Muro da Cisjordânia

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O Muro da Cisjordânia em junho de 2011:
Trecho concluído (vermelho)
Trecho em construção (rosa)
Trecho projetado (branco)
Green Line (1949) (verde)
Comprimento total previsto:
760 km.
(Ver mapa atualizado até agosto de 2012)

O Muro da Cisjordânia é uma barreira física que está sendo construída pelo Estado de Israel, passando em torno e por dentro dos Territórios Palestinos Ocupados (Cisjordânia e Jerusalém Oriental). A barreira tem uma extensão aproximada de 760 km, ou seja, duas vezes o comprimento da Linha do Armistício de 1949 (Green Line) entre a Cisjordânia e Israel.

O muro é ladeado por uma faixa de 60 metros de largura (área de exclusão) em 90% da sua extensão, e a muralha de concreto chega a 8 metros de altura em 10% da sua extensão.[1] A maior parte da barreira foi construída na Cisjordânia, e uma parte menor segue a Linha do Armistício de 1949. 12% da área da Cisjordânia ficaram no lado israelense da barreira.[2]

O muro é chamado de Cerca de Separação ou Cerca de Segurança, pelo governo israelense, segundo o qual, o propósito da construção seria o de evitar a infiltração de terroristas em Israel[3] .

Já os palestinos geralmente se referem à barreira como Muro de Segregação Racial, e alguns oponentes como Muro do Apartheid.[4] [5] Para a Autoridade Nacional Palestina, o muro visa criar fatos consumados na incorporação de partes dos Territórios Palestinos ao Estado Israel.

A existência e o traçado da construção, são contestados sob os aspectos políticos, humanitários e legais. O Tribunal Internacional de Justiça de Haia o declarou ilegal em 2004, pois a barreira corta terras palestinas e isola cerca de 450.000 pessoas.[6] Israel não acatou o parecer da Corte Internacional, e a construção da barreira prossegue.[7]

Segundo o Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA), a maioria das barreiras físicas ou burocráticas impostas atualmente à mobilidade e acessibilidade dos palestinos visa proteger os 500.000 colonos judeus que ocupam assentamentos na Cisjordânia - em contravenção à lei internacional -, bem como garantir uma reserva de terras para a expansão futura desses assentamentos e melhorar as ligações viárias entre esses assentamentos e Israel.[8]

Duas outras barreiras do mesmo tipo, também construídas pelo governo israelense, são igualmente controversas: a que separa Israel e a Faixa de Gaza [9] [10] e a que separa a Faixa de Gaza e o Egito, atualmente sob controle egípcio.[11]






História[editar | editar código-fonte]

O Muro da Cisjordânia.

A proposta de uma barreira física que separasse os territórios disputados entre palestinos e israelenses surgiu em 2001, e foi apresentada na Knesset (o parlamento de Israel) pelo então primeiro-ministro Ehud Barak (à época filiado ao Partido Trabalhista), mas a construção só se iniciou durante o governo de Ariel Sharon, sucessor de Barak.[12]

A barreira é um misto de cercas físicas, barreiras eletrônicas vigiadas por câmeras, fossos antitanques, pontos de observação e patrulha e vedações com trincheiras rodeadas por uma área de exclusão média de 60 metros (ao longo de 90% da extensão do muro) e por paredes de concreto de até 8 metros de altura.[1] . Em certos lugares, como na região da cidade palestina de Qalqiliya, o muro chega à altura de oito metros. Em alguns pontos, a construção tem 45 metros de largura; em outros, pode chegar a 75 ou 100 metros. No entanto, apenas 5% do total da barreira projetada consiste de muros[13] . Ainda segundo o Governo de Israel, os muros foram instalados apenas em locais onde possíveis atiradores pudessem mirar civis em áreas sob controle israelense.

Com extensão prevista de 763 km,[1] a cerca engloba também partes da Cisjordânia e o setor oriental de Jerusalém, anexado por Israel desde a Guerra dos Seis Dias (1967), e onde os palestinos pretendem construir um dia a capital do seu Estado.[14]

Apenas uma pequena parte da muralha (cerca de 20%) coincide com a Linha Verde, entre a Cisjordânia e Israel; os 80% restantes situam-se dentro da Cisjordânia,[7] [15] [16] onde adentra até 22 km, em alguns lugares, para incluir colônias israelenses densamente povoadas, situadas em Jerusalém Oriental e na Cisjordânia, tais como Ariel, Gush Etzion, Emmanuel, Karnei Shomron, Guiv'at Ze'ev, Oranit e Ma'ale Adummim.[17] [18] [19]

Desta forma, o Muro corta ou isola aldeias palestinas, separa agricultores de suas plantações e torna extremamente difícil a sobrevivência das comunidades de base agrícola. Como resultado, a atividade econômica caiu drasticamente, e muitos palestinos simplesmente deixaram seus lares.


