Ibne Caldune

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ibne Caldune
Estátua de Ibn Khaldun em Tunes
Nascimento 27 de maio de 1332
Túnis
Morte 17 de março de 1406 (73 anos)
Cairo
Ocupação Polímata
Magnum opus Muqaddimah

Abu Zaide Abdal Ramane ibne Maomé ibne Caldune Alhadrami (em árabe: عبد الرحمن بن محمد بن خلدون الحضرمي; transl.: Abu Zayd 'Abd al-Rahman ibn Muhammad ibn Khaldun al-Hadrami; Túnis,[1] 27 de maio de 1332/AH 732 — Cairo, 17 de março de 1406/AH 808), melhor conhecido somente como ibne Caldune (Ibn Khaldun)[2] foi um polímata árabe[3][4]astrônomo, economista, historiador, jurista islâmico, advogado islâmico, erudito islâmico, teólogo islâmico, hafiz, matemático, estrategista militar, nutricionista, filósofo, cientista social e estadista.

É mais conhecido por seu Muqaddimah (conhecido como Prolegômenos no Ocidente), o primeiro volume de seu livro sobre a história universal, Kitab al-Ibar. Ele é considerado um precursor de várias disciplinas científicas sociais: demografia,[5] história cultural,[6] historiografia,[7][8] filosofia da história,[9] e sociologia.[5][8][9][10][11] Ele também é considerado um dos precursores da moderna economia,[8][12][13] ao lado do antigo erudito indiano Cautília.[14][15][16][17] Ibn Khaldun é considerado por muitos como o pai de várias destas disciplinas e das ciências sociais em geral,[18][19] por ter antecipado muitos elementos dessas disciplinas séculos antes de terem sido fundadas no Ocidente.

Biografia[editar | editar código-fonte]

Nasceu em Tunísia em 732 A.M. (1332 d.C.) numa família de classe alta que migrou desde Sevilha, no Alandalus. Os seus antepassados, árabes iemenitas, estabeleceram-se no Alandalus nos inícios do invasão muçulmana da Península Ibérica, durante o século VIII. Depois da queda de Sevilha, migraram à Tunísia. Na sua história, descreve a sua família, os Banu Caldune, como se segue, traçando a sua genealogia até Caldune, pelo lado do seu pai::

"[...] E nossos antepassados são de Hadramaute, dos Árabes do Iémem, via Uail ibne Hajar, dos melhores dos Árabes, bem-conhecidos e respeitados [...] Abdal Ramane ibne Maomé ibne Maomé ibne Maomé ibne Haçane ibne Maomé ibne Jabir ibne Maomé ibne Ibraim ibne Abdal Ramane ibne Caldune. Na minha genealogia até Caldune eu contei apenas estes 10, mas devem ter havido mais [...]" [20]

No entanto, alguns biógrafos (e.g., Mohammad Enan) questionam a sua pretensão, sugerindo que a sua família pode ter sido de Berberes que assumiam origem Árabe de modo a ganhar em estatuto social.[21] Ibne Caldune estudou nas várias etapas e ramos da aprendizagem Árabe com grande sucesso. Em 1352, ele obteve emprego com o sultão merínida Abu Inan Faris, em Fez. No início de 1356, a sua integridade foi posta em causa, pelo que foi colocado na prisão até a morte do sultão em 1358, altura em que o vizir Haçane ibne Omar o libertou e reintegrou-o no seu posto. Ibne Caldune continuou a prestar serviços ao sucessor de Abu Inan, Abu Salém Ibraim III, mas, por ter ofendido o primeiro-ministro, obteve a permissão para emigrar para Espanha.

Ibne Alamar, que estava em dívida por favores de que se beneficiara quando da sua estadia na corte de Abu Salem, recebeu ibne Caldune com grande cordialidade em Granada. Isto excitou o ciúme do vizir, e ele foi por isso enviado de volta a África em 1364, onde o sultão háfsida Abu Abdalá de Bougie, seu antigo companheiro na prisão, o acolheu cordialmente. Após a queda de Abu Abdalá, ibne Caldune mobilizou uma força considerável entre os Árabes do deserto e entrou ao serviço do sultão de Tremecém. Poucos anos mais tarde, foi feito prisioneiro por Abdalazize, que tinha derrotado o sultão de Tremecém e tomado o trono.

