Língua birmanesa

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Ir para: navegação, pesquisa
Birmanês (မြန်မာစာ (escrito)
မြန်မာစကား (falado))
Pronúncia: [mjã̀mmàzà]
Falado em: Birmânia (Mianmar), Tailândia, Malásia, Singapura
Região: Mianmar
Total de falantes: Língua materna: 32 milhões
Como segunda língua: 10 milhões
Família: Sino-tibetana
 (Tibeto-birmanesa)
  Lolo-birmanesa
   Birmanesa
    Meridional
     Birmanês
Escrita: Alfabeto birmanês
Estatuto oficial
Língua oficial de: Comissão da Língua de Myanmar
Códigos de língua
ISO 639-1: my
ISO 639-2: bur (B) mya (T)
ISO 639-3: mya

O birmanês (no alfabeto birmanês မြန်မာဘာသာ; AFI[mjã̀mmà bàθà]; MLCTS: myanma bhasa) é a língua oficial de Mianmar (antiga Birmânia). Embora o governo reconheça o idioma oficialmente como Myanmar, continua a ser conhecido como língua birmanesa. É a língua nativa dos bamar e de outros subgrupos étnicos relacionados, e é falado como língua materna por 32 milhões de pessoas, e pelas minorias étnicas do país, como segundo idioma.

O birmanês faz parte das línguas tibeto-birmanesas, uma subfamília da família linguística sino-tibetanas. É um idioma tonal e analítico, que usa o alfabeto birmanês, derivado do alfabeto mon, que por sua vez vem do alfabeto brāhmī.

Língua literária e oral[editar | editar código-fonte]

A língua birmanesa é chamada de မြန်မာဘာသာ}} ([mjã̀mmà bàθà]), onde ဘာသာ vem do páli bhasa, que significa "língua". O idioma é classificado em duas categorias; uma, formal, é usada em obras literárias, publicações oficiais, transmissões de rádio e discursos formais, enquanto a outra é coloquial, usada na conversação cotidiana. Isto se reflete nas palavras birmaneses para "língua": စာ, ca [sà] se refere à língua escrita, e စကား, ca.ka: [zəɡá] se refere à língua falada. Birmanês, portanto, pode ser tanto မြန်မာစာ, mranma ca (birmanês escrito), ou မြန်မာစကား, mranma ca.ka: (birmanês falado). A porção မြန်မာ mranma destes nomes pode ser pronunciado como [mjàmmà] ou, coloquialmente, ဗမာ ([bəmà]).

Diglossia[editar | editar código-fonte]

A diglossia ocorre extensivamente no birmanês. A discrepância é grande, e diversos linguistas consideram o birmanês formal como um idioma separado do birmanês coloquial. A forma escrita e prestigiosa do birmanês passou por poucas mudanças ao longo dos tempos, e tende a não acomodar a fonologia coloquial do birmanês padrão moderno. O ditado birmanês "a pronúncia é apenas o som, enquanto a ortografia é correta" (ဖတ်တော့အသံ၊ ရေးတော့အမှန်, [pʰaʔ dɔ̰ ʔəθã̀ jé dɔ̰ ʔəm̥ã̀]) reflete as diferenças entre o birmanês falado e escrito, onde a maneira com que uma palavra é soletrada nem sempre é um reflexo preciso de sua pronúncia.

Além disso, partículas destinadas a modificar substantivos e verbos são usadas mais na forma culta que na oral; os falantes do birmanês literário também são capazes de interpretar intuitivamente o antigo birmanês, apesar das inscrições terem séculos de idade, devido às regras inatas de pronúncia. Por exemplo, ၌ (hnai.), que serve como uma posposição usada depois de substantivos apenas no birmanês formal, e é မှာ (hma) no birmanês coloquial.

