Anita Garibaldi

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Anita Garibaldi
Anita Garibaldi, a heroína dos dois mundos
Nome completo Ana Maria de Jesus Ribeiro
Nascimento 30 de agosto de 1821
Laguna, Reino do Brasil
Reino de Portugal Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves
Morte 4 de agosto de 1849 (27 anos)
Mandriole  Itália
Nacionalidade Império do Brasil Brasileira

Ana Maria de Jesus Ribeiro, mais conhecida como Anita Garibaldi (Laguna, 30 de agosto de 1821Mandriole, Itália, 4 de agosto de 1849) foi a companheira do revolucionário Giuseppe Garibaldi,[1] conhecida como a "Heroína dos Dois Mundos".

A controvérsia sobre o local de nascimento[editar | editar código-fonte]

Alguns estudiosos alegam que Anita Garibaldi teria nascido em Lages, que na cúria metropolitana daquela cidade estaria o registro dos irmãos mais velho e mais novo dela, e que teria sido retirada do livro a folha do registro de Ana Maria de Jesus Ribeiro. Em 1998, entidades representativas da sociedade civil de Laguna promoveram uma ação judicial para obter o registro de nascimento tardio de Anita Garibaldi. A ação tramitou na primeira vara da comarca de Laguna, sendo instruída com diversos documentos que comprovariam que Anita nasceu no município de Laguna. Assim, em 5 de dezembro de 1998, proferiu-se:

"Ante o exposto, julgo procedente o pedido inicial, a fim de determinar o registro de nascimento de Ana Maria de Jesus Ribeiro, nascida em 30 de agosto de 1821, na cidade de Laguna, filha de Bento Ribeiro da Silva, natural de São José dos Pinhais, Paraná, e de Maria Antônia de Jesus Antunes, natural de Lages, Santa Catarina, sendo seus avós paternos Manuel Collaço e Ângela Maria da Silva e avós maternos Salvador Antunes e Quitéria Maria de Sousa, o que faço embasado no artigo 50, § 4º combinado com o 52, § 2º, da Lei n.º 6.015/73." (Ação de Registro de Nascimento Tardio n.: 040.98.000395-4).

As pessoas que reivindicaram a exata data do nascimento de Anita se baseiam em provas fornecidas por autores, como Wolfgang Ludwig Rau, tal como mostra o jornal Página do Gaúcho.

Vida familiar e primeiro casamento[editar | editar código-fonte]

Casa de Anita Garibaldi em Laguna - SC

Anita Garibaldi, descendente de portugueses imigrados dos Açores à província de Santa Catarina no século XVIII, provinha de uma família modesta.[2] O pai Bento era comerciante em Lages e casou-se com Maria Antônia de Jesus. Anita era a terceira de 10 filhos (6 meninas e 4 meninos).[1]

Após a morte do pai e o casamento da irmã mais velha, Anita cedo teve que ajudar no sustento familiar e, por insistência materna, casou-se, em 30 de agosto de 1835, aos 14 anos, com Manuel Duarte de Aguiar,[1] na Igreja Matriz Santo Antônio dos Anjos da Laguna. Depois de somente três anos de matrimônio, o marido alistou-se no exército imperial, abandonando a jovem esposa.

No Brasil[editar | editar código-fonte]

Durante a Revolução Farroupilha ou Guerra dos Farrapos, o guerrilheiro italiano Giuseppe Garibaldi, a serviço da República Rio-Grandense, participa da tomada do porto de Laguna, na então província de Santa Catarina, onde conheceu Anita,[3] que se apaixonou e decidiu lutar pela independência gaúcha e de outros territórios. Eles ficaram juntos pelo resto da vida de Anita, que seguiu Garibaldi em seus combates em Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Uruguai (Montevidéu) e Itália. Eles tiveram quatro filhos .