Ibne Caldune entrou então num estabelecimento religioso, e ocupou-se de tarefas escolásticas, até que em 1370 foi chamado a Tremecém pelo novo sultão. Após a morte de Abdalazize, ibne Caldune residiu em Fez, gozando do patrocínio e confiança do regente. Em 1375, foi viver com a tribo Aulade Arife, da Argélia central, na cidade de Calate ibne Salama. Tomou ali vantagem da sua solidão para escrever a Muqaddimah (ou "Prolegômenos" à sua história subsequente.) Em 1378, ele entrou ao serviço do sultão da sua cidade natal, Tunis, onde se dedicou quase exclusivamente aos estudos e escreveu a história dos Berberes.

Tendo recebido permissão para peregrinar até Meca, visitou o Cairo, onde foi apresentado ao Sultão mameluco Barcuque, que insistiu que ele ficasse ali; no ano de 1384 foi feito grande cádi da escola maliquita de fiqh (jurisprudência) ou lei religiosa de Cairo. Desempenhou este cargo com prudência e integridade, removendo muitos abusos da administração da justiça no Egito. Nesta altura, o navio em que sua mulher e família vinham ao seu encontro, com toda a sua propriedade, afundou, e todos os tripulantes desapareceram. Ele conseguiu encontrar consolo completando a sua história dos Árabes de Espanha. Nesta mesma altura foi retirado do seu trabalho de cádi, o que lhe deu mais tempo livre para a sua obra. Três anos mais tarde, fez peregrinação a Meca, e no seu regresso viveu em retiro em Faium até 1399, quando foi chamado outra vez para continuar as suas funções de cádi. Foi removido e reafirmado no cargo nada menos do que cinco vezes até sua morte. Está sepultado no Cairo.

Obra[editar | editar código-fonte]

  • A Muqaddimah é a obra na qual delineou uma teoria da História Cíclica. O historiador Britânico Arnold J. Toynbee chamou-a "sem dúvida a melhor obra do seu género que alguma vez foi criada por alguém em qualquer tempo ou lugar". Há uma tradução em língua portuguesa, diretamente do árabe, feita por José Khoury e Angelina Bierrenbach Khoury, para a Editora Safady (1958).[22] Encontra-se na biblioteca da USP. Há uma tradução completa para o inglês, por Franz Rosenthal (3 vols., Princeton, 1958).

Também escreveu narrativas históricas baseadas nas descrições do sultão timúrida Tamerlão. Ernest Gellner, que como antropólogo se ocupou do estudo de tribos do Magrebe, refere-se muitas vezes, nos seus livros, a ibne Caldune, em especial quando trata da organização social da civilização muçulmana. O conceito de assabiyah é fundamental em sua obra.