Um sistema mais novo de ortografia para o birmanês, baseado na fonologia, foi proposto para acomodar tais diferenças, porém um empecilho às tentativas de reformas ortográficas no birmanês se encontra na existência de dialetos conservadores do idioma, que mantêm pronúncias arcaicas, mais semelhantes ao birmanês formal, especialmente em áreas litorâneas como o estado de Rakhine. Alguns linguistas birmaneses propuseram um afastamento do birmanês formal, na medida em que alguns meios de comunicação, como programas de televisão, passaram a adotar o vernáculo; apesar disso, o birmanês formal permanece solidamente estabelecido na sociedade birmanesa. Desde meados da década de 1960 iniciou-se um movimento de reforma, por alguns escritores birmaneses (especialmente de esquerda, que acreditam que a língua do povo leigo), para que se abandonasse o estilo literário em favor do vernáculo na própria escrita, porém o estilo literário permanece a forma mais usada, com o argumento que "ao estilo oral falta gravidade, autoridade, dignidade".[1] [2] O estilo literário formal continua a ser usado na literatura birmanesa, em boletins de notícias no rádio, cartas formais, romances, jornalismo e livros sobre assuntos sérios ou educativos.[1]

A sentença abaixo mostra que muitas das diferenças entre o birmanês coloquial e o formal ocorrem nas suas partículas:

Formal ရှစ်လေးလုံးအရေးအခင်း ဖြစ် သောအခါက လူ ဦးရေ သုံးထောင် မျှ သေဆုံး ကြ ခဲ့ သည်။
Coloquial ရှစ်လေးလုံးအရေးအခင်း ဖြစ် တုံးက လူ အယောက် သုံးထောင် လောက် သေ ခဲ့ တယ်။
Gloss substantivo verbo part. subst. part. adj. part. verb part. part. part.
(Levante de 8888) (acontecer) (quando ocorreu) (pessoas) (indicador de contagem) 3.000 (aproximadamente) (morrer) (indicador de plural) (indicador de tempo passado) (indicador de fim da oração)
Tradução Quando o Levante de 8888 aconteceu, aproximadamente 3.000 pessoas morreram.

O birmanês coloquial apresenta diversos níveis de polidez; os pronomes de primeira e segunda pessoas de fato do idioma, ငါ (nga [ŋà]; "eu; mim") e နင် ([nĩ̀]; "você") são usados apenas com as pessoas mais próximas, da mesma idade ou mais jovens. O uso de nga e nin com idosos e estranhos é considerado extremamente rude ou vulgar. Para se dirigir a anciãos, professores e estranhos, as formas mais polidas empregam pronomes de terceira pessoa da era feudal, no lugar destes pronomes de primeira e segunda pessoa. Deve-se referir a si próprio na terceira pessoa: ကျွန်တော် (kya. nau [tʃənɔ̀]), para homens, e ကျွန်မ (kya. ma. [tʃəma̰]) para mulheres, ambos com o significado de "seu criado") e referir-se ao interlocutor como မင်း (min [mĩ́]; "sua alteza"), ခင်ဗျား (khin bya: [kəmyá]; "senhor mestre")[3] ou ရှင် (shin [ʃĩ̀]; "soberano/mestre"). Estes termos impregnaram de tal maneira o birmanês falado formal ou polido cotidiano que as pessoas os usam como pronomes de primeira e segunda pessoa sem pensar duas vezes sobre o significado original destes pronomes.

Ao falar com uma pessoa do mesmo status social, ou mais jovem, nga e nin podem ser usados. Ainda assim, a maior parte das pessoas prefere utilizar os pronomes de terceira pessoa, por segurança. Por exemplo, um indivíduo mais velho pode usar daw-lay ("tia") ou u-lay ("tio") para se referir a si próprio, e referir-se ao indivíduo mais jovem como tha ("filho") ou thami ("filha"). Ao se dirigir a um monk, costuma-se referir ao próprio monge como poun-poun e a si próprio como daga (ဒဂါ (da. ga [dəɡà]), ou ainda dabyidaw ou dabyidawma. Já os próprios monges birmaneses costumam falar entre si usando o páli, e esperam que os fiéis budistas birmaneses tenham um conhecimento básico deste idioma.

Apesar das grandes diferenças, os falantes do birmanês raramente distinguem entre o birmanês formal e o coloquial como idiomas diferentes, mas sim como dois registros do mesmo idioma.

Dialetos e sotaques[editar | editar código-fonte]

Apesar de suas origens na Alta Birmânia, o dialeto padrão do birmanês atual vem de Rangum, devido à influência da maior cidade do país na sua mídia. Anteriormente o dialeto de Mandalay representava o birmanês padrão, e até hoje as diferenças entre Rangum (Baixa Birmânia) e Mandalay (Alta Birmânia) não estão no sotaque ou na pronúncia, e sim no uso do vocabulário. Por exemplo, a característica mais notável do dialeto de Mandalay é o seu uso do pronome ကျွန်တော် (kya. nau [tʃənɔ̀]) tanto para homens quanto mulheres, enquanto em Rangum ကျွန်မ (kya. ma. [tʃəma̰]) é usado para se referir a mulheres. Além disso, o falar da Alta Birmânia também diferencia os parentes dos lados paternos e maternos, enquanto o birmanês da Baixa Birmânia não mais o faz.

