Carlota da Bélgica

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Carlota
Princesa da Bélgica
Imperatriz Consorte do México
Reinado 10 de abril de 1864
a 15 de maio de 1867
Predecessora Ana María de Huarte y Muñiz
Sucessora Monarquia abolida
 
Marido Maximiliano I do México
Casa Saxe-Coburgo-Gota (nascimento)
Habsburgo-Lorena (casamento)
Nome completo
Maria Carlota Amélia Augustina Vitória Clementina Leopoldina
Nascimento 7 de junho de 1840
  Castelo Real de Laeken, Laeken, Bélgica
Morte 19 de janeiro de 1927 (86 anos)
  Castelo de Bouchout, Meise, Bélgica
Enterro Igreja de Nossa Senhora de Laeken, Laeken, Bélgica
Pai Leopoldo I da Bélgica
Mãe Luísa Maria de Orleães
Religião Catolicismo

Maria Carlota Amélia Augustina Vitória Clementina Leopoldina (Laeken, 7 de junho de 1840Meise, 19 de janeiro de 1927), foi a esposa do imperador Maximiliano I e última Imperatriz Consorte do Império Mexicano de 1864 até a abolição da monarquia em 1867. Nascida como uma princesa da Bélgica, era filha do rei Leopoldo I e de sua segunda esposa, a princesa Luísa Maria de Orleães.

No início dos anos 1860, o ambicioso Napoleão III iniciou a intervenção francesa no México e o marido de Carlota, Maximiliano, foi abordado por monarquistas mexicanos para reivindicar o trono do país. Contra o conselho de seu irmão, Maximiliano aceitou a coroa mexicana e o casal partiu para o Novo Mundo. O casal imperial foi coroado na Catedral Metropolitana da Cidade do México em 1864. Enfrentando enorme resistência das forças republicanos leais a Benito Juárez, Maximiliano nunca conseguiu consolidar seu poder por todo o território. Em 1867 com a retirada das tropas francesas do país deixando o regime numa situação insustentável, o império autoproclamado rapidamente entrou em declínio e sem contar mais com apoio interno ou externo, Maximiliano I foi capturado e executado por forças do governo republicano mexicano em 1867. Carlota havia fugido para a Europa a fim de conseguir angariar apoio para o regime do marido, mas sem qualquer sucesso; após a execução de Maximiliano, ela teve um colapso mental.

Em conformidade com as disposições do Estatuto Provisório do Império, que a reconheceu como regente e chefe do governo na ausência do imperador Maximiliano I; e considerando que, de fato, a regência ocorreu (durante as viagens do monarca para o interior do país), exercendo diferentes funções executivas, a imperatriz foi a primeira mulher governante da história do México.[1][2]

Início de vida[editar | editar código-fonte]

Nascida a 7 de junho de 1840 no Castelo Real de Laeken em Laeken, um subúrbio a norte de Bruxelas, Carlota era a última filha, e única menina, do rei Leopoldo I da Bélgica e de sua segunda esposa, a princesa Luísa Maria de Orleães. Foi nomeada em homenagem a Carlota de Gales, a primeira esposa de seu pai que morreu ao dar à luz um filho natimorto. Carlota teve três irmãos, Luís Filipe, que morreu na infância, Leopoldo, que após a morte de seu pai subiu ao trono como Leopoldo II da Bélgica e Filipe, conde de Flandres. Ela também era prima-irmã da rainha Vitória do Reino Unido e de seu marido, o príncipe Alberto de Saxe-Coburgo-Gota, bem como Fernando II de Portugal.

Carlota era a neta favorita de Maria Amélia das Duas Sicílias, consorte do rei Luís Filipe I da França e sobrinha de Maria Antonieta da Áustria. Carlota era a confidente íntima de Maria Amélia, e no dia do seu casamento, em 1857, Carlota usou uma pulseira com um retrato em miniatura de sua sua avó. Eles correspondiam regularmente, especialmente mais tarde, enquanto Carlota estava no México.

Quando Carlota tinha apenas dez anos, sua mãe, Luísa Maria, morreu de tuberculose e a educação de Carlota foi confiada à condessa de Hulste, uma amiga íntima da família. Embora muito jovem, a princesa tinha sua própria casa, onde passava os verões. Carlota visitava frequentemente Claremont House, uma mansão no sul da Inglaterra, onde sua avó Maria Amélia e o resto da família materna estavam exilados.

Casamento[editar | editar código-fonte]

Carlota em 1857

Quando Carlota completou dezesseis anos, recebeu uma proposta de casamento feita por D. Pedro V, rei de Portugal, um casamento apoiado por seu pai, o rei Leopoldo I e mesmo, pela rainha Vitória do Reino Unido, sua prima direita. Este casamento faria da princesa uma rainha. A princesa recusou este pedido de casamento pois estava apaixonada pelo arquiduque Maximiliano Fernando da Áustria, irmão do imperador austríaco Francisco José I. Carlota recebeu ainda propostas que foram pouco documentadas, como a de Fernando, grão duque da Toscana e a de Francisco II, rei das Duas Sicílias, seu primo. Recusou-se a considerar seriamente qualquer uma destas, pois estava decidida a casar-se com o homem que ela havia escolhido.

