Muro da Cisjordânia
O Muro da Cisjordânia é uma barreira física que está sendo construída pelo Estado de Israel, passando em torno e por dentro dos Territórios Palestinos Ocupados (Cisjordânia e Jerusalém Oriental). A barreira tem uma extensão aproximada de 760 km (duas vezes o comprimento da Linha do Armistício de 1949, conhecida como Green Line ou Linha Verde) entre a Cisjordânia e Israel. O muro é ladeado por uma faixa de 60 metros de largura (área de exclusão) em 90% da sua extensão, e a muralha de concreto chega a 8 metros de altura em 10% da sua extensão.[1] A maior parte da barreira foi construída na Cisjordânia, e uma parte menor segue a Linha do Armistício de 1949. 12% da área da Cisjordânia ficaram no lado israelense da barreira.[2]
Segundo o governo de Israel, a cerca tem o propósito de evitar a infiltração de terroristas nas áreas israelenses[3]. Segundo a Autoridade Nacional Palestina, a cerca visa criar um fato consumado e incorporar partes dos Territórios Palestinos ao território de Israel. O muro é chamado de Cerca de Separação ou Cerca de Segurança, pelo governo israelense. Já os palestinos geralmente se referem à barreira como Muro de Segregação Racial, e alguns oponentes como Muro do Apartheid.[4][5]
A existência e o traçado da construção, são contestados sob os aspectos políticos, humanitários e legais. O Tribunal Internacional de Justiça de Haia o declarou ilegal em 2004, pois a barreira corta terras palestinas e isola cerca de 450.000 pessoas.[6]Israel não acatou o parecer da Corte Internacional, e a construção da barreira prossegue.[7]
Segundo o Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA), a maioria das barreiras físicas ou burocráticas impostas atualmente à mobilidade e acessibilidade dos palestinos visa proteger os 500.000 colonos judeus que ocupam assentamentos na Cisjordânia - em contravenção à lei internacional -, bem como garantir uma reserva de terras para a expansão futura desses assentamentos e melhorar as ligações viárias entre esses assentamentos e Israel.[8]
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[editar] História
A proposta de uma barreira física que separasse os territórios disputados entre palestinos e israelenses surgiu em 2001, e foi apresentada na Knesset (o parlamento de Israel) pelo então primeiro-ministro Ehud Barak (à época filiado ao Partido Trabalhista), mas a construção só se iniciou durante o governo de Ariel Sharon, sucessor de Barak.[9]
A barreira é um misto de cercas físicas, barreiras eletrônicas vigiadas por câmeras, fossos antitanques, pontos de observação e patrulha e vedações com trincheiras rodeadas por uma área de exclusão média de 60 metros (ao longo de 90% da extensão do muro) e por paredes de concreto de até 8 metros de altura.[1]. Em certos lugares, como na região da cidade palestina de Qalqiliya, o muro chega à altura de oito metros. Em alguns pontos, a construção tem 45 metros de largura; em outros, pode chegar a 75 ou 100 metros. No entanto, apenas 5% do total da barreira projetada consiste de muros[10]. Ainda segundo o Governo de Israel, os muros foram instalados apenas em locais onde possíveis atiradores pudessem mirar civis em áreas sob controle israelense.
Com extensão prevista de 763 km,[1] a cerca engloba também partes da Cisjordânia e o setor oriental de Jerusalém, anexado por Israel desde a Guerra dos Seis Dias (1967), e onde os palestinos pretendem construir um dia a capital do seu Estado.[11]
Uma pequena parte da muralha (cerca de 20%) coincide com a Linha do Armistício de 1949; os 80% restantes situam-se em território palestino,[7][12][13] onde adentra até 22 km, em alguns lugares, para incluir colônias israelenses densamente povoadas, situadas em Jerusalém Oriental e na Cisjordânia, tais como Ariel, Gush Etzion, Emmanuel, Karnei Shomron, Guiv'at Ze'ev, Oranit e Ma'ale Adummim.[14][15][16]
Prevê-se que a construção vá custar US$ 1 bilhão. Até agora, estima-se que a obra defensiva já custado cerca de US$ 2 milhões ao Estado de Israel.
Sua maior extensão está na Cisjordânia, acompanhando, em parte, as fronteiras definidas no Armistício árabo-israelense de 1949 - a Linha verde, que marcava os limites entre Israel e os países vizinhos, inclusive os Territórios Palestinos. Agora, o muro marca os limites da Cisjordânia. Quando estiver terminado, aproximadamente 12% do território da Cisjordânia, inclusive Jerusalém Oriental, estará isolado pela barreira e conectado a Israel.[17][18]
A barreira começou a ser construída em 2002, durante o governo do primeiro ministro israelense, Ariel Sharon, para evitar a infiltração de terroristas suicidas palestinos em Israel. A iniciativa suscitou críticas da comunidade internacional, que considera o muro como um símbolo de segregação.
