. Jim Bradbury. The Routledge Companion to Medieval Warfare (em ). New edition. ed. [S.l.: s.n.], 2004. 182-186 pp. ISBN 978-0-415-22126-9.
  6. August Charles Krey. The First Crusade: The Accounts of Eyewitnesses and Participants (em ). Princeton: [s.n.], 1921. 71-72 pp.
  7. Steven Runciman. A History of the Crusades (em ). [S.l.]: Cambridge University Press, 1951. 59 pp. vol. 1: The First Crusade and the Foundation of the Kingdom of Jerusalem. ISBN 978-0-521-61148-0.
  8. History of the Anatolian Seljuks, Katharine Branning (em inglês)
  9. John H. Pryor. Logistics of Warfare in the Age of the Crusades (em ). [S.l.]: Ashgate Publishing Ltd, 2006. ISBN 978-0-7546-5197-0.
  10. John France. The Crusades And The Expansion Of Catholic Christendom, 1000-1714 (em ). [S.l.]: Routledge, 2005. 71 pp. ISBN 978-0-415-37128-5.
  11. a b Kenneth Setton. A History of the Crusades (em ). [S.l.]: Madison, 1951. 1969-1989 pp. vol. XI: The Crusade of 1101.
  12. a b c d Steven Runciman. A History of the Crusades (em ). [S.l.]: Cambridge University Press, 1951. vol. 2: The Kingdom of Jerusalem and the Frankish East, 1100-1187.
  13. Jean-Paul Roux. Histoire des Turcs: Deux mille ans du Pacifique à la Méditerranée (em ). [S.l.]: Fayard, 1984 (2000). vol. Les Seldjoukides. ISBN 2213606722.
  14. a b c Genealogia dos sultões seljúcidas de Rum, Foundation for Medieval Genealogy (em inglês)
  15. William Fordyce Mavor. Universal History, Ancient and Modern (em ). [S.l.: s.n.]. 331 pp.
  16. Peter Malcolm Holt, Ann K. S. Lambton, Bernard Lewis. The Cambridge History of Islam (em ). [S.l.]: Cambridge University Press, 1977. ISBN 9780521291354.

Bibliografia e ligações externas[editar | editar código-fonte]