Weltanschauung

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Weltanschauung (termo alemão que se pronuncia "vèltanxauung"),[1] cosmovisão ou mundividência[2] é a orientação cognitiva fundamental de um indivíduo ou de toda uma sociedade. Essa orientação abrange sua filosofia natural, seus valores fundamentais, existenciais, normativos, seus postulados ou temas, suas emoções e sua ética.[3] Outro sentido do termo é o de uma imagem do mundo imposta ao povo de uma nação ou comunidade, isto é, uma ideologia. O termo é um calco linguístico da palavra de origem alemã que significa literalmente "visão de mundo" ou "cosmovisão". Essa palavra alemã é adotada regularmente em diversas línguas para expressar esses significados. Suas origens etimológicas remetem ao século XVIII. Ela é um conceito fundamental na filosofia e epistemologia alemã e se refere à uma "percepção de mundo ampla". Adicionalmente, ela se refere ao quadro de ideias e crenças pelas quais um indivíduo interpreta o mundo e interage com ele.

Origem das visões do mundo[editar | editar código-fonte]

Visão de mundo e linguística[editar | editar código-fonte]

Uma visão de mundo descreve um consistente (em um grau variável) e integral sentido de existência e fornece um quadro para gerar, sustentar e aplicar conhecimento.

A hipótese da relatividade linguística de Benjamin Lee Whorf descreve como a estrutura semântica-sintática de uma linguagem torna-se uma estrutura subjacente para a Weltanschauung de um povo através da organização da percepção causal do mundo e da categorização linguística das entidades. Como uma categorização linguística emerge de uma representação da visão de mundo e da causalidade, ela também modifica a percepção social e portanto conduz a uma contínua interação entre linguagem e percepção.[4]

A teoria, ou pelo menos hipótese, foi bem recebida no final dos anos 1940, mas diminuiu de importância após uma década. Nos anos 1990, novas pesquisas deram maior suporte para a teoria da relatividade linguística, nos trabalhos de Stephen Levinson e sua equipe do Instituto Max Planck de psicolinguística em Nijmegen, Países Baixos.[5] A teoria também recebeu atenção pelo trabalho de Lera Boroditsky na Universidade de Stanford.

Weltanschauung e filosofia cognitiva[editar | editar código-fonte]

Um dos mais importantes conceitos em filosofia cognitiva e nas ciências cognitivas é o conceito alemão de Weltanschauung. Essa expressão se refere à "visão de mundo geral" ou "percepção de mundo geral" de um povo, família ou pessoa. A Weltanschauung de um povo se origina de uma experiência de mundo única, que ele vem experimentando por vários séculos ou milênios. A linguagem de um povo reflete a Weltanschauung daquele povo na forma de suas estruturas sintáticas e suas conotações e denotações intraduzíveis.

Paul G. Hiebert sugere que visão de mundo são as pressuposições cognitivas, afetivas e valorativas fundamentais que um grupo de pessoas faz sobre as coisas da natureza, e que elas usam para organizar as suas vidas.[6]

Se fosse possível desenhar um mapa do mundo com base na Weltanschauung, ele provavelmente ultrapassaria as fronteiras políticas – a Weltanschauung é o produto dos fronteiras políticas e das experiências comuns de um povo de uma região geográfica,[7] condições ambientais-climáticas, recursos econômicos disponíveis, sistemas sócio-culturais, e da família linguística.[7] (O trabalho de um geneticista populacional Luigi Luca Cavalli-Sforza tem por objetivo demonstrar a co-evolução gene-linguística do povo).

Se a hipótese de Sapir-Whorf está correta, o mapa da visão de mundo do mundo seria similar ao mapa linguístico do mundo. Entretanto, ele também iria quase coincidir com o mapa do mundo desenhado com base na música existente entre os povos.[8]

Visão de mundo e épicos folclóricos[editar | editar código-fonte]

Assim como a linguagem natural se torna uma manifestação da percepção de mundo, a literatura de um povo com uma Weltanschauung comum surge como representações holísticas da percepção de mundo geral de um povo. Portanto, a extensão e a comunidade entre os épicos folclóricos mundiais torna-se uma manifestação da comunidade e extensão de uma visão de mundo.

Poemas épicos são compartilhados frequentemente por pessoas além de fronteiras políticas e através de gerações. Exemplos de tais épicos incluem a Canção dos Nibelungos dos povos germânicos-escandinavos, a Ilíada dos antigos gregos e povos helenizados, o Cilappatikaram (ou Silappadhikaram) dos povos sul indianos, a Epopeia de Gilgamesh da civilização mesopotâmica-suméria e da maioria da população do Crescente Fértil,o livro As Mil e uma Noites do Mundo árabe e o épico de Sundiata dos povos mandê.