Segundo dados de abril de 2006, a extensão total da barreira, definida pelo governo israelense é de 721 km,[7] dos quais 58,04% estão construídos, 8,96% em construção e 33% por construir.[2]Em setembro de 2011, 62% do Muro já estavam completados, sendo que 80% da extensão barreira passam por dentro da Cisjordânia, o que limita drasticamente o acesso às áreas situadas atrás da barreira. [8]
O The Jerusalem Post relatou, em Julho de 2007, que a barreira pode ter a sua conclusão adiada para 2010, sete anos depois da data prevista[19].
[editar] Controvérsias
Os defensores da sua construção afirmam que a barreira é necessária para proteger Israel das acções terroristas dos palestinos[20], incluindo os atentados suicidas, enquanto que o Tribunal Internacional de Justiça da ONU declarou que o muro é uma tentativa ilegal de anexar território palestino, violando o direito internacional[21] a pretexto de razões de segurança.[22]
Segundo os ativistas de direitos humanos, incluindo organizações israelenses como a Machsom Watch (ou Checkpoint Watch), a construção viola as fronteiras demarcadas pela ONU, com a apropriação indevida de territórios por Israel, e os controles militares minam o desenvolvimento econômico do povo palestino, além de limitar a chegada de ajuda humanitária.[23]
"Através deste muro estão se expandindo os assentamentos israelenses. Há alguns dias, Israel implantou novas torres de controle bem no meio de uma aldeia palestina", diz Salah Tamir, prefeito da cidade de Belém, por onde passa a barreira. Tamir afirma que o muro está convertendo Belém em uma "grande prisão", ao impedir a livre circulação dos seus habitantes.
Um grupo de cidadãos de Israel e da Palestina criou a organização Artistas sem barreiras para erradicar as fronteiras de separação entre ambos os povos e protestar, através da arte, contra a construção do muro. O muro que separa Israel da Cisjordânia transformou-se, assim, em um vasto painel com dezenas de grafites feitos por ativistas e visitantes.[25]
[editar] Visita de Bento XVI à Cisjordânia
Durante sua viagem à Terra Santa, o Papa Bento XVI visitou a Cisjordânia em 13 de maio de 2009. Em discurso pronunciado em uma escola, o papa Bento XVI disse que o muro, que separa Belém de Jerusalém, pode ser derrubado, desde que Israel e os palestinos derrubem os muros em torno dos seus corações.
"Embora muros possam ser construídos facilmente, todos sabemos que eles não duram para sempre. Eles podem ser derrubados. Primeiro, porém, é necessário remover os muros que construímos em torno dos nossos corações. Meu desejo mais sincero a vocês, o povo palestino, é que isso aconteça em breve", disse o pontífice. Na escola, o muro criava um cenário dramático, com pichações de frases como "Os oprimidos viraram opressores" e "Pontes, não muros!".
O papa disse ainda que o muro faz uma sombra sobre grande parte de Belém, "separando vizinhos e dividindo famílias" e que a obra é "um lembrete cruel do impasse a que parecem ter chegado as relações entre israelenses e palestinos".
Os palestinos, apoiados pelo Tribunal Internacional de Justiça de Haia, afirmam que o muro é ilegal, pois rouba parte de seu território e divide suas terras.
| "É compreensível que vocês se sintam frustrados. Suas aspirações legítimas por lares permanentes, por um Estado palestino independente, permanecem irrealizadas", disse Bento XVI. "Dos dois lados do muro, é preciso grande coragem para que o medo e a desconfiança possam ser superados e para que seja possível resistir ao desejo de retaliar por perdas e feridas". |
Para ir de Jerusalém a Belém, um trajeto de poucos quilômetros, o comboio do papa precisou atravessar portões de aço no meio da sequência de muros de concreto, bloqueios (checkpoints) e torres de vigilância. Em Israel, o papa, que é alemão, foi acusado de insensibilidade com relação ao Holocausto dos judeus, durante a Segunda Guerra Mundial. Depois de um discurso emocionado no memorial do Holocausto em Yad Vashem, quando disse que o grito dos que foram mortos pelo regime sob o qual ele cresceu "ainda ecoam em nossos corações", dois altos funcionários de Yad Vashem criticaram o Pontífice por não usar as palavras "nazistas" ou "assassinato" em seu discurso.[26][27]
Referências
- ↑ a b c Israel High Court Ruling Docket H.C.J. 7957/04: International Legality of the Security Fence and Sections near Alfei Menashe, publicado pela Suprema Corte de Israel a 15 de Setembro de 2005. Acesso em 16 de Abril de 2007.
