Dexametasona

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Ir para: navegação, pesquisa
Estrutura química de Dexametasona
Dexametasona
Star of life caution.svg Aviso médico
Nome IUPAC (sistemática)
9-fluoro-11β,17,21-triidroxi-16α-
metilpregna-1,4-dieno-3,20-diona
Identificadores
CAS 50-02-2
ATC A01AC02
PubChem 5743
DrugBank APRD00674
Informação química
Fórmula molecular C22H29FO5 
Massa molar 392.464 g/mol
Farmacocinética
Biodisponibilidade 80–90%
Metabolismo hepático
Meia-vida 36–56 horas
Excreção renal
Considerações terapêuticas
Administração Oral, intravenosa, intramuscular, subcutânea, intraóssea
DL50  ?

A dexametasona é um medicamento pertencente à classe dos corticosteróides, atuando no controle da velocidade de síntese de proteínas.

O efeito principal deste medicamento é a profunda alteração promovida na resposta imune linfocitária, devido à ação antiinflamatória e imunossupressora, podendo prevenir ou suprimir processos inflamatórios de várias naturezas.

A molécula[editar | editar código-fonte]

Propriedades físico-químicas[editar | editar código-fonte]

Relação estrutura actividade[editar | editar código-fonte]

A dexametasona possui grupos funcionais que são essenciais para a actividade glucocorticóide, e visam diminuir a actividade mineralocorticóide:

  • grupo metilo na posição C16
  • α-fluor na posição C9
  • grupo hidroxilo na posição C11 e C17
  • dupla ligação entre C1 e C2

Assim sendo, a dexametasona é um glucocorticóide muito potente, com fraca actividade mineralocorticóide.

Farmacodinâmica[editar | editar código-fonte]

Uso terapêutico[editar | editar código-fonte]

É utilizado no tratamento de condições patológicas como:

  • Isquemia cerebral
  • Prevenção da síndrome da membrana hialina
  • Tratamento da síndrome da angústia respiratória em adultos por insuficiência pulmonar pós-traumática
  • Tratamento do choque por insuficiência adrenocortical e como coadjuvante do choque associado com reações anafiláticas
  • Tratamento de processos alérgicos e inflamatórios graves

Dose terapêutica e Posologia[editar | editar código-fonte]

Administração oral

A dose de dexametasona administrada por via oral é variável e com posologia individualizada, de acordo com a gravidade da doença e a resposta do paciente.

A posologia deve ser diminuída ou a terapêutica suspensa quando a administração for prolongada.

Em situações agudas em que é urgente um alívio rápido são permitidas altas doses, as quais podem ser mesmo exigidas, por um curto período de tempo. Quando os sintomas forem adequadamente suprimidos, a posologia deve ser mantida ao nível mínimo capaz de promover o alívio da dor, sem efeitos hormonais excessivos.


Star of life caution.svg
Advertência: A Wikipédia não é consultório médico nem farmácia.
Se necessita de ajuda, consulte um profissional de saúde.
As informações aqui contidas não têm caráter de aconselhamento.

Mecanismo de acção[editar | editar código-fonte]

Os corticosteróides exercem efeitos sobre quase todas as células, influenciando o metabolismo proteico, lipídico e glucídico, o balanço hidroelectrolítico, as funções cardiovasculares, renal, da musculatura esquelética, do sistema nervoso e de praticamente todos os tecidos e órgãos. Desempenham um papel importante na homeostasia dos estímulos nóxicos internos e externos.

Os corticosteróides combinam-se com proteínas receptoras citosólicas e, a seguir, esse complexo liga-se à cromatina no núcleo da célula. As RNA polimerases são activadas, e ocorre transcrição de mRNA específicos, resultando na síntese de proteínas nos ribossomas. Muitas das acções dos glucocorticóides dependem da síntese de proteínas, e deve-se pressupor que essas proteínas sejam elas enzimas ou factores reguladores, controlam as funções celulares apropriadas que determinam os efeitos farmacológicos anteriormente descritos.

