Diglossia

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Diglossia (do grego διγλωσσία, transl. diglossía, onde di- significa "duas vezes" e glossa ou, em ático glotta, "língua") é um termo cunhado pelo linguista grego Ioannis Psycharis, primeiramente em francês (diglossie), para designar a situação linguística em que, numa sociedade, duas línguas ou registos linguísticos funcionalmente diferenciados coexistem, sendo que o uso de um ou de outro depende da situação comunicativa.

Características da diglossia[editar | editar código-fonte]

Há diferença de status sociopolítico entre esses dois registos: um deles, de maior prestígio, é geralmente usada em circunstâncias mais formais, enquanto o outro, de menor prestígio social, fica restrito a ambientes informais.

A diglossia é considerada como um tipo particular de bilinguismo, mas relacionado com a sociolinguística. Segundo Françoise Gardews, em seu livro Multilinguismo, existe uma relação hierárquica em que uma língua padrão é um registo dominante, e outro registo ou vários outros são dominados. Trata-se portanto de uma situação conflituosa.[1]

Diz-se que há diglossia contaminada quando numa situação de contacto linguístico uma das línguas ocupa o lugar do registo culto de outra/s línguas. Inicia-se assim um processo de substituição que acaba por predominar também nos ambientes informais. Nessa situação, dialectos ou línguas minoritárias regionais acabam por deixar de ser falados mesmo nos ambientes informais, sendo gradualmente substituídos pela língua formal até eventualmente desaparecerem.

Por outro lado, considera-se também que existe diglossia na maior parte do comum das línguas em razão de registos mais formais ou menos formais de uma mesma língua quer como marca de classe, quer como produto de maior ou menor instrução dos utentes. Deste ponto de vista, a língua padrão escolhida como registo formal influi de maneira constante nos falares considerados informais (quer sejam falares da mesma língua ou falares doutras línguas, dialectos ou mesmo gírias grupais)

Línguas com Diglossia[editar | editar código-fonte]

As diglossias podem ocorrer entre duas formas diferentes de uma mesma língua, ou entre duas línguas diferentes faladas num mesmo país. A seguir apresenta-se uma lista de algumas das línguas que apresentam diglossia. As formas de uma mesma língua ou os diferentes idiomas estão aí apresentadas com indicações de:

  • Forma "A" (Alta) - Língua de maior prestígio, da elite intelectual, económica, língua literária, geralmente oficial, forma escrita.
  • Forma "B" (Baixa) - Língua menos prestigiada, mais popular, coloquial, forma falada, das classes menos cultas, mais pobres.

Línguas diferentes (bilinguismo)[editar | editar código-fonte]

  • Inglês - o inglês antigo era a língua da Grã-Bretanha até a invasão normanda (séc. XI). Daí, até os séculos XV / XVI, o povo ("B") falava o inglês "médio" (mais tarde o moderno) e a classe governante ("A") usava o francês e o normando.
  • Catalão - A diglossia do catalão apresenta várias gradações, sendo mais perceptível nas metrópoles. Em Andorra o catalão padrão ("A") domina e não há diglossia. Porém, nas variantes locais, há formas de uso popular ("B") sob formas diversas em Alghero (Sardenha), nas Ilhas Baleares, nas formas do valenciano. As elites usam somente o catalão padrão.
  • Galego - na Galiza a língua espanhola é mais usada pelas classes mais favorecidas, enquanto que o povo mais simple usa o galego.
  • Leonês - língua minoritária em Portugal (Miranda do Douro, Mogadouro, Vimioso) e na Espanha (Castela e Leão) é a forma "B" de comunicação. Nos mesmos locais, a forma "A" é, dependendo do país, o português ou o espanhol.
  • Maltês - em Malta, a classe mais alta usa prioritariamente, e faz questão de demonstrar isso, o inglês ("A"), enquanto que o povo das classes pobres dá preferência ao maltês.
  • Crioulo do Haiti - o crioulo é a língua da vasta população pobre do país, enquanto que os poucos mais cultos e ricos falam o francês.
  • Russo - houve diglossia desde a Idade Média até o século XVI, quando o povo falava o russo e a nobreza e alto clero falavam e escreviam na forma linguística da Igreja Ortodoxa ("Eslavónico").
  • Ucraniano - vem se extinguindo desde o fim da União Soviética a diglossia na Ucrânia entre o russo como língua "A" e o ucraniano como idioma popular "B". Agora a diglossia que vem se firmando é entre o russo ou ucraniano, como forma de elite, e os diversos dialectos do país como linguagem mais popular.
  • Polaco ou polonesa - até a Primeira Guerra Mundial, dois períodos caracterizaram as línguas falada na Polónia. Até o século XVI, o povo falava o polaco, enquanto que a nobreza se expressava oralmente e por escrito em latim. Depois disso, por cerca de dois séculos, o polaco se tornou a linguagem de todas as classes. Já no século XVII, quando o país passou a ser dominado pelo Grão-Ducado da Lituânia, passou-se a ter como linguagem "A" as línguas rutenas da Bielorrússia e da Ucrânia, ficando o polaco com língua do povo. Isso permaneceu até a Guerra 1914-1918. Entre esse conflito e a Segunda Guerra Mundial, a classe alta gostava de classificar como forma erudita e correta do polaco aquela cuja pronúncia era bem (exageradamente) diferenciada entre o H aspirado dito usado "duro" nas palavras iniciadas por h e o H mais "suave" das palavras iniciadas por ch. Essas duas pronúncias eram pouco diferenciadas entre as classes populares.

