Operação Carlota

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Operação Carlota
Guerra civil angolana
Cuba, Angola, and South Africa, 1975-1990.png
Localização de Cuba (vermelho), Angola, Angola, Angola. (verde), e África do Sul. (azul), incluindo África do Sudoeste.
Data 1975 – 1991
Local Angola
Desfecho Retirada cubana e sul-africana em 1991
Beligerantes

Forças
Cuba Tropas cubanas:
  • 36,000 (1976)[12]
  • 35,000–37,000 (1982)[13]
  • 60,000 (1988)[13]

Total de tropas cubanas:
337,033[14]–380,000[15]

  • 1,000 tanques
  • 600 veículos
  • 1,600 peças de artilharia[16]

Tropas do MPLA:

 União Soviética Tropas soviéticas:

  • 11,000 ao todo
    (1975 a 1991)[18]
Militantes do UNITA:
  • 65,000 (1990, n.º mais alto)[19]

Militantes do FNLA:

  • 22,000 (1975)[20]
  • 4,000–7,000 (1976)[21]

União Sul-Africana Tropas sul africanas:

  • 7,000 (1975–76)[22]
  • 6,000 (1987–88)[22]
Baixas
Desconhecido
Cuba 2,016–5,000 mortos[23]
10,000–15,000 mortos, feridos ou desaparecidos[24][25]
56,000 desertores[26][27]
União Soviética 54 mortos[28]
Desconhecido
Desconhecido
África do Sul 2,365[29]–2,500 mortos[30] (incluindo as mortes na Guerra na Fronteira)
Desconhecido

A intervenção cubana em Angola (com o nome de código, Operação Carlota) teve início a 5 de novembro de 1975, quando Cuba enviou tropas de combate em apoio ao Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), de alinhamento comunista, contra a União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA) e a Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA), pró-ocidente. A intervenção teve lugar após a eclosão da Guerra Civil Angolana, que ocorreu depois da concessão da independência à antiga colónia portuguesa após a Guerra da Independência de Angola. A guerra civil tornou-se rapidamente uma guerra por procuração entre o Bloco de Leste, liderado pela União Soviética, e o Bloco ocidental, liderado pelos Estados Unidos. A África do Sul e os Estados Unidos apoiaram a UNITA e a FNLA, enquanto as nações comunistas apoiaram o MPLA.[31][32] 4.000 tropas cubanas ajudaram a fazer recuar um avanço de três frentes pelas SADF e tropas zairenses, apoiadas por mercenários estrangeiros.[33]  Mais tarde, 18.000 tropas cubanas derrotaram a FNLA, no norte, e a UNITA, no sul.[33] Separatistas da Frente para a Libertação do Enclave de Cabinda (FLEC) combateram os cubanos, mas foram derrotados. Em 1976, os militares cubanos em Angola atingiram 36.000 soldados. Após a retirada do Zaire e da África do Sul (março de 1976), as forças cubanas permaneceram em Angola para apoiar o governo do MPLA contra a UNITA na continuação da guerra civil.[34] A África do Sul passou a década seguinte a lançar bombardeamentos e ataques à mão armada a partir das suas bases na África do Sudoeste para o sul de Angola, enquanto a UNITA se envolvia em emboscadas, atropelamentos e assédio a unidades cubanas.[35]

Em 1988, as tropas cubanas (aumentadas para cerca de 55.000) intervieram novamente para evitar uma catástrofe militar numa ofensiva das Forças Armadas Populares de Libertação de Angola (FAPLA) liderada pelos soviéticos contra a UNITA, que ainda era apoiada pela África do Sul, levando à Batalha de Cuito Cuanavale e à abertura de uma segunda frente.[36] Esta viragem dos acontecimentos é considerada como tendo sido o principal impulso para o sucesso das conversações de paz em curso conducentes aos Acordos de Nova Iorque, o acordo pelo qual as forças cubanas e sul-africanas se retiraram de Angola enquanto a África do Sudoeste ganhava a sua independência da África do Sul.[37][38][39][40][41] O envolvimento militar cubano em Angola terminou em 1991, enquanto a Guerra Civil Angolana continuou até 2002. As baixas cubanas em Angola totalizaram cerca de 10.000 mortos, feridos ou desaparecidos.[42][43]

História[editar | editar código-fonte]

Grosso modo, este nome apenas baptiza o nome da ponte aérea Cuba-Angola de emergência que o governo da Havana realizou para ajudar o Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA) a manter seu poder em Luanda (capital angolana) e lá proclamar a independência de Angola, a 11 de Novembro de 1975. No entanto, o que era para ser apenas uma intervenção de ajuda ao MPLA para expulsar do território angolano as tropas da União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA), apoiadas pela África do Sul e da Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA), apoiadas pelo Zaire, transformou-se numa intervenção de larga escala que duraria dezesseis anos e envolveu não apenas soldados cubanos, mas também, médicos, engenheiros e professores.

É importante salientar que a UNITA, o FNLA e o MPLA eram facções rivais que lutavam contra o colonialismo português, mas também lutavam entre si pelo controle de Angola pós-independente. Além das diferenças ideológicas (UNITA: direita; FNLA: centro-direita; MPLA: esquerda), tais facções eram patrocinadas por rivais da arena internacional (UNITA: África do Sul e Estados Unidos; FNLA: Zaire e China; MPLA: Cuba e União Soviética). Outro ingrediente explosivo nesta mistura eram as diferenças tribais que perpassavam tais grupos. Este, em resumo, foram os ingredientes que levaram à sangrenta e duradoura guerra civil angolana.

A ponte aérea de Novembro de 1975 tinha o seguinte trajecto: as tropas e o material bélico cubanos eram embarcados em velhos aviões Britannia no aeroporto da cidade cubana de Holguín, o mais ocidental de Cuba. De Holguín os aviões partiam rumo a Luanda, com escalas em Bridgetown (capital de Barbados), Bissau (lembre-se que Fidel Castro enviou assessores militares cubanos para ajudar o Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde em sua luta contra o colonialismo português na Guiné-Bissau) e em Brazzaville (capital do Congo, então sob um regime de inspiração comunista). A travessia sobre o Atlântico era a parte mais tensa, com os aviões cubanos pousando em África já quase sem combustível (principalmente após o governo de Barbados ter vetado o acesso aos aviões cubanos ao seu território, veto esse feito sob pressão dos Estados Unidos.

O nome "Carlota" deve-se a uma escrava negra que liderou uma revolta de escravos contra o colonialismo espanhol na ilha de Cuba, em 1843. Carlota foi derrotada pelos espanhóis, mas morreu bravamente, com um facão na mão, sem se render. Em 1973, Fidel Castro houve por bem realizar eventos em comemoração aos 130 anos da revolta de Carlota e o nome ficou-lhe na cabeça. Dois anos depois, Castro não duvidou em baptizar de "Carlota" o nome da operação de ajuda ao MPLA angolano.

A aventura africana de Fidel Castro não se limitou a Angola. Em 1978 tropas cubanas lutaram ao lado da Etiópia em sua guerra contra a Somália (Guerra do Ogaden). Assessores militares cubanos também foram enviados, em número reduzido, a países africanos com regimes comunistas ou simpatizantes: Argélia, Guiné, Guiné-Bissau, Benin, Congo, além das já citadas Angola e Etiópia.

O último soldado cubano deixou Angola em 1991.


Ligações externas[editar | editar código-fonte]

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

Jay Mallin Sr., Cuba in Angola, Miami: Miami University & Coral Gables, 1987

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