Balduíno III de Jerusalém

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Balduíno III
Rei de Jerusalém
Seal of Baldwin III of Jerusalem.jpg
Selo de Balduíno III de Jerusalém
Governo
Reinado 25 de Dezembro de 1143 a
10 de Fevereiro de 1162
(com Melisende de 1143 a 1153)
Coroação 25 de Dezembro de 1143
Consorte Teodora Comnena
Antecessor Fulque e Melisende
Sucessor Amalrico I
Vida
Nascimento 1130
Morte 10 de Fevereiro de 1162
Beirute, Reino de Jerusalém
Sepultamento Igreja do Santo Sepulcro, Jerusalém
Pai Fulque de Jerusalém
Mãe Melisende de Jerusalém

Balduíno III de Jerusalém (1130 - 10 de Fevereiro de 1162) foi rei de Jerusalém de 1143 até à sua morte. Era o filho mais velho de Melisende e Fulque de Jerusalém, e neto de Balduíno II.

Subida ao trono[editar | editar código-fonte]

Balduíno fazia parte da segunda geração de descendentes dos cristãos da Primeira Cruzada. Aos 13 anos de idade o seu pai Fulque morreu e o reino passou para a sua mãe, filha e herdeira de Balduíno II de Jerusalém. Melisende, que reinara com Fulque como consorte, a partir de 25 de Dezembro de 1143 passou a partilhar o trono com o seu filho e herdeiro, Balduíno III. No entanto, ao mesmo tempo Melisende nomeou Manasses de Hierges para o cargo de condestável do Reino Latino de Jerusalém. Juntamente com este conselheiro, essencialmente excluiu Balduído do poder.

Com uma mulher e uma criança como soberanos legais de Jerusalém, a situação política tornou-se tensa: os estados cruzados a norte foram procurando afirmar a sua independência e não havia um rei para liderar um exército que lhes impusesse a suserania de Jerusalém, tal como Balduíno II e Fulque tinham feito.

No mundo islâmico, Zengi governava o norte da Síria a partir das cidades de Mossul e Alepo, e desejava adicionar a cidade-estado muçulmana de Damasco ao seu controlo. Segundo o cronista Guilherme de Tiro, Fulque não cuidara completamente da defesa dos estados cruzados a norte, onde Zengi mais ameaçava os cristãos do Levante. A 24 de Dezembro de 1144 o líder muçulmano tomou Edessa, apesar dos reforços enviados por Melisende de Jerusalém, e os cristãos da cidade foram massacrados. Como consequência, o mundo ocidental proclamou a Segunda Cruzada.

A cruzada demorou algum tempo a chegar a Jerusalém, e entretanto Zengi foi assassinado em 1146, sendo sucedido pelo seu filho Nur ad-Din, também interessado em controlar Damasco. Para combater esta ambição, Jerusalém e esta cidade muçulmana aliaram-se mais uma vez em protecção mútua. Mas em 1147 Nur ad-Din e Mu'in ad-Din Unur, o governador de Damasco, fizeram uma aliança contra o reino cristão, que também já tinha violado o tratado ao aliar-se com um dos vassalos rebeldes de Unur. Balduíno saiu com o seu exército e foi derrotado nas proximidades de Bosra. Posteriormente, a trégua com Damasco seria restaurada.

Segunda Cruzada[editar | editar código-fonte]

O reino de Jerusalém e os outros estados cruzados em 1135, pouco antes da subida ao trono de Balduíno III

Em 1148 a Segunda Cruzada chegou finalmente a Jerusalém, liderada por Luís VII de França, pela sua esposa Leonor da Aquitânia e por Conrado III da Germânia. Balduíno realizou um concílio em São João de Acre em 1148, mas os conflitos internos e falhas no planeamento das acções militares debilitavam as forças cruzadas.