Algumas das acções antiinflamatórias dos corticosteróides podem resultar dos seus efeitos inibitórios sobre a síntese de prostaglandinas. Esse efeito também é medido pela síntese de proteínas, visto que os corticosteróides induzem a síntese de transcortina e macrocortina – proteínas que inibem a síntese de prostaglandinas através da inibição da fosfolipase A2. As respostas mediadas por células podem ser inibidas indirectamente pela inibição da produção de determinadas citocinas, incluindo o factor necrosante tumoral e as interleucinas.

Os glucocorticóides exercem efeitos imunossupressores. Inibem as funções dos linfócitos: as respostas das células B e das células T a antigénios são suprimidas, com consequente comprometimento da imunidade tanto humoral como celular.

Contra-indicações[editar | editar código-fonte]

A relação risco/benefício deve ser estabelecida para o uso em doenças como:

Precauções[editar | editar código-fonte]

  • Deve utilizar-se a mais baixa dose possível de corticosteróides para controle da situação em tratamento e, quando viável a redução posológica deverá ser gradual.
  • Elevadas doses de dexametasona podem causar elevação da pressão arterial, retenção de sal e água, e aumento da excreção de potássio. Pode ser necessária restrição dietética do sal e suplementação de potássio. Todos os corticosteróides aumentam a excreção de cálcio.
  • O álcool pode aumentar o risco de efeitos adversos. Deve-se evitar o seu consumo.
  • Após tratamento prolongado, a suspensão dos corticosteróides pode causar uma síndrome caracterizada por febre, mialgias, artralgias e mal-estar.
  • Está contra-indicada a administração de vacinas de vírus vivos em indivíduos que estejam a receber corticosteróides em doses imunossupressivas. Quando se administram vacinas bacterianas ou de vírus inactivados a doentes sob corticoterapia, em doses imunossupressivas, pode ocorrer quebra da resposta dos anticorpos. Contudo, podem fazer-se imunizações em doentes que recebem corticosteróides como terapêutica substitutiva.
  • A dexametasona pode alterar os valores da glicose sanguínea em doentes diabéticos, causando hiperglicemia, glicosúria e retardamento da cicatrização.
  • Os doentes pediátricos tratados com corticosteróides por qualquer via de administração, incluindo a via sistémica, podem registar uma diminuição da velocidade de crescimento. De forma a minimizar os potenciais efeitos dos corticosteróides no crescimento, os doentes pediátricos devem ser tratados com a dose eficaz mais baixa.

Interacções[editar | editar código-fonte]

A dexametasona pode interagir com:

  • Anticoagulantes (varfarina e cumarinas)
  • Antiepilépticos (fenitoína e carbamazepina)
  • Antifúngicos (anfotericina)
  • Barbitúricos (fenobarbital)
  • Imunossupressores (metotrexato)
  • Vacinas

Reacções adversas[editar | editar código-fonte]

Farmacocinética[editar | editar código-fonte]

Absorção[editar | editar código-fonte]

Os corticosteróides são, em geral, rapidamente absorvidos pelo tracto gastrointestinal. Na administração tópica há absorção local e, consequentemente ocorrem efeitos sistémicos. As soluções intravenosas são administradas para obtenção de uma resposta rápida, mas as soluções intramusculares permitem efeitos mais prolongados.

Distribuição[editar | editar código-fonte]

Os corticosteróides são rapidamente distribuídos por todo o organismo. A ligação da dexametasona às proteínas plasmáticas é reversível e menor que na maioria de outros corticosteróides e calcula-se que seja de cerca de 77%. A dexametasona tem elevada afinidade para a globulina, mas baixa capacidade de ligação; por outro lado, tem baixa afinidade para a albumina, mas alta capacidade de ligação. Somente a fracção livre pode entrar nas células e mediar o efeito corticosteróide.

Estes compostos atravessam a placenta, sofrendo mínima inactivação. Os corticosteróides são distribuídos pelo leite materno.

Tempo de semi-vida[editar | editar código-fonte]

  • 3h ± 0,8h.