O encontro com Giuseppe Garibaldi[editar | editar código-fonte]

Anita tinha 18 anos quando encontrou-se com Giuseppe Garibaldi. Ele tinha 32 anos. Garibaldi tomava parte das tropas farroupilhas de Davi Canabarro, em julho de 1839, que chegaram para tomar Laguna e formar a República Juliana.[1]

Ao chegar a Laguna, a bordo da embarcação "Itaparica", tomada do inimigo e armada com sete canhões, Garibaldi observava com uma luneta as casas da barra de Laguna. Observou então, em um grupo de moças que passeava, uma jovem cujo rosto conquistou sua imaginação e seu coração. Providenciou um barco, foi até a margem e depois até o local onde a tinha visto, porém não a encontrou.[1]

Tinha perdido a esperança de encontrá-la, quando um habitante local o convidou a ir a sua casa para um café. Garibaldi aceitou e na casa encontrou a jovem que procurava. Assim Garibaldi relata o encontro em suas memórias: "Entramos, e a primeira pessoa que se aproximou era aquela cujo aspecto me tinha feito desembarcar. Era Anita! A mãe de meus filhos! A companhia de minha vida, na boa e na má fortuna.[2] A mulher cuja coragem desejei tantas vezes. Ficamos ambos estáticos e silenciosos, olhando-se reciprocamente, como duas pessoas que não se vissem pela primeira vez e que buscam na aproximação alguma coisa como uma reminiscência.[2] A saudei finalmente e lhe disse: 'Tu deves ser minha!'. Eu falava pouco o português, e articulei as provocantes palavras em italiano. Contudo fui magnético na minha insolência. Havia atado um nó, decretado uma sentença que somente a morte poderia desfazer. Eu tinha encontrado um tesouro proibido, mas um tesouro de grande valor."[1]

Em 20 de outubro de 1839, Anita decide seguir Garibaldi, subindo a bordo de seu navio para uma expedição militar.[1]

Em Imbituba recebeu o batismo de fogo, quando a expedição corsária foi atacada pela marinha imperial do Brasil. Dias depois, em 15 de novembro, Anita confirma sua coragem sem fim e seu amor heroico a Garibaldi na famosa batalha naval de Laguna, contra Frederico Mariath, na qual se expõe a grande risco de morte, atravessando uma dúzia de vezes a bordo da pequena lancha de combate para trazer munições em meio a uma verdadeira carnificina. Anita também combateu ao lado de Garibaldi em Santa Vitória. Depois passou o Natal de 1839 em Lages.[1]

Batalha de Curitibanos[editar | editar código-fonte]

Monumento em homenagem a Anita, no Janículo em Roma. O escultor Rutelli retratou a fuga de Mostardas nesse monumento.

Em 12 de janeiro de 1840, Anita participou da batalha de Curitibanos, na qual foi feita prisioneira.[1] Durante a batalha, Anita provia o abastecimento de munições aos soldados.[3] O comandante do exército imperial, admirado de seu temperamento indômito, deixou-se convencer a deixá-la procurar o cadáver do marido, supostamente morto na batalha. Em um instante de distração dos guardas, tomou um cavalo e fugiu. Após atravessar a nado com o cavalo o rio Canoas,[1] [3] chegou ao Rio Grande do Sul, e encontrou-se com Garibaldi em Vacaria, oito dias depois.

Em 16 de setembro de 1840, nasceu no estado do Rio Grande do Sul, na então vila e atual cidade de Mostardas o primeiro filho do casal, que recebeu o nome de Menotti Garibaldi, em homenagem ao patriota italiano Ciro Menotti.[3] Doze dias depois, o exército imperial, comandado por Francisco Pedro de Abreu, cercou a casa para prender o casal, e Anita fugiu a cavalo com o recém-nascido nos braços e alcançou um bosque aos arredores da cidade, onde ficou escondido por quatro dias, até que Garibaldi a encontrou.[1]

No Uruguai[editar | editar código-fonte]

Em 1841, quando a situação militar da República Riograndense tornou-se insustentável, Garibaldi solicitou e obteve do general Bento Gonçalves a permissão para deixar o exército republicano.[2] Anita, Giuseppe e Menotti mudaram-se para Montevidéu, no Uruguai, receberam um rebanho de 900 cabeças de gado, das quais, depois de 600km de marcha, 300 chegaram a Montevidéu, em junho de 1841.[4]

