João Damasceno

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Ir para: navegação, pesquisa
São João Damasceno
Ícone grego representando
São João Damasceno
Doutor da Igreja
Nascimento 675 em Damasco
Morte 4 de dezembro de 749 (74 anos) em Mar Saba, Jerusalem
Veneração por Igreja Católica; Igreja Ortodoxa; Igreja Luterana; Comunhão Anglicana
Festa litúrgica 4 de dezembro
Gloriole.svg Portal dos Santos

João Damasceno ou João de Damasco (em grego: Ἰωάννης ὁ Δαμασκηνός - Iōannēs ho Damaskēnos; em latim: Iohannes Damascenus), dito Chrysorrhoas ("boca de ouro"), foi um monge e sacerdote sírio. Nascido e criado em Damasco, ele morreu em seu mosteiro, Mar Saba, perto de Jerusalém[1] .

Um polímata cujos interesses incluíam direito, teologia e música, algumas fontes afirmam que serviu como administrador-chefe do califa de Damasco antes de sua ordenação[2] [3] . Ele escreveu obras explicando a fé cristã e compôs hinos que ainda são utilizados na liturgia no cristianismo oriental por todo o mundo. Ele é considerado como "o último dos Padres da Igreja" pela Igreja Ortodoxa e é mais conhecido por sua contundente defesa da veneração de ícones[4] . A Igreja Católica o considera um Doutor da Igreja, geralmente chamado de "Doutor da Assunção" por causa de suas obras sobre a Assunção de Maria[5] .

Biografia[editar | editar código-fonte]

A fonte mais utilizada para obter informações sobre a vida de João Damasceno é uma obra atribuída a João de Jerusalém, identificado nela como sendo o patriarca de Jerusalém[6] , que é uma tradução para o grego de um original árabe. Este, por sua vez, não contém um prólogo encontrado na maioria das traduções e foi escrita por um monge árabe chamado "Miguel". Miguel explica que decidiu escrever a biografia em 1084 por que não havia nenhuma disponível na época. Porém, o texto principal em árabe parece ter sido escrito por um autor anterior em algum momento entre o início do século IX e o final do século X[6] . Escrito de um ponto de vista hagiográfico e, por isso, propenso a exageros e detalhes lendários, não é a melhor fonte para informações sobre a vida de João, mas foi amplamente reproduzido e contém alguns elementos valiosos[7] .

A novela hagiográfica "Barlaão e Josafá", tradicionalmente atribuída a João, é, na realidade, uma obra do século X de autor desconhecido[8] .

Histórico familiar[editar | editar código-fonte]

João nasceu numa proeminente família conhecida como Mansour (em árabe: المنصور - al-Mansǔr: "vitoriosa") em Damasco no século VII[9] [10] . Seu nome completo era Yuhanna (ou Yanah) ibn Mansur ibn Sarjun (em árabe: منصور بن سرجون), em homenagem ao seu avô Mansur, que fora responsável pela coleta de impostos na região sob o imperador bizantino Heráclio[9] [11] . A falta de documentação atestando a sua linhagem tribal específica levou a diversos acadêmicos a colocá-lo entre os Taghlib ou os Kalb, duas proeminentes tribos cristãs-árabes do Deserto da Síria[12] . Outros sugerem que ele pode ter sido um sírio de origem não-árabe[12] [13] [14] . Qualquer que seja o caso, João Damasceno tinha dois nomes: João, seu nome cristão, e seu nome árabe, citado como Qurein, Yana ou[11] .

Euthychius, um patriarca melquita do século X, menciona um certo governador árabe da cidade que teria rendido-a aos muçulmanos, provavelmente o avô de João Mansur Bin Sargun.[15] . Quando a região caiu sob o jugo dos omíadas no final do século V, a corte de Damasco manteve seu grande contingente de servidores civis cristãos, inclusive o avô de João[9] [15] . O pai dele, Sarjun (Sergius) ou Ibn Mansur, continuou a servir os califas omíadas[9] . De acordo com João de Jerusalém e algumas versões posteriores de sua vida, após a morte do pai, João também serviu na corte do califa antes de se tornar monge. Esta alegação tem sido questionada uma vez que ele não é mencionado nas fontes muçulmanas, que, contudo, se referem ao seu pai[16] . Além disso, as obras do próprio João Damasceno jamais fizeram referência à qualquer experiência na corte muçulmana por parte dele. Acredita-se que João tenha se tornado monge em Mar Saba e que foi ordenado sacerdote em 735[9] [10] .