Conrado e Luís aconselharam o jovem rei de Jerusalém a atacar Damasco, apesar do tratado de paz. Apesar de Melisende, Manasses de Hierges e Leonor da Aquitânia pretenderem conquistar Alepo, o que ajudaria a retomar Edessa, Balduíno concordou com o projecto dos soberanos franco e germânico, talvez pretendendo impressionar os poderosos da Europa recém-chegados ao seu reino.

O cerco que se seguiu foi um fracasso e terminou em derrota após apenas quatro dias. Pouco depois a cidade cairia, mas às mãos de Nur ad-Din, e a perda deste vizinho muçulmano tolerante foi uma catástrofe diplomática que nenhum posterior rei de Jerusalém conseguiria recuperar.

Em 1149 os cruzados voltaram à Europa, deixando para trás um reino de Jerusalém ainda mais fraco. Nur ad-Din aproveitou a derrota cristã para invadir o Principado de Antioquia e o príncipe Raimundo de Poitiers foi morto na subsequente batalha de Inab. Balduíno III deslocou-se a norte para assumir a regência do principado em nome da viúva de Raimundo, Constança de Antioquia, sua prima direita.

Depois de fracassada a tentativa de casar Constança com um aliado poderoso, Balduíno não conseguiu defender Turbessel, a última fortaleza do Condado de Edessa. Assim, com a concordância do rei, a esposa de Joscelino II de Edessa vendeu o que restava do condado ao imperador bizantino Manuel I Comneno em 1150. No ano seguinte estas terras seriam conquistadas por Nur ad-Din e pelo sultão de Rûm.

Em 1152 Balduíno e a sua mãe foram chamados a intervir no conflito entre Hodierna, irmã de Melisende, e o seu esposo, Raimundo II de Trípoli. O casal concordou em reconciliar-se, mas foi decidido que a condessa deveria voltar a Jerusalém com a irmã por um curto período de tempo. O conde acompanhou-os a cavalo durante um curto percurso e, ao voltar a Trípoli, foi morto pela Ordem dos Assassinos em frente aos portões da cidade, juntamente com dois dos seus cavaleiros.

Balduíno permaneceu no condado para assegurar a continuidade deste estado, e Hodierna assumiu a regência em nome do seu jovem filho, Raimundo III de Trípoli. Dos originais estados cruzados, Edessa tinha sido perdida, Antioquia e Trípoli não tinham uma liderança clara e firme. Só Jerusalém tinha um rei, mas até aí havia uma acirrada disputa de poder.

Conflito com Melisende[editar | editar código-fonte]

Iluminura com a representação de Melisende de Jerusalém

Em 1152, Balduíno já tinha atingido a maioridade há sete anos, e começou a afirmar-se na política do reino. Apesar de anteriormente não ter expresso o seu interesse na administração, agora exigia mais autoridade. A sua relação com a mãe foi deteriorando desde 1150, com o jovem rei a acusar o condestável Manasses de Hierges, homem de confiança de Melisende, de interferir na sua sucessão legal.

A crise chegou a um máximo no início de 1152, quando Balduíno exigiu que o patriarca Foucher o coroasse no Santo Sepulcro sem a presença da mãe. Este recusou e, em protesto, o rei organizou uma procissão nas ruas da cidade, usando uma coroa de louros, como que em auto-coroação.

Balduíno e Melisende acabaram por concordar em deixar a decisão para a Haute Cour de Jerusalém, um tipo de conselho real que compreendia a nobreza e o clero do reino. Os nobres decretaram que o jovem rei governaria no norte do reino: na Galileia e nas cidades de São João de Acre e Tiro; a rainha nas regiões mais ricas da Judeia e Samaria, para além da cidade de Jerusalém.

Nenhum dos monarcas ficou satisfeito com a decisão: Balduíno desejava governar todo o reino; com reservas, Melisende aceitou, apoiada por Manasses e pelo seu filho mais novo, Amalrico, conde de Jaffa, território sob a jurisdição da mãe. Esta decisão evitaria uma guerra civil mas dividiria os recursos do reino.

