Revolução Russa de 1905

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Ir para: navegação, pesquisa
História da Rússia
BloodySunday1905.jpg
Eslavos do Leste
Caganato Cazar
Rússia Kievana
Principado de Vladimir-Súzdal
Bulgária do Volga
Invasão Mongol
Canato da Horda Dourada
Principado de Moscovo
Canato de Cazã
Czarado da Rússia
Império Russo
Revolução de 1905
Revolução de 1917
Revolução de Fevereiro
Revolução de Outubro
Guerra Civil
União Soviética
Era Stalin
Era Khrushchov
Era da Estagnação
Corrida espacial
Perestroika e Glasnost
Federação da Rússia
edite esta caixa

A Revolução Russa de 1905 foi um movimento espontâneo, antigovernamental, que se espalhou por todo o Império Russo, aparentemente sem liderança, direção, controle ou objetivos muito precisos. Geralmente é considerada como o marco inicial das mudanças sociais que culminaram com a Revolução de 1917.

Antecedentes[editar | editar código-fonte]

Já antes de 1905, o Império Russo passava por uma grave crise política. Desde a emancipação dos servos (1861), o país vivia uma rápida transição do feudalismo para o capitalismo. Os servos haviam sido libertados e passaram a ter o direito de comprar as terras onde trabalhavam. Entretanto, o ressarcimento devido aos seus senhores, como compensação dos direitos recém-adquiridos, levaram-nos, na prática, a permanecer na mesma situação de miséria.

A construção da Ferrovia Transiberiana e as mudanças econômicas levadas adiante por Sergei Witte atraíram o capital estrangeiro e estimularam uma rápida industrialização nas regiões de Moscou, São Petersburgo, Baku, bem como na Ucrânia, suscitando a formação de um operariado urbano e o crescimento da classe média. Essas classes eram favoráveis a reformas democráticas no sistema político. Entretanto, a nobreza feudal e o próprio czar procuraram manter o absolutismo russo e sua autocracia intactos a qualquer custo.

Finalmente, o desempenho desastroso das forças armadas russas na guerra russo-japonesa (1904 - 1905) intensificou essas contradições e precipitou os acontecimentos, sendo essa derrota considerada como causa imediata da Revolução de 1905.[1]

Domingo Sangrento[editar | editar código-fonte]

Manifestantes marchando em direção ao Palácio de Inverno
O massacre do Domingo Sangrento em São Petersburgo.

No domingo do dia 22 de Janeiro de 1905 (9 de janeiro, segundo o calendário juliano[2] , vigente no país, na época), foi organizada uma manifestação pacífica e em marcha lenta de um milhão e meio de pessoas, liderada pelo padre ortodoxo e membro da Okhrana, Gregori Gapone, com destino ao Palácio de Inverno do czar Nicolau II, em São Petersburgo, com o objetivo de entregar uma petição, assinada por cerca de 135 mil trabalhadores, reivindicando direitos ao povo, como reforma agrária, tolerância religiosa, fim da censura , a presença de representantes do povo no governo e melhores condições de vida[3] . Segundo algumas fontes, durante a caminhada, eram cantadas músicas religiosas, e também a canção nacional “Deus Salve o Czar”.

A petição começava assim:
Senhor – Nós, operários residentes da cidade de São Petesburgo, de várias classes e condições sociais, nossas esposas, nossos filhos e nossos desamparados velhos pais, viemos a Vós, Senhor, para buscar justiça e proteção. Nós nos tornamos indigentes; estamos oprimidos e sobrecarregados de trabalho, além de nossas forças; não somos reconhecidos como seres humanos, mas tratados como escravos que devem suportar em silêncio seu amargo destino. Nós o temos suportado e estamos sendo empurrados mais e mais para as profundezas da miséria, injustiça e ignorância. Estamos sendo tão sufocados pela justiça e lei arbitrária que não mais podemos respirar. Senhor, não temos mais forças! Nossas resistências estão no fim. Chegamos ao terrível momento em que é preferível a morte a prosseguir neste intolerável sofrimento.[4]

Sergei Alexandrovitch, grão-duque, ordenou à guarda do czar que não permitisse que povo se aproximasse do palácio e que dispersasse a manifestação. Entretanto a massa não recuou. A guarda, então, disparou contra a multidão. A manifestação rapidamente se dispersou, foi um massacre e apesar de não se saber quantos haviam sido mortos, sabia-se, por certo, “que uma época da história russa havia concluído abruptamente e uma revolução começara”.[5]

A população indignou-se com a atitude do czar, que, até então, era bem visto por seus súditos. O episódio ficou conhecido como "Domingo Sangrento" e foi o estopim para o início do movimento revolucionário.

