Primeira Crise do Marrocos
A Primeira Crise de Marrocos ou Crise Marroquina de 1905-1906 aconteceu nos anos de 1904/1905 no Marrocos.
O Marrocos, país semibárbaro governado por um sultão, era cobiçado pela França que já conquistara a Argélia. Assinou acordo com a Inglaterra, dona de Gibraltar, e com a Espanha, que dominava algumas praças ao Norte de Marrocos. Como é do conhecimento geral esta colónia pertencia à França, no entanto também o Reino Unido tinha de alguma maneira uma ligação com a colónia, visto que os dois países tinham feito um acordo.
Localizado no norte da África, em frente da Península Ibérica, o Marrocos era no final do século XIX um reino muçulmano autocrático, pobre e relativamente isolado. O país tinha uma grande importância estratégica para as potências européias: situado ao sul do Estreito de Gibraltar (o norte do Estreito é dominado pela Espanha e pela Grã-Bretanha, que possui a pequena ilha de Gibraltar), o Marrocos controla, potencialmente, a passagem do Oceano Atlântico para o Mar Mediterrâneo. Em 1880, as potências européias assinaram a Convenção de Madri, reconhecendo a independência marroquina e o livre-comércio no país. Entretanto, ao iniciar o século XX, o sultão Abd al-Aziz tentou implantar reformas modernizadoras e ocidentalizantes que geraram muito descontentamento, particularmente entre os líderes muçulmanos. Revoltas tribais juntaram-se à resistência contra as reformas e, em 1902-1903, o Marrocos mergulhou na guerra civil. A França aproveitou-se da situação e buscou assumir o controle do país depois de fazer acordos com a Espanha, a Itália e, principalmente, com a Grã-Bretanha. Em 1898, os franceses e britânicos estiveram a beira da guerra por causa da disputa pelo Egito e o Sudão, ocupados pela Grã-Bretanha. Em 1904, diante das oportunidades oferecidas pela fragilidade do Marrocos, França e Grã-Bretanha negociaram o histórico acordo da Entente Anglo-Francesa ou Entente Cordiale, que encerrou a antiga rivalidade colonial entre as duas potências. A França reconheceu formalmente o domínio britânico sobre o Egito e o Sudão, e a Grã-Bretanha aceitou a preeminência francesa sobre o Marrocos.
O "Kaiser" alemão Wilhelm via nos acordos feitos pela França com o Reino Unido ou com a Espanha: discriminação, visto que a Alemanha estava a ser excluída de também poder entrar e sair de Marrocos quando quisesse.
Aproveitando-se do enfraquecimento temporário da Rússia em razão da Revolução Russa de 1905 e de sua derrota na Guerra Russo-Japonesa (1904-1905), a Alemanha tentou quebrar a Entente Anglo-Francesa desafiando a penetração da França no Marrocos. Em marco de 1905, Guilherme II visitou a cidade marroquina de Tanger e fez um pronunciamento defendendo a soberania do país. O Kaiser foi ao Marrocos dizer ao Sultão que este podia governar o seu país e foi igualmente dizer ao povo marroquino que este podia ser independente. Estes comentários em favor da independência de Marrocos criaram mal-estar nas relações diplomáticas entre a França e também entre o Reino Unido com a Alemanha (ver o acordo: Entente Cordiale). Por sua vez, o chanceler alemão, Bernhard von Bülow, exigiu uma conferência internacional para discutir a questão marroquina, acreditando que as potências apoiariam a independência do Marrocos, o que deixaria os franceses isolados e humilhados. No entanto, os planos alemães falharam. Na Conferência de Algeciras (1906), a independência marroquina foi confirmada, mas a França obteve o controle da polícia e do banco estatal do Marrocos, com apoio da Grã-Bretanha. A crise fortaleceu a aliança anglo-francesa e deixou a Alemanha, e não a França, humilhada e isolada.