Primatologia

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A primatologia é a ciência que estuda a ordem dos primatas, que inclui os macacos e os hominídeos. É uma disciplina com várias vertentes. Há primatólogos na área da biologia, antropologia, psicologia, entre outras. Está intimamente relacionada com a antropologia física que não é mais que o estudo do gênero Homo, especialmente do Homo sapiens.

Entre os interesses no estudo da primatologia estão os das ciências da saúde: fisiologia, patologia clínica, genética, imunologia e especialmente epidemiologia das zoonoses. Além do vírus da raiva (Rhabidovírus), uma das mais antigas zoonoses conhecidas e comum a diversos mamíferos, incluindo o cão doméstico, pelo menos duas famílias de vírus atraíram o foco das atenções para os primatas o grupo dos Lentivírus (Retroviridae) onde se originou o HIV (Vírus da Imunodeficiência Humana) e a família dos Flavivírus (Togaviridae) que reúne os agentes da febre amarela e dengue.[1] [2] [3] [4]

Nas ciências comportamento destacam-se os estudos sobre linguagem, aprendizagem e etologia em especial o comportamento sexual e agressivo, também descrito como instintivo. Entre os estudos clássicos da psicologia incluem-se "A inteligência dos antropóides"[5] de Wolfgang Kölher (1887-1967), um dos criadores da psicologia da gestalt e, sobre o comportamento materno, o "Estudo do amor em filhotes de macaco" de Harry Harlow[6] sem esquecer dos trabalhos de Charles Darwin (1809-1882): "A Descendência do Homem" (1871) e "A Expressão das Emoções no Homem e nos Animais" (1872)[7] que deram novo rumo a essa disciplina científica com a Teoria da evolução.

Alouatta Macaco Gritador

Primatologistas[editar | editar código-fonte]

Mãe Gorilla, Bronx Zoo.

A ordem dos primatas[editar | editar código-fonte]

A classificação dos primatas é controversa, a fora a grande divisão da ordem entre prosímios (prosimii) e antropoides (antropoidea) e a subdivisão do grupo que inclui a forma humana (antropoides) em macacos do novo mundo (Platyrrhina) e do velho continente (Catarrhini) a partir do formato das narinas em relação ao septo nasal, o grupo de primatas tem sido subdividido de diversas formas incluindo sub-ordens, superfamílias, subfamílias distintas.

A classificação oscila entre 11 – 19 famílias, com mais de 30 gêneros e centenas de espécies (estima-se um número de 200 espécies ainda não extintas). As principais características dos primatas são as formas das mãos e dos pés. Eles têm cinco dedos, sem garras e com os polegares, e os dedos grandes dos pés oponíveis (opostos) aos outros dedos - próprios para subir em árvores, segurar e manipular alimentos ou objetos.

Outra característica importante dos primatas é o desenvolvimento dos órgãos dos sentidos, especialmente a visão. Os primatas diferenciam as cores e localizam as coisas em três dimensões. O sentido que predomina na maioria dos outros animais é o olfato. Há quase um consenso de que os primatas têm a inteligência e o sistema nervoso mais desenvolvido entre os animais e que a inteligência atinge o ponto alto da evolução no cérebro humano.

Primatologia no Brasil[editar | editar código-fonte]

O Brasil, que já foi chamado país dos macacos, é o país que abriga a maior variedade de espécies, segundo Coimbra Filho[8] ocorrem cerca de 16 gêneros e pelo menos 44 espécies. Contudo a primatologia, aqui, ainda é uma área muito pouca conhecida. Uma área onde não há um curso especializado. Para ser primatólogo é preciso se formar por conta própria e ter vontades próprias.

