Antibiótico

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Estrutura geral das penicilinas, um grupo de antibióticos.

Antibiótico é nome genérico dado a uma substância que tem capacidade de interagir com micro-organismos unicelulares ou com seres pluricelulares que causam infecções no organismo. Os antibióticos interferem com os micro-organismos, matando-os ou inibindo seu metabolismo e/ou sua reprodução, permitindo ao sistema imunológico combatê-los com maior eficácia.

O termo antibiótico tem sido utilizado de modo mais restrito para indicar substâncias que atingem bactérias, embora possa ser utilizado em sentido mais amplo (contra vírus, por exemplo). Ele pode ser bactericida, quando tem efeito letal sobre a bactéria ou bacteriostático, se interrompe a sua reprodução ou inibe seu metabolismo mas também causa efeitos significativos em doenças causadas por vírus como a gripe.

As primeiras substâncias descobertas eram produzidas por fungos, como a penicilina. Atualmente são sintetizadas ou alterados em laboratórios farmacêuticos e têm a capacidade de impedir ou dificultar a manutenção de um certo grupo de células vivas.

História[editar | editar código-fonte]

O primeiro antibiótico identificado pelo homem foi a penicilina. Alexander Fleming, médico microbiologista do St. Mary's Hospital, de Londres,[1] já vinha há algum tempo pesquisando substâncias capazes de matar ou impedir o crescimento de bactérias nas feridas infectadas, pesquisa justificada pela experiência adquirida na Primeira Grande Guerra 1914 - 1918, na qual muitos combatentes morreram em consequência da infecção em ferimentos e mal-tratados por falta de um tratamento adequado.

Em 1928 Fleming desenvolveu pesquisas sobre estafilococos, quando descobriu a penicilina. A descoberta da penicilina deu-se em condições muito peculiares, graças a uma sequência de acontecimentos imprevistos e surpreendentes.

No mês de agosto de 1928 Fleming tirou férias e, por esquecimento, deixou algumas placas com culturas de estafilococos sobre a mesa, ao invés de guardá-las na geladeira ou inutilizá-las, como seria natural. Ao retornar ao trabalho, em setembro do mesmo ano, observou que algumas das placas estavam contaminadas com mofo, fato este relativamente frequente. Colocou-as então, em uma bandeja para limpeza e esterilização com lisol. Neste exato momento entrou no laboratório um seu colega, Dr. Pryce, e lhe perguntou como iam suas pesquisas. Fleming apanhou novamente as placas para explicar alguns detalhes ao seu colega sobre as culturas de estafilococos que estava realizando, quando notou que havia, em uma das placas, um halo transparente em torno do mofo contaminante, o que parecia indicar que aquele fungo produzia uma substância bactericida. O assunto foi discutido entre ambos e Fleming decidiu fazer algumas culturas do fungo para estudo posterior.

O fungo foi identificado como pertencente ao gênero Penicillium, de onde deriva o nome da penicilina dado à substância por ele produzida. Fleming passou a empregá-lo em seu laboratório para selecionar determinadas bactérias, eliminando das culturas as espécies sensíveis à sua ação.

Foi o primeiro teste de reação penicilínica realizado em laboratório. Por outro lado, a descoberta de Fleming não despertou inicialmente maior interesse e não houve a preocupação em utilizá-la para fins terapêuticos em casos de infecção humana até a eclosão da Segunda Guerra Mundial, em 1939. Nesse ano e em decorrência do próprio conflito, a fim de evitarem-se baixas desnecessárias, foram então ampliadas as pesquisas a respeito da penicilina e seu uso humano.

Em 1940, Sir Howard Fleorey e Ernst Chain, da Universidade de Oxford, retomaram as pesquisas de Fleming e conseguiram produzir penicilina com fins terapêuticos em escala industrial, inaugurando uma nova era para a medicina denominada a era dos antibióticos.

