Frade e a Freira

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LENDA E REALIDADE

José Augusto Carvalho

Em 1938, no livro de edição particular, Escada da vida, o poeta cachoeirense Benjamin Silva inseriu um soneto em que conta a versão mais difundida da lenda que explica a origem de uma escultura natural em duas montanhas situadas entre os municípios de Cachoeiro de Itapemirim e Rio Novo do Sul — “O Frade e a Freira”: “Na atitude piedosa de quem reza, / E como que num hábito embuçado, / Pôs naquele recanto a natureza / A figura de um frade recurvado. /§/ E sob um negro manto de tristeza / Vê-se uma freira tímida a seu lado, / Que vive ali rezando, com certeza, / Uma oração de amor e de pecado... /§/ Diz a lenda — uma lenda que espalharam — / Que aqui, dentre os antigos habitantes, / Houve um frade e uma freira que se amaram... /§/ Mas que Deus os perdoou lá do infinito, / E eternizou o amor dos dois amantes / Nessas duas montanhas de granito.” Em 1968, Maria Stella de Novaes publicou um livro de 163 páginas intitulado Lendas Capixabas, pela FTD, em que contesta essa versão eternizada por Benjamin Silva, sob a alegação de que as freiras só chegaram ao Espírito Santo no início do século XX, e que “Uma lenda não pode incidir num anacronismo. Nem discrepar da História”(p. 56). Rodrigo Campaneli, em 2004, publicou um livro com o título As mais belas lendas capixabas, editado em Vitória pela Casa de Artes Campaneli Ltda. A primeira lenda que ele reconta intitula-se “O Frade e a Índia” (p. 8-11), em que substitui a figura da freira pela de uma indiazinha, sob a mesma alegação de Maria Stella de Novaes de que a lenda não pode discrepar da História e de que não havia freiras aqui no séc. XVII. No entanto, uma lenda pode dar-se o luxo de falsear a história. A Canção de Roland, por exemplo, é uma lenda. No entanto, Carlos Magno é, na gesta francesa, imperador da França, usava barba e era um velho de quase duzentos anos. Em primeiro lugar, à época em que se desenrola a cena da batalha de Roncevaux (Roncesvales), Carlos Magno ainda não era imperador (778). Só o seria vinte e dois anos depois. Em segundo lugar, Carlos Magno nunca foi imperador da França, porque a França ainda não existia, no século VIII, como nação. Em terceiro lugar, à época de Roland não se usava barba, mas apenas bigode. A barba longa era moda do século XII, século em que a canção foi escrita. Em quarto lugar, Carlos Magno não atingiu os duzentos anos. À data da batalha de Roncesvales, Carlos Magno tinha pouco mais de trinta anos. Uma lenda, portanto, pode ter anacronismos.

   Finalmente, com relação a discrepar dos acontecimentos reais, a Canção de Roland também falseia a História. A batalha em que Roland pereceu não era contra os mouros (que o poeta da canção chama, falsamente, de idólatras), mas contra montanheses bascos. Assim, ao contrário do que pretenderam Maria Stella de Novaes e Rodrigo Campaneli, uma lenda pode apresentar tanto anacronismos quanto discrepâncias históricas. O fato de uma índia usar  manta, segundo a versão desses dois autores,  parece-me mais discrepância histórica do que a que foi apontada na versão de Benjamin Silva.
        Que importa na ficção a realidade histórica? A versão que deu nome às montanhas (o amor entre um frade e uma freira eternizado em granito pelo perdão divino) é muito mais poética e muito mais bonita. Por que recontá-la de outro jeito, contrariando a tradição e o nome das duas montanhas? Será que o nome “o frade e a índia” pegaria? Ficaria melhor? Será que a montanha mais baixa lembra uma índia e não uma freira de véu? 

Respeitemos a tradição!


Lenda[editar | editar código-fonte]

Do seu formato, que lembra a imagem de um frade e uma freira, surgiram lendas diversas. Diz uma delas que um frade e uma freira se apaixonaram, e como suas vidas deveriam ser dedicadas a servir a Deus, não puderam se render ao amor humano. Como forma de permanecerem unidos, os dois foram transformados em montanha, e ficam se admirando eternamente esculpidos em granito.

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