Algazali

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Algazali
Nascimento 1058
Tus, Pérsia (Império Seljúcida)
Morte 19 de dezembro de 1111 (53 anos)
Tus, Pérsia (Império Seljúcida)
Ocupação filósofo, teólogo, cosmólogo, jurista
Influências
Influenciados
Escola/tradição sufismo, sunita (chafita), axarita
Principais interesses sufismo, teologia islâmica, sharia, filosofia islâmica, lógica, jurisprudência islâmica, cosmologia

Abul Amide Maomé ibne Maomé Algazali (em árabe: ابو حامد محمد ابن محمد الغزالی; transl.: Abū Ḥāmid Muḥammad ibn Muḥammad al-Ghazālī, Tus, 1058 — Tus, 1111), melhor conhecido somente como Algazali,[3] foi um teólogo islâmico, jurista, filósofo, cosmólogo, psicólogo e místico de origem persa,[4][5] e continua a ser um dos estudiosos mais célebres da história do pensamento islâmico sunita. É considerado um pioneiro da dúvida metódica e do ceticismo,[6] e em uma de suas principais obras, A Incoerência dos Filósofos, mudou o curso da filosofia islâmica clássica, afastando-a de uma metafísica islâmica influenciada pelas filosofias grega e helenística, rumando para um filosofia islâmica baseada em causa e efeito que foram determinados por Deus ou anjos intermediários, uma teoria hoje conhecida como ocasionalismo.

Algazali por vezes tem sido aclamado por historiadores seculares, tais como William Montgomery Watt como sendo o maior muçulmano depois de Maomé[7] (tradicionalmente entre os muçulmanos, o maior muçulmano depois do Profeta, de acordo com o autêntico hádice, é a geração que lhe era contemporânea). Além de seu trabalho que exitosamente mudou o curso da filosofia islâmica — o neoplatonismo pré-islâmico desenvolvido com base na filosofia helenística, por exemplo, foi de tal modo refutado por Algazali que nunca se recuperou — ele também trouxe o islão ortodoxo do seu tempo para um contato próximo com o sufismo.[8] Os teólogos ortodoxos ainda seguiram seu próprio caminho, e assim o fizeram os místicos, mas ambos desenvolveram um sentimento de apreço mútuo que garantiu que nenhuma condenação completa poderia ser feita por um em relação às práticas do outro.[8]

Biografia[editar | editar código-fonte]

Algazali contribuiu significativamente para o desenvolvimento de uma visão sistemática do Sufismo e sua integração e aceitação no Islã tradicional. Ele era um estudioso do Islã sunita, pertencendo à escola chafista de jurisprudência islâmica e à escola Axarita de teologia. Algazali recebeu muitos títulos como Sharaful A'emma (em árabe: شرف الأئمّة), Zainuddin (árabe: زين الدين), Hujjatul Islã, que significa "Prova do Islã" (árabe: حجّة الاسلام). É visto como o membro-chave da influente escola axarita da antiga filosofia muçulmana e o contestador mais importante dos Mutazilites. No entanto, escolheu uma posição ligeiramente diferente em comparação com os axaritas; suas crenças e pensamentos diferem, em alguns aspectos, da escola axarita.[9]

Vida[editar | editar código-fonte]

Algazali nasceu em 1058 em Tus, uma cidade na província de Coração, na Pérsia. Seu pai, um tradicional sufi, morreu quando ele e seu irmão, Amade Algazali, ainda eram jovens. Um dos amigos de seu pai educou-os nos anos seguintes. Em 1070, Algazali e seu irmão foram para Gorgan para se inscreverem em uma madraça (seminário islâmico). Lá, ele estudou fiqh (jurisprudência islâmica) ao lado de Amade ibne Maomé Radcani and Abu Alcacim Jurjani. Depois de estudar por aproximadamente 7 anos retornou a Tus.

Sua primeira viagem importante a Nixapur ocorreu por volta de 1080 quando ele tinha quase 23 anos. Tornou-se aluno do famoso estudioso muçulmano Abul Maali Juaini, conhecido como imame Alharamaim. Após a morte de Juaini em 1085, Algazali foi convidado para ir para a corte de Nizam Almuque, o poderoso vizir dos sultões seljúcidas. O vizir ficou tão impressionado com os conhecimentos de Algazali que, em 1091, nomeou-o como professor-chefe do Nizamia de Bagdá. Ele costumava palestrar para mais de 300 alunos e sua participação nos debates e discussões islâmicas fê-lo popular em todo o território islâmico.

