Pedro Afonso de Bragança e Bourbon

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Nota: Não confundir com D. Afonso Pedro de Alcântara de Bragança, irmão mais velho de D. Pedro Afonso e que também faleceu prematuramente.
Dom Pedro Afonso
Príncipe Imperial do Brasil
Pedro Afonso sentado no colo de sua mãe, a imperatriz Teresa Cristina, e cercado por suas duas irmãs, Isabel e Leopoldina, em uma pintura de Ferdinand Krumholz (1850).
Casa Bragança
Nome completo
Pedro Afonso Cristiano Leopoldo Eugênio Fernando Vicente Miguel Gabriel Rafael Gonzaga de Bragança
Nascimento 19 de julho de 1848
  Palácio de São Cristovão, Rio de Janeiro, Império do Brasil
Morte 9 de janeiro de 1850 (1 ano)
  Fazenda Imperial de Santa Cruz, Rio de Janeiro[1]
Enterro Convento de Santo Antônio, Rio de Janeiro
Pai D. Pedro II do Brasil
Mãe D. Teresa Cristina de Bourbon-Duas Sicílias

Pedro Afonso Cristiano Leopoldo Eugênio Fernando Vicente Miguel Gabriel Rafael Gonzaga de Bragança[2], ou simplesmente Dom Pedro Afonso, (19 de julho de 1848 - 9 de janeiro de 1850) foi o Príncipe Imperial e herdeiro aparente ao trono do Império do Brasil. Nascido na cidade do Rio de Janeiro, foi o quarto e último filho do imperador Dom Pedro II e de Dona Teresa Cristina de Bourbon-Duas Sicílias e, portanto, membro do ramo brasileiro da Sereníssima Casa de Bragança. Pedro Afonso foi visto como vital para a viabilidade futura da monarquia, que havia sido posta em perigo pela morte de seu irmão mais velho, Dom Afonso Pedro, ocorrida três anos antes.

A morte prematura de Dom Pedro Afonso em consequência de uma febre com apenas um ano de idade arrasou o Imperador, e o casal imperial não teve mais filhos. Após a fatalidade, as dúvidas sobre o futuro do sistema monárquico cresceram na mente de Pedro II. Este ainda tinha uma herdeira em sua filha Isabel, mas ele não estava convencido de que uma mulher viria a ser uma sucessão plenamente aceita pela classe política e pela opinião pública. Ele excluía deliberadamente Isabel da participação nos negócios e decisões de governo, e nem ela nem sua irmã Leopoldina foram preparadas para governar sobre a nação. Sem filhos homens sobreviventes, o monarca passou cada vez mais a enxergar o sistema monárquico como inexoravelmente preso a si, e que este não sobreviveria à sua morte.

Biografia[editar | editar código-fonte]

Nascimento e infância[editar | editar código-fonte]

Pedro Afonso nasceu às oito horas da manhã de 19 de julho de 1848, no Palácio de São Cristóvão, na cidade do Rio de Janeiro, na época a capital do Brasil.[2] Através de seu pai, o imperador Pedro II, era membro do ramo brasileiro da Casa de Bragança, tendo recebido o título nobiliárquico de Dom desde o nascimento.[3] Afonso era neto do imperador Pedro I e sobrinho da rainha Maria II de Portugal.[4] Através de sua mãe, Teresa Cristina, ele era neto de Francisco I e sobrinho de Fernando II, ambos reis das Duas Sicílias.[5]

Após o nascimento, Pedro II recebeu congratulações oficiais numa recepção realizada mais tarde no mesmo dia, a qual de acordo com um contemporâneo foi o evento "mais esplêndido e com maior presença" desde que o Imperador teve sua maioridade declarada em 1840.[6] A notícia do nascimento de um herdeiro varão foi recebida com alegria entre os brasileiros, que realizaram celebrações incluindo foguetes e salvas de tiros. As ruas da cidade foram iluminados por dias após o nascimento, e um baile suntuoso foi realizado na Corte.[7] O principal motivo de tamanho júbilo foi o fato de Pedro Afonso ser um herdeiro do sexo masculino, algo considerado imprescindível para a continuação do Império, ainda que a Constituição de 1824 permitisse uma sucessão feminina.[8] O escritor Manuel de Araújo Porto-Alegre (mais tarde Barão de Santo Ângelo) considerou o nascimento de Pedro Afonso um "triunfo" que havia assegurado a sucessão.[9]