Exemplo:

Termo Baixo birmanês Alto birmanês
  • tia maternal (velha)
  • tia maternal (jovem)
  • daw-gyi (ou kyikyi)
  • daw-lay
  • daw-gyi (ou kyikyi)
  • daw-lay
  • tia paternal (velha)
  • tia paternal (jovem)
  • daw-gyi (ou kyikyi)
  • daw-lay
  • ah-yi-gyi ou yi-gyi
  • ah-yi-lay ou yi-lay
  • tio maternal (velho)
  • tio maternal (jovem)
  • ba-gyi
  • u-lay
  • u-gyi
  • u-lay
  • tio paternal (velho)
  • tio paternal (jovem)
  • ba-gyi
  • u-lay
  • ba-gyi
  • ba-lay

Como prova do poder da mídia, o dialeto de Rangum está ganhando força até mesmo na Alta Birmânia. Certas formas específicas do dialeto alto birmanês, embora sejam precisas histórica e tecnicamente, são cada vez mais vistas como pertencentes a um falar rural, ou pelo menos regional.

As diferenças mais significantes entre os sotaques e o uso de determinadas palavras surgem à medida que se afasta do vale do Ayeyarwady, rumo às áreas periféricas do país. Dialetos importantes incluem o merguês, o yaw, o palaw, o beik (myeik) e o dawei (tavoyan). O dialeto de Rakhine (arakanês) é reminiscente do birmanês arcaico, especialmente em seu uso do som de [r], que se tornou um [j] no birmanês padrão. Os dialetos da Divisão Tanintharyi, como o beik, frequentemente reduz a intensidade da oclusiva glotal. O dialeto dawei preservou a medial [-l-], que é encontrada apenas em inscrições do antigo birmanês. Apesar de diferenças em vocabulário e pronúncia, há uma inteligibilidade mútua entre os dialetos.

Vocabulário[editar | editar código-fonte]

A maior parte do vocabulário birmanês é monossilábico, e pertence ao grupo tibeto-birmanês, embora muitas das palavras, especialmente aqueles empréstimos de outros idiomas, são polissilábicas. O birmanês foi muito influenciado pelo páli, pelo inglês e pelo mon e, em menor grau, pelo chinês, sânscrito e hindi.

Os empréstimos do páli frequentemente estão relacionados a religião, governo, artes e ciência, enquanto os empréstimos do inglês frequentemente se referem a tecnologia, medidas e instituições modernas. O mon influenciou o birmanês de tal maneira que diversos destes empréstimos linguísticos deste idioma não são mais distinguidos pelos falantes do birmanês como tal; relacionam-se principalmente à flora, fauna, administração, indústria têxtil, náutica, arquitetura e música.[1] Também apresentam algum destaque, embora em menor escala, os empréstimos do sânscrito, relacionados à religião, do chinês, a jogos e comida, e do hindi, a comida, administração e navegação.[1]

Esta é uma amostra destes empréstimos comumente encontrados no birmanês:

  • sofrimento: ဒုက္ခ ([doʔkʰa̰]), do páli dukkha
  • rádio: ရေဒီယို ([rèdìjò]), do inglês "radio"
  • método: စနစ် ([səniʔ]), do mon
  • rolinho primavera: ကော်ပြန့် ([kɔ̀pjã̰]), do hokkien 潤餅 (jūn-piáⁿ)
  • esposa: ဇနီး ([zəní]), do hindi jani
  • macarrão: ခေါက်ဆွဲ ([kʰaʊʔ sʰwé]), do shan [kʰāw sʰēn]
  • pé (unidade de medida): ပေ ([pè]), do português
  • bandeira: အလံ ([əlã̀]), do árabe علم ʕalam
  • almoxarifado: ([ɡodãʊ̃]), do malaio gudang

O birmanês costuma apresentar muitos sinônimos para a mesma palavra, cada qual usado em determinada circunstância, seja ela formal, literária, coloquial ou poética. Um exemplo é a palavra "lua", que pode ser (la̰; tibeto-birmanês), စန္ဒာ/စန်း ([sàndà]/[sã́]); derivados páli de chanda), ou သော်တာ ([θɔ̀ dà] (sânscrito).[4]

O birmanês também tem uma tendência a fazer 'duplos-empréstimos' do páli, adotando dois termos diferentes baseados no mesmo radical páli.[5] Um exemplo é o páli mana, que em birmanês apresentou dois derivados diferentes, မာန (màna̰), ou 'arrogância' e မာန် ([mã̀]), ou 'orgulho').