Em 27 de julho de 1857, Maximiliano contraiu matrimônio com Carlota. O casamento, contudo, apesar dos sentimentos da princesa, só ocorreu por interesses econômicos, pois ele precisava urgentemente de dinheiro para pagar suas dívidas da construção do Castelo de Miramare em Trieste, na costa do mar Adriático. Para isso, utilizou o dote de Carlota.

Maximiliano encontrou em Carlota um mentor, além de uma esposa. A pedido de Leopoldo I, o imperador da Áustria aceitou nomear Maximiliano como governador do Reino Lombardo-Vêneto. O êxito do seu governo desgostou a Francisco José, irmão de Maximiliano, que o destituiu como governador e também o retirou do comando da armada austríaca em 1859. Está decisão afetou Carlota, soberana de nascimento, e então ela convenceu o marido a aceitar a coroa do México, quando os conservadores daquele país a ofereceram, no outono de 1861.

Imperatriz do México[editar | editar código-fonte]

No início dos anos 1860, o ambicioso Napoleão III iniciou a intervenção francesa no México. A França, ansiosa por transformar o México em um estado satélite, buscou uma figura de proa adequada para servir como imperador nominal do México. Sua escolha recaiu sob Maximiliano, que não tinha nenhum poder real na Itália e estava ansioso para um papel mais desafiador. Contra o conselho de seu irmão, Maximiliano aceitou a coroa mexicana e o casal partiu para o Novo Mundo. O casal imperial foi coroado na Catedral Metropolitana da Cidade do México em 1864 e escolheu como sede Cidade do México, fazendo a sua casa no Castelo de Chapultepec. Como imperatriz, ela tomou o nome de Carlota (espanhol para Charlotte). Carlota tentou levar a sério seus deveres imperiais e até fez um passeio pela remota fronteira de Iucatã, visitando as ruínas de Uxmal.

Um dos membros da comissão mexicana, o senhor Ignacio Aguilar y Marocho, fez um retrato falado da imperatriz:

"A arqueduquesa é uma destas pessoas que não se pode descrever, cuja graça e simpatia, por assim dizer, e cujas qualidades morais não é dado ao pintor transcrever na tela e nem ao fotógrafo no papel. Aparece como uma jovem alta, esbelta, cheia de saúde e de vida e que respira contentamento e bem estar; elegantíssima, mas muito simplesmente trajada: fronte pura e amistosa, olhos alegres, rasgados e vivos, como os das mexicanas; boca pequena e graciosa, lábios frescos e encarnados, dentes brancos e perfeitos, peitos empinados, corpo harmonioso em que competem a leveza e majestade de movimentos; fisionomia inteligente e espiritual; semblante acessível, bondoso e risonho, e que sem sombra de dúvida há algo de grave, decoroso e que infunde respeito; imagine isso tudo, e muito mais do que isso, e terá uma ideia da princesa Carlota."[3]

Maximiliano e Carlota
Imperatriz Carlota por Franz Xaver Winterhalter em 1864.

Maximiliano e Carlota iniciaram então uma vida digna de contos de fadas, quando foram viver em Chapultepec, castelo construído no local em que viveram os últimos imperadores astecas e cuja tradução literal seria "a colina do gafanhoto".

Das relações de Maximiliano com o primo brasileiro e com o Império do Brasil cumpre ressaltar:

