Língua caingangue

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Kaingang (kanhgág)
Falado em: Brasil
Região: São Paulo, Santa Catarina, Paraná, Rio Grande do Sul
Total de falantes: 18 000[1]
Família: línguas macrojês
 línguas jês
  jê do sul
   Kaingang
Códigos de língua
ISO 639-1: --
ISO 639-2: sai
ISO 639-3: kgp
Mĩg (onça)
Goj (água). Lê-se "ngoi".
Kempo (pulga)
Sãsã (cascavel). Lê-se "xãxã".

A língua caingangue (pronunciada caingáng), também chamada [2] e kaigang[3] , é uma língua indígena falada nos estados de São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, no Brasil. Ela pertence à família linguística [4] . A nação caingangue tem cerca de 30 000 pessoas, das quais cerca de 62,5 por cento falam essa língua. A maior parte de sua população também fala português.

Cultura[editar | editar código-fonte]

A linguagem caingangue é classificada como um membro da família linguística , a maior família linguística do tronco linguístico macro-jê. O tradicional território caingangue é ocupado atualmente pelos estados de São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, no Brasil. Hoje, eles vivem em aproximadamente trinta aldeias, principalmente no Paraná e no Rio Grande do Sul.

Primeiros contatos[editar | editar código-fonte]

Os primeiros contatos oficiais, amistosos e reconhecidos com comunidades caingangues pela sociedade portuguesa aconteceram nos campos de Guarapuava, no centro do Paraná, a partir de 1812 (cf. D'Angelis 1984:8 - 10). Na sequência, estabeleceram-se contatos (por conta, obviamente, da invasão e da ocupação do território indígena) com os caingangues das regiões sul-riograndenses de Nonoai, em (1845), de Guarita, em (1848) e do nordeste do Rio Grande do Sul, em (1850), além das regiões paranaenses de Palmas, em (1839), do norte do Paraná, em (1859), do extremo oeste paranaense, em (1880) e assim sucessivamente. Os últimos grupos forçados às relações pacíficas com os brasileiros foram os caingangues paulistas, da região dos rios Feio e Aguapeí.

Desde os primeiros contatos, os caingangues foram alvo de ações catequéticas pela Igreja Católica. De fato, ao tempo do império, isso era parte da política indigenista oficial. A expedição militar que ocupou Guarapuava contava com o capelão Francisco das Chagas Lima (que antes missionara os puri-coroados, em São Paulo) e que, desde o primeiro momento, buscou catequizar os caingangues. No Rio Grande do Sul, poucos anos após o estabelecimento dos primeiros aldeamentos dos caingangues, jesuítas liderados pelo padre Bernardo Parés atuaram na catequese da gente de Nonoai, de Guarita e de Votouro. No norte do Paraná, a partir das iniciativas mais permanentes de ocupação brasileira no vale do Tibagi, o governo provincial determinou a fundação de um aldeamento em São Jerônimo da Serra, com a catequese entregue a capuchinhos italianos (o mais conhecido deles, frei Timóteo de Castellnuovo). E foi um capuchinho italiano, frei Mansueto Barcatta de Val Floriana, no início do século XX, o responsável pelo primeiros trabalhos de fôlego sobre a língua caingangue: uma gramática e um vasto dicionário (Floriana 1918 e 1920). Antes dele, apenas se contam com vocabulários (alguns, de certa extensão e interesse).

Nos anos 1940, surgiram trabalhos mais acurados, ainda que menos volumosos, na linha da linguística histórico-comparativa, assinados por Mansur Guérios (1942 e 1945). Na sequência dele, merecem registro os estudos de Wanda Hanke, tanto do xoclengue (Hanke 1947) como do caingangue norte-paranaense (Hanke 1950).