Além disso, algumas palavras do birmanês emprestadas de outros idiomas, especialmente do páli, frequentemente anexam palavras birmanesas a radicais do páli. Um exemplo é "avião" လေယာဉ်ပျံ ([lèi jĩ̀ bjã̀], literalmente "ar máquina voar"), que inclui လေ (palavra nativa birmanesa, "ar"), ယာဉ် (empréstimo do páli, derivado de yana, "veículo") e ပျံ (palavra nativa birmanesa, "voar").[5] Uma tendência similar tem sido vista com relação ao inglês, na qual palavras birmanesas são anexadas a empréstimos do inglês, como no verbo "to sign" ("assinar"), ဆိုင်းထိုး ([sʰã́ĩ tʰó] "inscrever uma assinatura"), com ဆိုင်း (empréstimo do inglês "sign") e ထိုး (palavra nativa birmanesa "inscrever").[5] Os empréstimos do mon são difíceis de serem distinguidos, na maior parte dos casos, porque frequentemente são empréstimos do idioma oral, e não do escrito, já que por muitos séculos o birmanês e o mon foram usados de maneira alternada no território da atual Birmânia e, posteriormente, Mianmar.[5]

Por vezes o governo birmanês tentou limitar o uso de empréstimos ocidentais, especialmente do inglês. No país, por exemplo, publicações que contenham a palavra တယ်လီဗီးရှင် (transliteração direta do inglês television, 'televisão') devem ter em seu lugar um substituto birmanês, ရုပ်မြင်သံကြား, literalmente 'ver figura, ouvir som.' Outro empréstimo comum do inglês cujo uso foi desestimulado é ယူနီဗာစတီ ([jùnìbàsətì], do inglês university, "universidade"), que foi substituído com um empréstimo recente do páli, တက္ကသိုလ် ([teʔkəðò]), criado pelo governo birmanês, e que recebeu o nome de uma antiga cidade universitária no Paquistão atual, chamada Taxila.

Escrita[editar | editar código-fonte]

Amostras de diversos estilos de escrita utilizados no birmanês.

O birmanês geralmente é dividido em antigo birmanês, birmanês médio e birmanês moderno. O antigo birmanês data do século XI ao século XVI, durante as dinastias Pagan (Bagan) e Ava (Innwa); o birmanês médio do século XVI ao século XVIII (dinastias Taungoo a Konbaung); e o birmanês moderno de meados do século XVIII (dinastia Konbaung) até a atualidade.[1] Estas divisões periódicas são baseadas principalmente nas mudanças ortográficas (às quais se seguiram mudanças na fonologia, como a fusão das mediais [-l-] e [-r-]), e não em transformações na estrutura gramatical e fonológica do birmanês, que não se alterou significativamente do birmanês antigo ao moderno.[1]

O birmanês escrito data do reinado de Kyanzittha (1084-1113); a escrita mon, que vem por sua vez da escrita brāhmī, foi adaptada, com diversas alterações para se adequar à fonologia do idioma, para transcrever o birmanês. A evidência mais antiga do birmanês escrito é a inscrição na pedra de Myazedi, de 1113, que narra a história do rei Kyanzittha, contada por seu filho, o príncipe Yazakumar, em quatro escritas diferentes: pyu, mon, páli e birmanês. Durante a era da dinastia Pagan, a medial [-l-] (္လ) era transcrita, e foi substituída pelas mediais [-j-] () e [-r-] () no birmanês moderno (ex.: "escola", no antigo birmanês က္လောင် ([klɔŋ]) comparado ao birmanês moderno ကျောင်း ([tʃã́ũ]).[6]

A escrita birmanesa caracteriza-se por seus diacríticos e letras circulares. É um abugida, com todas as suas letras contendo uma vogal inerente (a. [a̰] ou [ə]). Indicações de tom são feitas na forma de diacríticos colocados à esquerda, direita, no topo e embaixo das letras, porém nem sempre indicam o tom apropriado. Da mesma maneira, o birmanês escrito preservou todos os finais anasalados ([-n, m, -ŋ]), que se fundiram com [-n] no birmanês falado. A exceção é [-ɲ], que, no birmanês falado, pode ser uma das muitas vogais abertas ([i, e, ɛ]). Da mesma maneira, outros finais consonantais ([-s, -p, -t, -k]) foram reduzidos para [-ʔ]. Fusões semelhantes podem ser vistas em línguas sino-tibetanas como o xangainês e, em menor escala, o cantonês.

