Isabel Maria de Alcântara Brasileira

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Isabel Maria
Duquesa de Goiás
Condessa de Treuberg
Baronesa de Holsen
Cônjuge Ernesto de Treuberg
Descendência Maria Amélia
Fernando
Augusta
Francisco
Nome completo
Isabel Maria de Alcântara Brasileira
Nascimento 23 de maio de 1824
  Rio de Janeiro, Brasil
Morte 3 de novembro de 1898 (74 anos)
  Murnau am Staffelsee, Baviera
Pai D. Pedro I do Brasil
Mãe Domitila de Castro Canto e Melo

Isabel Maria de Alcântara Brasileira, primeira e única duquesa de Goiás, (Rio de Janeiro, 23 de maio de 1824Murnau am Staffelsee, 3 de novembro de 1898). Era filha do imperador Dom Pedro I do Brasil e de sua amante, Domitila de Castro Canto e Melo, a marquesa de Santos, tendo sido batizada a 31 de maio de 1824.

Foi legitimada, ou seja, reconhecida como filha do imperador, em 24 de maio de 1826, por decreto que lhe concedeu o título nobiliárquico de duquesa de Goiás e o direito de ser tratada por "Sua Alteza, a duquesa de Góias" [1] – tratamento este que seria inesperado e mesmo irregular pelas tradições monárquicas ibéricas. Graças a isso foi enviada ordem ao quartel-general das forças armadas do Brasil para prestar continências à menina. Era assim, na prática, tratada como uma princesa brasileira e foi considerada no Primeiro Reinado do Império do Brasil uma espécie de protetora da província de Goiás.

Biografia[editar | editar código-fonte]

Primeiros anos[editar | editar código-fonte]

Isabel Maria nasceu no Rio e Janeiro e foi registrada como filha de pais incógnitos que teria sido abandonada na casa do coronel João de Castro (na verdade, seu avô materno). Nessa condição, ela foi batizada em 31 de maio de 1824 na igreja de São Francisco Xavier do Engenho Velho, tendo como padrinhos os pais da marquesa de Santos.[2] Pouco antes de seu aniversário de dois anos, o imperador reconheceu publicamente sua paternidade e exigiu que a mesma fosse anotada no assento de batismo da criança.[nota 1] Em decreto datado de 24 de maio de 1826, dom Pedro concedeu-lhe também o título de Duquesa de Goiás, com direito ao tratamento de Alteza.[4] Os atos imperiais causaram furor na corte e foram comemorados numa festa com pompas de grande gala, celebrada no Palacete do Caminho Novo, a imponente residência que o imperador construiu para a amante nos arredores do Palácio Imperial de São Cristóvão.[5][nota 2] Em 6 de junho, perante toda a corte, Isabel Maria foi apresentada oficialmente à imperatriz Leopoldina. A partir de então, a duquesa passou a frequentar o palácio diariamente para ser educada junto com as irmãs.[7]

Dona Leopoldina morreu em dezembro de 1826 e poucos meses depois, em agosto de 1827, Isabel Maria foi levada para viver em definitivo no Palácio de São Cristóvão.[8] Dom Pedro I casou-se novamente em 1829 e rompeu definitivamente com a marquesa de Santos, que foi enviada de volta a São Paulo. A nova imperatriz, dona Amélia, já havia deixado claro que não permitiria a permanência da pequena duquesa em São Cristóvão e antes mesmo de sua chegada ao Brasil Isabel Maria teve que ser transferida para o Palacete Imperial da Praia Grande - residência oficial de verão durante o primeiro reinado - em Niterói.[8]

Estudos na Europa[editar | editar código-fonte]

D. Pedro I decidiu naquele mesmo ano enviar Isabel Maria para ser educada na Europa. A menina, então com cinco anos, embarcou em 25 de novembro com destino à França, levando uma carta do secretário Francisco Gomes ao visconde de Pedra Branca com a recomendação de que sua instrução deveria ser "a melhor possível para fazer uma freira, com a menor despesa possível, sem contudo faltar à decência devida a uma filha de S.M.I., posto que bastarda."[9] A viagem teve inúmeros percalços: uma tempestade danificou as velas do navio, seus ocupantes foram acometidos por um surto de febre e a duquesa passou a queixar-se de dores no peito. Diante de tal situação, Paulo Martins de Almeida,[nota 3] responsável pela menina, ordenou ao comandante que mudasse o curso para Plymouth, onde aportaram em 8 de fevereiro de 1830.[9] A comitiva instalou-se em Londres enquanto os viscondes de Itabaiana e de Resende procuravam em Paris um colégio adequado à educação da duquesa.[9]