Algumas universidades mantêm biotério com primatas e incluem o conteúdo dessa disciplina na especialização em zoologia ou ecologia principalmente, a exemplo de: Minas Gerais, UEMG Ciência Ambientais; Rio Grande do Sul (PUCRS) Zoologia; Paraná (UFPr) Zoologia; São Paulo USP, USP Ribeirão Preto, cursos de Biologia, Psicologia Experimental e Mestrados de Ecologia e Psicobiologia e Rio De Janeiro (FIOCRUZ) Biologia Celular e Molecular. Maiores informações sobre a localização dos especialistas em primatologia no Brasil podem ser obtidas no site da Sociedade Brasileira de Primatologia

A Sociedade Brasileira de Primatologia (SBPr) foi fundada 1979, associada ao Simpósio sobre "Genética Comparada de Primatas Brasileiros" patrocinado pela Sociedade Brasileira de Genética e promovido pelo Laboratório de Genética Médica da Universidade de São Paulo e pela seção de Genética do Instituto Butantã, São Paulo. Desde então, a SBPr organizou 11 Congressos Brasileiros de Primatologia, sobre os quais existem Anais Publicados com artigos apresentados organizados sob o Título A Primatologia no Brasil de 1 a 11 ver na SBPr

No período de 1983 a 1989, o Prof. Milton Thiago de Mello organizou seis Cursos de Especialização em Primatologia versando sobre diferentes especialidades abordando principalmente aspectos da Conservação e Manejo e Criação em cativeiro além Taxonomia e Genética.

O controle das reservas biológicas que abrigam primatas e controle das práticas de criação comercial para experimentação científica, uso doméstico e em empresas de entretenimento é controlado por legislação específica sobre a Fauna através do IBAMA ou CPB Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Primatas Brasileiros

O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis IBAMA é também o responsável pela publicação da Lista Oficial de animais ameaçados de extinção, que é elaborada em conjunto com comitês e grupos de trabalho de cientistas especializados em cada grupo animal. O Brasil possui 208 espécies na Lista Oficial de animais ameaçados de extinção cerca de 25 eram primatas até 2002.

Merece destaque ainda no Brasil o Centro Nacional de Primatas, localizado em Ananindeua (PA), é o maior centro de Primatologia da América Latina e um dos 10 maiores do mundo. Foi criado a partir de um convênio entre o Ministério da Saúde, Ministério da Agricultura, a Organização Pan-americana da Saúde e Organização Mundial da Saúde em março de 1978.

Primatologia em Portugal[editar | editar código-fonte]

As áreas de estudo da Primatologia definidas Associação Portuguesa de Primatologia – APP refletem os caminhos da primatologia na terra mãe da nossa língua portuguesa. Segundo critérios dessa associação o campo interdisciplinar da Primatologia abrange desde o estudo do comportamento social (estrutura e organização social) à transmissão e disseminação de proto-culturas, os papéis sociais, às estratégias adaptativas, à relação progenitora-cria e ao desenvolvimento e socialização, ao conflito e às estratégias de reconciliação, à estrutura cognitiva e suas capacidades, à sócio-ecologia, ao patrimônio natural, aos projectos de desenvolvimento e conservação de espécies em habitat natural. Quanto à conservação aborda os impactos do ecoturismo e o bem-estar físico e psicológico dos primatas em cativeiro, estudando simultaneamente à genética, morfologia e osteologia e evolução dos primatas.

A APP foi criada em 2004, afiliada à European Federation of Primatology (EFP) e a International Primatological Society (IPS), tem como objetivo para a promoção, desenvolvimento e divulgação da investigação no domínio da Primatologia (Primatas contemporâneos e extintos). Inclui entre seus associados investigadores de áreas diversas como a Antropologia (cultural e biológica), a Biologia, a Psicologia, a Medicina-Veterinária, a Sociologia, a Genética, a Ecologia, etc.

Em Portugal vem desenvolvendo-se o Curso de Pós-graduação em Primatologia e Comportamento Animal da Universidade Autónoma de Lisboa juntamente com a Universidade Autónoma Veracruzana no México, contando inclusive com apoio da APP, aborda os aspectos básicos para o entendimento da primatologia e da biologia do comportamento estudando os animais em situação de habitat natural, seminatural e cativeiro.

Primatologia em Angola[editar | editar código-fonte]

Uma das preocupações dos médicos e primatologistas de Angola são os surtos de febre hemorrágica do vírus Ebola / Marburg (Filoviridae) que atinge homens e primatas como chimpanzés gorilas e o macaco verde. Ao contrário da SIDA esta infecção adquire a forma epidêmica e mais agressiva nos primatas não humanos. A fragilização biológica das populações de primatas por degradação ambiental e redução da variabilidade genética as tornam mais susceptíveis a tais agravos.