Metabolização[editar | editar código-fonte]

Os corticosteróides são essencialmente metabolizados no fígado mas também em outros tecidos. A metabolização lenta dos corticosteróides sintéticos, como a dexametasona, associada a uma baixa ligação às proteínas plasmáticas explica a elevada potência e a longa duração de acção comparada com os corticosteróides naturais.

Todos os adrenocorticosteróides biologicamente activos e os seus derivados sintéticos, como a dexametasona, têm uma dupla ligação entre C4-C5 e um grupo cetona no carbono C3. O metabolismo dos esteróides envolve a adição sequencial de átomos de oxigénio e hidrogénio, seguida de reacções de conjugação formando derivados solúveis em água. A redução da dupla ligação entre C4-C5 ocorre tanto no fígado como noutros locais, formando compostos inactivos. A redução da cetona em C3 para formar o derivado 3-hidroxil formando um tetrahidrocortisol, ocorre unicamente no fígado. Estes compostos com o anel A reduzido são conjugados pelo 3-hidroxil com sulfatos e glucoronídeos por reacções enzimáticas que ocorrem no fígado e em menor grau no rim. Os esteres de sulfatos e glucoronídeos são solúveis em água e são os metabolitos predominantemente excretadas na urina.

Eliminação[editar | editar código-fonte]

A excreção urinária atinge os 65% em 24 horas, sendo a clearance de 3,7±0.9 ml/min/kg. A excreção biliar e a excreção fecal não são significativas.

Toxicidade[editar | editar código-fonte]

Efeitos tóxicos[editar | editar código-fonte]

Os efeitos tóxicos da dexametasona resultam do abandono da terapêutica ou da administração prolongada de doses suprafisiológicas.

O problema mais frequentemente associado ao abandono da terapêutica é o agravamento da doença para a qual foi prescrita a dexametasona.

A terapêutica prolongada com doses suprafisiológicas de corticosteróides pode ter consequências como:

  • Glaucoma
  • Cataratas
  • Disritmias
  • Morte súbita
  • Enfarte do miocárdio
  • Hipertensão
  • Convulsões
  • Distúrbios comportamentais
  • Agravamento da Úlcera péptica
  • Agravamento da Pancreatite
  • Perfuração gastrointestinal em prematuros com elevadas doses
  • Miopatia
  • Osteoporose
  • Osteonecrose
  • Aparência cushingóide
  • Distúrbios hidroelectrolíticos
  • Atraso no crescimento

A ingestão aguda de dexametasona, mesmo em doses elevadas, raramente provoca problemas clínicos.

Níveis de Toxicidade[editar | editar código-fonte]

Sintomas e sinais tóxicos raramente ocorrem com a administração de dexametasona num período de tratamento inferior a 3 semanas.

Teratogenicidade[editar | editar código-fonte]

Uma relação risco/benefício é favorável com uma dose única de corticosteróides administrada a grávidas em risco de parto pré-termo. A eficácia é demonstrada com a diminuição da mortalidade e morbilidade. Há redução da eficácia quando são prescritos 2 ou mais ciclos de tratamento, na medida em que surgem efeitos adversos graves para o feto especialmente a nível neurológico.

É racional a prescrição de um ciclo de tratamento de corticosteróides, mas este não deve ser excedido.

Os recém-nascidos, de mães que receberam doses substanciais de corticosteróides durante a gravidez, deverão ser cuidadosamente observados para detecção de sinais de hipo-adrenalismo.

Síndrome de Cushing e gravidez[editar | editar código-fonte]

O excesso de glucocorticóides leva a que a gravidez raramente ocorra em mulheres com síndrome de Cushing, devido à amenorreia ou oligomenorreia que se evidencia em 75% destas mulheres por inibição da secreção da gonadototrofina.

Riscos maternais e fetais aumentam marcadamente quando a gravidez ocorre em mulheres com hipercortisolismo.

Lactação[editar | editar código-fonte]

Os corticosteróides são eliminados no leite e podem deter o crescimento das crianças, interferir com a produção endógena de corticosteróides, ou causar outros efeitos indesejáveis. As mulheres que tomam doses farmacológicas de corticosteróides devem ser aconselhadas a não amamentar.