Alguns anos mais tarde, Ronald Hare, colega de trabalho de Fleming, tentou, em vão, "redescobrir" a penicilina em condições semelhantes às que envolveram a descoberta de Fleming. Após um grande número de experiências verificou-se que a descoberta da penicilina só tornou-se possível graças a uma série inacreditável de coincidências, que foram:

  • O cogumelo que contaminou a placa, como se demonstrou posteriormente, é um dos três melhores produtores de penicilina dentre todas as espécies do gênero Penicilium;
  • O cogumelo contaminante teria vindo pela escada do andar inferior, onde se realizavam pesquisas sobre fungos;
  • O crescimento do cogumelo e dos estratococos se fez rapidamente, condição para se evidenciar a lise bacteriana;
  • No mês de Agosto daquele ano, em pleno verão, uma inesperada onda de calor em Londres, que proporcionou a temperatura ideal ao crescimento lento da cultura;
  • A providencial saída do Dr. Pryce no Laboratório permitiu que Fleming reexaminasse as placas contaminadas e observasse o halo transparente em torno do fungo, antes de sua inutilização.

Apesar de todas essas felizes coincidências, se Fleming não tivesse a mente preparada e avançada não teria valorizado ou mesmo notado o halo transparente em torno do fungo e descoberto a penicilina.

Classes de antibióticos[editar | editar código-fonte]

Os antibióticos podem ser classificados em bactericidas e bacteriostáticos, dependendo se o fármaco causa diretamente a morte das bactérias ou se apenas inibe sua replicação, respectivamente. Na prática, esta classificação se baseia no comportamento do antibiótico in vitro e ambas as classes podem ser eficazes no tratamento de uma infeção.[2]

Resistência antibiótica[editar | editar código-fonte]

A resistência antibiótica é a capacidade dos microrganismos de resistir aos efeitos de um antibiótico ou antimicrobiano. O uso inadequado de antibióticos (na terapia humana e na utilização como promotor de crescimento em animais que fazem parte da alimentação humana) conduz ao aparecimento de resistências, tornando os agentes antimicrobianos menos eficazes.[14] A resistência pode ser adquirida via: transformação, conjugação, transdução e mutação.

Prescrição[editar | editar código-fonte]

Segundo a Organização Mundial de Saúde, mais de 50 por cento dos antibióticos são prescritos de forma inadequada[15] , o que vem causando resistência à ação dos medicamentos. Em um encontro de especialistas, realizado em março de 2012 na Dinamarca, a diretora- geral da OMS, Margaret Chan alertou para o desafio que isso representa para os países em desenvolvimento, que são os principais afetados por diversas enfermidades. "Muitos países estão incapacitados pela falta de infra-estrutura, incluindo laboratórios, diagnósticos, confirmação de qualidade, capacidade de regulação, monitoramento e controle sobre a obtenção e a utilização de antibióticos", diz Chan[16] .

No Brasil[editar | editar código-fonte]

Para evitar o uso indiscriminado de antibiótico pela população e conter o avanço dos casos de contaminação por superbactérias começaram a valer novas regras a partir de 28 de novembro de 2010 para a venda de antibióticos nas farmácias e drogarias brasileiras (resolução RDC 44 da Agência Nacional de Vigilância Sanitária[17] ). Os medicamentos só podem ser vendidos com a apresentação de duas vias da receita médica, sendo que uma delas ficará com o estabelecimento e outra com o consumidor. A regra vale atualmente para 93 tipos de substâncias antimicrobianas que compõem todos os antibióticos registrados no Brasil. Estão de fora da lista os antibióticos usados exclusivamente em hospitais.[18]

Em Portugal[editar | editar código-fonte]

Em Portugal, os antibióticos são classificados como medicamentos sujeitos a receita médica (MSRM). Orgão regulador e fiscalizador é o instituto público Infarmed.[19] [20] A legislação portuguesa prevê penalidades semelhantes às leis brasileiras, entre outras definidas no Decreto-Lei nº 48547 de 1968 que regulamenta o exercício da atividade farmacêutica[21] — mesmo assim, a venda ilegal de antibióticos sem receita médica é, como no Brasil, problemática.[22]

A Direção-Geral da Saúde do Ministério da Saúde considera a resistência aos antibióticos "uma das maiores ameaças à Saúde Pública" atuais. Portugal é um dos países da Europa com taxas elevadas de resistência aos antibióticos.[22] O Programa Nacional de Prevenção das Resistências aos Antimicrobianos (PNPRA), introduzido no âmbito do Plano Nacional de Saúde 2004-2010[23] e concretizado em novembro de 2009 prevê diminuir até 2015, a nível nacional, as resistências aos antibimicrobianos estimulando o uso racional dos antibióticos e monitorizando as resistências atravês da implementação de um sistema informático de vigilância, entre outros.[24]