As Zonas de Proteção Integral da Natureza em Angola ocupam, 82.000 km², em 13 unidades, que correspondem a 6,6 % da superfície do país, distribuídos por 6 Parques Nacionais. Se considerarmos também 18 Reservas Florestais e diversas coutadas, encontra-se 188.650Km². Entre estas destacam-se a presença de primatas nas savanas do Parque Regional da Cimalavera, Reserva Búfalo (habitat do Mandril - Papio ursinus). O IDF (Instituto de Desenvolvimento Florestal de Angola) tem estudado, inclusive com participação do governo brasileiro (IBAMA), a criação de áreas específicas para os de Grandes Primatas que podem ser encontrados em Angola, na Província de Cabinda e talvez em suas províncias do nordeste, onde ainda se vê chimpanzés, gorilas e possivelmente bonobos em vida livre.

De acordo com as “Notícias do Angola” do Projeto GAP um chimpanzé bebé é comercializado em Angola pela irrisória quantia de mil dólares americanos (1.000 USD), podendo atingir no mercado (externo) ilegal de animais 50 a 100 mil dólares para chimpanzés comuns e 150 a 200 mil dólares no caso dos bonobos. Aliás, é o alto valor que estes animais atingem no mercado e a sua importância para pesquisa científica que torna crescente o interesse pela primatologia, apesar de ter sido esta uma das mais importantes causas do seu infortúnio juntamente com a destruição dos ecossistemas naturais.

Não há cursos específicos de Primatologia em nível de mestrado o conteúdo desta disciplina científica é abordado na formação do biólogo, médico veterinário, psicólogo e antropólogo como por exemplo oferecidos pela Universidade Agostinho Neto em suas Unidades Orgânicas (Faculdades, Institutos e Escolas Superiores) a exemplo de Na Faculdade de Ciências (Luanda) e Instituto Superior de Ciências de Educação (Lubango) nos cursos de Licenciatura em: Biologia; Faculdade de Ciências Agrárias (Huambo) Licenciatura em: Medicina Veterinária; Zootecnia ou na Faculdade de Letras e Ciências Sociais (Luanda) Licenciatura em: Psicologia e Antropologia e para formar docentes com o nível de Bacharelato (3 anos) em Biologia a Escola Superior Pedagógica da Lunda Norte, Kwanza Norte; sem fugir a regra do esforço próprio é possível apresentar uma tese no Mestrado em Ensino das Ciências (Huíla)

Primatologia em Moçambique[editar | editar código-fonte]

Moçambique é um território com 799 388 km² de superfície e uma costa com 2770 km de comprimento, face ao Oceano Índico em frente à "ilha dos Lêmures" (Madagascar), e apresenta uma grande variedade de "habitats" e ecossistemas, tanto terrestres como marinhos.

Segundo dados do governo[9] existem primatas mencionados como atrativos na Reserva de Pomene, uma área de conservação com cerca de 200 km² no distrito de Massinga) e nos 2100 km² da Reserva parcial de Caça do Gilé na Província da Zambézia, que apresenta uma exuberante fauna constituída por cerca 59 espécies de mamíferos onde se incluem o macaco cão amarelo, macaco de cara azul e gálagos.

Os gálagos, primatas prossímios, lorisídeos, de hábitos noturnos são conhecidos em Moçambique por "jagras", onde se registram quatro espécies: jagra gigante, jagra do Senegal (Galago senegalensis), jagra de Grant (Galago senegalensis granti) e ainda a que é conhecida por "macaco noturno" (Galago moholi).