A maior parte da ortografia do birmanês escrito hoje em dia remonta ao birmanês médio, que tinha uma gama mais ampla de consoantes finais. Uma padronização na indicação dos tons só foi atingida no século XVIII; a partir do século XIX os ortógrafos criaram métodos especiais destinados a reformar a grafia do birmanês, devido às confusões e ambiguidades que surgiram a respeito dos sons que haviam sido fundidos.[1] Durante o período colonial, sob o domínio britânico, a ortografia foi padronizada através de dicionários e métodos específicos. A autoridade ortográfica mais recente, chamada de Myanma Salonpaung Thatpon Kyan မြန်မာစာလုံးပေါင်းသတ်ပုံကျမ်း)), foi compilada em 1978, a pedido do governo birmanês.[1]

Fonologia[editar | editar código-fonte]

As transcrições nesta seção usam o alfabeto fonético internacional.

Consoantes[editar | editar código-fonte]

As consoantes do birmanês são as seguintes:

Bilabial Dental Alveolar Pós-alveolar
e palatal
Velar e
labiovelar
glotal Sem posição
Plosiva e africada p b t d tʃʰ k ɡ ʔ  
Nasal m n ɲ̥ ɲ ŋ̊ ŋ   N
fricativa   θ (ð) s z ʃ   h  
Aproximante   (ɹ) j (w̥) w  
Lateral   l  

A aproximante /ɹ/ é rara, usada somente em topônimos que preservaram as pronúncias originais do sânscrito e do páli (ex.: Amarapura, que é pronunciado [àməɹa̰pùɹa̰]) e em palavras derivadas do inglês. Historicamente, o /ɹ/ se tornou /j/, no birmanês, e costuma ser substituído por /j/ em empréstimos do páli, como ရဟန္တာ (ra.hanta) /jəhàNdà/ "monge", ရာဇ (raja.) /jàza̰/ "rei". Ocasionalmente é substituído por /l/, como no caso da palavra para "animal", derivada do páli, တိရစ္ဆာန် (ti.rac hcan), que pode ser pronunciada [təɹeiʔ sʰàn] ou [təleiʔ sʰàn]. Da mesma maneira, o /ʍ/ é raro, tendo já desaparecido do birmanês atual, exceto em transcrições de nomes estrangeiros. O [ð] não é comum, exceto como um alófono sonoro de /θ/.

Gramática[editar | editar código-fonte]

A ordem das palavras da Língua birmanesa é sujeito-objeto-verbo. Os pronomes birmaneses variam conforme o status (diglossia) e gênero da audiência. A língua é basicamente monossilábica, ou seja, cada palavra (uma sílaba) é uma raiz à qual uma partícula, não outra palavra, pode ser pre-fixada. A estrutura das frases determina as relações sintáticas. Os verbos não são conjugados mas apresentam sufixos. Como exemplo, o verbo "comer" é စား (ca: [sà]) e não varia.

Adjetivos[editar | editar código-fonte]

Os adjetivos podem anteceder o substantivo (ex. ချောတဲ့လူ hkyau: tai. lu [tʃʰɔ́ dɛ̰ lù] "bela" + တဲ့ + "pessoa") ou ficar depois do mesmo (ex. လူချော lu hkyau: [lù tʃʰɔ́] "pessoa" + "bela"). O superlativo do adjetivo é indicado geralmente pelo prefixo (a. [ʔə]) + adjetivo + ဆုံး (hcum: [zṍũ]). Os adjetivos numéricos ficam depois do substantivo.

Verbos[editar | editar código-fonte]

As raízes dos verbos birmaneses são na maior parte das vezes providos de pelo menos um sufixo. Os sufixos podem indicar tempo, intenção, polidez, humor, etc. Em rigor, a única situação em que a raiz não tem partículas é em ordens, comandos, imperativos. Os verbos birmaneses não são conjugados, como na maior parte das línguas indo-europeias. A raiz verbal fica imutável, não variando com pessoa, com número ou com gênero.