A Revolução[editar | editar código-fonte]

Os vários grupos sociais descontentes com a situação da Rússia se mobilizaram para protestar. Cada grupo tinha seus próprios objetivos, e mesmo dentro de uma mesma classe social, não havia direção geral. Os principais grupos descontentes eram os camponeses, por motivos econômicos; os trabalhadores urbanos, também por motivos econômicos e contra a desigualdade; os intelectuais e liberais, que reivindicavam direitos civis; as forças armadas (economia) e as nacionalidades minoritárias, que reivindicavam liberdade cultural e política.

O movimento no campo[editar | editar código-fonte]

Os distúrbios se estenderam por todo o ano, atingindo picos de agitação no início do verão e no outono, culminando em novembro. Arrendatários queriam aluguéis mais baixos; trabalhadores contratados exigiam melhores salários; pequenos proprietários queriam mais terras.

As atividades variaram desde ocupações de terra, algumas vezes seguidas de violência e incêndio, pilhagem das grandes propriedades e caça e desmatamento em áreas proibidas. Na região de Samara os camponeses criaram sua própria república, que foi sufocada por tropas do governo. O nível de animosidade de cada região era diretamente proporcional às condições dos camponeses. Os com-terra de Livland e Kurland atacaram e queimaram, enquanto outros, que viviam nos distúrbios de Grodno, Kovno e Minsk, com melhores condições de vida, foram menos violentos. No total, 3.228 distúrbios necessitaram de intervenção militar para restaurar a ordem, e os proprietários sofreram prejuízos de aproximadamente 29 milhões de rublos.

O movimento nas cidades[editar | editar código-fonte]

Os trabalhadores urbanos usaram a greve como instrumento de luta. Houve imensas greves em São Petersburgo, imediatamente após o Domingo Sangrento. Mais de 400.000 trabalhadores estavam parados ao final de janeiro.

A ação rapidamente se alastrou para outros centros industriais na Polônia, Finlândia e na costa báltica. Em Riga 80 militantes foram mortos em 13 de janeiro e alguns dias depois, em Varsóvia, 100 grevistas foram alvejados nas ruas. Em fevereiro havia greves no Cáucaso e, em abril, nos Urais e mesmo além. Em março todas as instituições acadêmicas foram obrigadas a fechar as portas pelo resto do ano, fazendo com que muitos estudantes radicais se juntassem aos trabalhadores grevistas. Uma greve dos ferroviários, no dia 8 de outubro, rapidamente se transformou em greve geral, em São Petersburgo e em Moscou. A 13 de Outubro, mais de 2 milhões de trabalhadores estavam em greve e praticamente não havia mais estradas de ferro em funcionamento.

O soviéticos de São Petersburgo[editar | editar código-fonte]

A ideia de se criar conselhos operários (os sovietes), como forma de coordenar as várias greves, nasceu durante as reuniões de trabalhadores, no apartamento de Voline (que mais tarde tornar- se-ia um conhecido anarquista), no início do movimento de 1905. Dessas reuniões nasceu o primeiro soviete de São Petersburgo, cujo primeiro presidente foi Khrustalyov-Nosar, também conhecido como Georgy Nosar ou Pyotr Khrustalyov (1877-1918). Entretanto, suas atividades foram rapidamente paralisadas pela repressão do governo.

Mas durante a greve geral, o soviete voltou a funcionar e passou a ser conhecido como o Soviete de Representantes Operários. A reunião constituinte aconteceu em 13 de Outubro no prédio do Instituto Tecnológico de São Petersburgo e contou com quarenta representantes. O soviete chegou a ter de 400 a 500 membros, eleitos por aproximadamente 200.000 trabalhadores e representando cinco sindicatos e 96 fábricas da região.

Inicialmente, seus membros eram trabalhadores politicamente conscientes, mas, rapidamente, o soviete foi dominado por grupos radicais. Os bolcheviques foram os mais influentes, enquanto os mencheviques permaneceram em minoria.