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. Sir Alexander Fleming The Nobel Prize. Visitado em 29 de abril 2011.
  2. Pelczar, M.J., Chan, E.C.S. and Krieg, N.R. (1999) “Host-Parasite Interaction; Nonspecific Host Resistance”, In: Microbiology Conceptsand Applications, 6th ed., McGraw-Hill Inc., New York, U.S.A. pp. 478-479.
  3. a b c d For common Uses and possible side effects reference is: Robert Berkow (ed.) The Merck Manual of Medical Information. Pocket (setembro de 1999), ISBN 0-671-02727-1.
  4. Supko JG, Hickman RL, Grever MR y Malspeis L.. (1995). "Preclinical pharmacologic evaluation of geldanamycin as an antitumor agent". Cancer Chemother Pharmacol 36 (4): 305-15. 7628050. Visitado em 30 de abril de 2011.
  5. Aljitawi OS, Krishnan K, Curtis BR, Bougie DW, Aster RH. Serologically documented loracarbef (Lorabid)-induced immune thrombocytopenia. Am J Hematol. 2003 May;73(1):41-3.
  6. a b c d e f Townsend 2005, p. 274
  7. FDA restringe uso de antibiótico telitromicina ALERT Life Sciences Computing. Visitado em 8 de julho de 2011.
  8. E Navas Elorza (2002). [Tetraciclinas, fenicoles, lincosamidas, polimixinas, espectinomicina, fosfomicina]. Medicine. Volume 08 - Número 70 p. 3763 - 3770.
  9. Celaya Rodriguez M, Moreno Navarrete J. Estudio bacteriológico y determinación de la sensibilidad a 21 antibióticos, en una población de pacientes atendidos en el Hospital General de México durante el año 1999. ENF INFEC Y MICRO 2001: 21(4): 129-144
  10. K. John Stone and Jack L. Strominger Mechanism of Action of Bacitracin: Complexation with Metal Ion and C55-Isoprenyl Pyrophosphate PNAS 1971 vol. 68 no. 12 pg. 3223-3227. Página visitada em 30 de abril de 2011
  11. Doxycycline Life-Extension-Drugs.com Página acessada em 30 de abril de 2011.
  12. Rich M, Ritterhoff R, Hoffmann R. (dezembro 1950). "A fatal case of aplastic anemia following chloramphenicol (chloromycetin) therapy.". Ann Intern Med 33 (6): 1459–67. 14790529.
  13. Lincosamides, Oxazolidinones, and Streptogramins Merck Manual of Diagnosis and Therapy. Visitado em 30 de abril de 2011.
  14. Resistência Antibiótica medicosdeportugal.saude.sapo.pt. Visitado em 1 dezembro de 2010.
  15. Correio do Estado: Entidades contra restrição fazem manifesto hoje correiodoestado.com.br. Visitado em 1 de dezembro de 2010.
  16. http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2012/03/120316_antibioticos_omc_ac.shtml
  17. ANVISA – RDC nº 44, de 26 de outubro de 2010 portal.anvisa.gov.br. Visitado em 1 de dezembro de 2010.
  18. Agência Brasil: A partir de hoje venda de antibióticos só com receita médica agenciabrasil.ebc.com.br. Visitado em 1 de dezembro de 2010.
  19. Decreto-Lei n.º 176/2006, de 30 de Agosto (pdf) infarmed.pt. Visitado em 1 de dezembro de 2010.
  20. Classificação Quanto à Dispensa infarmed.pt. Visitado em 1 de dezembro de 2010.
  21. IAPMEI: Decreto-Lei 48547, de 27 de Agosto de 1968 de 1 de Janeiro de 1970 iapmei.pt. Visitado em 1 de dezembro de 2010.
  22. a b PUBLICO.PT: Abuso do recurso a antibióticos em Portugal é um problema de saúde pública publico.pt. Visitado em 1 de dezembro de 2010.
  23. Programa Nacional de Prevenção das Resistências aos Antimicrobianos infarmed.pt. Visitado em 1 de dezembro de 2010.
  24. Direcção-Geral da Saúde: Programa Nacional de Prevenção das Resistências aos Antimicrobianos (pdf) dgs.pt. Visitado em 1 de dezembro de 2010.

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

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