No final dos anos 1950, instalou-se, na divisa da área indígena de Rio das Cobras, no sudoeste do Paraná, a missão e centro de pesquisa linguística do Summer Institute. A língua caingangue passou a ser estudada, ali, por Ursula Wiesemann (e, ao que parece, posteriormente, por Gloria Kindell). Em 1959, por exemplo, um primeiro estudo foi tornado público, em reunião da Associação Brasileira de Antropologia: era intitulado "Notas sobre o protocaingangue: um estudo de quatro dialetos" (cf. Wiesemann 1959). Durante os anos 1960, Wiesemann preparou material de ensino da língua caingangue para missionários (Wiesemann 1967) e, finalmente, estabeleceu uma sugestão de ortografia oficial e iniciou a produção de cartilhas para alfabetização em caingangue. Estabeleceu-se, então, um convênio envolvendo a Fundação Nacional do Índio, o SIL International e a Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil e criou-se a primeira escola para formação de "monitores bilíngues" na área de Guarita, no Rio Grande do Sul. Iniciou-se, assim, um dos primeiros programas de educação escolar indígena bilíngue no Brasil, mas numa perspectiva claramente transicional, em que a língua indígena não recebeu valorização. Ao contrário, serviu apenas de ponte para o ensino em português. Em contato permanente com as comunidades caingangues do oeste de Santa Catarina, norte do Rio Grande do Sul e sudoeste do Paraná desde 1977, o pesquisador que assina este texto avalia que a introdução desse tipo de ensino bilíngue acelerou um processo de abandono da língua pelas gerações caingangues mais jovens (cf. D'Angelis 2002a).

Estudo da linguagem[editar | editar código-fonte]

Estudos da língua caingangue amparados por instituições universitárias brasileiras começaram a surgir apenas em meados dos anos 1980. Em 1987, Marita Cavalcante apresentou dissertação sobre fonologia e morfologia dos caingangues de São Paulo e, no ano seguinte, José Baltazar Teixeira descreveu a fonologia do dialeto caingangue de Nonoai (RS). No primeiro caso, tratou-se de uma abordagem gerativa padrão, com algumas soluções inspiradas em Anderson (1974 e 1976). No segundo caso, uma abordagem segmental estruturalista, bastante calcada em Wiesemann e Kindell (1972).

Em 1989, Silvia Braggio publicou um pequeno trabalho sobre o processo de alfabetização entre crianças caingangues de Guarapuava em revista de linguística aplicada (Braggio 1989). Em 1986, Braggio havia defendido tese nos Estados Unidos sobre o mesmo assunto (cf. Braggio 1986).

A partir de meados dos anos 1990, Silvia Nascimento passou a estudar aspectos da sintaxe do caingangue nos marcos de modelos recentes da teoria gerativa (cf. Nascimento 1995 e 1996).

A aparente profusão de estudos fica diluída quando observamos que a grande maioria deles mantém-se na área da fonologia e, mais ainda, quando observamos que algumas áreas da linguística jamais foram investigadas em relação ao caingangue.

Já nos anos 1990, D'Angelis passou a produzir trabalhos de análise da fonologia caingangue e, posteriormente, também sobre aspectos da sintaxe (cf. D'Angelis 1991, 1992a, 1992b, 1995a), culminando com um trabalho teórico explorando os limites das teorias fonológicas com base em dados de sua investigação daquela língua indígena (cf. D'Angelis 1995b, 1998). Suas investigações prosseguem em ambas as direções, dando atenção ainda a aspectos fonéticos da língua, em sua relação com a fonologia (cf. D'Angelis 1999a), à fonologia propriamente (cf. D'Angelis 1999b, 2000c, 2002c, 2003c), à sintaxe (D'Angelis 2002d, 2004b), às questões de educação e de linguística aplicada (D'Angelis 1999b e 1999c), aos aspectos sociolinguísticos (cf. D'Angelis 1996, publicado em 2002a; D'Angelis & Veiga 1995, publicado em 2000b; D'Angelis 2002e), a aspectos semânticos (D'Angelis 2002b, 2004a), historiográficos (D'Angelis 2002f), literários (D'Angelis 2002i) e ortográficos (D'Angelis 2003c, 2005).

As "ferramentas" linguísticas escritas, como dicionários e gramáticas, são raras. Dos dois trabalhos de algum fôlego, intitulados "Dicionários" (bilíngues), apenas o de Val Floriana (1920) merece essa designação, apesar de todas suas limitações. Esse, porém, é desconhecido da quase totalidade dos caingangues. O de Wiesemann (1971) é pouco mais que um vocabulário, ao qual se agregam informações sobre pronúncia (da ortografia caingangue) e sobre sintaxe, como um pequeno adendo gramatical.

Os materiais chamados "didáticos" produzidos em língua caingangue, seja pelo SIL International, seja por iniciativas mais recentes, com recursos do ministério da educação para "oficinas" e publicação, restringem-se a cartilhas e a coletâneas de textos. Estas últimas, embora cumpram uma função importante (a de suscitar material de leitura na língua – embora não possamos ainda falar em "literatura caingangue" stricto sensu), não cobrem a lacuna da orientação de uma reflexão epilinguística e propriamente linguística no ensino escolar do caingangue, da mesma forma que não cobrem a lacuna igualmente enorme do não emprego da língua caingangue como língua de instrução nas disciplinas de história, geografia, matemática etc.