"Dois primos, dois grandes impérios na América, uma hegemonia familiar que transformaria o continente. O sonho do arquiduque Maximiliano, subitamente lançado ao posto de imperador do México, incluía D. Pedro II e uma poderosa aliança com o Brasil. Mas nunca chegou nem perto de se realizar. Em apenas três anos, desmoronou e virou tragédia.(...)Quatro anos antes, Maximiliano havia se encontrado pessoalmente com D. Pedro II. Numa viagem à América do Sul, fora recebido pelas princesas Isabel e Leopoldina em Petrópolis, e depois rumara até o Espírito Santo para ver o imperador. Amante da botânica e da zoologia, aproveitou a viagem para explorar a natureza tropical. Dizem que levou espécimes de aves, insetos e plantas para a sua coleção particular.Mas agora a boa vida tinha acabado. À frente do Império mexicano, pressionado por todos os lados, não tardou em escrever para o seu primo brasileiro. As cartas alternavam comentários formais com mensagens de cunho pessoal. Elas revelam as estratégias usadas pelo imperador mexicano para se aproximar do Brasil. Tratando o primo brasileiro por “irmão”, Maximiliano não poupa elogios ao governo que, segundo ele, “desperta a inveja do Novo Mundo”, e evoca possíveis afinidades entre seus impérios: “Tenho pensado nas similaridades que reinam entre nossos dois países e todo o meu desejo é seguir a via traçada por Vossa Majestade para obter bons resultados”. No afã de criar vínculos econômicos e diplomáticos com o Brasil, Maximiliano condecorou D. Pedro II com o Colar da Águia Mexicana, da Ordem das Grandes Cruzes. Este prêmio só havia sido concedido até então aos soberanos da Áustria e da Rússia. Como retribuição, o imperador brasileiro condecorou a imperatriz Carlota com as insígnias da Ordem Imperial. A imprensa brasileira, contudo, ignorou solenemente o gesto diplomático: os jornais não registram nenhuma menção ao intercâmbio de medalhas.Um projeto pessoal de Maximiliano também justificava suas investidas. O imperador queria consolidar a hegemonia de dois grandes impérios dos Habsburgo na América, recuperando o prestígio da dinastia. Para isso, pretendia casar seu irmão, o arquiduque Luís Victor, com a filha mais velha de Pedro II, a princesa Isabel, herdeira do trono do Brasil. Mais uma vez os planos de Maximiliano não deram resultado. O imperador austríaco Francisco José soube do plano e não o considerou um bom negócio. Estava mais interessado no futuro europeu da dinastia, e pressionou Luís Victor a desistir."[4]

Carlota conheceu, junto com Maximiliano, Texcoco, Toluca, Cuernavaca, Puebla, Veracruz e Yucatán e impulsionou junto ao marido a instalação de trens, navios a vapor e o estabelecimento da Benemerência, que ela mesma presidiu.

Contudo, em 1867 Napoleão retirou suas tropas do país deixando o regime numa situação insustentável. Carlota partiu para a Europa com o intuito de angariar apoio ao Império. Após a negativa de Napoleão III em ajudá-los, e é então que em plena audiência com o papa a imperatriz subitamente elouquece, começando a ter diversos colapsos nervosos. Enlouqueceu definitivamente ao tomar notícia da morte do marido.[5]

Obra[editar | editar código-fonte]

Carlota c. por Isidore Pils

Ao que se sabe, Carlota deixa apenas um diário de viagem (Un Híver à Madère, 1863), textos sobre uma viagem que realizou pela península de Iucatã, entre 1865 e 1866, na qualidade de imperatriz do México, e correspondências dispersas.

Un Híver à Madère (Um Inverno na Madeira), datado de 1863, narra a sua viagem à Madeira em 1859-1860, a bordo do navio Elisabeth, uma das várias viagens e visitas que fez à Ilha da Madeira na companhia de Maximiliano I do México, seu marido. Nas viagens à Madeira contacta com uma natureza e paisagens fulgurantes: "Um precipício medonho abria-se sob os nossos pés, bordado por rochedos perpendiculares. No fundo, corria uma ribeira, os Socorridos, cuja grande ponte de pedra se mostrava a uma certa distância. Nada pode exprimir o carácter imponente dessa Natureza selvagem diante da qual o homem dica mudo de assombro e como que esmagado pela majestade da criação. Parece-lhe ouvir ainda o eco da voz todo-poderosa que fez surgir essas formas do nada. Quanto mais se avança, tanto mais grandiosa se torna a cena"; "O Funchal parece sair do meio de um jardim, no qual a branca igreja de Nossa Senhora do Monte assenta como uma espécie de coroa." Nas suas frequentes viagens à Ilha da Madeira contacta e conhece insignes personalidades da sociedade madeirense como as famílias Bianchi, Gordon, Perestrelo da Câmara, entre outras.[6]

Representações na Cultura[editar | editar código-fonte]

Em 1967, a Rede Globo de Televisão produziu a novela A Rainha Louca, baseada na biografia de Carlota, a qual foi interpretada por Nathalia Timberg.

Títulos, estilos e honras[editar | editar código-fonte]

Títulos e estilos[editar | editar código-fonte]

  • 7 de junho de 1840 – 27 de julho de 1857: "Sua Alteza Real, a Princesa Carlota da Bélgica, Princesa de Saxe-Coburgo-Gota, Duquesa da Saxônia"
  • 27 de julho de 1857 – 10 de abril de 1864: "Sua Alteza Imperial e Real, a Arquiduquesa Carlota da Áustria, Princesa Real da Hungria e Boêmia"
  • 10 de abril de 1864 – 15 de maio de 1867: "Sua Majestade Imperial, a Imperatriz"
  • 15 de maio de 1867 – 19 de janeiro de 1927: "Sua Majestade Imperial, Imperatriz Carlota do México"

Ancestrais[editar | editar código-fonte]

Referências

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

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