Isabel Maria finalmente foi levada para Paris e passou a estudar em regime de internato na Ecole du Sacré-Coeur, onde as filhas da aristocracia católica francesa eram educadas.[nota 4] No Brasil, d. Pedro recebia mensalmente relatórios médicos e informações sobre o desenvolvimento da filha. As freiras responsáveis pela escola relatavam que a duquesa era extremamente dócil e, com exceção do piano, vinha saindo-se bem em todas as disciplinas. Todavia, também informavam que era dada a variações de humor quando obrigada a estudar.[9]

Em 7 de abril de 1831, d. Pedro abdicou do trono do Brasil e partiu para a Europa com d. Amélia e a rainha d. Maria II. Após alguns meses como hóspede do rei Luís Filipe, o agora duque de Bragança adquiriu uma casa e Isabel Maria começou a passar os finais de semana com a família.[11] Dessa vez, d. Amélia a aceitou e acabou adotando-a como filha. Em 25 de janeiro de 1832, d. Pedro seguiu para Portugal para retomar o trono usurpado por seu irmão, d. Miguel, deixando Isabel Maria aos cuidados da esposa e da sogra, a duquesa Augusta.[12] Logo após as forças constitucionais conquistarem Lisboa, d. Pedro enviou a Paris seu cunhado, o marquês de Loulé, para trazer d. Amélia e d. Maria II para o território português.[13] A duquesa de Goiás, nessa ocasião, voltou para o internato.

D. Pedro morreu em 24 de setembro de 1834 e a tarefa de criar Isabel Maria foi assumida por d. Amélia e por sua mãe. A duquesa fora separada da marquesa de Santos com tão pouca idade que não tinha qualquer recordação de sua mãe biológica e por isso tinha d. Amélia e a duquesa Augusta como suas mãe e avó naturais.[14] Em 1839, sob a tutoria do marquês de Resende, Isabel Maria seguiu para Munique e ingressou no Real Instituto de Moças para concluir seus estudos.[15][16] Em 1841, d. Amélia enviou notícias de seu progresso ao enteado, o imperador d. Pedro II: "Todos estão muito contentes com Isabel Maria no instituto, e minha mãe escreveu que ela cresce e se embeleza todos os dias."[15]

Casamento[editar | editar código-fonte]

Nessa época, d. Amélia passou a procurar um marido adequado para a enteada. Embora tenha recebido uma considerável herança do pai, o dote de Isabel Maria foi provido por d. Pedro II, d. Maria II e pela própria madrasta, que encarregou-se pessoalmente de seu enxoval.[15]

Em 1842, a duquesa de Bragança comunicou o imperador do Brasil que havia acertado o casamento da duquesa de Goiás com Ernesto José João Fischler de Treuberg, 2º conde de Treuberg e barão de Holsen, filho de Francisco Xavier Nicolau Fischler von Treuberg e de sua esposa Maria Crescência Ana Joana, filha caçula de Carlos Frederico, príncipe de Hohenzollern-Sigmaringen.[17][18] Treze anos mais velho que a jovem, o conde era um rico proprietário de terras e aparentado com a família real da Prússia pelo lado materno. Em novembro desse ano, d. Amélia pediu a d. Pedro II que concedesse ao futuro cunhado a Ordem da Rosa.[15] A cerimônia de casamento ocorreu no Palácio Leuchtenberg, em Munique, em 17 de abril de 1843.[15] O casal teve quatro filhos:

  • Maria Amélia Fischler von Treuberg (1844–1919)
  • Fernando Fischler, 3.º conde de Treuberg (1845–1897)[nota 5]
  • Augusta Maria Fischler von Treuberg (1846–?)
  • Francisco Xavier Fischler von Treuberg (1855–1933)

Relação posterior com a duquesa de Bragança[editar | editar código-fonte]

Após casar-se, em 1848, com Maria Isabel de Alcântara Bourbon (irmã da duquesa de Goiás), o conde de Iguaçu tentou contatar a cunhada na Baviera. Isabel Maria, como se sabe, não tinha nenhuma recordação de sua família materna e ficou chocada quando recebeu do conde, como provas de sua ascendência, as cartas trocadas entre d. Pedro e a marquesa de Santos nas quais os amantes mencionavam a filha.[20] A história, que havia sido ocultada da duquesa por desejo expresso do imperador, acabou por abalar a relação familiar que Isabel mantinha com dona Amélia.[20]

Últimos anos[editar | editar código-fonte]

O conde de Treuberg morreu em 1867, aos 50 anos de idade, apenas seis meses antes da morte de sua sogra, a marquesa de Santos. Isabel Maria morreu em Murnau am Staffelsee, em 3 de novembro de 1898, exatamente 31 anos após a morte de sua mãe.