Construção de visões de mundo[editar | editar código-fonte]

A construção de visões de mundo integrativas começa de fragmentos de visões de mundo oferecidas a nós por diferentes disciplinas científicas e os vários sistemas de conhecimento.[9] Ela sofre contribuições de diferentes perspectivas que existem nas diferentes culturas mundiais. Esse é o principal tópico de pesquisa do Center Leo Apostel for Interdisciplinary Studies.

Deveria ser observado que, enquanto que Apostel e seus seguidores claramente sustentam que "indivíduos" podem "construir" visões de mundo, outros autores consideram que visões de mundo operam em um nível e/ou de uma maneira inconsciente. Por exemplo: se a visão de mundo de alguém é fixada pela linguagem de alguém, de acordo com a hipótese de Sapir-Whorf, alguém teria de aprender ou inventar uma nova linguagem para construir uma nova visão de mundo.

Conforme Apostel, uma visão de mundo é uma ontologia, ou um modelo descritivo do mundo. Ela deve compreender estes seis elementos:

  1. Uma explicação do mundo
  2. Uma futurologia, respondendo a questão "para onde estamos indo?"
  3. Valores, respostas para questões éticas: "O que devemos fazer?"
  4. Uma praxeologia, ou metodologia, ou teoria da ação: "Como devemos atingir os nossos objetivos?"
  5. Uma epistemologia, ou teoria do conhecimento. "O que é verdadeiro e falso?"
  6. Uma Etiologia. Uma visão de mundo construída deve conter uma concepção de seus próprios blocos de construção (building blocks), suas origens e construção.

Impacto das visões de mundo[editar | editar código-fonte]

Aspectos estruturais[editar | editar código-fonte]

O termo denota um conjunto abrangente de opiniões, vistas como uma unidade orgânica, sobre o mundo como o meio e exercício da existência humana. A Weltanschauung serve como um quadro para gerar várias dimensões da percepção e experiência humana como conhecimento, política, economia, religião, cultura, ciência e ética. Por exemplo, visão de mundo da causalidade como "unidirecional", "cíclica" ou "espiral" gera um quadro do mundo que reflete esses sistemas de causalidade.

Uma visão unilateral da causalidade está presente em algumas visões de mundo monoteísticas com um começo e um fim e uma única grande força com um único fim (por exemplo, cristianismo e islamismo), enquanto que uma visão de mundo cíclica da causalidade está presente na tradição religiosa que é cíclica e sazonal e na qual os eventos e experiências repetem-se em padrões sistemáticos (por exemplo, zoroastrismo, mitraísmo e hinduísmo).

Essas visões de mundo não apenas subjazem as tradições religiosas mas também outros aspectos da pensamento como a história, teorias políticas e econômicas, e sistemas como a democracia, autoritarismo, anarquismo, capitalismo, socialismo e comunismo.

A visão de mundo de uma causalidade linear e não linear gera várias disciplinas e abordagens relacionadas/conflitantes no pensamento científico. A Weltanschauung de uma contiguidade temporal de ato e evento leva a diversificações divergentes como determinismo versus livre-arbítrio.

Algumas formas de naturalismo filosófico e materialismo rejeitam a validade de entidades inacessíveis à ciência natural. Elas veem o método científico como o modelo mais confiável para construção e compreensão do mundo.

Outros aspectos[editar | editar código-fonte]

Na linguagem do Terceiro Reich, Weltanschauungen passou a designar a compreensão intuitiva de complexos problemas geopolíticos pelos nazistas, o que os permitiu agir em nome de um ideal maior[10] e em conformidade com a sua visão de mundo. Esses atos observados de fora daquela Weltanschauung específica são agora comumente entendidos como atos de agressão, tais como abertamente começar invasões, distorcer fatos, e violar direitos humanos.