No Uruguai, em 1842, dois anos e meio após seu encontro, o casal legalizou sua união, na igreja de São Francisco de Assis, em Montevidéu. A certidão de casamento era exigida pela constituição do Uruguai a quem aspirava cargos públicos. Garibaldi foi indicado comandante da pequena frota uruguaia, que combatia a potente esquadra naval argentina, comandada pela almirante William Brown.[1]

No Uruguai nasceram os outros três filhos do casal: Rosa (1843), Teresa (1845) e Ricciotti Garibaldi (1847). Rosa faleceu aos dois anos de idade por asfixia, por causa de uma infecção na garganta, o que fez Anita e Garibaldi sofrerem muito.

Em 1846, Garibaldi tentou enviar Anita e as crianças para longe, para Nice para ficarem com sua mãe, mas obteve um parecer negativo do Ministério dos Negócios Estrangeiros do rei Carlos Alberto, Solaro della Margarita, em junho de 1846.[5] Mais tarde, com os legionários italianos planejando voltar para casa, e graças ao recolhimento de fundos organizado, entre outros por Stefano Antonini, Anita, com seus três filhos e outros familiares dos legionários partem finalmente em janeiro de 1848, em um barco com destino a Nice, onde foram confiados por um tempo sob os cuidados da família de Garibaldi.[2]

Na Itália[editar | editar código-fonte]

Garibaldi e Anita buscam refúgio em San Marino.

Em 1847, Anita foi para a Itália com os três filhos e encontrou-se com a mãe de Garibaldi. Elas depois viajaram para a cidade de Nizza, (atual Nice, na França), onde ficaram morando. O próprio Garibaldi reuniu-se a eles alguns meses depois, quando voltaram a Itália. Os filhos de Anita e Garibaldi ficaram na França com a mãe dele.

Em 9 de fevereiro de 1849, presenciou com o marido a proclamação da República Romana, mas a invasão franco-austríaca de Roma, depois da batalha no Janículo, obrigou-os a abandonar a cidade. Com 3 900 soldados (800 deles a cavalo), Garibaldi deixou Roma. Em sua perseguição saíram três exércitos (franceses, espanhóis e napolitanos) com quarenta mil soldados. Ao norte lhes esperava o exército austríaco, com quinze mil soldados. Anita e o marido tinham que enfrentar a guerra e lutar para salvar o território italiano. Mesmo grávida do 5º filho, ela enfrentou tudo até o fim.

Garibaldi e Anita, ferida, fogem de San Marino, 1849 (quadro de anônimo, século XIX)
Foto de Anita na Itália

Anita, no final da gravidez, tentou não ser um peso para o marido, querendo deixá-lo despreocupado para lutar sozinho na guerra, em que ela poderia ir morar com a mãe dele, como seus filhos moravam, mas suas condições de saúde pioraram quando atingiram a República de San Marino. Ela e Garibaldi decidiram não aceitar o salvo-conduto oferecido pelo embaixador americano e continuaram a fuga, pois não teriam como lutar contra milhares de soldados e se fossem presos, morreriam na cadeia. Com febre e perseguida pelo exército austríaco, foi transportada às pressas à fazenda Guiccioli, próximo a Ravena, onde morreu junto com a criança, em 4 de agosto de 1849, para desespero de Garibaldi.

Caçado pelos austríacos, sem nem sequer poder acompanhar o sepultamento da esposa, Garibaldi saiu outra vez para o exílio e nos dez anos em que esteve fora da Itália, os restos mortais de Anita foram exumados por sete vezes. Por vontade do marido, seu corpo foi transferido a Nice.

Em 1932, seu corpo foi finalmente sepultado no monumento construído em sua homenagem no Janículo, em Roma.[2]

O legado de Anita[editar | editar código-fonte]

Busto de Anita Garibaldi, em Belo Horizonte.