O herdeiro do trono brasileiro foi batizado em 4 de outubro de 1848.[10] A cerimônia foi realizada em privado na Capela Imperial, seguida por celebrações públicas.[11] Os padrinhos foram o imperador Fernando I da Áustria e a rainha consorte dona Estefânia de Portugal, representados por Pedro de Araújo Lima, Visconde de Olinda (depois Marquês de Olinda) e pela Condessa de Belmonte.[10][12][13][14]

Morte prematura[editar | editar código-fonte]

Em 1847 e nos dois anos seguintes, Pedro II e sua família passaram o verão em Petrópolis. A inovação contrariou os membros da Corte, que "rejeitavam qualquer mudança que lhes ameaçasse o estilo de vida e os interesses".[15] Sujeitando-se à tradição, em 1849 o Imperador concordou em voltar a passar o verão na Fazenda Imperial de Santa Cruz, uma propriedade rural que pertencia aos Braganças há gerações.[15] Durante a estadia da família imperial na propriedade, Pedro Afonso e sua irmã Isabel foram atingidos por uma febre. A princesa superou a crise, mas o príncipe imperial morreu de convulsões às 4h20min de 9 de janeiro.[13][15][16] Contemporâneos argumentaram que a fatalidade poderia ter sido uma consequência de encefalite ou mesmo de uma doença congênita.[17]

Pedro II ficou arrasado, como atesta o trecho da sua carta a Joaquim Teixeira de Macedo, cortesão responsável por Santa Cruz: "foi o golpe o mais fatal que poderia receber, e decerto a ele não resistiria se não me ficassem ainda mulher e duas crianças".[15] O imperador escreveu a seu cunhado Dom Fernando II, rei-consorte de Portugal: "No momento em que você recebe isso, você vai certamente ter tomado conhecimento da grave perda tenho sofrido ... Deus que me fez passar embora tão difícil um teste, vai em sua misericórdia me dê motivos para consolar as minhas dores."[18]

Um grande funeral foi realizado em memória ao príncipe imperial dois dias depois de sua morte.[16] As ruas ficaram repletas de pessoas comuns que entristeceram-se com a morte prematura do herdeiro.[19] Também notável foi o evento no qual os turistas pagaram para terem o privilégio de assistir à procissão fúnebre de um hotel no centro do Rio de Janeiro.[20] Pedro Afonso foi sepultado em um mausoléu no Convento de Santo Antônio.[13][16]

Honório Hermeto Carneiro Leão (mais tarde Marquês do Paraná), um dos principais líderes políticos do Império e que na época servia como presidente da província de Pernambuco, sumarizou a visão prevalente entre a elite dominante do Brasil acerca da sucessão do trono em discurso à Assembleia Provincial: "É dever doloroso o de informar-vos do falecimento do Príncipe Imperial D. Pedro Afonso, ocorrido em 10 de janeiro do corrente ano. Pela segunda vez perdemos um herdeiro presuntivo da coroa". O futuro marquês prossegue: "Sirva-nos de consolação e certeza da [boa] saúde de S[ua]. M[ajestade]. o Imperador e de sua augusta esposa. Ambos na flor dos anos, e cheios de vida, prometem ainda numerosos frutos do seu tálamo, e à coroa uma sucessão masculina, tal como a consolidação de nossas ainda recentes instituições, e o espírito agitado do século exigem".[21]