Impacto sobre a agricultura[editar | editar código-fonte]

Na Cisjordânia ocupada, agricultores palestinos, auxiliados por voluntários israelenses e estrangeiros, trabalham na colheita da azeitona.

Quase a metade do território palestino cultivado é ocupado por oliveiras, de cujos frutos vivem cerca de cem mil famílias. De fato, a oliveira, mais do que uma fonte de renda, é um símbolo da ligação com a terra e parte fundamental da cultura do povo palestino. No entanto, o período da colheita da azeitona há muito deixou de ser um tempo de alegria. Além do Muro, que impede os agricultores de terem acesso às suas terras, existe a destruição sistemática dos olivais pelo governo israelense, para a construção de assentamentos judeus, e os ataques perpetrados pelos colonos judeus. Entre janeiro e setembro de 2011, segundo dados das Nações Unidas, colonos judeus arrancaram, cortaram e queimaram 7.500 oliveiras. Em 91% dos casos denunciados, ninguém foi acusado.[20] A associação israelense de defesa dos direitos humanos Yesh Din registrou 35 atos de vandalismo contra oliveiras, videiras e árvores frutíferas, entre setembro de 2011 e julho de 2012. Segundo o Yesh Din, "o fracasso da polícia em fazer aplicar a lei e proteger as propriedades dos palestinos estimula o avanço do fenômeno, pois os criminosos que seguem impunes não hesitam em recomeçar". [21] Segundo o Ministério da Economia palestino, desde que começou a ocupação israelense, em 1967, Israel destruiu mais de 800 mil oliveiras, o que implica uma perda anual de US$ 55 milhões. O Exército israelense impede milhares de palestinos de entrar em suas plantações para regar, cuidar e podar suas árvores, alegando 'motivos de segurança'. Na Faixa de Gaza, os agricultores palestinos não podem retirar o produto do território nem cultivar em terras situadas a menos de 1,5km da fronteira com Israel. Depois que produzem o azeite, os agricultores ainda precisam passar por vários dos mais de 500 bloqueios (checkpoints) israelenses existentes na Cisjordânia, para fazê-lo chegar às lojas. A espera na fila pode durar muitas horas.

Bloqueio (checkpoint) de Qalandiya[22] , em Ramallah. Palestinos, em fila, aguardam permissão para passar de Ramallah a Jerusalém.


Todos os anos, a ONG Rabinos pelos Direitos Humanos organiza brigadas de voluntários israelenses e estrangeiros para ajudar os palestinos na colheita. "Viemos, além da ajuda, por outros dois motivos: como símbolo de nossa identificação com os agricultores e para que saibam que os apoiamos, que nem todos os israelenses são iguais", declarou o rabino ortodoxo Kobi Weiss. "No próximo ano, talvez não haja aqui nenhuma árvore", disse, apontando as oliveiras situadas entre o muro e o assentamento judeu, construído em território palestino ocupado por Israel.[20]

Anexação de terras[editar | editar código-fonte]

A construção da barreira, a leste da Linha Verde, anexa de facto a Israel vários assentamentos israelenses construídos em território palestino. Ao mesmo tempo, algumas aldeias e cidades palestinas ficam imprensadas entre a barreira, a leste, e a Linha Verde, a oeste. Os órgãos de segurança de Israel declararam "zona de costura" (ou zona de proteção) cerca de 75% do território situado entre o Muro e a Linha Verde - território que abriga cerca de 7.500 palestinos. Nessa "zona de costura", a entrada e a saída de palestinos estão submetidas a um rígido e complicado regime de autorização e controle. Com as restrições à liberdade de circulação, reduz-se, consequentemente, também o acesso ao trabalho, à educação, à saúde e a todos os serviços e oportunidades existentes apenas nas cidades e vilas vizinhas. Já os colonos israelenses, que vivem na mesma área, desfrutam de total liberdade de movimento entre suas casas e as cidades israelenses, situadas a oeste da Linha Verde.[23]

Prevê-se que a construção vá custar US$ 1 bilhão. Até agora, estima-se que a obra defensiva já tenha custado cerca de US$ 2 milhões ao Estado de Israel.