Poucas semanas após esta divisão, Balduíno invadiu o sul do reino. Manasses foi derrotado no castelo de Mirabel e exilado, e Nablus também cedeu em pouco tempo. Para evitar mais violência, Jerusalém abriu as suas portas ao rei. Melisende e Amalrico refugiaram-se na Torre de David. Com a mediação da Igreja, a cidade de Nablus e suas terras adjacentes foram concedidas de forma vitalícia a Melisende. Balduíno fez um juramento solene de não perturbar a sua paz e nomeou o seu apoiante Onofre II de Toron como novo condestável.

Em 1154 mãe e filho reconciliaram-se. Balduíno reconhecia a utilidade dos conselhos de Melisende que, apesar de ter abdicado, mantinha uma grande influência na corte e no governo. Esta passou também a servir como regente em nome do filho quando este saía em campanhas militares.

Califado Fatímida e Império Bizantino[editar | editar código-fonte]

Durante o conflito de Balduíno com Melisende, Nur ad-Din consolidara o seu controlo sobre Damasco depois da morte de Mu'in ad-Din. Com a Síria unida sob um governante, o Reino de Jerusalém agora só conseguiria expandir-se para sul, na direcção do Egipto, também enfraqucido por guerras civis depois de uma sucessão de vários jovens califas fatímidas.

Afresco com a representação do imperador bizantino Manuel I Comneno

A cerca de 1150 Balduíno refortificou Gaza para pressionar a cidade muçulmana de Ascalão, que seria conquistada em 1153 e adicionada aos domínios do seu irmão Amalrico, criando o Condado de Jafa e Ascalão. Deste modo garantia a segurança da fronteira com o Egipto, apesar de, em retaliação, o sul do reino cristão sofrer campanhas agressivas desta nação muçulmana. Em 1152 Balduíno também derrotou uma invasão dos ortoquidas.

Em 1156 o rei de Jerusalém teve de acordar um tratado com Nur ad-Din, mas no Inverno de 1157-1158 cercou Shaizar, na Síria. Esta expedição fracassaria devido a uma disputa entre o conde Teodorico da Flandres e Reinaldo de Châtillon, o novo consorte de Constança de Antioquia, pela posse da fortaleza. Mas Balduíno foi bem sucedido na conquista de Harim, um anterior território do Principado de Antioquia, e em 1158 venceu Nur ad-Din em batalha.

Esta pequena recuperação de poder forneceu-lhe o prestígio para negociar um casamento com o Império Bizantino. Em 1157 enviou Onofre de Toron para a corte de Manuel I Comneno, e foi acordado o seu matrimónio com Teodora Comnena, sobrinha do imperador. A aliança era mais favorável ao Império Bizantino do que a Jerusalém: Balduíno foi forçado a reconhecer a suserania do império sobre Antioquia e, se Teodora enviuvasse, receberia a cidade de São João de Acre. O casamento ocorreu em Setembro de 1158, Balduíno tinha 28 anos de idade e Teodora 13.

As relações entre os dois poderes cristãos melhoraram e, em 1159, Balduíno encontrou-se com Manuel em Antioquia, onde forjaram uma amizade. O bizantino adoptou as vestes e costumes ocidentais, participou de um torneio contra o rei de Jerusalém e, quando este foi derrubado do seu cavalo, Manuel cuidou pessoalmente dele.

Mas em 1159 Balduíno voltaria à regência de Antioquia, depois de Reinaldo de Châtillon ter sido aprisionado em batalha. Esta acção ofendeu o Manuel, que considerava o principado como território imperial. Em resposta reforçou a sua ligação com o estado cruzado do norte em 1160, casando-se com a princesa Maria de Antioquia e rejeitando Melisende de Trípoli.