Entrementes Trotsky voltou do exílio e quando Nosar foi preso, Trotsky assumiu seu lugar e rapidamente alterou a agenda da organização. Sob sua liderança pragmática, os grevistas foram chamados a voltar ao trabalho, porque temia-se que a greve desse ao governo uma desculpa para aumentar a repressão.

O trabalho do soviete consistiu na organização das greves e no fornecimento de suprimentos para os trabalhadores. Na prática, a política do soviete permaneceu moderada, sendo que as ações mais extremas foram o apelo aos trabalhadores para que se recusassem a pagar impostos e que sacassem seu dinheiro dos bancos. Sua influência em São Petersburgo era com certeza maior do que a do governo imperial durante a revolução, mas sua eficácia foi limitada. A greve geral de outubro de 1905 ocorreu espontaneamente sem a intervenção do soviete, e sua tentativa de convocar uma nova greve geral em novembro falhou. Suas atividades voltaram a cessar em 3 de Dezembro, quando seus líderes, incluindo Trotsky, foram presos e acusados de preparar uma rebelião armada.

Mais tarde, por razões políticas, os bolcheviques falsificaram a história de sua criação, mudando a data de criação do primeiro soviete para o período da Greve de Outubro - quando Trotsky desempenhou um papel importante - e atribuiu a iniciativa de sua criação a um dos grupos social-democratas, sem atribuição de filiação de partidária.

A Revolta do Couraçado Potemkin[editar | editar código-fonte]

O couraçado Potemkin (em russo: Потемкин; pronuncia-se Patiomkin), cujo nome completo era Knyaz' Potyomkin Tavricheski (Князь Потемкин Таврический), foi um navio de guerra pré-encouraçado (Броненосец) da frota russa do Mar Negro. Foi construído nos estaleiros de Nikolayev, em 1898, passando a operar em 1904. O nome é uma homenagem a Grigori Aleksandrovich Potemkin, um militar do século XVIII.

No mesmo ano, a tripulação do navio amotinou-se em razão das péssimas condições em que viviam no navio, sobretudo da péssima alimentação (carne podre estava sendo servida aos marinheiros, nas refeições), e por ter sido informada que seria enviada para lutar contra os japoneses.

Os demais navios da esquadra não aderiram à revolta do “Potemkin”, o que fez com que os tripulantes buscassem refúgio na Romênia. De qualquer forma, tratava-se de um motim em uma grande unidade da marinha russa, evidenciando que as Forças Armadas já não podiam ser consideradas sustentáculos fiéis da Monarquia.

A revolta dos marinheiros foi retratada no filme Bronenosets Potyomkyn (em cirílico, Броненосец Потемкин), em português, Encouraçado Potemkin, de Sergei Eisenstein, lançado em 1925.

Resultados[editar | editar código-fonte]

Em outubro de 1905, para tentar remediar a situação, o Czar Nicolau II relutantemente lançou o famoso Manifesto de Outubro, que permitiu a criação de uma Duma (parlamento) nacional e a existência de partidos políticos, destacando-se o Partido Social-Democrata, que se havia dividido em 1903, dando origem ao Partido Menchevique, em minoria, mais moderado e que defendia uma reforma gradual com o apoio da burguesia, e o Partido Bolchevique, que detinha a maioria, era mais radical e defendia uma ação revolucionária.

Estas medidas surtiram escasso efeito, visto que os partidos eram sistematicamente vigiados e a Duma era controlada pela aristocracia e pelo czar, que podia dissolvê-la a qualquer momento.

Ilya Repin, 17 de Outubro de 1905

Os grupos moderados se satisfizeram, mas os socialistas rejeitaram as concessões como insuficientes e tentaram organizar novas greves. Ao fim de 1905, os reformadores estavam lutando entre si. Graças a essas divergências, o Czar teve sua posição relativamente fortalecida.

Vale observar que, após o término da guerra contra o Japão, as tropas russas, que desconheciam as atitudes do czar contra o povo, retornaram ao país e, a mando do soberano, reprimiram o movimento. Muitos líderes oposicionistas foram presos ou exilados, e os sovietes colocados na ilegalidade e fechados. As promessas feitas pelo manifesto de outubro foram deixadas de lado, com exceção da Duma, que continuou a funcionar. A revolução de 1905 havia fracassado. O czar se havia reabilitado. Entretanto, havia perdido o apoio popular de que dispunha até 1905. As massas russas viam o czar como um pai, um monarca benévolo que protegeria o povo quando viesse a saber da sua miséria - pois, acreditava-se, era mantido na ignorância pela nobreza corrupta e gananciosa que o cercava.