Gramática[5] [editar | editar código-fonte]

Alfabeto[editar | editar código-fonte]

A língua caingangue, como todas as demais línguas indígenas brasileiras, era, originalmente, exclusivamente oral, não possuindo representação escrita. Foi somente na década de 1960 que uma pesquisadora do Summer Institute of Linguistics criou uma representação escrita para a língua. O alfabeto por ela criado possui as seguintes letras:

Vogais: A Á Ã E É Ẽ I Ĩ O Ó U Ũ Y Ỹ

Consoantes: F G H J K M N NH P R S T V ’

Sintaxe[editar | editar código-fonte]

Ao contrário do português, que possui preposições, o caingangue possui posposições, que, como o nome indica, vêm após o elemento a que se referem. Por exemplo: goj ki significa "na água" (goj significa "água", ki significa "em").

Os verbos caingangues tendem a ser invariáveis, ao contrário dos verbos portugueses, que variam conforme o sujeito. Exemplo: ti tóg rãgró krãn huri (ele plantou feijão), Ẽg tóg rãgró krãn huri (nós plantamos feijão). O verbo rãgró não muda, mesmo com a mudança do sujeito de ti para Ẽg.

O caingangue possui elementos que sinalizam o sujeito de uma oração, como tóg e vỹ. Por exemplo: Mĩg vỹ venhvó tĩ (a onça corre). Vỹ vem após o sujeito da oração, mĩg (onça).

O objeto direto vem logo antes do verbo (ao contrário do português, que o posiciona, geralmente, após o verbo, como em "o menino atirou a pedra"). Exemplo: kofá tóg pỹn tãnh (o velho matou a cobra). Pỹn significa "cobra" e tãnh, "matar".

O objeto indireto é sinalizado pela posposição mỹ, como em Maria mỹ (para Maria) e pode ser colocado em lugares diferentes na oração.

Os tempos dos verbos são indicados por posposições como (gerúndio) e (pretérito imperfeito).

Influência na toponímia brasileira[editar | editar código-fonte]

Portal de entrada da cidade de Erechim

A língua caingangue legou à toponímia brasileira alguns nomes de localidades, como Goioerê ("campina d'água", através da junção de ngoi, água e , campo), Candói (nome de um líder caingangue), Goioxim ("rio pequeno", através da junção de ngoi, rio e , pequeno), Chagú, Dorim, Crim, Rio Cantu, Cherê, Arena Condá ("Condá" era o nome de um líder caingangue), Jembrê, Pandói, Virí (nome de um líder caingangue), Cambé, Chapecó, Xanxerê ("campina da cascavel", através da junção de xãxã, cascavel e , campo), Xaxim, Toldo Chimbangue ("Chimbangue" é o nome de um líder caingangue), Campo Erê ("campo da pulga ou do bicho-do-pé", através da junção de kempo, pulga ou bicho-do-pé e , campo), Goio-en, Erechim ("campo pequeno", através da junção de , campo e , pequeno), Erebango ("campo grande", através da junção de , campo e mbâgn, grande), Nicafin (nome de um líder caingangue) e Ventarra[5] .

Referências

  1. Ethnologue Report on Kaingáng.
  2. Museu do Índio recebe líder da Terra Indígena de Mangueirinha(PR). SERCE/MI. Disponível em http://www.museudoindio.org.br/template_01/default.asp?ID_S=29&ID_M=668. Acesso em 11 de agosto de 2012.
  3. MUNDURUKU, D. Contos indígenas brasileiros. Ilustrações de Rogério Borges. Segunda Edição. São Paulo. Global. 2005. p. 43
  4. Rodrigues, Aryon Dall'Igna. Línguas brasileiras. Para o conhecimento das línguas indígenas (em Portuguese). São Paulo: Ed. Loyola, 1986.
  5. a b D'ANGELIS, W. R. A língua kaingang. Disponível em http://www.portalkaingang.org/Lgua_Kaingang.pdf. Acesso em 6 de março de 2013.
  • Wilmar R. D’Angelis – lingüista, (UNICAMP – Universidade Estadual de Campinas, SP – Brasil)
  • Juracilda Veiga – antropóloga (Kamuri - Núcleo de Cultura, Educação, Etnodesenvolvimento e Ação Ambiental)

Ligações externas[editar | editar código-fonte]