Passou por uma crise espiritual em 1095, abandonou sua carreira e deixou Bagdá sob o pretexto de ir em peregrinação a Meca. Dispondo de seus bens para sua família, passou a adotar a vida de um sufi pobre. Depois de algum tempo em Damasco e Jerusalém, com uma visita ao Medina e Meca em 1096, estabeleceu-se em Tus para passar os próximos anos em reclusão. Terminou sua reclusão para um curto período de docência no Nizamia de Nixapur em 1106. Mais tarde, voltou a Tus onde permaneceu até sua morte em 19 de dezembro de 1111. Teve um filho chamado Abdul Ramane Alam.

Principais obras[editar | editar código-fonte]

A edição persa de 1308 da Alquimia da Felicidade

Algazali escreveu mais de 70 livros sobre as ciências, antiga filosofia islâmica, psicologia islâmica, calam e sufismo. Seu livro do século XI intitulado A Incoerência dos Filósofos marca uma virada importante na epistemologia islâmica, quando Algazali efetivamente descobriu o ceticismo filosófico que não seria comumente visto no Ocidente até René Descartes, George Berkeley e David Hume. O encontro com ceticismo levou Algazali a abraçar uma forma de ocasionalismo teológico e fanatismo religioso, ou a crença de que todos os eventos causais e as interações não são o produto de conjunções materiais, mas sim a vontade imediata e presente de Deus.

A Incoerência dos Filósofos[editar | editar código-fonte]

A Incoerência dos Filósofos marcou um ponto de virada na filosofia islâmica, em sua veemente rejeição de Aristóteles e Platão. O livro tinha como alvo o falsafa, um grupo vagamente definido de filósofos islâmicos dos séculos VIII ao XI (os mais notáveis dentre eles eram Avicena e Al-Farabi) que se baseava intelectualmente nos gregos antigos. Algazali amargamente denunciou Aristóteles, Sócrates e outros escritores gregos como não-crentes e rotulou aqueles que empregavam os seus métodos e ideias como corruptores da fé islâmica.

A Incoerência dos Filósofos é famoso por propor e defender a teoria axarita do ocasionalismo. Algazali famosamente alegou que quando o fogo e o algodão são colocados em contato, o algodão é queimado diretamente por Deus e não pelo fogo, uma alegação que ele defendeu usando a lógica. Argumentou que, porque Deus é geralmente visto como racional, ao invés de arbitrário, o seu comportamento em geral causando eventos na mesma sequência (isto é, o que nos parece ser a causa eficiente) pode ser entendido como trabalhando naturalmente de forma mais intensa que esse princípio da razão que eles descrevem como as leis da natureza. Propriamente falando, no entanto, estas não são leis da natureza, mas as leis pelas quais Deus escolhe para reger o seu comportamento (sua autonomia, em sentido estrito) - em outras palavras, a sua vontade racional.

Influência[editar | editar código-fonte]

Algazali teve uma influência importante em ambos os filósofos muçulmanos e cristãos medievais. Margaret Smith escreve em seu livro hagiografico Al-Ghazali: The Mystic: "Não pode haver dúvida de que as obras de Algazali seria uma das primeiras a atrair a atenção desses estudiosos europeus". Então, ela enfatiza: "O maior desses escritores cristãos que foi influenciado por Algazali foi São Tomás de Aquino (1225-1274), que fez um estudo sobre escritores árabes e admitiu sua dívida para com eles. Ele estudou na Universidade de Nápoles, onde a influência da literatura e cultura árabe era predominante na época." Além disso, o interesse de Tomás de Aquino relativos por estudos islâmicos pode ser atribuída à infiltração de 'averroísmo latino' no século XIII, especialmente na Universidade de Paris.[10]

A influência de Algazali foi comparado à obra de São Tomás de Aquino na teologia cristã, mas os dois diferiram muito em métodos e crenças. Considerando que Algazali rejeitou os filósofos não-islâmicos como Aristóteles e e vendo-se este apto a descartar os ensinamentos deles com base na sua "incredulidade", de fato, Aquino abraçou-os e incorporou o pensamento grego antigo e latino em seus escritos filosóficos.

Neil deGrasse Tyson, numa de suas conferências, imputa o declínio brutal das ciências islâmicas à influência da posição de Algazali.

Algazali também desempenhou um papel muito importante na integração Sufismo com a charia. Ele combinou os conceitos do Sufismo muito bem com as leis da sharia. Foi o primeiro a apresentar uma descrição formal do Sufismo em suas obras. Suas obras também reforçaram o status de sunita contra outras escolas islãs.