- ↑ a b Separation Barrier: Statistics. B'Tselem, Janeiro de 2007.
- ↑ Entenda por que Israel precisa de uma cerca, por Benjamin Netanyahu.
- ↑ The Plot of the Eastern Segregation Wall. 16 de julho de 2005.
- ↑ Alatout, Samer. (August 2006). "Towards a bio-territorial conception of power: Territory, population, and environmental narratives in Palestine and Israel". Political Geography 25 (6): 602–21. DOI:10.1016/j.polgeo.2006.03.008. ISSN 0962-6298.
- ↑ Assembleia Geral das Nações Unidas. Parecer da Corte Internacional de Justiça sobre as consequências legais da construção de um muro nos Territórios Palestinos Ocupados, incluindo Jerusalém Oriental Resolução adotada pela Assembleia Geral. 2 de agosto de 2004.
- ↑ a b c Informe da OCHA-OPT, 9 de julho de 2007, pág. 2 (em inglês)
- ↑ a b UNITED NATIONS. Office for the Coordination of Humanitarian Affairs occupied Palestinian territory. Movement and access in the West Bank, setembro de 2011.
- ↑ Desde as lixeiras à cerca de segurança
- ↑ Israel Security Fence
- ↑ Saiba mais sobre o "muro de proteção" da Cisjordânia. Folha Online, 10/02/2004
- ↑ Preliminary Analysis of the Humanitarian Implications of February 2005 Barrier Projections, informe da OCHA-OPT, 8 de março de 2005.
- ↑ Mapa da barreira israelense na Cisjordânia, B´Tselem, actualização em fevereiro de 2008 (em inglês).
- ↑ Informe do Secretário Geral, preparado em cumprimento ao disposto na resolução ES-10/13 da Assembléia Geral, A/ES-10/248, 24 de novembro de 2003, p. 7.
- ↑ Separation Barrier, informe do B'Tselem, Centro de informação israelense sobre direitos humanos nos Territórios Ocupados.
- ↑ Palestinians: Israel hands out land confiscation notices. CNN, 7 de novembro de 2003.
- ↑ Three Years Later: The Humanitarian Impact of the Barrier Since the International Court of Justice Opinion. Informe da OCHA-OPT, 9 de julho de 2007, pág. 3
- ↑ Israel High Court Ruling Docket H.C.J. 7957/04, 15 de setembro de 2005.
- ↑ Fence to be completed only by 2010, publicado por The Jerusalem Post, 10 de Julho de 2007. Acesso nessa data.
- ↑ Sen. Clinton: I support West Bank fence
- ↑ U.N. court rules West Bank barrier illegal
- ↑ Under the Guise of Security: Routing the Separation Barrier to Enable Israeli Settlement Expansion in the West Bank
- ↑ "La ocupación me avergüenza" (em espanhol)
- ↑ UOL, 19 de abril de 2006 Suprema Corte de Israel dá sinal verde para a continuação da construção do muro de separação ao redor do distrito de Jerusalém
- ↑ El muro de Cisjordania, una serpiente de 'graffiti'.
- ↑ Papa diz que muro de Belém "pode ser derrubado". Reuters/Uol, 13 de maio de 2009
- ↑ Pope visits Bethlehem in wake of Nazi row. The Guardian, 13 de maio de 2009.
[editar] Ver também
- Conflito israelo-palestino
- Cisjordânia
- Israel
- Linha Verde (Israel)
- Muro de Berlim
- Muro fronteiriço Estados Unidos-México
[editar] Ligações externas
- Por que a cerca de segurança na Cisjordânia é necessária?, em relação às alegações do Governo de Israel sobre a necessidade da construção da barreira.
- Rolling Stone n°20, maio de 2008. Do outro lado do muro, por Pedro Carrilho.
- Traçado da Barreira de Separação na Cisjordânia, em relação às fronteiras definidas pelo Armistício israelo-árabe de 1949 (Linha verde). Fev.2008. Escala 1:15.0000.
- Questão de linguagem. Vocabulário do jornalismo israelense, por Yonatan Mendel. Reproduzido da revista Piauí, nº 20, maio de 2008.