Sua maior extensão está na Cisjordânia, acompanhando, em parte, as fronteiras definidas no Armistício árabo-israelense de 1949 - a Linha verde, que marcava os limites entre Israel e os países vizinhos, inclusive os Territórios Palestinos. Agora, o muro marca os limites da Cisjordânia. Quando estiver terminado, aproximadamente 12% do território da Cisjordânia, inclusive Jerusalém Oriental, estará isolado pela barreira e conectado a Israel.[24] [25]

A barreira começou a ser construída em 2002, durante o governo do primeiro ministro israelense, Ariel Sharon, para evitar a infiltração de terroristas suicidas palestinos em Israel. A iniciativa suscitou críticas da comunidade internacional, que considera o muro como um símbolo de segregação.

Segundo dados de abril de 2006, a extensão total da barreira, definida pelo governo israelense é de 721 km,[7] dos quais 58,04% estão construídos, 8,96% em construção e 33% por construir.[2] Em setembro de 2011, 62% do Muro já estavam completados, sendo que 80% da extensão barreira passam por dentro da Cisjordânia, o que limita drasticamente o acesso às áreas situadas atrás da barreira. [8]

O The Jerusalem Post relatou, em Julho de 2007, que a barreira poderia ter a sua conclusão adiada para 2010, sete anos depois da data prevista[26] .

Controvérsias[editar | editar código-fonte]

Estêncil na muralha, em Belém, feito por Banksy.

Os defensores da sua construção afirmam que a barreira é necessária para proteger Israel das acções terroristas dos palestinos[27] , incluindo os atentados suicidas, enquanto que o Tribunal Internacional de Justiça da ONU declarou que o muro é uma tentativa ilegal de anexar território palestino, violando o direito internacional[28] a pretexto de razões de segurança.[29]

Segundo os ativistas de direitos humanos, incluindo organizações israelenses como a Machsom Watch (ou Checkpoint Watch), a construção viola as fronteiras demarcadas pela ONU, com a apropriação indevida de territórios por Israel, e os controles militares minam o desenvolvimento econômico do povo palestino, além de limitar a chegada de ajuda humanitária.[30]

"Através deste muro estão se expandindo os assentamentos israelenses. Israel implantou novas torres de controle bem no meio de uma aldeia palestina", diz Salah Tamir, prefeito da cidade de Belém, por onde passa a barreira. Tamir afirma que o muro está convertendo Belém em uma "grande prisão", ao impedir a livre circulação dos seus habitantes.

Um grupo de cidadãos de Israel e da Palestina criou a organização Artistas sem barreiras para erradicar as fronteiras de separação entre ambos os povos e protestar, através da arte, contra a construção do muro. O muro que separa Israel da Cisjordânia transformou-se, assim, em um vasto painel com dezenas de grafites feitos por ativistas e visitantes.[31]

Visita de Bento XVI à Cisjordânia[editar | editar código-fonte]

Durante sua viagem à Terra Santa, o Papa Bento XVI visitou a Cisjordânia, em 13 de maio de 2009. Em discurso pronunciado em uma escola, Bento XVI disse que o muro, que separa Belém de Jerusalém, pode ser derrubado, desde que Israel e os palestinos derrubem os muros em torno dos seus corações.

"Embora muros possam ser construídos facilmente, todos sabemos que eles não duram para sempre. Eles podem ser derrubados. Primeiro, porém, é necessário remover os muros que construímos em torno dos nossos corações. Meu desejo mais sincero a vocês, o povo palestino, é que isso aconteça em breve", disse o pontífice. Na escola, o muro criava um cenário dramático, com pichações de frases como "Os oprimidos viraram opressores" e "Pontes, não muros!". O papa disse ainda que o muro faz uma sombra sobre grande parte de Belém, separa vizinhos e divide famílias, e que a obra é "um lembrete cruel do impasse a que parecem ter chegado as relações entre israelenses e palestinos". E, dirigindo-se aos palestinos:

Cquote1.svg É compreensível que vocês se sintam frustrados. Suas aspirações legítimas por lares permanentes, por um Estado palestino independente, permanecem irrealizadas. Dos dois lados do muro, é preciso grande coragem para que o medo e a desconfiança possam ser superados e para que seja possível resistir ao desejo de retaliar por perdas e feridas. Cquote2.svg

Os palestinos, apoiados pelo Tribunal Internacional de Justiça de Haia, afirmam que o muro é ilegal, pois rouba parte de seu território e divide suas terras.

