Intelectual

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Desenvolvimento intelectual, estátua de MacNeil's

Um intelectual é uma pessoa que usa o seu "intelecto" para estudar, refletir ou especular acerca de ideias, de modo que este uso do seu intelecto possua uma relevância social e coletiva. A definição do intelectual é realizada, principalmente, por outros intelectuais e acadêmicos. Estes definem o termo segundo seus próprios posicionamentos intelectuais, fato este que complexifica a definição. Autores como Bobbio e Lévy concordam com um aspecto em comum: o intelectual é definido pelo meio social no qual vive ou no qual estabelece sua trajetória social.

Origem do termo[editar | editar código-fonte]

A palavra foi usada pela primeira vez em França, nos finais do século XIX, durante o caso Dreyfus para descrever aqueles que se batiam ao lado de Alfred Dreyfus (chamados de dreyfusards): Émile Zola, Octave Mirbeau, Anatole France. O termo "intelectual" como substantivo em francês é atribuído a Georges Clemenceau em 1889, ele próprio um proeminente defensor de Dreyfus.

Universidade e Intelectuais[editar | editar código-fonte]

Um dos principais espaços de atuação do intelectual é a Universidade.[1] A ciência seria parte da ideologia do intelectual, assim como a dedicação à prática científica e o desejo do exercício de um cargo no ensino superior enquanto modo de distinção social.[2] No caso brasileiro, bem como em alguns outros países, o intelectual procura as instituições superiores de ensino para apoio e para organização; partindo da sociedade, a esta retorna com propostas embasadas no conhecimento técnico-científico adquirido através do estudos. Esta prática é claramente perceptível, por exemplo:

Política e Intelectuais[editar | editar código-fonte]

Devido à ação reflexiva, o intelectual é portador de uma autoridade científica quando se expressa. Como apresentado acima em relação à Universidade, o intelectual estabelece relações com a sociedade através de seu status de intelectual.

Estas relações, inseridas num conjunto maior de relações de poder, colocam o intelectual em situação de comprometimento político: suas ideias não são desvinculadas da existência social e suas proposições seguem uma orientação determinada (como exemplo, a prática do censo e da criação de mapas[6] ). O intelectual pode então, através de seu intelecto, contribuir para determinado regime político ou determinada concepção de mundo.[7]

O Fim dos Intelectuais[editar | editar código-fonte]

Observando como o saber amplo e generalista, as ideologias e as humanidades vêm sofrendo uma dêbacle frente às especialidades, ao saber técnico e prático, à indefinição política e às ciências aplicadas, muitos estudiosos defendem estar ocorrendo o chamado "fim dos intelectuais". Os argumentos usados para defender esse fim lembram muito os argumentos de Francis Fukuyama em seu livro "O fim da História".

Há também resposta a essa dêbacle vinda de pessoas que não se alinham com Fukuyama. Essas lamuriam a existência do que chamam de fast-thinker (expressão de Pierre Bourdieu[8] ) ou intelectual-jornalista[9] , ou seja, profissionais originados da universidade, com destaque para psicólogos, politicólogos e juristas, que se importam mais com o discurso que com a relevância do saber transmitido, revelando uma espécie de comprometimento com o senso comum ou até mesmo com opiniões predeterminadas pelos donos do meio de comunicação, visando agradar e fugindo ao engajamento que os definiria como autênticos intelectuais[10] .

Outra forma de apresentar o "fim dos intelectuais" é a forma como os técnicos ou cientistas aplicados tomam destaque em nossa sociedade. Causando temor ou inveja dos profissionais das artes ou humanidades que os acusam de falta de engajamento [11] .