Visões de mundo na religião[editar | editar código-fonte]

Vários autores sugerem que sistemas de crença religiosa ou filosófica devem ser vistos como visões de mundo em vez de um conjunto de hipóteses ou teorias particulares. Nishida Kitaro escreveu extensivamente sobre "a visão de mundo religiosa" ao explorar a significância filosófica das religiões orientais.[11] Conforme o livro do neo-calvinista David Naugle "Worldview: The History of a Concept", "a concepção do cristianismo como uma visão de mundo foi um dos mais significantes desenvolvimentos na história recente da igreja."[12]

O pensador cristão protestante James W. Sire define uma visão de mundo como "um compromisso, uma orientação fundamental do coração, que pode ser expressada como uma história ou em um conjunto de pressupostos (suposições que podem ser verdadeiras, parcialmente verdadeiras, ou completamente falsas) que nós sustentamos (conscientemente ou subconscientemente, consistentemente ou inconsistentemente) sobre a construção básica da realidade, e que providencia a fundação na qual nós vivemos e movemos e tem a nossa existência" [13] Ele sugere que "nós todos devemos pensar em termos de visões de mundo, isto é, com uma consciência que não apenas da nossa própria maneira de pensar mas também das outras pessoas, de maneira que nós possamos primeiramente compreender e então genuinamente nos comunicar com os outros em nossa sociedade pluralista.[14]

Para alguns autores católicos, está se reconhecendo em nossos dias que sem a introdução de "um princípio de fé" não se pode construir nenhum sistema metafísico e nenhuma Weltanschauunng.[carece de fontes?] Essa corrente, normalmente presentes nos livros cristãos, defende um principio apologético, ou seja, em defesa da palavra de Deus.

Usos na filosofia[editar | editar código-fonte]

Um bom exemplo do uso da expressão é encontrado no artigo Questões de Método do filósofo francês Jean-Paul Sartre, que serve de introdução a seu livro Crítica da Razão dialética:

Cquote1.svg (...) reduzido à sua mais simples expressão, o objeto filosófico permanecerá no 'espírito objetivo' sob forma de Ideia reguladora indicando uma tarefa infinita; assim, fala-se hoje, entre nós, da 'Ideia kantiana' ou, entre os alemães, da Weltanschauung de Fichte. Cquote2.svg

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. FERREIRA, A. B. H. Novo dicionário da língua portuguesa. 2ª edição. Rio de Janeiro. Nova Fronteira. 1986. p. 1 794.
  2. FERREIRA, A. B. H. Novo dicionário da língua portuguesa. 2ª edição. Rio de Janeiro. Nova Fronteira. 1986. p. 489.
  3. Gary B. Palmer, Toward A Theory of Cultural Lingustics (University of Texas Press, 1996), 114.
  4. Kay, P. and W. Kempton (1984). "What is the Sapir-Whorf Hypothesis?" American Anthropologist 86(1): 65-79.
  5. Max Planck Institute for Psycholinguistics
  6. Hiebert, Paul G. Transforming Worldviews: an anthropological understanding of how people change. Grand Rapids, Mich.: Baker Academic, 2008
  7. a b Carroll, John B. (ed.) [1956] (1997). Language, Thought, and Reality: Selected Writings of Benjamin Lee Whorf. Cambridge, Mass.: Technology Press of Massachusetts Institute of Technology. ISBN 0-262-73006-5.
  8. Whorf, Benjamin (John Carroll, Editor) (1956). Language, Thought, and Reality: Selected Writings of Benjamin Lee Whorf. MIT Press.
  9. Aerts, Diederick, Apostel, Leo, De Moor, Bart, Hellemans, Staf, Maex, Edel, Van Belle, Hubert, Van der Veken, Jan. 1994. "World views. From Fragmentation to Integration". VUB Press. Translation of (Apostel and Van der Veken 1991) with some additions. - The basic book of World Views, from the Center Leo Apostel. See also Vidal C. (2008) Wat is een wereldbeeld? (What is a worldview?), in Van Belle, H. & Van der Veken, J., Editors, Nieuwheid denken. De wetenschappen en het creatieve aspect van de werkelijkheid, p71-85. Acco, Leuven. http://cogprints.org/6094/
  10. Victor Klemperer, The Language of the Third Reich: A Philologist's Notebook, trans. Martin Brady, London: Continuum, 2002
  11. O último livro de Kitaro é Last Writings: Nothingness and the Religious Worldview.
  12. David K. Naugle Worldview: The History of a Concept ISBN 0802847617 Citação original: "Conceiving of Christianity as a worldview has been one of the most significant developments in the recent history of the church."
  13. Citação original: "a commitment, a fundamental orientation of the heart, that can be expressed as a story or in a set of presuppositions (assumptions which may be true, partially true, or entirely false) which we hold (consciously or subconsciously, consistently or inconsistently) about the basic construction of reality, and that provides the foundation on which we live and move and have our being."
  14. James W. Sire The Universe Next Door: A Basic Worldview Catalog p.15-16 (text readable at Amazon.com) Citação original: "we should all think in terms of worldviews, that is, with a consciousness not only of our own way of thought but also that of other people, so that we can first understand and then genuinely communicate with others in our pluralistic society."

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

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