As partículas verbais mais utilizadas e seus usos são mostradas a seguir para raiz verbal စား (ca: [sá]) que significa "comer".

  • စားတယ် (ca: tai [sá dɛ̀]) - Eu como.

O sufixo တယ် tai [dɛ̀] pode ser considerado como partícula que marca o tempo presente e ou algo factual.

  • စားခဲ့တယ် (ca: hkai. tai [sá ɡɛ̰ dɛ̀]) - Eu comi.

O sufixo ခဲ့ (hkai. [ɡɛ̰]) indica que a ação ocorreu no passado. Porém, não necessariamente essa partícula precisa estar na raiz para indicar o tempo passado. Essa partícula é imperativa, é indispensável, quando é preciso informar, enfatizar, que uma ação ocorreu antes de outra ação também citada. Notar que o sufixo တယ် (tai [dɛ̀]) nesse caso denota o factual mais do que o tempo presente.

  • စားနေတယ် (ca: ne tai [sá nè dɛ̀]) - Eu estou comendo.

နေ (ne [nè]) é a partícula usada para indicar que a ação ocorre agora, está em progressão. É como o uso do Gerúndio em Português.

  • (စ)စားပြီ ((ca.) ca: pri [(sə) sá bjì]) - Eu estou comendo (agora).

Essa partícula ပြီ (pri [bjì]) indica um tempo verbal sem equivalente nas línguas europeias. É usada para enfatizar que uma ação que se esperava (que alguém cobrava) que o sujeito da sentença fizesse, está (finalmente) sendo feita. Se usada no exemplo acima indica que alguém esperava que o sujeito comesse e ele, por fim, informa que já está fazendo

  • စားမယ် (ca: mai [sá mɛ̀]) - Eu vou comer.

Essa partícula indica uma ação que ainda vai ocorrer.

  • စားတော့မယ် (ca: tau. mai [sá dɔ̰ mɛ̀]) - Eu vou comer ("já-já").

A partícula တော့ (tau. [dɔ̰]), cujo sentido também não existe nas línguas europeias, é usada para indicar que a ação vai ser feita imediatamente. Seria como uma "partícula de futuro imediato". Essa partícula မယ် (mai mɛ̀]) é imperativa nesse caso.

Substantivos[editar | editar código-fonte]

Os substantivos em birmanês têm o plural marcado pela adução do sufixo တွေ (twe [dè] ou [tè] se a palavra terminar em glotal "stop"). Também pode ser usado o sufixo များ mya [mjà] (ou , que significa "poucos") o qual em si próprio significa "muitos". O Sufixo day também pluraliza as palavras e é usado somente coloquialmente. Na linguagem formal ou mesmo na coloquial se usa o mya.

  • နွား (nwa: [nwà]) - vaca
  • နွားများ (nwa: mya: [nwà mjà]) - vacas
  • မြစ် (mrac [mjiʔ]) - rio
  • မြစ်များ (mrac mya: [mjiʔ mjà]) - rios

Esse sufixo não é usado quando o substantivo já qualificado por um classificador numeral..

  • ခလေး၅ယောက် (hka.le: nga: yauk [kʰəlé ŋà jauʔ]) é na ordem ခလေး "criança" + "cinco" + ယောက် (classificador), que equivale a "cinco crianças".

Classificador numeral[editar | editar código-fonte]

Do mesmo modo que as línguas que lhe são próximas, tais como Tailandês, Bengali e Chinês, o idima Birmanês usa classificadores numerais quando os substantivos são contados ou quantificados. É algo com em Portiguês três fatias de bolo, um copo de cerveja. No exemplo acima, o "yauk" é o classificador para pessoas. Esses classificadores são obrigatórios, sendo, porém, não requeridos para medidas de tempo, tais como "hora," (နာရီ) "dia," (ရက်) ou "mês" (). A seguir, ver Tabela dos Classificadores mais usados em birmanês:

Birmanês Transcrição MLC* Transcrição fonética Uso Notas
ပါး pa: [bá] para Pessoas Somente para monges e monjas de Ordem budista
ကောင် kaung [kã̀ũ] para Animais
ခု hku. [kʰṵ] Uso Geral pode ser usado para todos substantivos, exceto seres animados
လုံး lum: [lṍũ] para objetos Redondos
ပြား para: [pjá] para objetos Planos (chatos)
စု cu. [sṵ] or [zṵ] para Grupos
ဦး u: [ʔú] para pessoas Uso no contexto Formal e para Monges e monjas
ယောက် yauk [jauʔ] para pessoas Uso informal
  • Myanmar Language Commission