Diferentes formas (diglossia)[editar | editar código-fonte]

  • Árabe - há muitas variantes do árabe falado nos diversos países, porém em todo Mundo árabe pode-se considerar que a língua "A" é o árabe moderno padrão e a forma "B" é o árabe coloquial, local, bem variado.
  • Grego - até os anos 70, na Grécia a forma popular ("B") era o grego da forma dimotiki, enquanto que a forma arcaica e muito formal, o catarévussa (praticamente a língua grega antiga), era a língua dos intelectuais e dos ricos. Hoje, há uma forma única padronizada, um dimotiki mais educado e enriquecido com algo do caterévussa, o chamado grego moderno. Essa é, aliás, a forma "A" em Chipre, sendo a forma "B" da ilha o "grego cipriota".
  • Chinês - por dois mil anos o chinês clássico dominou como linguagem escrita. O chinês coloquial falado, porém, continuou a variar se afastando da forma clássica, até que a grande diferença levou as autoridades, durante as grandes mudanças na sociedade chinesa nos séculos XIX e XX, a padronizar um chinês vernacular com base no Mandarim padrão. A diglossia que ainda existe é entre a língua oficial (o mandarim) e as formas locais (ditas "B") do Sul da China, Hong Kong, tais como o cantonês.
  • Malaio de Brunei - o malaio padrão é a língua oficial do sultanato, variante "A", enquanto que a variante do malaio própria de Brunei, com diferenças de pronúncia e das posições relativas verbo-sujeito, é a variante "B", popular.
  • Tagalo - essa língua de Luzon, Filipinas na sua forma padrão é a variante dita "alta", enquanto que as pessoas das áreas rurais e as populações mais pobres das cidades usam diversas formas dialectais do tagalo.
  • Hindi - as duas formas do hindi são derivadas do dialecto khariboli. A forma "A" é o hindi shuddha e a forma popular "B" é o hisdustani (chamado pelo próprio nome "hindi").
  • Bengali - o bengali apresenta as variantes "A" e "B" tanto na linguagem escrita, quanto na forma falada. Tratam-se da forma mais erudita e complexa, o shadhubhasha, muito influenciado pelo sânscrito, e o modo bem popular e simplificado cholitbhasha.
  • Urdu - no Paquistão, as elites literárias, políticas e económicas usam um urdu numa variante muito influenciada pelo persa e pelo árabe. Já a forma popular "B" é muito mais aproximada do hisdustani / hindi.
  • Sinhala - no Sri-Lanka há também duas formas da língua: a forma "A", chamada literária, e a forma popular "B", dita "falada".
  • Tâmil - a língua falada no Sri-Lanka e no sul da Índia (Tamil Nadu) apresenta uma forma clássica, usada na literatura e em fins oficiais ("A"), a qual varia pouco entre as áreas do país, enquanto que forma mais coloquial, a usada pelo povo, apresenta variações bem maiores conforme a região onde é falada.
  • Canará – A língua do sudoeste da Índia, assim como tamil e o sinhala, é reconhecida, inclusive na educação, como oficialmente diglóssica, sendo as duas variantes bem identificadas e reconhecidas por todos.
  • Em Singapura, o inglês apresenta diglossia. Há uma forma mais elaborada ("A"), bem similar ao inglês padrão, o 'SStdE (Singapore Standard English). Existe ainda uma forma popular ("B"), o Singlish ou SCE (Singapore Coloquial English).

Diglossia no Brasil[editar | editar código-fonte]

Referências

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