Para ir de Jerusalém a Belém, um trajeto de poucos quilômetros, o comboio do papa precisou atravessar portões de aço no meio da sequência de muros de concreto, bloqueios (checkpoints) e torres de vigilância. Em Israel, o papa, que é alemão, foi acusado de insensibilidade com relação ao Holocausto dos judeus, durante a Segunda Guerra Mundial. Depois de um discurso emocionado no memorial do Holocausto em Yad Vashem, quando disse que o grito dos que foram mortos pelo regime sob o qual ele cresceu "ainda ecoam em nossos corações", dois altos funcionários de Yad Vashem criticaram o Pontífice por não usar as palavras "nazistas" ou "assassinato" em seu discurso.[32] [33]


Galeria[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. a b c Israel High Court Ruling Docket H.C.J. 7957/04: International Legality of the Security Fence and Sections near Alfei Menashe, publicado pela Suprema Corte de Israel a 15 de Setembro de 2005. Acesso em 16 de Abril de 2007.
  2. a b Separation Barrier: Statistics. B'Tselem, Janeiro de 2007.
  3. Entenda por que Israel precisa de uma cerca, por Benjamin Netanyahu.
  4. The Plot of the Eastern Segregation Wall. 16 de julho de 2005.
  5. Alatout, Samer. (August 2006). "Towards a bio-territorial conception of power: Territory, population, and environmental narratives in Palestine and Israel". Political Geography 25 (6): 602–21. DOI:10.1016/j.polgeo.2006.03.008. ISSN 0962-6298.
  6. Assembleia Geral das Nações Unidas. Parecer da Corte Internacional de Justiça sobre as consequências legais da construção de um muro nos Territórios Palestinos Ocupados, incluindo Jerusalém Oriental Resolução adotada pela Assembleia Geral. 2 de agosto de 2004.
  7. a b c Informe da OCHA-OPT, 9 de julho de 2007, pág. 2 (em inglês)
  8. a b UNITED NATIONS. Office for the Coordination of Humanitarian Affairs occupied Palestinian territory. Movement and access in the West Bank, setembro de 2011.
  9. International Middle East Media Center. Palestinians Protest The Israeli Wall Surrounding The Gaza Strip. 11 de março de 2010.
  10. Israel Builds Triple Barrier Around Gaza Ahead of Pullout. 30 de outubro de 2009.
  11. Army building new Gaza barrier - Israel News, Ynetnews. Por Hanan Greenberg. Ynet, 14 de abril de 2005.
  12. Desde as lixeiras à cerca de segurança
  13. Israel Security Fence
  14. Saiba mais sobre o "muro de proteção" da Cisjordânia. Folha Online, 10/02/2004
  15. Preliminary Analysis of the Humanitarian Implications of February 2005 Barrier Projections, informe da OCHA-OPT, 8 de março de 2005.
  16. Mapa da barreira israelense na Cisjordânia, B´Tselem, actualização em fevereiro de 2008 (em inglês).
  17. Informe do Secretário Geral, preparado em cumprimento ao disposto na resolução ES-10/13 da Assembléia Geral, A/ES-10/248, 24 de novembro de 2003, p. 7.
  18. Separation Barrier, informe do B'Tselem, Centro de informação israelense sobre direitos humanos nos Territórios Ocupados.
  19. Palestinians: Israel hands out land confiscation notices. CNN, 7 de novembro de 2003.
  20. a b [http://veja.abril.com.br/noticia/internacional/israel-transforma-colheita-da-azeitona-palestina-em-sofrimento Israel transforma colheita da azeitona palestina em sofrimento.Por Ana Cárdenes. EFE/Veja, 14 de novembro de 2011
  21. ONU condena destruição de oliveiras palestinas por israelenses. Folha de S. Paulo, 14 de outubro de 2012.
  22. UOL, 19 de abril de 2006 Suprema Corte de Israel dá sinal verde para a continuação da construção do muro de separação ao redor do distrito de Jerusalém
  23. B'Tselem - The Israeli Information Center for Human Rights in the Occupied Territories. Arrested Development. Mapa animado.
  24. Three Years Later: The Humanitarian Impact of the Barrier Since the International Court of Justice Opinion. Informe da OCHA-OPT, 9 de julho de 2007, pág. 3
  25. Israel High Court Ruling Docket H.C.J. 7957/04, 15 de setembro de 2005.
  26. Fence to be completed only by 2010, publicado por The Jerusalem Post, 10 de Julho de 2007. Acesso nessa data.
  27. Sen. Clinton: I support West Bank fence
  28. U.N. court rules West Bank barrier illegal
  29. Under the Guise of Security: Routing the Separation Barrier to Enable Israeli Settlement Expansion in the West Bank
  30. "La ocupación me avergüenza" (em espanhol)
  31. El muro de Cisjordania, una serpiente de 'graffiti'.
  32. Papa diz que muro de Belém "pode ser derrubado". Reuters/Uol, 13 de maio de 2009
  33. Pope visits Bethlehem in wake of Nazi row. The Guardian, 13 de maio de 2009.

Ver também[editar | editar código-fonte]

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

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