Educação[editar | editar código-fonte]

Uma das Vitae descreve o desejo de seu pai para ele, de "aprender não apenas através dos livros dos muçulmanos, mas dos gregos também". A partir disso, sugere-se que João possa ter sido criado de forma bilíngue[17] . Ele de fato mostra algum conhecimento do Corão, que ele critica duramente[18] .

Iluminura mostrando o patriarca João VII Gramático destruindo um ícone.
Detalhe do Saltério de Chludov.

Outras fontes descrevem a sua educação em Damasco como tendo sido conduzida de acordo com os princípios da educação helenística, chamada de "secular" por uma fonte e "cristã clássica" por outra[19] [20] . Um relato identifica seu tutor como um monge chamado Cosmas, que teria sido raptado pelos árabes de sua casa na Sicília, e por quem o pai de João teria pago uma grande quantia. Sob a instrução de Cosmas, que também ensinava para o amigo orfão de João (que seria conhecido como Cosme de Maiuma), acredita-se que João tenha feito grandes avanços em música, astronomia e teologia, logo rivalizando Pitágoras em aritmética e Euclides em geometria[20] .

Defesa dos ícones[editar | editar código-fonte]

No início do século VIII, o iconoclasma, um movimento que buscava proibir a veneração de ícones, ganhou força no Império Bizantino. Em 726, apesar dos protestos do patriarca Germano I de Constantinopla, o imperador Leão III, o Isáurio emitiu seu primeiro édito contra a veneração de imagens e sua exibição em lugares públicos[21] . Um escritor talentoso - e protegido por estar em território do califa - João Damasceno iniciou uma vigorosa defesa das imagens sagradas em três publicações separadas. A mais antiga, chamada "Tratados Apologéticos contra a Condenação das Imagens Sagradas", assegurou a sua reputação. Ele não somente atacou o imperador, mas adotou um estilo simples que permitiu que a controvérsia fosse acompanhada pelo povo mais simples, estimulando a rebelião entre os fiéis. Posteriormente, suas obras também teriam um papel importante durante o Segundo Concílio de Niceia (787), que se reuniu justamente para tratar do assunto.

A biografia de João Damasceno reconta pelo menos um episódio considerado como improvável ou lendário[22] [23] . Ela relata que Leão III enviou documentos falsificados para o califa que implicavam João numa conspiração para atacar Damasco. O califa teria então ordenado que a mão direita de João fosse amputada e pendurada em lugar público. Alguns dias depois, João pediu a restituição de sua mão e rezou fervorosamente pela intervenção da Theotokos (Virgem Maria) perante seu ícone: depois disso, diz-se que sua mão foi milagrosamente curada[22] . Em agradecimento pela cura milagrosa, ele anexou uma mão de prata ao ícone, que passou a ser conhecido a partir daí como "Três mãos" ou Tricheirousa[24] . A biografia continua afirmando que, depois deste evento, João pediu permissão para deixar seu posto e se retirou para o mosteiro de Mar Saba. Um editor de suas obras, o padre Lequien, demonstrou, porém, que João de Damasco já era monge em Mar Saba antes da disputa iconoclasta, um fato que só torna a história ainda mais improvável[22] . Já se argumentou que João deixara Damasco para se tornar monge em 706, quando al-Walid I tornou mais agressiva a islamização entre os servidores da administração do califado[25] . Fontes muçulmanas mencionam apenas que Sarjun, pai de João, teria deixado a administração nesta época, sem mencionar João[26] .

Anos finais[editar | editar código-fonte]

João morreu em 749 e foi logo reconhecido como santo. Em 1883 ele foi declarado Doutor da Igreja pela Santa Sé.

Devoção[editar | editar código-fonte]

Quando o nome de São João Damasceno foi inserido no Calendário Geral Romano, em 1890, ele era festejado em 27 de março. Esta data sempre cai na Quaresma, um período no qual não se comemoram os memoriais obrigatoriamente. Em 1969, ela foi mudada para o dia da morte do santo, 4 de dezembro, o dia no qual ela é celebrada também na Igreja Ortodoxa[27] .

Lista de obras[editar | editar código-fonte]

Além de suas obras puramente textuais, muitas das quais estão listadas abaixo, João Damasceno também compôs hinos, aperfeiçoando o "canon", um hino de forma estruturada utilizado na Igreja Ortodoxa[28] .

Primeiras obras[editar | editar código-fonte]

São João Damasceno.
  • Os três "Tratatos Apologéticos contra a Condenação das Imagens Sagradas" - estes tratados estão entre as suas primeiras obras em resposta ao édito do imperador bizantino Leão III, o Isáurio contra a veneração e exibição das imagens sagradas[29] .