Referências

  1. Adem, Seifudein (2004). «Decolonizing Modernity Ibn-Khaldun and Modern Historiography» (PDF). International Seminar on Islamic Thought. pp. 570–587 [580–1]. Consultado em 19 de setembro de 2008 ."Alguns escritores contemporâneos alegam que Ibn Khaldun descende de antigas tribos árabes iemenitas, enquanto os escritos do próprio Ibn-Khaldun indicam que ele foi genealogicamente relacionado com os berberes do norte da África. (Enan 1975: 3-4)"
  2. Coelho 1989, p. 12, 197, 208.
  3. Liat Radcliffe, Newsweek (cf. The Polymath by Bensalem Himmich, The Complete Review).
  4. Marvin E. Gettleman and Stuart Schaar (2003), The Middle East and Islamic World Reader, p. 54, Grove Press, ISBN 0-8021-3936-1.
  5. a b H. Mowlana (2001). "Information in the Arab World", Cooperation South Journal 1.
  6. Mohamad Abdalla (Summer 2007). "Ibn Khaldun on the Fate of Islamic Science after the 11th Century", Islam & Science 5 (1), p. 61-70.
  7. Salahuddin Ahmed (1999). A Dictionary of Muslim Names. C. Hurst & Co. Publishers. ISBN 1-85065-356-9.
  8. a b c Enan, Muhammed Abdullah (2007). Ibn Khaldun: His Life and Works. [S.l.]: The Other Press. p. v. ISBN 9839541536 
  9. a b Dr. S. W. Akhtar (1997). "The Islamic Concept of Knowledge", Al-Tawhid: A Quarterly Journal of Islamic Thought & Culture 12 (3).
  10. Haque, Amber (2004). «Psychology from Islamic Perspective: Contributions of Early Muslim Scholars and Challenges to Contemporary Muslim Psychologists». Journal of Religion and Health. 43 (4): 357–377 [375]. doi:10.1007/s10943-004-4302-z 
  11. Alatas, S. H. (2006). «The Autonomous, the Universal and the Future of Sociology». Current Sociology. 54: 7–23 [15]. doi:10.1177/0011392106058831 
  12. I. M. Oweiss (1988), "Ibn Khaldun, the Father of Economics", Arab Civilization: Challenges and Responses, New York University Press, ISBN 0-88706-698-4.
  13. Jean David C. Boulakia (1971), "Ibn Khaldun: A Fourteenth-Century Economist", The Journal of Political Economy 79 (5): 1105-1118.
  14. L. K. Jha, K. N. Jha (1998). "Chanakya: the pioneer economist of the world", International Journal of Social Economics 25 (2-4), p. 267-282.
  15. Waldauer, C., Zahka, W.J. and Pal, S. 1996. Kautilya's Arthashastra: A neglected precursor to classical economics. Indian Economic Review, Vol. XXXI, No. 1, pp. 101-108.
  16. Tisdell, C. 2003. A Western perspective of Kautilya's Arthasastra: does it provide a basis for economic science? Economic Theory, Applications and Issues Working Paper No. 18. Brisbane: School of Economics, The University of Queensland.
  17. Sihag, B.S. 2007. Kautilya on institutions, governance, knowledge, ethics and prosperity. Humanomics 23 (1): 5-28.
  18. Smith, Jean Reeder; Smith, J.; Smith, Lacey Baldwin (1980). Essentials of World History. [S.l.]: Barron's Educational Series. p. 20. ISBN 0812006372 
  19. Akbar Ahmed (2002). "Ibn Khaldun’s Understanding of Civilizations and the Dilemmas of Islam and the West Today", Middle East Journal 56 (1), p. 25.
  20. Al-Waraq
  21. O texto afirma, embora sem citar fontes, que esta proveniência lhe vinha pela mãe e que o seu pai era um "Berber nativo"(sic)
  22. Ibn-Khaldun (1958). Os Prolegômenos ou Filosofia Social. São Paulo: Safady 

Referências[editar | editar código-fonte]

  • Coelho, António Borges (1989). Portugal na Espanha Arabe: História. Lisboa: Editorial Caminho. ISBN 9722104209 
  • Fuad Baali. 2005 The science of human social organization : Conflicting views on Ibn Khaldun's (1332-1406) Ilm al-umran. Mellen studies in sociology. Lewiston/NY: Edwin Mellen Press.
  • J. D. C. Boulakia, (1971). Ibn Khaldoun: A fourteenth-century economist, J. Politic. Econ., 79, pp. 105–18.
  • Walter Fischel. 1967 Ibn Khaldun in Egypt : His public functions and his historical research, 1382-1406; a study in Islamic historiography. Berkeley: University of California Press.
  • Ibn Khaldun. 1951 التعريف بإبن خلدون ورحلته غربا وشرقا Al-Taʕrīf bi Ibn-Khaldūn wa Riħlatuhu Gharbān wa Sharqān. Published by Muħammad ibn-Tāwīt at-Tanjī. Cairo (Autobiography in Arabic).
  • Ibn Khaldūn. 1958 The Muqaddimah : An introduction to history. Translated from the Arabic by Franz Rosenthal. 3 vols. New York: Princeton.
  • Ibn Khaldūn. 1967 The Muqaddimah : An introduction to history. Trans. Franz Rosenthal, ed. N.J. Dawood. (Abridged).
  • Mahmoud Rabi'. 1967 The political theory of Ibn Khaldun. Leiden: E.J. Brill.
  • Róbert Simon. 2002 Ibn Khaldūn : History as science and the patrimonial empire. Translated by Klára Pogátsa. Budapest: Akadémiai Kiadó. Original edition, 1999.

Ver também[editar | editar código-fonte]

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

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