Após o Domingo Sangrento, esse pensamento desapareceu. Como poderia o czar ter ignorado o martírio de seu povo justo em frente à sua residência? No longo prazo, o "Domingo Sangrento" se somou a outros fatores que faziam crescer o descontentamento da população para com o regime vigente. O clímax desse processo seria atingido anos depois, durante a participação da Rússia na Primeira Guerra Mundial, e resultaria na Revolução Russa de 1917.

A Revolta de 1905: o ensaio para a revolução

Em 1904, a Rússia, que desejava expandir-se para o oriente, entrou em guerra contra o Japão devido à posse da Manchúria, mas foi derrotada[8]. A situação socioeconômica do país agravou-se[2] e o regime político do czar Nicolau II foi abalado por uma série de revoltas, em 1905, envolvendo operários, camponeses, marinheiros (como a revolta no navio couraçado Potemkin[9]) e soldados do exército. Greves e protestos contra o regime absolutista do czar explodiram em diversas regiões da Rússia. Em São Petersburgo, foi criado um soviete (conselho operário) para auxiliar na coordenação das várias greves e servir de palco de debate político.

Diante do crescente clima de revolta, o czar Nicolau II prometeu realizar, pelo Manifesto de Outubro, grandes reformas no país[8]: estabeleceria um governo constitucional, dando fim ao absolutismo, e convocaria eleições gerais para o parlamento (a Duma), que elaboraria uma constituição para a Rússia[8]. Os partidos de orientação liberal burguesa (como o Partido Constitucional Democrata ou Partido dos Cadetes) deram-se por satisfeitos com as promessas do czar, deixando os operários isolados.

Terminada a guerra contra o Japão, o governo russo mobilizou as suas tropas especiais (cossacos) para reprimir os principais focos de revolta dos trabalhadores. Diversos líderes revolucionários foram presos, desmantelando-se o Soviete de São Petersburgo. Assumindo o comando da situação, Nicolau II deixou de lado as promessas liberais que tinha feito no Manifesto de Outubro. Apenas a Duma continuou funcionando, mas com poderes limitados e sob intimidação policial das forças do governo.

A Revolução Russa de 1905, mais conhecida como "Domingo Sangrento", tinha sido derrotada por Nicolau II, mas serviu de lição para que os líderes revolucionários avaliassem seus erros e suas fraquezas e aprendessem a superá-los. Foi, segundo Lenin, um ensaio geral para a Revolução Russa de 1917.

Para Lenin, a Revolução de 1905 foi apenas um ensaio geral para a de 1917, para que não fosse derrotada por uma contrarrevolução.

Referências

  1. A revolução de 1905 surgiu diretamente da guerra russo-japonesa, assim como a revolução de 1917 foi a conseqüência direta do grande massacre imperialista.Leon Trotsky, A Revolução de 1905:http://www.marxists.org/portugues/trotsky/1907/rev_1905/prefacio.htm
  2. A Rússia continuou a usar o calendário juliano até à Revolução de 1917, que se chamou revolução de Outubro mas ocorreu em Novembro segundo o calendário gregoriano. Na parte Leste do país a mudança só foi feita em 1920.
  3. As camadas menos preparadas e mais atrasadas da classe operária, que acreditavam ingenuamente no tsar e desejavam com sinceridade entregar pacificamente «ao próprio tsar» as reivindicações do martirizado povo, todas elas receberam uma lição da força militar dirigida pelo tsar ou pelo tio do tsar, o grão-duque Vladímir. V. I. Lenin:O Começo da Revolução na Rússia http://www.marxists.org/portugues/lenin/1905/01/25.htm
  4. Apud BERMAN, Marshal. Tudo que é sólido desmancha no ar. A aventura da modernidade. 9 ed., São Paulo: Companhia das Letras, 1992, p. 236.
  5. Idem, ibidem, p. 237.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • CARR, E. H. The Bolshevik Revolution 1917-1923. v. 1, Pelikan Books, 1977.
  • LÊNIN, V. I. 1905 – Jornadas Revolucionárias. Editora História, 1980.
  • TROTSKY, L. A Revolução de 1905. Coleção Bases, Global Editora.
  • TROTSKY, L. Mi Vida. Editorial Pluma, 1980.

Ver também[editar | editar código-fonte]