Considerada, no Brasil e na Itália, um exemplo de dedicação e coragem, Anita foi homenageada pelos brasileiros com a designação de dois municípios, ambos no estado de Santa Catarina: Anita Garibaldi e Anitápolis. Muitas cidades brasileiras possuem também ruas e avenidas com seu nome, como a avenida Anita Garibaldi, em Salvador, Bahia. Em abril de 2012 foi sancionada a Lei 12.615 que determinou que seu nome fosse inscrito no Livro dos Heróis da Pátria, depositado no Panteão da Liberdade e da Democracia, em Brasília.[6]

Representações na cultura[editar | editar código-fonte]

Na minissérie A Casa das Sete Mulheres, de Maria Adelaide Amaral e Walther Negrão, transmitida pela Rede Globo, em 2003, Anita Garibaldi foi interpretada por Giovanna Antonelli, enquanto que Giuseppe Garibaldi foi interpretado por Thiago Lacerda. Camila Morgado fez o papel de Manuela de Paula Ferreira.[7]

No cinema, em Garibaldi in America, o papel de Anita foi interpretado por Ana Paula Arósio, com estréia prevista para o ano de 2012.[8] Na literatura brasileira, no romance [Anita], de Flávio Aguiar (São Paulo: Boitempo Editorial, 1999), prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro (2000).

Referências

  1. a b c d e f g h i j k l Giuliani, Isidoro. Anita Garibaldi: vita e morte (em italiano). 1 ed. Mandriole: Parrocchia di Mandriole - Ravenna, 2001. 96 p. 1 vol. Página visitada em 30 de agosto de 2012.
  2. a b c d e f Anita Garibaldi (em português). Enciclopédia Mirador Internacional. UOL - Educação. Página visitada em 30 de agosto de 2012.
  3. a b c d DUMAS, pai, Alexandre. Memórias de Garibaldi (em Português). 1 ed. Porto Alegre: L&PM, 2000. Capítulo: 33. , 354 p. 1 vol. ISBN 85-254-1071-3 (24/01/2012)
  4. SCIROCCO, Alfonso. Garibaldi. Battaglie, amori, ideali di un cittadino del mondo, Editori Laterza, 2009. ISBN 978-88-420-8408-2. (em italiano)
  5. Scirocco, p. 122.
  6. BRASIL. Lei 12.615 de 30 de abril de 2012. Página visitada em 13 de maio de 2012.
  7. A Casa das Sete Mulheres, Memória Globo, Globo.com.
  8. Página do filme Garibaldi in America.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • BANDI, Giuseppe. Anita Garibaldi(1889).
  • BRYANT, Dorothy. Anita, Anita: Garibaldi of the New World(1993)
  • DUMAS pai, Alexandre. Memórias de Garibaldi (1861, 1931)
  • FRONTANI, Alessandra & PASQUINELLI, Chiara . Garibaldi innamorato .Firenze, Edizioni Polistampa, 2009. 200pp
  • GIULIANI, Isidoro & FOGLI, Antonio. Anita Garibaldi: vita e morte (life and death). Marcabò (2001)
  • LAMI, Lucio. Garibaldi e Anita: Corsari (1991).
  • MARASCO, Giuseppe. L'Amazzona Rossa (1982).
  • MARKUN, Paulo. Anita Garibaldi: uma heroína brasileira. 4ª edição, São Paulo, Senac, 2000.
  • MARKUN, Paulo. Anita Garibaldi: uma heroína brasileira. 5ª edição, São Paulo, Senac, 2003. Ed. eletrônica parcial (5 ª ed)
  • SERGIO, de Lisa. I am my beloved: The Life of Anita Garibaldi (1969).
  • SIERRA, Julio A.Anita Garibaldi: Guerrillera en América del Sur, Heroína de la Unidad Italiana (2003).
  • VALERIO, Anthony. Anita Garibaldi: A Biography (2000).
  • WERNER, A. (trad.) Autobiografia de Giuseppe Garibaldi (1971, 1889).
  • ZUMBLICK, Walter. Aninha do Bentão, (1980).

Ver também[editar | editar código-fonte]

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

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