Ensinamentos e obras dogmáticas[editar | editar código-fonte]

  • Fonte de Conhecimento ou Fonte da Sabedoria, dividida em três partes:
    1. Capítulos filosóficos (Kephálaia philosophiká) – Geralmente chamados de "Dialética", lida principalmente com lógica, sendo o seu principal objetivo preparar o leitor para melhor entender o resto do livro.
    2. Sobre a Heresia (Perì hairéseōn) – O último capítulo desta parte (cap. 101) lida com a heresia dos ismaelitas[30] . Ao contrário das seções anteriores, devotadas a combater outras heresias, dispostas em poucas linhas de forma sucinta, este capítulo cobre várias páginas. É um dos primeiros exemplos de escritos polêmicos contra o Islã e o primeiro escrito por um membro da ortodoxia bizantina.
    3. Uma Composição Exata da Fé Ortodoxa (Ékdosis akribès tēs Orthodóxou Písteōs) – Um sumário do escritos dogmáticos dos primeiros Padres da Igreja. Esta foi a primeira obra do escolasticismo no cristianismo oriental e foi uma importante influência no pensamento escolástico posterior[31] .
  • Contra os Jacobitas
  • Contra os Nestorianos
  • Diálogo contra os Maniqueístas
  • Introdução Elementar nos Dogmas
  • Carta sobre o Hino Três Vezes Sagrado
  • Sobre o Pensamento Correto
  • Sobre a Fé, contra os Nestorianos
  • Sobre as Duas Vontades em Cristo (Contra os Monotelitas)
  • Paralelos SagradosSacred Parallels (de atribuição dúbia)
  • Sobre Dragões e Fantasmas

Referências

  1. M. Walsh, ed. Butler's Lives of the Saints(HarperCollins Publishers: New York, 1991), pp. 403.
  2. Suzanne Conklin Akbari, Idols in the East: European representations of Islam and the Orient, 1100-1450, Cornell University Press, 2009 p.204
  3. David Richard Thomas, Syrian Christians under Islam: the first thousand years, Brill 2001 p.19.
  4. Aquilina 1999, pp. 222
  5. Christopher Rengers The 33 Doctors Of The Church Tan Books & Publishers, 200, ISBN 0-89555-440-2
  6. a b Sahas 1972, pp. 32
  7. Sahas 1972, pp. 35
  8. R. Volk, ed., Historiae animae utilis de Barlaam et Ioasaph (Berlin, 2006).
  9. a b c d e Brown, 2003, p. 307.
  10. a b McEnhill and Newman, 2004, p. 154.
  11. a b Sahas 1972, pp. 8–9
  12. a b Sahas 1972, pp. 7
  13. Louth 2005, pp. 5
  14. Griffith, Sidney H.. John of Damascus and the Church in Syria in the Umayyad Era: The Intellectual and Cultural Milieu of Orthodox Christians in the World of Islam. Página visitada em 9 December 2011.
  15. a b Sahas 1972, pp. 17
  16. Robert Hoyland, Seeing Islam as Others Saw It Darwin Press: Princeton, 1996, 481.
  17. Valantasis, p. 455
  18. Hoyland,Seeing Islam as Others Saw It, 487-489.
  19. Louth, 2002, p. 284.
  20. a b Butler et al., 2000, p. 36.
  21. Wikisource-logo.svg "St. John Damascene" na edição de 1913 da Catholic Encyclopedia (em inglês)., uma publicação agora em domínio público.
  22. a b c São João Damasceno (em inglês). Catholic.org. Página visitada em 05/08/2012.
  23. Jameson, 2008, p. 24.
  24. Andrew Louth, St. John Damascene: tradition and originality in Byzantine theology, Oxford University Press, 2002 pp.17,19.
  25. Louth 2003, pp. 9
  26. Robert Hoyland, Seeing Islam (Princeton, 1996) 481.
  27. Calendarium Romanum (Libreria Editrice Vaticana 1969), pp. 109 and 119; cf. Britannica Concise Encyclopedia
  28. Shahid 2009, pp. 195
  29. St. John Damascene on Holy Images, Followed by Three Sermons on the Assumption – Eng. transl. by Mary H. Allies, London, 1899.
  30. St. John of Damascus’s Critique of Islam
  31. Ines, Angeli Murzaku. Returning home to Rome: the Basilian monks of Grottaferrata in Albania. 00046 Grottaferrata (Roma) - Italy: Analekta Kryptoferri, 2009. 37 p. ISBN 88-89345-04-7

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

O Commons possui uma categoria contendo imagens e outros ficheiros sobre João Damasceno