Notas

  1. A alteração no assento de batismo foi inicialmente recusada pelo bispo capelão-mór José Caetano da Silva Coutinho, o que gerou atrito com o imperador. A exigência do monarca só foi atendida em 28 de maio de 1826, após o envio da declaração de paternidade à igreja de São Francisco Xavier do Engenho Velho. Assim, foi incluída a seguinte nota no assento de batismo: "Certifico que no dia 28 do corrente mês de maio de 1826, chegou à casa da minha residência, junto à Matriz de São Francisco Xavier do Engenho Velho, o Oficial menor Graduado da Secretaria dos Negócios do Império, o Comendador Francisco Gomes da Silva, dizendo-me que Sua Majestade, o Imperador, ordenava que eu fizesse uma nota no assento do batismo da inocente Isabel, que foi batizada nesta Matriz, em 31 de maio de 1824, declarando-me juntamente que o mesmo Augusto Senhor RECONHECIA por sua filha a mesma sobredita inocente, a Senhora Isabel Maria de Alcântara, e logo me entregou um certificado em que justificava isto mesmo, feito por um Ministro D'Estado e assinado por outros logo abaixo declarados e eram eles: o Visconde de Inhambupe, Ministro dos Estrangeiros; o Barão de Lages, Ministro da Guerra; o Visconde de São Leopoldo, Ministro do Império. Em consequência, pois, da referida ordem de Sua Majestade, o Imperador, e intimado pelo já citado Comendador Francisco Gomes da Silva, e do referido atestado, passei a reformar o assento em questão, o que tudo afirmo in fide Parochi. O Vig. M.J. Roiz Dantas."[3]
  2. O luto pela morte de d. João VI foi abrandado para o evento, onde estavam presentes ministros e membros da nobreza. Numa tentativa de diminuir o escândalo gerado pelo reconhecimento da paternidade e concessão do título, o secretário Francisco Gomes da Silva publicou um artigo no Diário Fluminense onde citava o exemplo de outros monarcas que agiram da mesma forma que d. Pedro I, como os franceses Henrique IV e Luís XIV.[6]
  3. Criado Visconde de Almeida por Decreto Imperial de 14 de março de 1846 e Visconde com Grandeza por Decreto Imperial de 24 de julho de 1872.[10]
  4. Alguns anos depois, Isabel Maria teria como colega a condessa de Teba, Eugênia de Montijo, futura imperatriz dos franceses como esposa de Napoleão III.[9]
  5. Fernando casou-se em 1873 com Rosina Maria Teresa de Poschinger e tiveram seis filhos: Ernesto, Luís, Huberto, Isabela, Henriqueta e Ferdinando.[19]

Referências

  1. 1822 - Laurentino Gomes - Página 146 - Editora Nova Fronteira - Ano 2010.
  2. Rezzutti 2015, p. 181.
  3. Setúbal 2009.
  4. «Decreto de 24 de maio de 1826 - Concede o título de Duqueza de Goyas a D. Izabel Maria de Alcantara Brazileira» (PDF). Actos do Poder Executivo - Coleção das Leis do Império do Brasil - Câmara dos Deputados. 1826. p. 41. Consultado em 19 de Novembro de 2016 
  5. Rezzutti 2013.
  6. Gomes da Silva, Francisco (10 de junho de 1826). «Artigos nam Officiaes». Rio de Janeiro. Diário Fluminense. 7 (128): 510. Consultado em 19 de novembro de 2016 
  7. Lustosa 2006.
  8. a b Rezzutti 2015, p. 362.
  9. a b c d e Rezzutti 2015, p. 363.
  10. Smith de Vasconcellos, Rodolfo; Smith de Vasconcellos, Jaime (1918). Archivo Nobiliarchico Brasileiro. Lausana: Imprimeri La Concorde. p. 38. Consultado em 20 de Novembro de 2016 
  11. Rezzutti 2015, p. 296.
  12. Rezzutti 2015, p. 300.
  13. Rezzutti 2015, p. 319.
  14. Rezzutti 2015, p. 363-365.
  15. a b c d e Rezzutti 2015, p. 364.
  16. Vilaça, Fabiano (3 de janeiro de 2011). «A prole bastarda e imperial». Revista de História. Fundação Biblioteca Nacional. Consultado em 28 de Novembro de 2016 
  17. Johler, E.G. Geschichte, Land- und Ortskunde der souverainen teutschen Fürstenthümer Hohenzollern, Hechingen und Sigmaringen. 1824. [S.l.: s.n.] 68 páginas 
  18. Schilling, Gustav. F. Fleischer, ed. Geschichte des Hauses Hohenzollern, in genealogisch fortlaufenden Biographien aller seiner Regenten von den ältesten bis auf die neuesten Zeiten, nach Urkunden und andern authentischen Quellen. 1843. [S.l.: s.n.] 287 páginas 
  19. Loewenstein 2013, p. 254.
  20. a b Rezzutti 2015, p. 365.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]