Entre os primatas, registram-se ainda o macaco-cão amarelo e o cinzento do gênero Papio, os macacos-simango, de cor acastanhada e o macaco-de-cara-preta, de cor cinzenta (Cercopithecus).[10]

Neste país, a Primatologia não foge à regra da ausência de cursos especializados, mas há perspectivas do seu início. Recentemente, realizou-se um convênio com a Universidade de Aveiro em Portugal para recuperação do Parque Nacional da Gorongosa, em parceria com a Fundação Carr, sendo esta a primeira instituição universitária europeia a assinar um protocolo de cooperação científica nesta área. O Parque Nacional da Gorongosa/Fundação Carr prevê também assinar acordos de cooperação com a Universidade do Zimbabwe, Universidades de Pretória e da Cidade do Cabo (África do Sul) e com o Centro para a Ciência da Floresta Tropical, do Instituto Smithsonian. O conflito armado pós-independência de mais de uma década e o vazio institucional que se prolongou mesmo depois da assinatura dos acordos de paz em 1992, conduziram à destruição de mais de 98% dos grandes mamíferos que ali habitavam.[11]

Referências

  1. Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Manual de vigilância de epizootias em primatas não-humanos. Brasília, Ministério da Saúde, 2005. 56 p. – (Série A. Normas e Manuais Técnicos)- Disponível para download
  2. Hahn, Beatrice H. Tracing the Origin of the AIDS Pandemic The PRN Notebook ® . V 10, N3, September 2005 www.prn.org PDF Jul 2011
  3. Wolfe, Nathan D.; Escalante, Ananias A.; Karesh, William B.; Kilbourn, Annelisa; Spielman, Andrew Lal, Altaf A. Wild Primate Populations in Emerging Infectious Disease Research: The Missing Link? CDC - Emerging Infectious Diseases 150 Vol. 4, No. 2, April–June 1998 htm Jul 2011
  4. Wikipédia En Origin of AIDS Jul. 2011
  5. Köhler, Wolfgang. The mentality of apes. London. Routledge and K. Paul. (1925) 2003 Google Books
  6. Harlow, Harry F. O amor em filhotes de macaco, Scientific American, junho de 1959 inMcGaug, J. L.; Weinberger, N. M.; Whalen, R. E. Psicobiologia, as bases biológicas do comportamento. Textos do Scientific American. SP, Polígono, Universidade de São Paulo, 1970
  7. Darwin, Charles. A Expressão das Emoções no Homem e nos Animais. SP, Companhia das letras, 2002
  8. Coimbra Filho, Adelmar F. Os primatas do Brasil patrimônio a preservar. Ciência Hoje, a 1 n2 (62-69) RJ, setembro – outubro de 1982
  9. Portal do Governo de Moçambique.
  10. Schneider, Michael F.; Buramuge, Victorino A.; Aliasse, Luís; Filipa, Serfontein. Checklist de Vertebrados de Moçambique. IUCN Mozambique Fundo Para a Gestão dos Recursos Naturais e Ambiente (FGRNA) Projecto No 17/2004/FGRNA/PES/C2CICLO2 PDF Julho de 2011
  11. Universidade de Aveiro na recuperação do Parque da Gorongosa [http://macua.blogs.com/moambique_para_todos/2007/05/universidade_de.html Notícias Lusófonas 05/2007}}

Livros indicados[editar | editar código-fonte]

Harry F. Harlow. The Nature of Love (1958) Classics in the History of Psychology Julho 2011

Hinde, Robert A. - "Bases Biologicas de la Conducta Social Humana" Ilust. de Priscilla Edwards . Mexico, Siglo XXI, 1977.

Leakey, E. Richard. Origens, o que as novas descobertas revelam sobre o aparecimento de nossa espécie e seu possível futuro. SP/ DF, Melhoramentos Uiversidade de Brasília, 1981

Grine, Frederick E.; Fleagle,John G.; Leakey, Richard E. . The First Humans: Origin and Early Evolution of the Genus Homo. NY, Springer, 2009 Google Books Jul.2011

Morin, E.; Piatelli-Palmarini, M. (ORGS.) - "Do Primata ao Homem, Continuidades e Rupturas" (Vol. I); "A Unidade do Homem" (3 vol.) Centre Royaumont pour une Science de l'Homme. SP, Cultrix, 1978.

Morris, Desmond. O Macaco Nu, um estudo do animal humano. RJ, Record, 2006 Google Livros Julho 2011

Waal Frans de. Eu, Primata: por Que Somos Como Somos. SP, Companhia das letras, 2007 Google Livros Julho 2011

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

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