Morte e legado[editar | editar código-fonte]

Pouco depois da morte da rainha Melisende de Jerusalém, em 1161, o seu primogénito também faleceria em Beirute, a 10 de Fevereiro de 1162. Houve rumores de ter sido envenenado em Antioquia por um médico ortodoxo sírio. Segundo Guilherme de Tiro, «Assim que o rei tomou as pílulas [receitadas pelo médico ortodoxo sírio], foi tomado por uma febre e disenteria que se desenvolveu em um consumo do qual não mais conseguiu obter alívio ou auxílio».

Balduíno III de Jerusalém [...] Ele era mais alto do que o homem comum, mas os seus membros eram tão bem proporcionados ao seu peso que nenhuma parte da fisionomia parecia fora de harmonia com o todo. As suas feições eram agradáveis e refinadas, a sua tez corada, uma prova de força inata... Os seus olhos tinham tamanho médio, bastante proeminentes e brilhantes. Tinha cabelos lisos aloirados e usava uma barba bastante nas faces e no queixo. Era um tanto encorpado, apesar de não poder ser chamado de carnudo, como o seu irmão, ou seco, como a sua mãe... Balduíno III de Jerusalém

 — Crónica de Guilherme de Tiro

Balduíno tentou voltar a Jerusalém. A caminho parou em Trípoli por alguns meses e depois continuou até Beirute, onde finalmente sucumbiu à doença. Teodora, com 16 anos de idade e sem filhos, retirou-se para a sua cidade de São João de Acre. A coroa de Jerusalém passava assim para o irmão do falecido rei, Amalrico I.

O cronista Guilherme de Tiro, que conheceu pessoalmente Balduíno, escreveu uma longa descrição do monarca. Segundo ele, Balduíno era educado, bem falante e excepcionalmente inteligente; ao contrário do seu pai, tinha uma excelente memória; a maior parte do seu tempo livre era gasto a ler história e era conhecedor do jus consuetudinarium do reino, posteriormente coligido por legisladores como João de Ibelin e Filipe de Novara como os assizes de Jerusalém.

Respeitava a propriedade das igrejas e não as sobrecarregava com impostos. Era amigável com as pessoas de todas as classes, e «voluntariamente oferecia uma oportunidade de conversar com ele a quem o desejasse ou a quem encontrasse casualmente. Se era solicitada uma audiência, ele não a recusava».

Enquanto jovem gostava de vários jogos, incluindo o dos dados, e mantinha ligações com mulheres casadas, mas como adulto «mudou para melhor» e manteve-se fiel a Teodora. Era popular e respeitado por todos os seus súbditos, e até tinha o respeito do seu inimigo Nur ad-Din, que teria dito sobre a morte de Balduíno: os francos perderam tal príncipe como o mundo agora já não tem.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • A History of Deeds Done Beyond the Sea, Guilherme de Tiro, tradução para o inglês de E.A. Babcock e A.C. Krey, Columbia University Press, 1943
  • A History of the Crusades, Volume II: The Kingdom of Jerusalem and the Frankish East, 1100-1187, Steven Runciman, Cambridge University Press, 1952
  • Women in the Crusader States: The Queens of Jerusalem, Bernard Hamilton, Medieval Women, ed. Derek Baker, Ecclesiastical History Society, 1978
  • L'Empire du Levant: Histoire de la Question d'Orient, René Grousset, 1949
  • L'épopée des croisades, René Grousset (ISBN 2-262-01864-2)
Precedido por
Fulque e Melisende
Armoiries de Jérusalem.svg
Rei de Jerusalém

1143-1162
(com Melisende em 1143-1153)
Sucedido por
Amalrico I
Precedido por
Raimundo de Poitiers e
Constança de Antioquia
(príncipes)
Armas do Principado de Antioquia
Regente de Antioquia
(em nome de Constança)

1149-1153
1159
Sucedido por
Reinaldo de Châtillon e
Constança de Antioquia
(príncipes)