Porém, ao contrário do que previa-se, Pedro II e Teresa Cristina não tiveram mais filhos. As razões para isso são ignoradas, embora alguns acadêmicos creiam que o casal imperial nunca mais tenha voltado a ter relações sexuais.[22] O imperador ficou arrasado com a morte de Pedro Afonso, e nunca foi capaz de lidar totalmente com ela. Segundo o historiador Roderick J. Barman, o imperador ficou "profundamente abalado, emocional e intelectualmente". [18]

Legado[editar | editar código-fonte]

Princesa Isabel presta juramento perante o Senado do Brasil como Regente do Império (Victor Meirelles, 1875). As mortes dos dois filhos de Pedro II soaram como um presságio do fim da monarquia, já que este tinha pouca confiança na possibilidade de uma mulher governar o país.[23]

A morte precoce do príncipe (ocorrida três anos após a morte de seu irmão mais velho, Afonso Pedro) teve um enorme impacto sobre Pedro II: em um nível pessoal, como pai, e no Império. Na visão dele, as mortes de seus filhos apenas pareciam pressagiar o fim do sistema monárquico.[23][24][25] Apesar de sua afeição por suas filhas, ele não acreditava que a princesa Isabel, sua herdeira legal, teria qualquer chance real de prosperar no trono. Ele acreditava que o seu sucessor precisava ser um homem para que a monarquia fosse viável.[23] O monarca passou cada vez mais a enxergar o sistema imperial como inexoravelmente preso a si, que não sobreviveria a sua morte.[26] Isabel e sua irmã receberam uma educação excepcional,[27] apesar de não terem sido preparadas para governar sobre a nação. Pedro II excluía deliberadamente Isabel da participação nos negócios e decisões de governo.[28]

Pedro II foi proclamado apto para assumir suas funções de imperador em 23 de julho de 1840, aos quinze anos de idade, com o Decreto da Maioridade.[29][30] Ele iniciou seu governo como uma figura que conseguiu manter a unidade de um reino que esteve à beira da desintegração durante o período regencial.[31][32] Ele rapidamente amadureceu e conduziu o Império com sucesso por várias crises profundas. Na época da morte de Afonso, o país estava entrando em uma era sem precedentes de desenvolvimento, prosperidade e estabilidade econômica. Mesmo com os sucessos políticos do imperador, a falta de um herdeiro do sexo masculino levou-o a perder a motivação para promover o gabinete imperial como uma posição a ser exercida por seus descendentes. Pedro II afastou-se dos laços familiares e pessoais, focando em políticas que promoveram a modernização e o avanço social e, em 15 de novembro de 1889, foi deposto por um golpe de Estado que proclamou a República no Brasil.[23][33]

Títulos[editar | editar código-fonte]

  • 19 de julho de 1848 - 9 de janeiro de 1850: Sua Alteza Imperial Dom Pedro, Príncipe Imperial do Brasil.[34]

Honrarias[editar | editar código-fonte]

Ancestrais[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. Barman 2005, p. 45.
  2. a b Laemmert 1849, p. 29.
  3. Barman 1999, p. 424.
  4. Schwarcz 1998, p. 47.
  5. Calmon 1975, p. 210.
  6. Kraay 2013, p. 129.
  7. Kraay 2013, pp. 129–130.
  8. Barman 1999, p. 127.
  9. Silva 1848, p. 397.
  10. a b Brasil. Ministério da Educação e da Saúde 1953, p. 212.
  11. Kraay 2013, p. 130.
  12. Macedo 1978, p. 71.
  13. a b c Moreira de Azevedo 1866, p. 307.
  14. Schiavo 1953, p. 212.
  15. a b c d Barman 2005, pp. 44-45.
  16. a b c Schiavo 1953, p. 135.
  17. Calmon 1975, p. 376.
  18. a b Barman 1999, p. 129.
  19. Schiavo 1953, p. 135-136.
  20. Kraay 2013, p. 199.
  21. Gouvêa 2009, p. 164.
  22. Barman 2002, pp. 27.
  23. a b c d Barman 1999, pp. 129–130.
  24. Carvalho 2007, p. 52.
  25. Vainfas 2002, p. 200.
  26. Barman 1999, p. 130.
  27. Barman 1999, p. 151.
  28. Barman 1999, p. 152.
  29. Bueno 2003, p. 194.
  30. Carvalho 2007, p. 40.
  31. Schwarcz 1998, p. 53.
  32. Barman 1999, p. 317.
  33. Barman 1999, p. 360.
  34. Laemmert 1850, p. 32.
  35. a b c Laemmert 1849, p. 26
  36. a b Laemmert 1849, p. 24