Visão da Mulher[editar | editar código-fonte]

Algazali era profundamente misógeno. Num dos seus livros, Conselho para os Reis (Nasīhatul Mulūk) afirma que a raça das mulheres apresenta dez espécies, e o caracter de cada uma delas corresponde e está relacionado com a qualidade distinta de um dos animais. Assim divide-as por semelhança com o porco, o macaco, o cão, a serpente, a mula, o escorpião, o rato , o pombo, a raposa e a ovelha. Conclui que " a mulher que tem os atributos da ovelha é abençoada como a ovelha, na qual tudo é útil. (...). Ela é útil para o marido e sua família e os vizinhos, compassiva com os seus próprios parentes, afetuosa com os membros do agregado familiar e em relação a seus filhos, e obediente a Alá Todo-Poderoso. "

Na mesma obra enumera às características distintivas (dezoito) com as quais Alá puniu as mulheres quando Eva lhe desobedeceu ,comendo o fruto proibido: a menstruação, o parto, a separação da mãe e do pai para casar com um estranho, a gravidez, não possuir controle sobre si mesma, ter uma menor parte da herança, a possibilidade de ser divorciada mas não de se divorciar, ser legal para o homem ter quatro esposas e a mulher apenas um marido, ficar reclusa em casa, cobrir a cabeça, o facto do testemunho de duas mulheres ser equivalente ao de um homem só, o não poder sair de casa a não ser acompanhada de parente próximo, o fato de os homens participarem nas orações de sexta e funerais, enquanto as mulheres não, disqualificação para governar e julgar; o fato de que o mérito tem mil componentes, mas apenas um é atribuível às mulheres, o fato de que se as mulheres são devassas, elas serão dadas apenas metade dos tormentos no Dia da Ressurreição; o fato de que, se os seus maridos morrerem elas devem observar um período de espera de quatro meses e dez dias (antes de se casar novamente); e o fato de que, se seu marido se divorciar elas devem observar um período de espera de três meses ou três menstruações (antes de se casar novamente). [11]

Conclui que os homens inteligentes serão misericordiosos com suas esposas e não as tratarão injustamente; porque as mulheres são prisioneiras nas mãos dos homens. O homem deverá ter paciência para as mulheres; porque elas são pouco inteligentes. E cita o Profeta Maomé: "Elas são deficientes em seus intelectos e sua religião."[12]


Referências

  1. The Influence of Islamic Thought on Maimonides Stanford Encyclopedia of Philosophy, June 30, 2005
  2. Muslim Philosophy, Islamic Contributions to Science & Math, netmuslims.com
  3. Coelho 1972, p. 121.
  4. «Ghazali». www.bartleby.com , The Columbia Encyclopedia, Sixth Edition 2006
  5. [1] Böwering, Gerhard – verbete ḠAZĀLĪ na Encyclopaedia Iranica
  6. Najm, Sami M. (julho–outubro 1966), «The Place and Function of Doubt in the Philosophies of Descartes and Al-Ghazali», Philosophy East and West, 16 (3–4): 133–41 
  7. The Faith and Practice of Al-Ghazali. William Montgomery Watt. Publicado em 1953 por George Allen e Unwin Ltd, Londres. Pg 14.
  8. a b Ibid. Pg 15
  9. R.M. Frank, Al-Ghazali and the Ash'arite School, Duke University Press, London 1994
  10. Smith, Margaret. Londres, 1944. pg. 220.
  11. Algazali, Abul (1964). Counsel for Kings(Trad.inglesa de F.R.C.Bagley). [S.l.]: Oxford University Press. pp. 164–166 
  12. Algazali, Abul (1964). Counsel for Kings(Trad.inglesa de F.R.C.Bagley). [S.l.]: Oxford University Press. 171 páginas 
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Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Coelho, António Borges (1972). Portugal Na Espanha Árabe: Organização, Prólogo E Notas de António Borges Coelho, Volumes 3-4. Lisboa: Seara Nova 
  • Haque, Amber (2004), «Psychology from Islamic perspective: contributions of early Muslim scholars and challenges to contemporary Muslim psychologists», Journal of Religion & Health, 43 (4): 357–377, doi:10.1007/s10943-004-4302-z 
  • Savage-Smith, Emilie (1995), «Attitudes toward dissection in medieval Islam», Journal of the History of Medicine and Allied Sciences, 50 (1): 67–110, PMID 7876530, doi:10.1093/jhmas/50.1.67