Porém pode-se constatar que o geek em alguns casos pode ser considerado um tipo extremamente engajado de intelectual, como recentemente fatos envolvendo a Fundação Wikileaks demonstraram. Ademais o ciberespaço vem, para o susto dos profetas do fim, se apresentando como ambiente de efervescência cultural e plataforma para atuações concretas na sociedade.[12] [13] Por exemplo, na web, o ambiente intelectual do Brasil vem sendo duramente criticado. Polemistas como filósofo conservador Olavo de Carvalho, afirmam que, com o passar das décadas, o nível da elite intelectual do país decaiu enormemente.[14]

Ver também[editar | editar código-fonte]

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Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • BOBBIO, Norberto. Os intelectuais e o poder: dúvidas e opções dos homens de cultura na sociedade contemporânea. São Paulo: Editora UNESP, 1997.
  • BOHEMY, Helena. Os intelectuais da educação. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.
  • DEMO, Pedro. Intelectuais e vivaldinos: da crítica acrítica. São Paulo: ALMED, 1982.
  • GIROTTI, Carlos A. Estado Nuclear no Brasil. São Paulo: Brasiliense, 1984.
  • KARIMI, Kian-Harald. Der verfolgte Schriftsteller als Diskurs der portugiesischen Literatur und Literaturgeschichte am Beispiel von B. Santarenos ‚O Judeu’ und C. A. Azevedos ‚Os herdeiros do medo’. In: Lange, Wolf-Dieter (ed.): 25 Jahre nachrevolutionäre Literatur in Portugal. Nationale Mythen und kulturelle Identitätssuche. Baden-Baden: Nomos, 2001, pp. 77–138.
  • LÉVY, Bernard-Henri. Elogio dos intelectuais. Rio de Janeiro: Rocco, 1988.

Notas e referências

  1. Pedro Demo, A universidade como defesa organizada do intelectual. In.: DEMO, Pedro. Intelectuais e vivaldinos: da crítica acrítica. São Paulo: ALMED, 1982. p.62-68.
  2. idem, ibidem. p.62-63.
  3. ZOTTI, Solange A. Zotti. O Ensino Secundário nas Reformas Francisco Campos e Gustavo Capanema: um olhar sobre a organização do currículo escolar.
  4. Em contraponto, temos a figura de Paulo Freire como intelectual de atuação expressiva fora da Universidade.
  5. Especificamente na energia nuclear, percebe-se a relação entre a política e a Universidade através da tecnocracia.
  6. Consultar o livro Comunidades Imaginadas de Benedict Anderson
  7. Norberto Bobbio afirma:
    "Embora com nomes diversos, os intelectuais sempre existiram, pois sempre existiu, em todas as sociedades, ao lado do poder econômico e do poder político, o poder ideológico, que se exerce não sobre os corpos como o poder político, jamais separado do poder militar, não sobre a posse de bens materiais, dos quais se necessita para viver e sobreviver, como o poder econômico, mas sobre as mentes pela produção e transmissão de ideias, de símbolos, de visões de mundo, de ensinamentos práticos, mediante o uso da palavra (o poder ideológico é extremamente dependente da natureza do homem como animal falante) Toda sociedade tem os seus detentores do poder ideológico, cuja função muda de sociedade para sociedade, de época para época, cambiantes sendo também as relações, ora de contraposição ora de aliança, que eles mantêm com os demais poderes." In: BOBBIO, Norberto. Os intelectuais e o poder: dúvidas e opções dos homens de cultura na sociedade contemporânea. São Paulo: Editora UNESP, 1997. p.11
  8. BOURDIEU, Pierre. L'urgence et le fast-thinking
  9. PEREIRA, Fábio Henrique. De Gramsci a Ianni: condições histórico-estruturais para a emergência do “ intelectual jornalista”.
  10. "Intelectual é quem vincula um trabalho de análise a uma preocupação cidadã. De contrário, é um especialista" Pierre Rosanvallon, historiador e professor do Collège de France.
  11. MATTELARD, Armand. Arqueologia da idade global – a construção de uma crençahttp://www.cebela.org.br/imagens/Materia/2001-2%20203-225%20armand%20mattelart.pdf
  12. BOSCARIOL, Angélica. Redes sociais tornam jovens mais engajados em política
  13. Marrocos: Jovens mobilizados pelo Facebook, 20 Fevereiro 2011
  14. olavodecarvalho.org - Miséria intelectual sem fim. Acessado em 26 de Junho de 2013.

Ligações externas[editar | editar código-fonte]