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Barman, Roderick J (1999). Citizen Emperor: Pedro II and the Making of Brazil, 1825–1891. Stanford: Stanford University Press. ISBN 9780804735100 
  • Gouvêa, Fernando da Cruz (2009). O Marquês do Paraná: o traço todo do conciliador. Recife: Editora Universitária da UFPE. ISBN 9788573155532 
  • Barman, Roderick J (2005). Princesa Isabel do Brasil: gênero e poder no século XIX. Traduzido por Luiz Antônio Oliveira Araújo. São Paulo: UNESP. ISBN 8571395985 
  • Bueno, Eduardo (2003). Brasil: uma História. São Paulo: Ática. ISBN 850808952X 
  • Brasil. Ministério da Educação e da Saúde (1953). «Anuário do Museu Imperial». Petrópolis: Departamento de Imprensa Nacional. Anuário do Museu Imperial. 14 
  • Calmon, Pedro (1975). História de D. Pedro II. 5. Rio de Janeiro: J. Olympio 
  • Carvalho, José Murilo de (2007). D. Pedro II: ser ou não ser. São Paulo: Companhia das Letras. ISBN 9788535909692 
  • Diener, Pablo; Costa, Maria de Fátima (2002). Rugendas e o Brasil. São Paulo: Capivara. ISBN 9788589063081 
  • Kraay, Hendrik (2013). Days of National Festivity in Rio de Janeiro, Brazil, 1823–1889. Stanford: Stanford University Press. ISBN 9780804786102 
  • Laemmert, Eduardo (1849). Almanak Administrativo, Mercantil e Industrial (Almanaque Laemmert). Rio de Janeiro: Eduardo e Henrique Laemmert & C. 
  • Laemmert, Eduardo (1850). Almanak Administrativo, Mercantil e Industrial (Almanaque Laemmert). Rio de Janeiro: Eduardo e Henrique Laemmert & C. 
  • Lira, Heitor (1977). História de Dom Pedro II (1825–1891): Ascensão (1825–1870). 1. Belo Horizonte: Itatiaia 
  • Macedo, Roberto (1978). «Efemérides Cariocas». Rio de Janeiro: Imprensa Nacional. Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. 321: 53–221 
  • Moreira de Azevedo, Manuel Duarte (1866). «Os túmulos de um claustro». Rio de Janeiro: B. L. Garnier. Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. 29 
  • Rodrigues, José Carlos (1863). Constituição política do Império do Brasil. Rio de Janeiro: Typographia Universal de Laemmert 
  • Schiavo, José (1953). «A família Imperial do Brasil». Petrópolis: Departamento de Imprensa Nacional. Anuário do Museu Imperial. 14: 111–247 
  • Schwarcz, Lilia Moritz (1998). As barbas do Imperador: D. Pedro II, um monarca nos trópicos 2 ed. São Paulo: Companhia das Letras. ISBN 9788571648371 
  • Silva, João Ignacío da (1848). «Presidencia do Illm. Sr. Manuel de Araujo Porto-Alegre». Rio de Janeiro: Instituto Historico e Geographico Brasiliero. Revista Trimensal de Historia e Geographia. 10 (2): 393–397. OCLC 7339351 
  • Vainfas, Ronaldo (2002). Dicionário do Brasil Imperial. Rio de Janeiro: Objetiva. ISBN 8573024410 

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