Na maior parte dos casos, o classificador segue o numeral. Porém, para os múltiplos de 10 (exceto o próprio dez) o classificador precede o substantivo:

လူအယောက် ၅၀၀ (pessoa + classif. numeral + número) em lugar de လူ ၅၀၀ ယောက် (pessoa + número + Classif. numeral)

Partículas[editar | editar código-fonte]

A língua birmanesa faz grande uso de partículas gramaticais, os quais são palavras intraduzíveis que são sufixados ou prefixados para indicar níveis de respeito, tempo gramatical, modo. De acordo com o Myanmar-English Dictionary (1993), há 449 partículas na língua birmanesa. Por exemplo, စမ်း (sán) é uma partícula gramatical que indica o Modo Indicativo. Enquanto que လုပ်ပါ ("trabalho" + partícula que indica polidez) não indica imperativo, လုပ်စမ်းပါ ("trabalha" + partícula indicando Modo Interativo + partícula que indica polidez) o faz. Algumas partículas modificam a função gramatical de uma palavra. A partícula ([ə]) é prefixada aos verbos e adjetivos para formar substantivos e advérbios.

Pronomes[editar | editar código-fonte]

Um pronome, quando sujeito, inicia a frase. Na forma imperativa e na conversação, o sujeito é geralmente omitido (é o "pro-drop" do Português). Em termos de gramática, as partículas que marcam o sujeito (က ([ɡa̰] no Coloquial, သည် [θì] no Formal) devem ser anexados ao Pronome Sujeito, embora também seja omitido na conversação. Os Pronomes, quando Objeto, devem ter a devida partícula marcadora (ကို [ɡò] Coloquial, အား [á] Formal) anexada logo depois do Pronome. Nome próprios são frequentemente substituídas por pronomes. A relação de "status" de alguém com a audiência determina os pronomes a serem usados. Diferentes pronomes são usados para diferentes audiências. Os pronomes básicos são:

Birmanês Transcrição MLC Transcrição fonética Português Notas
ငါ nga [ŋà] Eu, mim Informal, usado com membros mais jovens da família ou amigosn de mesma idade ou mais jovens.
ငါတို့ nga tui. [ŋà do̰] our [ŋà to̰] nós Informal
ကျွန်တော်
ကျွန်မ
kywan tau
kywan ma.
[tʃənɔ̀]
[tʃəma̰]
Eu, mim Formal, usado por homens
idem, por mulheres
ဒဂါ
ဒဂါမ
da. ga
da. ga ma.
[dəɡà]
[dəɡàma̰]
Eu, mim Formal, usado só ao falar com monge/ monja (s) (literalmente "o que dia").
တပည့်တော်
တပည့်တော်မ
ta. pany. tau
ta. pany. tau ma.
[dəbɛ̀dɔ̀]
[dəbɛ̀dɔ̀ma̰]
Eu, mim Formal, idem anterior, mas literalmente discípulo.
နင် nang [nẽ̀ĩ] or [nĩ̀] you Informal; used with younger family members, friends
နင်တို့ nang tui. [nĩ̀ndo̰] todos vocêl Informal
မင်း mang: [mĩ́] you(s) Informal, uso entre amigos bem próximos
အရှင် a hrang [ʔəʃĩ̀] você(s) Formal, uso por mulheres
ခင်ဗျား hkang bya: [kʰəmjá] or [kʰĩ̀mmjá] você(s) Formal
သူ su [θù] ele/ela Informal
သူတို့ su tui. [θùdo̰] eles(as) Informal
အဲ(ဒါ)ဟာ ai: (da) ha [ʔɛ́ (dà) hà] isso/aquilo Informal, uso rude com seres animados

Na língua coloquial, os pronome possessivos formam contração quando o pronome da raiz é de Tom baixo. Porém, isso só ocorre mesmo no birmanês coloquial, o qual usa ရဲ့ ([yḛ]) como marcador portposicional para o caso possessivo. O birmanês literário usa o ([ḭ]). Exemplos:

  • ငါ ([ŋà] "Eu") + ရဲ့ (marcador postposicional de caso possessivo) = ငါ့ ([ŋa̰] "meu")
  • နင် ([nĩ̀] "Tu, você") + ရဲ့ (marcador postposicional de caso possessivo) = နင့် ([nḭ̃] "teu, seu")
  • သူ ([θù] "Ele, ela") + ရဲ့ (marcador postposicional de caso possessivo) = သူ့ ([θṵ] "dele, dela")

Reduplicação[editar | editar código-fonte]

A Reduplicação é muito significativa em birmanês, sendo usada para intensificar ou até enfraquecer o significado de adjetivos. Como exemplo: ချော (hkyau: [tʃʰɔ́]), belo(a)) ao ser reduplicada, intensifica o significado do adjetivo. Muitas das palavras em birmanês, especialmente os adjetivos compostos por duas sílabas, tais como လှပ belo(a) [l̥a̰pa̰]), quando reduplicadas (လှပလှလှပပ [l̥a̰l̥a̰ pa̰pa̰]) tornam-se em advérbios. Isso vale também vale para muitos verbos em birmanês, que se tornam advérbios quando reduplicados.

Romanização e transcrição[editar | editar código-fonte]

Não há um sistema de romanização (uso do alfabeto latino) do birmanês. Houve tentativas de fazê-lo, mas as tentativas foram infrutíferas, pois a replicação dos sons em caracteres latinos é bem difícil. Há uma transcrição com base no Pāli, estudada pelo MLC (Myanmar Language Commission). Esse, porém, transcreve apenas sons do birmanês formal e tem como base mais a escrita do que a fonologia.

Muitos sistema de transcrições coloquiais foram propostos, mas nenhum foi especialmente preferido em relação aos demais. Enfim, as transcrições do birmanês não são padronizadas, basta que se vejam as muitas versões existentes em inglês ou em português para a toponímia da Birmânia.

Referências

  1. a b c d e f g h Herbert, Patricia; Anthony Milner and Southeast Asia Library Group. South-East Asia. [S.l.]: University of Hawaii Press, 1989. 5–21 pp. ISBN 9780824812676.
  2. U Thaung (Aung Bala). (1981). "Contemporary Burmese Literature". Contributions to Asian Studies 16: 81–99.
  3. de thakin paya
  4. Myanmar-English Dictionary. (1993). Myanmar Language Commission. ISBN 1-881265-47-1 
  5. a b c d Wheatley, Julian; San San Hnin Tun. (1999). "Languages in contact: The Case of English and Burmese". The Journal of Burma Studies 4: 61–99.
  6. Maung Khin Min (1987). Old Usage Styles of Myanmar Script Myanmar Unicode & NLP Research Center. Visitado em 29-7-2008.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Becker, Alton L.. In: In E. M. Bruner (ed.). Text, play, and story: The construction and reconstruction of self and society. Washington, D.C.: American Ethnological Society, 1984. 135–55 pp.
  • Bernot, Denise. Le prédicat en birman parlé (em <Língua não reconhecida>). Paris: SELAF, 1980. ISBN 2-85297-072-4.
  • Cornyn, William Stewart; D. Haigh Roop. Outline of Burmese grammar. Baltimore: Linguistic Society of America, 1944.
  • Cornyn, William Stewart; D. Haigh Roop. Beginning Burmese. New Haven: Yale University Press, 1968.
  • Green, Antony D.. In: In J. Watkins (ed.). Studies in Burmese linguistics. Canberra: Pacific Linguistics, 2005. 1–25 pp. ISBN 0-85883-559-2.
  • Okell, John. A reference grammar of colloquial Burmese. London: Oxford University Press, 1969.
  • Roop, D. Haigh. An introduction to the Burmese writing system. New Haven: Yale University Press, 1972.
  • Taw Sein Ko. Elementary handbook of the Burmese language. Rangoon: American Baptist Mission Press, 1924.
  • Watkins, Justin W.. (2001). "Illustrations of the IPA: Burmese". Journal of the International Phonetic Association 31 (2): 291–95. DOI:10.1017/S0025100301002122.
  • Wheatley, Julian K.. In: In B. Comrie (ed.). Handbook of the world's major languages. Oxford: Oxford University Press, 1987. 834–54 pp. ISBN 0-19-520521-9.
  • In: Patricia M Herbert, Anthony Milner. South East Asia Languages and Literatures: Languages and Literatures: A Select Guide. [S.l.]: University of Hawaii Press, 1989. ISBN 0-8248-1267-0.

Ligações externas[editar | editar código-fonte]